Tradutor / Translator


English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
Mostrando postagens com marcador Chesterton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chesterton. Mostrar todas as postagens

Ver o cristianismo de um modo novo



"Também no caso especial do cristianismo temos de reagir contra a forte tendência da fadiga. É quase impossível tornar os fatos vívidos, porque os fatos nos são familiares; e para os homens decaídos é frequentemente verdadeiro que a familiaridade é fadiga. Estou convencido de que, se conseguíssemos contar a história de Cristo palavra por palavra como se fosse a história de um herói chinês, se conseguíssemos chamá-lo Filho do Céu em vez de Filho de Deus e representar a sua auréola de raios na linha dourada de bordados chineses ou no laquê dourado da cerâmica chinesa, em vez de na folha dourada de nossas velhas pinturas católicas, haveria um testemunho unânime da pureza espiritual da história. Não ouviríamos, então, nada acerca da injustiça da substituição ou da absurdidade da expiação, do exagero supersticioso do peso do pecado ou da insolência inverossímil de um ataque às leis da natureza. Deveríamos admirar a bravura da concepção chinesa de um deus que caiu do céu para combater os dragões e salvar os maus de serem devorados em razão de seus próprios erros e loucura. Deveríamos admirar a sutileza da visão chinesa da vida, a qual percebe que toda a imperfeição humana é, em verdade, uma imperfeição que clama. Deveríamos admirar a sabedoria esotérica e superior dos chineses, que disse existirem leis cósmicas mais altas que aquelas que conhecemos; acreditamos em qualquer mágico indiano que decide nos acompanhar e falar de idêntico modo. Se o cristianismo fosse apenas uma nova moda oriental, ele nunca seria censurado por ser uma velha fé oriental."

G.K. Chesterton, O homem eterno.

Iniciada a investigação para a causa de beatificação de Chesterton

Roma,  (Zenit.orgAntonio Gaspari 

O bispo britânico Peter John Haworth Doyle nomeou um clérigo para investigar a causa de beatificação do escritor Gilbert Keith Chesterton. A notícia foi dada por Dale Ahlquist, Presidente do American Chesterton Society, no passado 1º agosto.
Em seu discurso de abertura da 32ª Conferência Anual da American Chesterton Society, realizada no Colégio da Assunção, Ahlquist expressou alegria e gratidão por esta iniciativa porque "está em sintonia com os nossos desejos" para a canonização de Chesterton.
"É para mim um grande privilégio poder fazer esse anúncio - acrescentou - também porque a razão que motivou mons. Doyle é o fato de que quando o Cardeal Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires falou favoravelmente para a abertura da causa".
Mons. Doyle é bispo da Diocese de Northampton, uma sede sufragânea da Arquidiocese de Westminster, que inclui os condados de Bedfordshire e Northamptonshire, bem como o tradicional condado de Buckinghamshire.
Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) é um dos escritores ingleses mais citados do mundo. Muito conhecidos seus livros "Ortodoxia", "O homem eterno", "A aventura de um homem vivo", "São Tomás de Aquino", "São Francisco de Assis", bem como toda a série de histórias do "Padre Brown". Em particular, é de grande importância o livro "A minha fé", no qual explica a sua conversão ao catolicismo.
Está amplamente demonstrado que os escritos de Chesterton foram significativos para a conversão de muitas pessoas e que têm influenciado positivamente muitos dos grandes homens do século XX.
O escritor e filólogo britânico Clive Staples Lewis escreveu que, depois de ter lido o livro Chesterton, The Everlasting Man (traduzido para o português sob o título "O Homem Eterno"), "pela primeira vez eu vi a história de uma forma cristã que fazia sentido".
De acordo com Dale Ahlquist, a abordagem de Dorothy Day para a economia foi influenciada por um modelo criado por Chesterton baseada nos ensinamentos sociais da Igreja e conhecido como "distributismo" (Dorothy Day foi um jornalista e ativista social anárquica norte-americano, famosa por suas campanhas de justiça social em defesa dos pobres e sem-teto. Converteu-se ao catolicismo em 1927 n.d.r.).
Chesterton também influenciou John Ronald Reuel Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis" e de outros célebres ‘pedras milenârias’ do gênero fantasy , como "O Hobbit" e "O Silmarillion". E foi fonte de inspiração também para o escritor, dramaturgo, poeta e jornalista Maurice Baring, para o historiador Christopher Henry Dawson, para o teólogo monsenhor Ronald Knox, e para os autores agnósticos como o grande escritor argentino, Jorge Luis Borges.
Não basta ser um grande escritor para ser um santo, mas não há dúvida de que Chesterton foi um mestre da virtude. Magistrais os seus ensinamentos no campo da fé, da defesa da família natural, da santidade da vida e da justiça econômica.
No mundo, ele é conhecido por sua grande inteligência, humildade e alegria profunda que brotou do seu tornar-se católico. O presidente da Chesterton American Society lembrou a influência que Chesterton teve também sobre o servo de Deus e Arcebispo norte-americano Fulton John Sheen, entre os mais eficazes e brilhantes pregadores do seu tempo. “Acho que Chesterton é um santo para o nosso tempo e poderia continuar a atrair muitas pessoas à Igreja Católica”, concluiu Dale Ahlquist.
Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira

Fonte: Zenit

Chesterton sobre certas teorias modernas


Há, de fato, uma classe de escritores e pensadores modernos que não pode ser ignorada (...). Refiro-me àqueles que vencem todos os abismos e reconciliam todas as guerras falando sobre "aspectos de verdade" (...). Direi aqui apenas que isso me parece uma evasão que nem sequer teve a preocupação de se disfarçar com palavras engenhosas. Caso falemos de alguma coisa com um aspecto da verdade, é evidente que alegamos conhecer o que é a verdade; da mesma forma que, ao falarmos sobre a pata traseira de um cachorro, alegamos conhecer o que é um cachorro. Infelizmente, o filósofo que fala a respeito de aspectos da verdade geralmente também pergunta, "O que é a verdade?" Muitas vezes até nega a existência da verdade, ou diz ser inconcebível à inteligência humana. Como, então, pode reconhecer seus aspectos? Não gostaria de ser um artista que levasse um esboço arquitetônico a um construtor, dizendo, "Essa é a vista sul do chalé com vista para o mar, contudo, tal chalé não existe". Não gostaria sequer de ter de explicar, sob tais circunstâncias, que um chalé com vista para o maro pode até existir, mas que é impensável à mente humana. Muito menos gostaria de ser o confuso e ridículo metafísico que afirma ser capaz de ver em todos os lugares aspectos de uma verdade que não existe. É perfeitamente óbvio que há verdades em Kipling, que há verdades em Shaw e Wells. Mas, o grau com que as podemos perceber depende estritamente de quão distante estamos de uma concepção interna e definida do que seja a verdade. É ridículo supor que quanto mais céticos, mais veremos o bem em todas as coisas. É claro que quanto mais certos estivermos a respeito do que é o bem, mais o veremos em todas as coisas.

Peço, então, que concordemos ou discordemos desses homens. Rogo que concordemos com eles ao menos em ter uma crença abstrata. Mas sei que no mundo moderno é comum haver várias objeções indeterminadas a se ter uma crença abstrata, e sinto que não devemos seguir adiante até que tenhamos nos ocupado de algumas delas. A primeira objeção é facilmente apresentada.

Uma incerteza comum em nossos dias no tocante ao uso de convicções extremas é a noção de que tais convicções, especialmente em questões muito abrangentes, foram responsáveis por aquilo que chamamos de intolerância. Contudo, um pouco de experiência direta dissipará tal visão. Na vida real, as pessoas mais intolerantes são as que não têm nenhuma convicção. Os economistas da escola de Manchester que discordam do socialismo, levam o socialismo a sério. O jovem da rua Bond não sabe o que o socialismo significa, muito menos sabe se concorda com isso, e tem certeza absoluta que os socialistas fazem tempestade em copo d'água. O homem que compreende a filosofia calvinista o bastante para com ela concordar deve compreender a filosofia católica para discordar. É o dúbio homem moderno, que não está certo sobre nada, que tem certeza de que Dante estava errado. O circunspecto opositor da Igreja Latina ao longo da história, mesmo ao mostrar que ela produziu grandes infâmias, deve saber que produziu grandes santos. É o obstinado comerciante, que não conhece história e não acredita em nenhuma religião, que está, contudo perfeitamente convencido que todos os padres são patifes. (...) A intolerância pode ser definida, grosso modo, como a raiva dos homens que não têm opinião. É a resistência apresentada às idéias definidas por um grupo indefinido de pessoas cujas idéias são excessivamente incertas. Tal intolerância pode ser chamada de aterrador furor [d]os indiferentes. Esse furor [d]os indiferentes é na verdade uma coisa terrível; causou todas as perseguições muito generalizadas. Neste estágio, não foram os diligentes os que perseguiram; não havia número suficiente. Foram os imprudentes que espalharam fogo e opressão pelo mundo. Foram as mãos dos indiferentes que acenderam as tochas; foram as mãos deles que produziram ruína. Da dor de uma certeza passional nasceram algumas perseguições; mas estas produziram não intolerância, mas fanatismo - uma coisa muito diferente e, de certo modo, admirável. A intolerância, em geral, sempre foi a onipotência generalizada dos imprudentes esmagando os precavidos.

Há pessoas, contudo, que tentam achar algo mais profundo do que isso nos possíveis males do dogma. Muitos sentem que uma forte convicção filosófica, embora não produza (do modo como percebem) aquela condição morosa e essencialmente leviana que chamamos intolerância, produz certa atenção, exageros, e alguma impaciência moral, que podemos concordar em chamar de fanatismo. Dizem, de modo geral, que idéias são coisas perigosas. Na política, por exemplo, é comum exortarem contra um homem como o Sr Balfour, ou contra alguém como o Se John Morley, cuja profusão de idéias é perigosa. A verdadeira doutrina neste ponto certamente não é, mais uma vez, difícil de expressar. Idéias são perigosas, mas o tipo de homem para quem são menos perigosas é o homem de ideais. Está familiarizado com as idéias e caminha por elas como um domador de leões. Idéias são perigosas, mas o tipo de homem para quem são mais perigosas é o homem sem idéias. O homem sem idéias verá a primeira delas subir à cabeça como o vinho num abstêmio. Creio que é um erro comum entre os idealistas radicais de meu partido e período sugerir que financistas e comerciantes sejam perigosos para o império porque são demasiado sórdidos e materialistas. A verdade é que financistas e comerciantes são perigosos para o império porque podem ser sensíveis a qualquer sentimento e idealistas a respeito de qualquer ideal, de qualquer um que encontram a esmo. Assim como um garoto que não sabe nada a respeito de mulheres, e facilmente toma uma mulher qualquer por aquele tipo de mulher, assim também tais homens práticos, desacostumados com causas, sempre tendem a pensar que caso uma coisa tenha provado ser um ideal, seguramente provou ser o ideal.

Muitos seguiram Cecil Rhodes abertamente, por exemplo, porque tinha uma visão. Poderiam tê-lo seguido por ter um nariz. Um homem sem qualquer tipo de sonho de perfeição é uma monstruosidade equivalente a um homem sem nariz. As pessoas dizem sobre tal indivíduo, em sussurros quase febris, "Ele sabe o que quer", o que equivale exatamente a dizer, em idênticos sussurros, "Ele assoa o próprio nariz". A natureza humana simplesmente não pode subsistir sem algum tipo de esperança e propósito; como o juízo do Antigo Testamento diz, com razão: "quando não há ideal o povo perece". Mas é justamente porque o ideal é necessário ao homen, que o homem sem ideal está em permanente risco de cair no fanatismo. Não há nada [que] tenha mais probabilidade de deixar o homem aberto às incursões repentinas e irresistíveis de visões desequilibradas do que o cultivo de hábitos comerciais. Todos conhecem homens de negócio inflexíveis, que acreditam que a Terra é chata ou sabem que o Sr Kruger estava à frente de um grande despotismo militar, ou creem que os homens são herbívoros ou que Bacon escreveu as peças de Shakespeare. Crenças religiosas e filosóficas são, realmente, tão perigosas quanto fogo, e nada pode tirar-lhes a beleza do perigo. Mas há apenas uma forma de nos protegermos do perigo excessivo que oferecem; devemos imergir na filosofia e nos encharcar de religião.

Então, em poucas palavras, descartamos os perigos antagônicos da intolerância e do fanatismo; a intolerância que seria uma grande indefinição e o fanatismo que seria uma grande atenção. Declaramos que a cura para a intolerância é a crença; afirmamos que a solução para os idealistas são idéias. Conhecer as melhores teorias sobre a existência e escolher dentre elas a melhor (ou seja, escolher o melhor das próprias convicções) nos parece o modo apropriado para não nos tornarmos intolerantes ou fanáticos, mas para sermos algo mais firme que um intolerante e mais terrível que um fanático: uma pessoa de opinião definida. Mas a opinião definida deve, neste sentido, começar com as questões básicas do pensamento humano, e estas não devem ser descartadas como coisas irrelevantes, tal como acontece com a religião em nossos dias. Mesmo se pensarmos na religião como um problema insolúvel, não deveremos considerá-la irrelevante. Mesmo se não tivermos nenhuma opinião a respeito das verdades definitivas, deveremos sentir que onde quer que tal questão exista no homem, deve ser para esta pessoa algo mais importante que todas as demais coisas. No momento em que uma coisa deixa de ser incognoscível, passa a ser indispensável.

Não há dúvida de existir atualidade na idéia de algo limitado, irrelevante ou mesmo mesquinho no ataque à religião de outra pessoa, ou ao discutir política ou ética tomando por base outra pessoa, ou ao discutir política ou ética tomando por base a religião. Pode haver menos dúvida ainda de que a acusação dessa limitação é, em si, quase ridícula e limitada. Tomemos um exemplo de acontecimentos relativamente atuais: sabemos que não raro um homem era considerado um monstro de intolerância e obscurantismo caso suspeitasse dos japoneses serem pagãos. Ninguém pensaria existir nada de obsoleto ou fanático em desconfiar de um povo por conta das diferenças práticas ou nos mecanismos políticos. Ninguém pensaria ser intolerante dizer de um povo: "Receamos a influência deles, pois são protecionistas". Ninguém pensaria ser tacanho dizer: "Lamento que tenham progredido porque são socialistas, ou individualistas manchesterianos, ou ferrenhos defensores do militarismo e do serviço militar obrigatório". Importa a diferença de opinião sobre a natureza dos Parlamentos; mas a respeito da natureza do pecado não significa absolutamente nada. A diferença de opinião acerca do objeto dos impostos tem muita importância; mas diferir de opinião a respeito da finalidade da existência humana não tem nenhuma importância. Temos o direito de desconfiar de alguém que vive num tipo diferente de municipalidade; mas não temos o direito de suspeitar de um homem que vive num tipo diferente de cosmo. Este tipo de esclarecimento certamente tem relação com o tipo menos esclarecido que se possa imaginar. Para recorrer a uma frase que empreguei anteriormente, isso equivale a dizer que tudo tem importância, exceto tudo. A religião é exatamente o tipo de coisa que não pode ser deixada de fora - porque inclui tudo. A mais desatenta das pessoas não pode colocar tudo dentro de uma mala de mão e simplesmente esquecer a mala. Gostemos ou não, sempre temos uma idéia geral sobre a existência. E tal visão, gostemos ou não, altera, ou mais precisamente, cria e envolve tudo que dizemos ou fazemos. Caso consideremos o cosmo como um sonho, consideraremos a questão fiscal como um sonho. Caso consideremos o cosmo como uma piada, consideraremos a catedral de São Paulo como uma piada. Caso tudo seja ruim, então devemos acreditar (se isto for possível) que a cerveja é ruim; caso tudo seja bom, seremos forçados à conclusão um tanto fantástica de que a filantropia científica é boa. Todo homem comum deve defender um sistema metafísico, e crê-lo firmemente. A grande possibilidade é a de que possa ter acreditado nele tão tenazmente e por tanto tempo que o tenha esquecido por completo.

A referida situação, com certeza, é possível. De fato, é a situação de todo o mundo moderno. O mundo moderno está repleto de homens que creem em dogmas de modo tão inflexível que nem mesmo sabem que são dogmas. Pode ser dito até que o mundo moderno, como um corpo coletivo, crê em certos dogmas com tanto vigor que nem sabe que são dogmas. Pode ser considerado "dogmático", por exemplo, em certos círculos tidos como progressistas, supor a perfeição ou aprimoramento do homem num outro mundo. Mas não é considerado "dogmático" supor a perfeição ou aprimoramento do homem neste mundo; ainda que a idéia de progresso não esteja demonstrada tanto quanto não está a idéia de imortalidade e seja, do ponto de vista racionalista, muito improvável. O progresso é um de nossos dogmas, e um dogma é algo que não é tido como dogmático. Ou, novamente, não vemos nada de "dogmático" na inspiradora, embora demasiado assustadora, ciência física, que afirma devermos coletar os fatos pelos fatos, mesmo que pareçam tão inúteis como gravetos e fios de palha. Esta é uma grande e sugestiva idéia cuja utilidade pode ser provada, mas que, considerada em abstrato, é tão questionável quanto recorrer a oráculos ou a templos sagrados, que dizem ser capazes de se comprovar. Assim, por não estarmos numa civilização que acredita firmemente em oráculos ou locais sagrados, vemos o total furor daqueles que se mataram para descobrir o Santo Sepulcro. No entanto, por estarmos numa civilização que acredita no dogma dos fatos pelos fatos, não vemos o total frenesi daqueles que se matam para descobrir o polo Norte. Não me refiro a uma defensável utilidade suprema que é verdadeira tanto em relação às cruzadas quanto em relação às explorações polares. Digo apenas que vemos a singularidade estética e superficial, a qualidade assustadora da idéia de homens cruzando um continente com exércitos para conquistar um lugar onde um homem morreu. Contudo, não vemos a singularidade estética e assustadora de homens morrendo em agonia para descobrir um lugar onde ninguém vive - um lugar que é interessante apenas porque supõem ser o lugar de encontro de algumas linhas que não existem.

Empreendamos uma longa jornada e comecemos uma busca incômoda. Escavemos e procuremos até encontrarmos nossas próprias opiniões. Os dogmas que realmente defendemos são muito mais fantásticos e, talvez, muito mais belos do que pensamos. No curso destes ensaios, temo ter falado, de tempos em tempos, de racionalistas e de racionalismo de uma forma depreciativa. Por estar cheio daquela brandura que deve vir ao fim das coisas, até mesmo ao fim de um livro, peço desculpas aos racionalistas, exatamente por chamá-los de racionalistas. Não há racionalistas. Todos nós acreditamos em contos de fada e neles vivemos. Alguns, com um suntuoso viés literário, acreditam na existência de uma mulher vestida de sol. Outros, com um instinto mais rústico, mais élfico, (...) acreditam apenas no impossível sol propriamente dito. Alguns acreditam no indemonstrável dogma da existência de Deus; outros, no igualmente indemonstrável dogma da existência do homem da casa ao lado.

As verdades se transformam em dogmas no instante em que são contestadas. Assim, todo homem que expressa uma dúvida, descreve uma religião. E o ceticismo de nosso tempo realmente não destrói as crenças, ao contrário, as cria; definiu-lhes os limites e a forma simples e desafiante. Nós, que somos liberais, outrora acreditávamos no patriotismo, antes o considerávamos razoável, e pensávamos pouco a esse respeito. Agora que sabemos que é incompreensível, o consideramos correto. Nós, que somos cristãos, nunca nos daremos conta do grande senso comum filosófico inerente àquele mistério, até que os escritores anticristãos nos chamaram a atenção. A grande marcha da destruição mental continuará. Tudo será negado. Tudo se tornará um credo. É razoável negar a existência das pedras da rua; será um dogma religioso declará-lo. É uma tese racional dizer que vivemos num sonho; será sanidade mística dizer que estamos acordados. Velas serão acesas para atestar que dois mais dois são quatro. Espadas serão empunhadas para provar que as folhas são verdes no verão. Ficaremos a defender, não somente as virtudes e sanidades inacreditáveis da vida humana, mas algo mais inacreditável ainda, este imenso universo impossível que salta aos olhos. Seremos aqueles que olharão a grama e os céus impossíveis com estranha coragem. Seremos aqueles que viram e creram.

G.K. Chesterton, Hereges.

'A primeira coisa a atrair-me no catolicismo" Chesterton


"Creio poder assegurar que a primeira coisa a atrair-me no catolicismo foi, em verdade, o que devia ter-me afastado dele [...]. Recordo especialmente os casos em que as inculpações de dois autores sérios fizeram que me parecesse desejável precisamente o condenado. No primeiro, mencionavam [...] com tremor e estremecimento, uma espantosa blasfêmia que tinham encontrado num místico católico a falar da Santíssima Virgem: 'Todas as demais criaturas devem tudo a Deus, mas a ela Deus mesmo tem de estar agradecido'. Eu, pelo contrário, estremeci como se ouvisse um alto som de trombeta e disse quase em voz alta: 'Que magnífico é isto!' Pareceu-me como se o milagre da encarnação [...] mal se pudesse expressar melhor nem mais claramente."

G.K. Chesterton, Sto Tomás de Aquino.

"Se o sal perder o sabor, com que havemos de salgar?" - Chesterton


O santo é remédio por ser antídoto. Realmente é esta a razão por que o santo é tantas vezes mártir: tomam-no por veneno por ser teriaga. Em geral sucede restabelecer ele a saúde do mundo exagerando aquilo que o mundo despreza: um elemento qualquer, que não é, de modo nenhum, sempre o mesmo em todas as épocas. No entanto, cada geração procura o seu santo por instinto, não o que ela quer, mas o de que precisa. Com certeza é este o significado destas palavras, tão mal compreendidas, dirigidas aos primeiros santos - "Vós sois o sal da terra" - que levaram o imperador da Alemanha a proclamar, com a maior seriedade, que os seus rotundos alemães eram o sal da terra, querendo dizer com isso que eram os mais fortes e, por conseguinte, os melhores do mundo. O sal, todavia, serve para condimentar e conservar a carne não por lhe ser semelhante a ela, mas por ser muito diferente dela. Cristo não disse aos Seus Apóstolos que eram unicamente excelentes pessoas, ou as únicas pessoas excelentes, mas que eram pessoas excepcionais, permanentemente discordantes e incompatíveis; o texto a respeito do sal da terra é em verdade tão vivo e penetrante como o gosto do sal. Por serem pessoas excepcionais, é que não deveriam perder a sua qualidade excepcional. "Se o sal perder o sabor, com que havemos de salgar?" é uma pergunta muito mais aguda do que qualquer lamentação a respeito do preço da melhor carne. Se o mundo se tornar demasiado mundano, pode ser censurado pela Igreja; mas, se a Igreja se tornar demasiado mundana, não pode ser censurada por mundana pelo mundo.

G. K. Chesterton, Biografia de Sto Tomás de Aquino

Há 75 anos, morria o grande G. K. Chesterton


Hoje, dia 14 de junho, completam-se os 75 anos desde a morte deste homem, grande no tamanho, grande na bondade, grande na inteligência; de fato, um dos maiores pensadores do Sec. XX. Considerado o Apóstolo do Senso Comum, creio firmemente que Chesterton é leitura obrigatória nos dias de hoje, sobretudo porque é um tempo das maiores bizarrices e da grande promoção das teorias mais fajutas e dos sistemas filosóficos mais falsos e cafajestes; em suma, dias de uma grande mediocridade intelectual que, justamente por ser mediocridade, é tida como qualquer coisa que preste e aplaudida aos quatro cantos, nas academias, nos jornalecos, nas mesinhas de bar onde se juntam os pseudos de toda conta. Faço o meu apelo do modo mais veemente que posso: Leiam G.K Chesterton. E Leiam-no urgentemente!

Visitem o blog do Prof. Angueth, um dos homens que mais contribuem para a difusão do pensamento deste gigante ignorado por quem não lhe seria páreo sequer para o mindinho do pé. E se acham que exagero, leiam Chesterton e constatem! 

Religião no mundo moderno

Esta semana, precisamente na terça feira, estava eu divulgando o nome de Chesterton na faculdade, recomendando enfaticamente a sua leitura. E foi com muito gosto que indiquei, inclusive, a leitura do excelente blog do professor Angueth, onde há traduções deste e de outros ótimos escritores e pensadores que, por frescurinha das elites acadêmicas, são de todo ignorados e condenados a um silêncio sepulcral, pelo menos no que delas depende. Foi do referido blog - ao qual reafirmo o elogio - que peguei o video abaixo, inclusive legendado pelo caro professor Angueth. Assistam e não deixem de visitar a página o professor. Pax

Palestra do Prof. Angueth no lançamento do livro Hereges do G. K. Chesterton


Foi com alegre surpresa que vi disponível a palestra proferida pelo Prof. Angueth por ocasião do lançamento do livro Hereges do escritor inglês G. K. Chesterton. Recomendo a todos que assistam os videos. Para fazê-lo, basta clicar na imagem acima. Pax.

Uns poucos trechos do Chesterton


"Tanto quanto um homem possa ter orgulho de uma religião com raízes na humildade, sinto-me muito orgulhoso da minha e especialmente daquilo que, em tom pejorativo, é chamado de "superstição". Sim, tenho orgulho de estar acorrentado a dogmas "vetustos" (assim falam meus confrades jornalistas), pois sei perfeitamente que são as heresias que morrem, e os dogmas razoáveis que vivem bastante tempo para serem olhados como antiguidades."
**

"As pessoas de fora pensam ver o convertido entrar de cabeça baixa, numa espécie de igrejinha cujo interior - estão convencidas - é guarnecido como uma prisão ou uma câmara de tortura. Mas, tudo o que sabem a esse respeito é que ele atravessou uma porta. Ignoram que ele se dirigiu, não para uma obscuridade interior, mas para a luz do dia claro.

Por certo, no último minuto, o convertido tem muitas vezes a sensação de olhar através de uma janela de leprosário. Ele olha por uma pequena fenda ou um orifício tortuoso, que parece tornar-se menor quando o fixa; mas é uma abertura que leva ao altar.

Apenas quando penetra na Igreja, é que ele descobre que esta é bem maior por dentro do que por fora. (...) Pode dizer então, num sentido desconhecido a todos os modernos, certas palavras antigas, cheias de serenidade: "Romanus civis sum; não sou escravo..."
**

"A Igreja Católica é a única coisa que poupa ao homem a escravidão degradante de ser produto do seu tempo. As novas religiões, sob muitos aspectos, são adaptadas às novas circunstâncias, mas quando as circunstâncias tiverem mudado no espaço de cerca de um século, os pontos sobre os quais insistem hoje terão se tornado quase sem interesse...

Quando a nova religião semeou seu único campo de trigo, que o vento leva geralmente para longe, torna-se estéril. Ao contrário, a Igreja Católica possui uma grande variedade de riquezas; pode fazer uma seleção entre os séculos e salvar uma época por meio de outra. Pode apelar para o velho mundo a fim de restabelecer o equilíbrio do novo...

A Igreja defendeu a tradição, em uma época que rejeitava e desprezava estupidamente a tradição. Mas foi simplesmente porque a Igreja é sempre a única a defender tudo que é, no momento, estupidamente desprezado.

Daí por diante começa a aparecer como a campeã exclusiva da razão no século XX, como o fora da tradição no século XIX... No meio de todas as filosofias irracionais, a nossa permanece a filosofia racional."
**

"Tornar-se católico não significa que se deixe de pensar, mas que se aprende a pensar. Pela primeira vez, o convertido católico tem um ponto de partida para pensar correta e seriamente. Pela primeira vez, tem o método para estabelecer a verdade de qualquer problema...

O que se chama hoje de livre pensamento, é apreciado por alguns, não porque seja o pensamento livre, mas porque é a libertação de pensar, a livre ausência de pensamento..."
**

"Algumas pessoas, especialmente entre os jovens, abandonam a prática do catolicismo. Mas ninguém o abandona pelo protestantismo. todos o abandomam praticamente pelo paganismo...

Abandonam por coisas, não por teorias; e quando têm teorias, elas podem ser, às vezes, teorias bolchevistas ou futuristas, mas nunca são praticamente as teorias teológicas do protestantismo.

Não direi que abandonam o catolicismo pela cerveja e pelo boliche, pois o catolicismo, ao contrário do que fez às vezes o protestantismo, nunca implicou com essas instituições. Abandonam-na para se entregarem à boa vida...

Sei que os velhos racionalistas alegam que a razão lhes impede a volta à fé, mas é falso: não é mais a razão, e sim a paixão...

Sentem, de maneira não destituída de razão, que o fato de tomarmos posição diante do catolicismo significa assumir responsabilidades que agem constantemente como um freio."

G.K. Chesterton citado por Agnès de La Gorce em Convertidos do Século XX

No ar o site Chesterton Brasil


Já está no ar o site dedicado a este grande pensador católico, um dos maiores do século XX. O site reune textos, entrevistas, trabalhos acadêmicos, videos, livros e dados biográficos de G. K. Chesterton, e inclusive a oração em prol da sua beatificação. Um sítio grandemente recomendado. Para visitá-lo, clique na figura acima.

Pax.

Chesterton: "superstição" medieval e superstição moderna


Desde o Renascimento até ao século XIX, os modernos tiveram um amor quase monstruoso aos antigos. Ao considerarem a vida medieval, não podiam considerar os cristãos senão como discípulos dos pagãos: de Platão, nas idéias; de Aristóteles, na razão e na ciência. Não era assim. Em certos aspectos, até do ângulo mais monotonamente moderno, o catolicismo estava muitos séculos adiantado tanto ao platonismo como ao aristotelismo.

Podemos observá-lo ainda, por exemplo, na impertinente tenacidade da Astrologia. Neste assunto, os filósofos estavam todos do lado da superstição, enquanto oso santos e todas as pessoas semelhantemente supersticiosas eram contra a superstição. Mas até os grandes santos tiveram dificuldade em se desvencilhar dela.  Sempre fizeram duas objeções os que suspeitavam do aristotelismo de Tomás de Aquino; consideradas em conjunto, parecem-nos hoje muitíssimo estranhas e cômicas. Uma era a opinião de que as estrelas são seres pessoais que nos governam a vida; a outra, a grande teoria genérica de que os homens têm uma inteligência coletiva, opinião evidentemente oposta à individualidade do espírito humano imortal. Ora, ambas essas teorias têm curso entre os modernos, tão forte é ainda a tirania dos antigos. A astrologia espalha-se pelos jornais de domingo, e a outra doutrina revestiu a sua centésima forma naquilo a que se chama comunismo, ou espírito da colmeia.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Chesterton sobre o Tomismo e o Evolucionismo


"Ora, ninguém começará a compreender a filosofia tomista, que em verdade é a filosofia católica, sem que advirta logo que a sua base primária e fundamental é o louvor da vida, o louvor do ser, o louvor de Deus como Criador do mundo."

"Se alguém pensar profundamente, verá que o movimento supõe algo essencialmente incompleto, que se aproxima de algo mais completo. O verdadeiro argumento é muito técnico, e diz respeito ao fato de a potencialidade não se explicar só por si; além disso, em qualquer caso, só pode desdobrar-se o que estiver dobrado.

Basta dizer que os evolucionistas modernos queremo ignorar o argumento não por terem descoberto nele alguma falha, porque nunca chegaram a descobrir o próprio argumento, mas porque são demasiado superficiais para notar a falha do argumento deles; porque a fraqueza da sua tese está protegida por uma fraseologia da moda, como a força da velha tese está protegida por uma fraseologia fora de moda. Para aqueles porém que pensam verdadeiramente, há sempre algo realmente inconcebível a respeito de todo o cosmo evolutivo, tal qual o concebem, porque é algo que surge do nada, uma onda d'água sempre crescente a sair de um jarro vazio. Os que aceitam isto simplesmente, sem ver sequer a dificuldade, não têm probabilidade de se aprofundar tanto como Santo Tomás de Aquino e de ver a solução da dificuldade. Em uma palavra, o mundo não se explica a si mesmo e não pode fazê-lo só com o fato do seu desenvolvimento constante.

Mas, como quer que seja, é absurdo que o evolucionista se queixe dizendo que não se compreende que um Deus, reconhecidamente inconcebível, fizesse tudo do nadao - e depois pretenda que é mais concebível que o nada se tenha mudado em todas as coisas."

G.K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, Biografia.

Chardin, Evolucionismo e um breve elogio de Gustavo Corção

Teilhard de Chardin: Santo Agostinho era um infeliz!

Há algum tempo atrás, discutia eu com um professor de Filosofia que se mostrava totalmente rendido à "filosofia" de Teilhard Chardin. Embora se dissesse católico, era tal a sua estima pelo aclamado pensador que chamava Sto Agostinho de "infeliz", que se punha a defender verdadeiras pérolas metafísicas. Dizia que, depois da descoberta do Evolucionismo (??), e a sua incorporação ou desdobramento filósofico feito por Chardin, já não havia como crer num Deus metafisicamente imutável. O professor parecia não se dar conta da terrível contradição que isto implica.

Crente absoluto do darwinismo, afirmava categoricamente não existir cientistas sérios que não sejam adeptos deste sistema "científico". E nisso insistia, ainda que eu objetasse.

O professor, pretenso filósofo, se revelava um típico dogmático, pois o darwinismo não tem nenhuma condição de impor-se como verdade científica, visto que a sua suposta comprovação se torna impossível dentro dos limites da experimentação. Ainda assim, o professor não aceitava que o darwinismo fosse encarado meramente como teoria.

Para aceitá-lo, já conhecemos os rebuliços que costumam fazer a respeito da Bíblia, do relato da criação, e blá blá blá...

Precisamente ontem, encontrei um pequeno comentário do Gustavo Corção a respeito de Chardin, a quem o pensador católico Dietrich Von Hildebrand conheceu pessoalmente e por quem se decepcionou em apenas uns poucos minutos de conversa. Escreveu Corção, opondo Chardin a Chesterton:

"Na falta dessa leitura saudável, tônica, fortificante, curativa, inebriante do melhor espírito (a de Chesterton), surgiu em seu lugar, a fazer um sucesso editorial que deveria ruborizar o planeta Terra e empalidecer o planeta Marte, surgiu o repulsivo impostor Teilhard de Chardin, que renega a Fé, abandona os mestres da Companhia de Jesus e da Igreja, para inventar uma gnose tola, de medíocre ciência ensopada com religião ainda pior, graças a cuja fétida composição consegue atrair os espíritos fracos."

Pois é...

Fábio

Mais Chesterton - três argumentos anticristãos...



Muitos homens sensatos devem ter abandonado o cristianismo pela pressão de três convicções convergentes como estas: primeiro, a convicção de que os homens, com sua forma, estrutura e sexualidade, são no fim das contas muito semelhantes às feras, uma simples variedade do reino animal; segundo, que a religião primitiva surgiu da ignorância e do medo; terceiro, que os sacerdotes imprimiram na sociedade as marcas da amargura e da melancolia.

Esses três argumentos anticristãos são muito diferentes; mas são todos muito lógicos e legítimos; são todos convergentes. Percebo que a única objeção a eles é que são todos falsos. Se você parar de olhar para livros sobre os animais e os homens (com um senso mínimo de imaginação ou humor, um senso do desvairado ou do ridículo), você observará que o que assusta não é quanto o homem se assemelha aos animais, mas quanto ele difere deles. É a monstruosa escala de sua divergência que exige explicação. Que o homem e os animais são iguais é, num certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão iguais, eles sejam tão disparatadamente desiguais, esse é o choque e o enigma.

O fato de um macaco ter mãos é muito menos interessante para o filósofo do que o fato de que, tendo mãos, ele não faz quase nada com elas; não estala os dedos, nem toca violino; não entalha o mármore, nem trincha costeletas de carneiro. Fala-se de arquitetura bárbara e de arte inferior. Mas os elefantes não constroem colossais templos de marfim nem mesmo no estilo rococó; os camelos não pintam nem mesmo quadros ruins, embora estejam equipados com o material de muitos pincéis de pêlo de camelo.

Certos sonhadores modernos dizem que as formigas têm uma organização social superior à nossa. Elas têm de fato uma civilização; mas exatamente essa verdade só nos faz lembrar de que é uma civilização inferior. Quem jamais descobriu um formigueiro decorado com as estátuas de formigas famosas? Quem já viu uma colméia na qual estivessem esculpidas as imagens de esplêndidas rainhas de outrora?

Não; o abismo entre o homem e as outras criaturas pode ter uma explicação natural, mas é um abismo. Falamos de animais selvagens; mas o único animal selvagem é o homem. Foi o homem que se evadiu. Todos os outros animais são domésticos e seguem a inflexível respeitabilidade de sua tribo ou espécie. Todos os outros animais são domésticos; apenas o homem é sempre indômito, seja ele um devasso, seja ele um monge. Assim, essa primeira razão superficial do materialismo é, na melhor das hipóteses, um bom motivo para acreditar-se no contrário; é exatamente onde a biologia pára que a religião começa.

Constataríamos a mesma coisa se examinássemos o segundo dos três argumentos escolhidos aleatoriamente: o argumento de que tudo o que chamaos de divino começou em alguma espécie de escuridao e terror. Quando tentei examinar os fundamentos dessa idéia moderna, simplesmente desxobri que não havia nenhum. A ciência não sabe absolutamente nada sobre o homem pré-histórico, pela excelente razão de ele ser pré-histórico. Alguns professores escolhem conjeturar que faos como o sacrifício de seres humanos eram outrora considerados inocentes e geras; depois foram gradativamente diminuindo. Mas não dispomos de nenhuma prova direta, e a pequena quantidade de provas indiretas aponta muito mais para o contrário disso.

Nas lendas mais antigas a nosso dispor, como as histórias de Isaque e de Ifigênia, o sacrifício humano não é apresentado como algo tradicional, mas sim como uma novidade; como uma estranha e assustadora exceção misteriosamente exigida pelos deuses. A História não diz nada. E todas as lendas dizem que a terra era mais amável nas épocas mais antigas. Não há uma tradição do progresso; mas toda a raça humana tem uma tradição da Queda. É de fato bastante engraçado ver que a própria disseminação dessa idéia é usada contra a sua autenticidade. Os eruditos dizem literalmente que essa calamidade pré-histórica não pode ser verdadeira porque todas as raças da humanidade se lembram dela. Eu não consigo acompanhar esses paradoxos.

E a constatação seria a mesma, se tomássemos o terceiro exemplo aleatório: a visão de que os sacerdotes tornam o mundo mais sombrio e mais amargo. Olho para o mundo e simplesmente percebo que eles não fazem isso. Os países da Europa que ainda são influenciados pelos sacerdotes são exatamente aqueles onde ainda há canto e dança e roupas coloridas e arte ao ar livre. A doutrina e a disciplina dos católicos podem ser muros; mas são os muros de um pátio de recreio.

O cristianismo é a única estrutura que preservou o prazer do paganismo. Poderíamos imaginar crianças brincando na planície de um topo relvoso de alguma ilha elevada no meio do mar. Contanto que houvesse um muro em volta da beira do precipício, elas poderiam entregar-se ao jogo frenético e transformar o lugar na mais barulhenta creche. Mas os muros foram derrubados, deixando desguarnecido o perigo do precipício. As crianças não caíra; mas quando seus amigos voltaram, elas estavam todas amontoadas cheias de terror no centro da ilha; a sua canção já havia cessado.

Assim os três fatos da experiência, fatos esses que servem para fazer um agnóstico, são, segundo esta visão, totalmente virados ao contrário.

Chesterton, Ortodoxia.

A aparente correria hodierna deve-se à preguiça



"Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho da nossa época. Mas na verdade a marca principal da nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da aparente correria. Tomemos um caso totalmente externo: as ruas são barulhentas, cheias de táxis e carros. Mas isso não se deve à atividade humana, mas sim ao repouso. Haveria menos correria se houvesse maior atividade, se as pessoas simplesmente andassem a pé. O mundo seria mais silencioso se houvesse mais trabalho. E isso que se aplica à aparente correria física também se aplica à aparente correria intelectual."

Chesterton, Ortodoxia.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...