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São João Batista e a Eucaristia


Passei esses dias sem net, mas aqui ponho um texto que une, muito oportunamente, a pessoa de S. João Batista, que celebramos hoje, e a Eucaristia, cuja instituição celebrávamos ainda ontem. O texto é do excelente e altamente recomendável Pe. Ronald Knox e nele há afirmações e sutilezas que, se meditadas, poderão resultar numa compreensão bem mais profunda deste tesouro escondido que é a vida com Cristo. Boa Leitura.

***
Pe. Ronaldo Knox

Penso que não me engano se digo que a festa do Corpus Christi é comemorada este ano no dia mais distante em que pode recair: 24 de junho. E assim choca, por uma curiosa coincidência, com a única festa de verdadeira importância com que pode coincidir e sobre a qual prevalece: o nascimento de São João Batista. Na verdade, não é que a joguemos para fora do calendário; celebramos essa festa amanhã. Mas, por uma vez, o grande Precursor vem atrás do seu Mestre.

Não penso que haja nenhum santo a quem possamos imaginar aceitando esta situação de mais bom grado que São João Batista. Nasceu, se podemos dizê-lo, para ser o homem que sempre fica de fora. O próprio Senhor no-lo confirmou: "Pobre João! - disse-. É o maior homem nascido de mulher, e, no entanto, é menos que o último dos que estais aqui, porque o Reino dos céus é para vós, não para ele" (Cfr. Mt 11,11). Situa-se ao lado dos heróis do Antigo Testamento, que viveram na esperança, mas nunca a viram realizada; de Profetas e Reis que suspiraram por longo tempo pela vinda do Messias, mas morreram sem vê-lo. Todos se lançam em corrida para entrar no Reino dos céus, os mais violentos arrebatam-no à força, e ele, João, fica de fora. Lembremo-nos de que o Precursor não tinha morrido quando o Senhor disse isso; estava apenas preso. Mas a verdade é que não estava destinado a ver como se cumpriria a salvação do mundo.

São João percebia-o, pressentia-o. As multidões que costumavam ir a ele, desejosas de ser batizadas, tinham quase desaparecido, e os seus discípulos queixavam-se de que Jesus de Nazaré, esse profeta novo, lhe tirara os seus ouvintes, apoderara-se dos seus métodos e o vinha eclipsando. E São João replicava com as palavras que citei acima: Importa que ele cresça e eu diminua. O seu destino - disse - era ser como o padrinho numa cerimônia de casamento: todo o interesse converge para o noivo e a noiva, todas as aclamações são para os dois, e ele há de prestar-lhes a sua companhia... Com inveja?, mal-humorado? Não, mas alegrando-se de ouvir a voz do esposo (cfr. Jo 3,29) Tinha aprendido a pôr-se de lado e abrir caminho para Cristo. Por isso vo-lo proponho hoje como um dos santos do Santíssimo Sacramento.

Não pôde viver para chegar à Última Ceia e receber o corpo de Jesus das mãos do próprio Jesus. Não pôde viver para esperar com a Virgem e os Apóstolos a vinda do Espírito Santo no Cenáculo. Mas deixou-nos essa frase preciosa que nunca devemos esquecer quando esperamos que o Senhor venha a nós na sagrada comunhão: Importa que ele cresça e eu diminua.

Se lermos o último versículo do primeiro capítulo de São Lucas, encontraremos as palavras: O menino foi crescendo, referidas a São João Batista. Se lermos um pouco mais adiante, no versículo 40 do capítulo seguinte, encontraremos de novo as mesmas palavras: O menino crescia, mas desta vez referidas a Cristo. Tomemos esses dois versículos juntos e teremos toda a biografia de São João. Exatamente, São João cresceu; internamente, na sua alma, não cresceu nunca: era o menino-Jesus Cristo, seu primo, que crescia dentro dele. O grão de trigo que cai no sulco e morre, para produzir muito fruto, foi semeado no coração de São João Batista, e o que brotou não foi São João, mas o Verbo de Deus: Jesus Cristo.

A imagem do grão de trigo leva-nos à parábola das sementes que o semeador lança a mãos-cheias e que produzem frutos maiores ou menores consoante o terreno em que caem e as vicissitudes que se seguem. Saiamos ao campo nesta época do ano e observemos algum pedaço de terra que tenha sido semeado em data recente. Que encontraremos? Um mar verde que deleita os olhos como faz o mar com as suas ondas de diversas tonalidades de luz. Mas aproximemo-nos um pouco mais e olhemos de perto. Que vemos? No meio do trigo que cresce..., urtigas, cardos, ervas daninhas, toda uma vegetação silvestre. Eram as antigas donas do terreno, até que um dia chegou o agricultor e espalhou pelo solo o misterioso tesouro do bom grão. Houve uma luta entre as plantas originais, velhas e fortes, e as sementes intrusas, uma luta para decidir qual das duas espécies desfrutaria da riqueza da terra, qual cresceria mais alto e roubaria o sol à outra. E a plantação introduzida pelo homem ganhou a batalha.

É uma imagem das nossas almas, ou melhor, oxalá o seja. É a imagem de uma alma em que a graça divina venceu, da alma de um santo ou de alguém perto de ser santo. O salmista põe na boca de Deus todo-poderoso estas palavras dirigidas ao seu Filho: Dominare im medio inimicorum tuorum, "domina entre os teus inimigos" (Sal 109,2). Esta deve ser a nossa oração, cada vez que o Senhor vem a nós na sagrada comunhão.

Queremos que Ele domine as nossas almas, sempre cheias de inimigos seus: o orgulho, a cobiça, a sensualidade, o ressentimento, que estão empenhados em disputar-lhe cada polegada de terreno. Somos criaturas caídas: os espinhos e abrolhos brotam em nós sem cessar. E a graça chega como um intruso, disposto a lutar pela sua supremacia em paragens hostis. Ora, a mais santificada das almas humanas não é melhor que esse campo de trigo do que falamos: olhemos sob a sua superfície e veremos ali todas as paixões humanas, abatidas, mas não plenamente desarraigadas. Se é assim com as melhores, que será com as nossas?

Profundamente enraizado na nossa natureza, misteriosamente prolífico, estendendo-se numa rede de ramificações sutis, encontra-se o instinto de auto-afirmação. Vemo-lo na sua forma mais crua nas crianças, no seu desejo de brilhar, que às vezes é divertido, mas às vezes irrita. Chegam os dias do colégio e os professores e os colegas esforçam-se por extirpar esse evidente defeito. Depois que crescemos, talvez os convencionalismos sociais nos obriguem a disfarçá-lo; afinal, não fica bem exibirmo-nos. Mas sabemos que está aí. Como são poucas as pessoas que aceitam com equanimidade, mesmo externamente, que não lhes peçam conselho, ou, se lhes pedem, que não se faça caso dele; que sejam preteridas quando se trata de preencher um cargo; que os seus rivais profissionais adquiram fama na mesma especialidade em que elas pensavam conquistá-la! E se olharmos para o interior do nosso coração, o sentimento amargo de termos sido maltratados, quando se fere a nossa importância, jaz às vezes muito mais lá no fundo de nós mesmos do que poderíamos imaginar. Não é caso para desesperar, mas devemos reconhecer que é talvez o sinal mais certo de que estamos muito longe de ser santos.

E uma das razões, sem dúvida, de que o Senhor venha a nós na sagrada comunhão é a de fazer com que afirmemos mais a pessoa de Cristo, e, em consequência, afirmemos menos as nossas próprias pessoas. E se o instinto de auto-afirmação continua a ter força dentro de nós, podemos estar certos de que Cristo ainda não domina entre os seus inimigos. É esse "eu" que infecta até mesmo as nossas orações e as nossas virtudes, que faz com que queiramos ser puros para nos podermos sentir puros, ser humildes para ter a liberdade de criticar o orgulho dos outros, mortificar-nos para nos podermos gloriar da nossa austeridade, em vez de querermos simplesmente que se cumpra a vontade de Deus em nós e em todos os outros. É esse "eu" que leva tão a mal todos os seus fracassos e decepções, que pergunta por que "isto" há de ser poupado aos outros e acontecer-me "só a mim".

Devemos procurar humilhar-nos de vez em quando, tomar consciência do pouco que progredimos, pensando na figura de São João Batista. Quando o sacerdote ergue diante de nós a Sagrada Hóstia antes de nos dar a comunhão, repete as palavras do Precursor: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). E quando São João disse isso, sabia que estava encaminhando  os pensamentos dos seus discípulos para outro Mestre e que ele os perderia, que perderia gradualmente toda a sua popularidade, mas não se importava. Via fechar-se para ele o Reino dos céus - mais exatamente a manifestação terrena desse Reino -, tal como uma criança que amassa o nariz contra a vitrine onde se expõem os brinquedos que deseja; mas não se queixava. Importa que ele cresça e eu diminua. Era preciso que Cristo fosse cada vez mais e mais, e ele cada vez menos e menos; que houvesse cada vez menos dele para que houvesse cada vez mais de Cristo.

Pe. Ronald Knox, Reflexões Sobre a Eucaristia

Cristo que vai morrer


Pe. Ronald Knox

"[A Eucaristia] é o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar através dos séculos, até o seu retorno, o sacrifício da cruz, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição" (Compêndio, n. 271).

Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que venha (1 COr 11, 26).

A teologia de São Paulo não chegou até nós sob a forma de instruções catequísticas cuidadosamente meditatas; brotou ao sabor das circunstâncias, por uma série de acidentes providenciais, em ocasiões em que o Apóstolo não pretendia falar de teologia, mas debruçar-se sobre necessidades práticas do momento. É a uma cidente providencial que devemos o seu maravilhoso capítulo sobre a Sagrada Eucaristia, base de tantas coisas que cremos e sabemos sobre o sacramento do altar. Tudo foi a propósito de certos abusos que tinham surgido no seio da Igreja de Corinto - uma cidde portuária de costumes fáceis - e que o Apóstolo tratou de corrigir.

Naqueles dias, os cristãos costumavam reunir-se para ter uma refeição que servia de prólogo à celebração dos mistérios divinos. A refeição devia ser em comum; todos os cristãos, tanto ricos como pobres, traziam o que tinham e dividiam-no com os seus irmãos. Mas em Corinto os mais ricos e de melhor posição tinham o costum de chegar antes que os outros e, em tão restrita e agradável companhia, saborear até esgotar as coisas boas que haviam trazido. Desse modo, a preparação para a missa convertera-se para esses poucos num banquete ruidoso, e São Paulo, ao chamá-los ao sentido da decência, indica entre outras coisas que isso não era próprio de uma ocasião que, em certo sentido, devia ser uma manifestação de luto: não se podia participar de uma celebração eucarística sem associá-la à comemoração de uma morte; estavam anunciando a morte de Cristo até que Ele viesse de novo.

"Até que venha"... Que perspectiva teria São Paulo diante dos olhos ao usar essas palavras? Penso que, se lho tivéssemos perguntado, teria dito que não podia passar muito tempo sem que o seu Mestre retornasse na sua glória. Em todos os pontos daquele mundo mediterrâneo que o Apóstolo conhecia, o Evangelho tinha-se desenvolvido da noite para o dia, como o grão de mostarda da parábola. Em toda parte, as defesas dos antigos deuses já cambaleavam, como acontecia em Corinto, e os gentios começavam a converter-se. Por sua vez, o povo judeu não podia resistir por muito mais tempo a aceitar o Evangelho, já que as promessas eram para eles, e fora por eles em primeiro lugar que Cristo tinha morrido. E quando - dentro de poucos anos, por que não? - judeus e gentios se sentassem à mesma mesa, os céus voltariam a abrir-se e Cristo vivo desceria para julgar o mundo que Cristo moribundo tinha resgatado.

Fosse essa ou não a sua impressão, por menos que imaginasse que havia ainda um longo panorama de História aguardando o homem, podemos esatr certos de uma coisa: de que o Espírito SAnto o fazia escrever essas palavras para consolo dos que vivemos tão longe no tempo e num mundo tão diferente. Até que o Senhor venha, passarão idades e idades, e a Igreja ainda sofrerá mil mortes enquanto anuncia, com uma espécie de confiança desesperada, a morte do Mestre que ainda não retornou.

Anunciou-a quando escravos e patrícios, fingindo pertencer a uma associação funerária, se reuniam pela calada da noite, entre túmulos e altares pagãos, nas longas galerias subterrâneas que correm misteriosamente sob a superfície dos subúrbios de Roma. Continuou a anunciá-la nos desvãos secretos de velhas mansões campestres, em lugares escondidos dos montes, quando os nossos pais foram perseguidos e os seus sacerdotes mortos por amor à missa e aos ritos antigos. Voltou a anunciá-la em campos de concentração e em prisões sujas, onde católicos deportados arranjavam maneira de conseguir o estritamente necessário para que se celebrasse um sacrifício válido. E cristo ainda não retornou.

Que significam as palavras de São Paulo quando diz que, ao participarmos do sacrificio eucarístico e comungarmos, anunciamos a morte do Senhor? Quando inclinamos a cabeça diante das relíquias de um mártir, de certo modo anunciamos a sua morte. Proclamamos que a morte desse homem foi mais preciosa que as mortes comuns, pois foi a prova suprema da sua lealdade e o seu título para merecer a glória do céu; os seus restos mortais são como que um troféu da sua vitória e não duvidamos de que, por Providência de Deus, possuem uma graça e uma influência que poderão servir-nos de ajuda nas nossas necessidades. O santo está vivo, mas no céu; tudo o que aqui nos resta são ossos de um corpo morto. Mas não importa, pois o que anunciamos é a sua morte, e é adequado que o façamos pondo-nos em contato com essa parte muda do seu ser que lembra a forma heróica como morreu.

É isto o que São Paulo quer dizer? Que na sagrada comunhão recebemos o corpo morto de Cristo? O católico que aceitasse semelhante conclusão estaria muito mal instruído. Porque, na comunhão, o que recebemos é precisamente o corpo ressuscitado, o corpo vivo de Cristo. Se o nosso coração arde no nosso peito quando voltamos da mesa da comunhão, é porque, da mesma forma que os dois discípulos no caminho de Emaús, demos hospitalidade a Cristo ressuscitado, ainda que escondido sob uma forma que não nos permite reconhecê-lo.
 
O corpo ressuscitado, que podia ignorar as leis da natureza, entrou em nós para nos infundir energia com o seu poder sobrenatural. O corpo ressuscitado, que subiu ao céu na presença dos Apóstolos, entrou em nós para plantar no nosso corpo a semente da imortalidade. Como podia ser o seu corpo morto? Esse não existe, nunca existiu, exceto durante o breve intervalo que decorreu entre a tarde da Sexta-Feira Santa e a manhã do Domingo de Páscoa. Quando veneramos as relíquias de um santo, vemo-lo nelas, mas morto. Quando veneramos Cristo no altar, está ali vivo, embora viva sem ser visto.

Como, pois, nos diz São Paulo que anunciamos a morte de Cristo quando comungamos? Não foi ele que escreveu: Cristo, agora que ressuscitou dentre os mortos, já não morre? (Rom 6,9). Não foi ele que escreveu: Muito embora tenhamos conhecido Cristo dessa maneira [segundo a carne, de um modo humano], agora já não o julgamos assim? (2 Cor 5,16). Por que nos diz então que, ao invés de dizer que anunciamos a vida de Cristo, a ressurreição de Cristo? Porque a Sagrada Eucaristia não consiste somente na consagração do pão e do vinho e na sua recepção pelos fiéis, mas é algo mais, é um sacrifício. E como sacrifício que é, exige de certo modo que a vítima se ofereça à morte, a fim de que essa morte seja aplicada às nossas necessidades. O que se anuncia nesses mistérios é Cristo que vai morrer, Cristo morrendo, não Cristo morto.

Cristo morrendo... Do ponto de vista histórico, Cristo só podia morrer uma vez; é próprio dos homens morrer uma só vez, e Ele era homem. Podemos dizer, se quisermos, que o Sacrifício da Missa é o eco, a onda, repetida dia após dia, século após século, do sacrifício que Ele fez uma vez e para sempre na cruz. Um eco, uma onda..., são metáforas talvez úteis e gratas, mas não passam de metáforas.

O sacrifício da Missa é um mistério cuja relação como sacrifício da cruz talvez seja o aspecto mais misterioso de todos, mas uma coisa é certa: a vítima que nele se apresenta ao Pai eterno para interceder por nós é Cristo moribundo. Foi nessa situação que Ele advogou e advoga pela nossa salvação, que Ele redimiu e redime os nossos pecados. Anunciamos essa morte na Missa, não como algo que se renova misticamente enquanto se pronunciam as palavras da consagração.

Desde o momento em que morreu no Calvário até o momento em que virá de novo na sua glória, Cristo moribundo atua continuamente, está continuamente disponível. É nessa situação à beira da morte que intercede por nós quando se oferece na Missa. E é nessa situação – ainda vivo – que vem a nós na sagrada comunhão. Isto é o meu corpo que será entregue por vós...; este é o cálice do meu sangue, [...] que será derramado por vós: assim disse aos Apóstolos quando a sua morte estava ainda no futuro, e assim nos diz agora que a sua morte está no passado.

Não é de estranhar que a Igreja, que anuncia a sua morte um dia após outro, tenha assimilado o seu caráter de vítima. O ciclo de vida que Cristo assumiu no corpo natural que tomou da Virgem, sofre-o de novo no seu corpo místico, que é a Igreja. São Paulo sabia-o desde o instante em que caiu ofuscado na estrada de Damasco e ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? O Apóstolo alegrava-se com os seus próprios sofrimentos porque o ajudavam a suprir na sua carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (Col 1,24). Com que freqüência os homens nos dizem, num tom meio de compaixão, meio de desprezo, que pertencemos a uma religião moribunda! Aceitemos o símbolo, orgulhemo-nos da acusação, porque realmente pertencemos e sempre pertenceremos a uma religião moribunda: desde o primeiro momento em que nos refugiamos nas catacumbas até o fim dos tempos. É assim que prossegue a obra da salvação dos homens, e é por isso que a missão da Igreja é anunciar a morte do divino Mestre, até que venha de novo.

E como se aplica tudo isto a nós? Não há dúvida de que, quando vamos comungar, devemos pensar, entre outras coisas: “Isto é o seu corpo, que foi dado por mim; este é o seu sangue, que foi derramado por mim. Depois de todo este intervalo de tempo, Ele continua a vir a mim na condição de vítima. E quer imprimir um pouco dessa condição em mim: eu devo ser a cera e Ele o selo”. Não diz a Imitação de Cristo que cabe a todo o cristão levar uma vida moribunda? Talvez não esteja ao meu alcance penetrar muito profundamente nas disposições do meu Salvador crucificado, mas... o que podia, sim, era ser mais humilde quando fracasso, mais resignado quando as coisas não me correm bem, menos ansioso por traçar um gráfico dos meus progressos na virtude, mais disposto a deixar Cristo fazer em mim o que quiser, sem me dizer palavra.

Se eu pudesse morrer um pouco para o mundo, para os meus desejos, para mim mesmo! Se pudesse per paciente e esperar a vinda do Senhor, conformando-me, para anunciar a sua morte, com ir embora na sua companhia!

Pe. Ronaldo Knox, Reflexões Sobre a Eucaristia, São Paulo: Quadrante, 2005. Cap IV, pp. 32-38.

Respigadores... Pe. Ronald Knox



Pe. Ronald Knox

Querem que lhes lembre - é conveniente que, de vez em quando, recordemos as partes menos conhecidas da Sagrada Escritura - o que se conta no livro de Rute?

Noemi era uma mulher de Belém que foi morar na terra de Moab. O seu marido morreu lá, deixando dois filhos; estes casaram-se com mulheres moabitas e morreram também, sem deixar nenhum filho, ao que parece. Noemi, então, resolveu regressar à terra de Judá e pôs-se a caminho acompanhada pelas duas noras, mas instou-as a voltar para os da sua própria raça. Uma delas, Orfa, acabou por ceder, mas Rute aproximou-se ainda mais da sua sogra: Quero ir para onde tu fores e habitar onde tu habitares. O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus; quero morrer onde tu morreres e aí ser sepultada. Que Deus me trate com todo o rigor se outra coisa a não ser a morte me separar de ti (Ru 1,16-17).

Chegaram, pois, as duas juntas a Belém. Eram pobres e Rute foi respigar no campo de um homem rico (permitia-se aos pobres, por caridade, andar atrás dos ceifeiros e recolher as espigas de trigo que eles deixassem cair). Seguiu os ceifeiros de um campo que, sem ela o saber, pertencia a Booz, um homem do seu mesmo ramo familiar. Este reconheceu-a e animou-a a continuar com os seus ceifeiros: Ouve, minha filha, não vás respigar em nenhum outro campo, e deu instruções secretas aos seus ceifeiros para que deixassem cair uma boa quantidade de espigas e ela as pudesse recolher. Por fim, deram-se a conhecer mutuamente e Booz pediu-a em casamento. E foi assim que Rute, a mulher moabita, chegou a ser antepassada de São José, da Santíssima Virgem e, pelos laços da carne, do próprio Jesus Cristo (cfr. Ru 4,17 e Mt 1,5).

É uma história de um passado remoto que comove pela sua simplicidade e que foi tema favorito de pintores e poetas. Mas que tem a ver conosco? Que mensagem pode conter para nós, filhos de um tempo menos amável? Nunca compreendi plenamente o seu simbolismo, até que li um capítulo de um antiquado livro de meditações traduzido do francês e chamado O campo da Sagrada Eucaristia.

No fim das contas, não diferem muito de nós aquelas noras de Noemi, a judia exilada. Não representam dosi tipos diferentes de almas, a alma que prefere o mundo da fé e aquela que a abandona?, a alma que é falsa e aquela que é fiel à sua lealdade sobrenatural? A memória de um esposo falecido não tem por que acorrentar os afetos e destruir o futuro de uma mulher ainda jovem e bela, como era Orfa e como era Rute. No entanto, esta última foi fiel ao seu país de adoção, ao país que não tinha visto nunca, e, sendo israelita por casamento, quis ser israelita de coração. Quero ir para onde tu fores; teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus. Do mesmo modo, a alma fiel ouve duas vozes: a voz acariciadora do mundo perto dela e a chamada distante do seu lar invisível, sobrenatural. Ficará do lado da Igreja, sua mãe adotiva, ou voltará para o mundo, que a reclama por direito de afinidade natural?

A Igreja não nos facilita a escolha; as suas condições são exigentes, pois quer pôr à prova a nossa lealdade. "Volta - diz-nos -, a menos que estejas disposto a correr a minha sorte nos momentos bons e nos maus". E a alma fiel responde: Que Deus me trate com todo o rigor se outra coisa a não ser a morte me separar de ti.

E assim nos leva a Belém, à "casa do pão". Leva-nos para junto do altar, onde Aquele que é nosso parente pela sua Encarnação, Aquele que desposará a nossa alma pela caridade divina, se esconde de nós e nos pede que colhamos as espigas que pudermos no campo da Sagrada Eucaristia. O seu campo..., porque, quem o comprou, quem o semeou, quem o cultivou mais que Ele?

Comprou-o com a sua Encarnação: sendo rico, fez-se pobre para nosso bem; vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. Semeou-o com a sua morte: Em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só - continuará a ser unicamente um grão de trigo -; mas, se morre, produz muito fruto (Jo 12,24-25); o seu próprio Corpo sagrado foi a semente enterrada no sepulcro para poder viver uma vida nova.

O Senhor cultivou o campo com todos os méritos de sua vida e Paixão, regou-o com as lágrimas que derramou à vista de Jerusalém, com o seu suor em Getsêmani, com o sangue dos seus suplícios. E assim como por um milagre da natureza a semente se multiplica por si mesma, e a colheita ultrapassa de longe a quantidade de grãos dos quais brotou, assim do Corpo sagrado que foi semeado com lágrimas no sepulcro perto do Calvário, surgiu uma colheita de alcance mundial, incalculável, inesgotável, a colheita da Sagrada Eucaristia - milhões de hóstias consagradas em milhares de tabernáculos do mundo inteiro. A messe que foi semeada com lágrimas na Quinta-feira Santa é recolhida com alegria e glória no dia do Corpus Christi. Pentecostes, que era para os judeus a festa da colheita dos campos, é para nós a festa da colheita produzida pela espiga que Cristo semeou com a sua morte no Calvário. Vede como brilham hoje esses milhares de hóstias divinas pelo mundo inteiro, ao sol da Páscoa, suavemente agitadas pelo vendo de Pentecostes.

Pe. Ronald Knox, Reflexões Sobre a Eucaristia.

A Eucaristia, a multiplicação dos pães e o maná do deserto

Pe. Ronald knox

É impossível lermos o relato do milagre pelo qual o Senhor multiplicou cinco pães para dar alimento a cinco mil pessoas sem que nos lembremos do Santíssimo Sacramento. Mas é conveniente que pensemos de modo preciso na relação que existe entre o milagre e o sacramento.

Encontraremos na atualidade críticos racionalistas que, no seu afã de desacreditar todo o elemento sobrenatural dos Evangelhos, nos dirão que o episódio dos cinco mil é nem mais nem menos que a história de um sacramento que foi falsamente representado como milagre. “O Senhor – dir-nos-ão – levou consigo cinco mil fiéis e iniciou-os no mistério de um alimento de sacrifício, dividindo cinco pães entre eles de uma maneira simbólica. Depois teria surgido a história - naturalmente, errada – de que os minúsculos pedaços de pão que aqueles comungantes receberam tinham sido dotados da eficácia sobrenatural de lhes satisfazer a fome corporal”.

Ora bem, a idéia de que o alimento dos cinco mil foi um sacramento e não um milagre, é duplamente falsa. O acontecimento relatado por todos os evangelistas, incluído S. João, põem em destaque fundamentalmente o elemento milagroso. De outro modo, é difícil compreender por que se nos fala dos doze cestos de comida que sobraram. E, ao mesmo tempo, nenhum evangelista sugere que o alimento em questão tivesse caráter sacramental. Todos eles dão por assente que a finalidade primária do milagre foi a de satisfazer uma necessidade física comum. Foi um milagre e não um sacramento, e, no entanto, foi um milagre que tinha em vista preparar o caminho para um sacramento e fazer com que a doutrina sacramental fosse mais facilmente acolhida pela nossa débil fé.

Mas esse milagre teve, além disso, outro aspecto instrutivo: sublinhou as coincidências e as diferenças entre a antiga aliança feita por Deus com os judeus, e a nova aliança , que entrou em vigor com a Igreja cristã. Sob a antiga lei, Deus escolheu para si uma assembléia – ou Igreja, a palavra é a mesma – para que fosse o seu povo escolhido. Conduziu-o durante longos anos através do deserto até que chegou a Canaã, a terra prometida. Sob a nova lei, escolheu para si uma assembléia ou Igreja e prometeu conduzi-la através do deserto deste mundo transitório até chegar ao repouso que preparou para os seus membros na vida futura. O seu antigo povo, o judeu, orecusava de alimento material para a sua peregrinação material pelo deserto (cfr. Êx 16, 31-35), e, por isso, Deus deu-lhes o maná do céu. O seu novo povo, a Igreja cristã, precisaria de alimento espiritual para a sua peregrinação espiritual. Por isso, deu-lhes o Pão do céu, que é o seu próprio corpo.

O milagre dos cinco mil é, por conseguinte, uma fase intermediária entre o presente do maná do deserto e o da própria carne e sangue do Senhor na Sagrada Eucaristia. Teve por fim corrigir as idéias que os discípulos judeus pudessem formar sobre o que deviam esperar quando rezavam pedindo alimento do céu. Como tipo mais perfeito do Santíssimo Sacramento, a multiplicaçao dos pães para os cinco mil serve de analogia e de contraste com o dom do maná aos israelitas. Vou mencionar três aspectos que põem de relevo a analogia e outros três em que se destaca o contraste.

Em primeiro lugar, a analogia. O maná foi concedido para ser alimento no deserto a cada dia. A provisão de maná nunca faltou durante quarenta dias, mas tinha de ser recolhida diariamente. Não se podia guardá-la para o dia seguinte. Do mesmo modo, Cristo dá aos seus discípulos unicamente o necessário para se alimentarem no deserto próximo do mar da Galiléia. Não levam nada para suas casas.

Assim também a Sagrada Eucaristia é o pão diário da nossa peregrinação. Quando atravessarmos as portas da morte e alcançarmos, pela misericórdia de Deus, a terra da nossa esperança, já não precisaremos de sinais nem de sacramentos: no céu, não é necessária a comunhão. Mas, até que chegue esse momento, a Sagrada Eucaristia poderá ser para nós – deverá ser – o alimento diário que renove em nós, dia após dia, a imagem da caridade do Senhor. A ração alimentícia para a caminhada de cada jornada: isso é o que a sagrada comunhão deve ser.
Continuando, convém observar, no relato do milagre, as palavras “todos comeram”. Foi o mesmo alimento para todos os discípulos do Senhor, um alimento comum a todos, e, opor conseguinte, participar dele foi um sinal de afiliação. Sob a lei antiga, a participação no maná era um laço que unia aqueles peregrinos do deserto: Todos comiam – diz São Paulo – o mesmo alimento espiritual (I Cor 10, 3).

Também para nós, cristãos, a Sagrada Eucaristia é um laço que testemunha e, ao mesmo tempo, promove a nossa unidade cristã. Assim como a baguete de pão procede de muitos grãos diferentes, assim nós, indivíduos diferentes uns dos outros, nos convertemos num só corpo quando recebemos a sagrada comunhão e nos incorporamos a Cristo. O fato de participarmos do altar único é a prova, o penhor, o laço da nossa afiliação cristã.

Os filhos de Israel no deserto não recolhiam todos a mesma quantidade de maná, mas cada qual conforme as necessidades da sua família: um recohia mais, outro menos, mas não tinha mais quem tinha recolhido mais, nem menos quem tinha recolhido menos (cfr. Êx 16, 18). Sob a direção divina, cada um satisfazia as suas necessidades na medida exata do que precisava.

A mesma coisa acontece, sem dúvida, com o alimento espiritual que procede da Sagrada Eucaristia. A mesma hóstia consagrada que um cristão mediano como nós recebe na sua vigília diária, mas dela não tira energias para creser em piedade, basta para inspirar a um santo um nível mais alto de oração incessante e de heróicas mortificações. Deus concede a sua graça numa medida mais ampla quando encontra vasos vazios para recebê-la. Na multiplicação dos pães, diz o Evangelho que todos comeram e ficaram saciados, mas cada um se saciou de acordo com a fome que tinha: o mesmo acontece, dia após dia, diante do altar da comunhão.

A ração diária para a caminhada diária, o laço de companheirismo, a suficiência proporcional às necessidades de cada qual: tais foram as características do maná no deserto, tais foram também as do pão milagrosamente multiplicado, e tais são as do dom que recebemos na sagrada comunhão. Vejamos agora os elementos contrastantes.

Os israelitas no deserto encontravam o maná não longe das suas tendas, mas mesmo assim tinham de sair do acampamento e recolhê-lo por esforço próprio. A os Apóstolos também quiseram tratar do mesmo modo a multidão – que cada um se arranjasse: Despede as turbas, para que vão pelas aldeias e povoados próximos e procurem alimento e hospedagem. Mas o Senhor não o consentiu: Dai-lhes vós de comer (Lc 9,12).

Prefigurava, sem dúvida, a administração do seu grande sacramento. Sob a nova lei, com efeito, a graça vem à nossa própria porta. Meçamos o trabalho que nos custa frequentar o sacramento do altar em comparação com o valor desse dom e a generosidade com que nos é concedido, e vejamos se não é caso para nos sentirmos envergonhados da nossa tacanhice: Eu sou o Senhor, teu Deus (...): abre tua boca e eu a encherei (Sal 83,11).

Existe outra grande direfença. Sob a antiga lei, o homem não podia fazer nada por si mesmo. Tinha qde ser um simples prisioneiro da bondade divina. Mas, segundo a nova lei, o homem restaurado pela graça goza do privilégio de oferecer alguma coisa a Deus, além de receber os seus dons. Dai-lhes vós de comer. É verdade que o que podemos fazer é infinitamente pequeno: como poderá um homem conseguir pão aqui no deserto da nossa vida? Mas é alguma coisa: quantos pães tendes?

É muito pouco o que podemos fazer, mas é alguma coisa, e Deus condescende em pedir-nos esse pouco. Só cinco pães, armazenados por uma mãe previdente na mochila de um colegial, mas essa foi a ajuda humana que Deus pediu para dar de comer aos cinco mil. No sacramento da sua carne e do seu sangue, o Senhor pede-nos também que dmeos alguma coisa, alguma coisa que represente o pão e o vinho que vão ser a matéria do sacrifício, mas temos de contribuir com esse nada para o seu banquete. A Sagrada Eucaristia não tem por fim criar boas disposições em nós, como acontece com o batismo, mas propriamente transformar e multiplicar a nossa fé vacilante e a nossa tíbia caridade. De onde tiraremos isso que nos pede, de onde? Pois bem, do pouco que tenhamos. Ele fará o resto.

E, por último, existe outro contraste: sob a nova aliança, o milagre não se limita à satisfação estrita da nossas necessidades. A graça vai muito além dessa medida. O maná, se os filhos de Israel não o utilizavam, derretia-se sob o sol do meio-dia. Não assim na Galiléia: Recolhei os restos para que não se percam. Assim o fizeram, e encheram doze cestos com os pães que sobraram.

E o mesmo acontece no sacramento da Sagrada Eucaristia, muito embora o simples fato de o Senhor se dar a nós em alimento já supere de longe os outros milagres. Ele duplica a sua generosidade ao permanecer conosco para ser adorado no ostensório ou no tabernáculo: não se conforma com satisfazer a nossa fome, mas cumula-nos de mimo cada vez que dirigimos as nossas orações ao sacrário, onde estão recolhidas as sobras da sua graça. Ó benfeitor principesco, cujas sobras são por si sós uma colheita!

Que Ele possa – depois de nos sustentar tão misericordiosamente nesta vida com esse alimento celestial que é o seu corpo despedaçado e o seu sangue derramado por nós – levar-nos com segurança à sua terra de promissão, onde já não o veremos sob os véus sacramentais, mas face a face, e nos saciaremos com a abundância da sua casa para sempre.

Pe. Ronald Knox, Reflexões sobre a Eucaristia
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