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Sobre a contemplação na vida leiga


Aquele que estiver esperando por alguém que venha e, de mão beijada, alimente-o com a vida contemplativa vai ter de esperar um bom tempo, especialmente nos Estados Unidos. Tal pessoa faria melhor se renunciasse à própria inércia, rezasse pedindo um pouco de imaginação, pedisse ao Senhor que desperte sua liberdade criativa e considerasse algumas das seguintes possibilidades.

1- Sacrificando oportunidades econômicas aparentemente boas, pode ser possível mudar-se para o interior, ou para uma cidade pequena, onde se tenha mais tempo para pensar. Isso talvez possa implicar a aceitação de um relativo empobrecimento. Nesse caso, tanto melhor para a vida interior. O sacrifício pode ser uma verdadeira libertação da luta impiedosa que é a fonte da maior parte de nossas preocupações. Existem, evidentemente, trabalhos que, por sua própria natureza, mantêm o trabalhador isolado ou afastam-no das trilhas mais batidas. Contudo, nem todos têm liberdade para escolher a carreira de guarda florestal ou de vigia de farol marítimo. Nem todos querem passar a vida como vigia noturno, e por boas razões. Mas o que há de errado em cuidar de um sítio?

2- Onde quer que se esteja, é sempre possível beneficiar-se das partes do dia que são calmas porque o mundo não as valoriza. Entre essas partes estão as primeiras horas da manhã. Mesmo quando não é possível estar a algumas centenas de quilômetros da cidade grande, se uma pessoa for capaz de levantar-se às quatro ou cinco da manhã, pode ter toda a cidade só para si e experimentar algo da paz da solidão. Além disso, o amanhecer é, por natureza, um período pacífico, misterioso e contemplativo - uma hora em que todos os seres pausam naturalmente e olham com assombro para o lado leste do céu. É um momento de vida nova, de um novo começo e, portanto, uma hora importante para a vida espiritual, pois esta não é senão uma perpétua renovação interior. É sempre preferível ir à missa da manhã, ainda que as missas da tarde sejam mais esplêndidas e solenes. Na missa da manhã, as coisas estão mais calmas, mais sóbrias e mais austeras. Os pobres vão às missas da manhã porque têm de estar mais cedo no trabalho. Cristo está mais verdadeiramente com os pobres e a presença espiritual d'Ele faz das missas deles as mais contemplativas.

Deveria ser óbvio demais dizer que o domingo é, por natureza e pela tradição cristã, reservado como um dia de contemplação. O costume puritano tende a fazer o domingo parecer um tipo negativo de "Sabbath", caracterizado principalmente pelas coisas que "não podemos" fazer. A inevitável reação contra isso enfatizou as recreações legitimas, porém mais ou menos insignificantes, que fizeram do domingo um dia de descanso tanto para o corpo quanto para o espírito. É evidente que, se você passa toda a manhã do domingo dormindo, perde algo muito mais importante do que o sono. O domingo não é um dia de contemplação por ser um dia sem trabalho, um dia em que as lojas, os bancos e os escritórios não funcionam, mas porque é um dia consagrado pelo mistério da Ressurreição. O domingo é o "Dia do Senhor", não no sentido de ser necessário que, uma vez por semana, se reserve um dia para parar e pensar no Senhor, mas porque rompe, com uma explosão de luz proveniente de uma eternidade sagrada, o incessante ciclo "secular" do tempo. Não é só para descansar e retornar ao trabalho na segunda-feira que paramos de trabalhar e de nos agitar no domingo, mas para recolher nossos pensamentos, perceber a relativa insignificância dos negócios seculares que ocupam os outros seis dias da semana e experimentar a satisfação de uma paz que ultrapassa todo o entendimento e que nos é dada por Cristo. O domingo nos recorda da paz que deve permear toda a semana, se nosso trabalho está adequadamente orientado.

O domingo é um dia contemplativo não só por exigir a Lei da Igreja que todo cristão vá assistir à missa, mas porque todos que celebram o dia espiritualmente, cristãos ou não, e o aceitam por seu valor evidente, abrem o coração para a luz de Cristo, a luz da Ressurreição. Ao fazê-lo, crescem em amor e em fé, tornando-se capazes de ver um pouco mais do mistério de Cristo. É certo que podem não ter idéia do que está acontecendo, mas a graça de Deus produz efeito em seus corações. O domingo é então um dia de graça, um dia de luz, no qual a luz nos é dada. A simples fidelidade a esse dever, o simples reconhecimento desse dom de Deus, ajudará o leigo perturbado a dar os primeiros passos no caminho de um tipo de contemplação.

4- Onde quer que se busque a luz da contemplação, essa mesma busca compromete o buscador com certo grau de disciplina espiritual. Isso é tão verdadeiro fora da clausura quanto dentro dela. Porém, para o homem ou a mulher comprometidos com todas as obrigações e dificuldades da vida secular, seria um erro viver no mundo como um monge, ou uma monja, em clausura. Tentar isso seria uma ilusão. O primeiro sacrifício do leigo que vive no mundo é a aceitação do fato de não ser um monge e, consequentemente, a aceitação de uma vida de oração que deve ser correspondentemente humilde e pobre. A vida ativa e as boas obras têm um grande papel na vida "contemplativa" levada no mundo e é muito provável que o homem de oração fora da clausura seja aquilo que chamamos de "contemplativo disfarçado". Se, atormentado pela sede de experiências espirituais mais claras e elevadas, ele tentar forçar-se, por meios violentos e mal pensados, a alcançar um "grau de oração" mais alto, isso só lhe causará prejuízo.

A disciplina do contemplativo que vive no mundo é, em primeiro lugar, a disciplina de fidelidade aos deveres de seu estado - às obrigações de chefe de família, de membro de uma profissão, de cidadão. Essa disciplina e esses deveres podem exigir sacrifícios bastante grandes. Em certos casos, algumas dificuldades das pessoas que estão no mundo certamente exigem delas sacrifícios bem maiores do que os que encontrariam em um claustro. Em todo caso, a vida contemplativa delas será aprofundada e elevada pela profundidade de seu entendimento e de seus deveres. Também aqui, o mero conformismo e cumprimento exterior não são o bastante. Não é suficiente "ser um bom católico". Deve-se penetrar o sentido interior da própria vida em Cristo e perceber o pleno significado das exigências desta. Não se devem cumprir as próprias obrigações como uma questão de mero formalismo. Esse cumprimento deve advir de uma decisão real e pessoal de oferecer a Deus o bem que se faz, em Cristo e por Cristo. A virtude de um cristão é algo criativo e espiritual, não o simples cumprimento de uma nova lei. Deve, portanto, estar penetrada e preenchida pela "novidade", pela semelhança de Cristo, que é proveniente da ação do Espírito de Deus no coração e que eleva o mínimo bem praticado pelo cristão a um plano completamente espiritual. Desnecessário dizer que isso é mais que uma questão de verbalizar a própria "pureza de intenção".

5- Segue-se disso que, para o cristão casado, a vida matrimonial está essencialmente ligada à contemplação. Isso é inevitável. É por seu matrimônio que ele dá testemunho do amor de Cristo pelo mundo e experimenta esse amor. Seu matrimônio é o centro sacramental de onde irradia a graça para todos os departamentos de sua vida e, consequentemente, é esse que permite que seu trabalho, seu lazer, seus sacrifícios e mesmo suas distrações se tornem, em alguma medida, contemplativos. Pois é por seu matrimônio que todas essas coisas estão ordenadas a Cristo e centradas em Cristo. Deve-se enfatizar, acima de tudo, que, para o cristão casado, até o amor conjugal, e especialmente o amor conjugal, entra em sua contemplação. De fato, é esse amor que dá caráter específico à contemplação.

A união de marido e mulher no amor nupcial é um ato simbólico e sagrado, cuja própria natureza significa o mistério da união de Deus e do homem em Cristo. Ora, esse mistério é a própria substância, o próprio coração da contemplação. Portanto, o amor conjugal é uma espécie de expressão simbólica e material do desejo do homem por Deus e do desejo de Deus pelo homem.É uma maneira direta, simples e experiencial de expressar a necessidade do homem de ser sumamente e completamente um. É uma representação inocente, decorrente do estado de divisão do próprio homem e de sua sede de união com seu outro eu. Os Padres gregos acreditavam que, antes da queda, Adão e Eva eram, real e literalmente, dois em uma só carne, ou seja, eram um só ser. Acreditavam que a natureza humana, unida a Deus, era inteira e completa em si mesma, mas, depois da queda, o ser humano foi dividido em dois e, daí em diante, tem buscado recuperar sua unidade perdida por meio do amor sexual. Mas este desejo é sempre frustrado pelo pecado original. O fruto do sexo não é a perfeição, não é a completude, mas somente o nascimento de outro Adão ou de outra Eva, outro ser frágil, exilado e incompleto. A criação, por sua vez, chega à idade adulta e, devorada pelo antigo desejo de completude, casa-se, reafirma o obscuro mistério de amor e desesperança e traz ao mundo novos seres incompletos e frustrados, até que finalmente morre, incompleta.

A vinda de Cristo, porém, exorcizou a futilidade e o desespero dos filhos de Adão. Cristo uniu-se à natureza humana, uniu Deus e o homem em si mesmo, em uma só Pessoa. em Cristo, realiza-se a completude para a qual nascemos. Nele, não há mais dar-se ou receber em matrimônio, pois nele todos são um na perfeição da caridade.

Thomas Merton. A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.198-203.

O que a contemplação não é e o que a impede


Não se deve exagerar e distorcer a contemplação, ou fazer com que pareça algo muito grande. Ela é essencialmente simples e humilde. Ninguém pode entrar nela se não for pelo caminho da obscuridade e do esquecimento de si. Além disso, ela também implica grande disciplina; acima de tudo, a disciplina da virtude cotidiana. Implica justiça para com os outros, veracidade, trabalho duro, desapego de si, devoção aos deveres de seu próprio estado de vida, obediência, caridade e auto-sacrifício. Ninguém deve se iludir com as aspirações contemplativas se não está determinado a assumir, em primeiro lugar, os labores e as obrigações comuns da vida moral.  A contemplação não é uma espécie de mágica, um atalho fácil para a felicidade e a perfeição. No entanto, ao nos conduzir a um contato com Deus em um relacionamento pessoal e direto de amizade misteriosamente experimentada, a contemplação traz, necessariamente, aquela paz que Cristo prometeu e que "o mundo não pode dar". Pode haver muita desolação e sofrimento no espírito contemplativo, mas há sempre mais alegria que tristeza, mais segurança que dúvida, mais paz que desolação. O contemplativo é aquele que encontrou aquilo que todos os homens buscam de um modo ou de outro.

(...) Os grandes obstáculos à contemplação são a rigidez e o preconceito. Quem pensa saber de antemão o que é a contemplação impede a si mesmo de descobrir a verdadeira natureza desta, pois é incapaz de "mudar de idéia" e aceitar algo completamente novo. O indivíduo que pensa que a contemplação é elevada e espetacular não pode receber a intuição de uma Realidade suprema e transcendente, mas ao mesmo tempo imanente ao próprio eu comum dele. Aqueles que precisam ser exaltados e aqueles para quem o misticismo é o ápice da ambição humana nunca serão capazes de sentir a libertação, concedida somente aos que renunciam ao sucesso. E como nós, em sua grande maioria, somos rígidos e apegados às nossas próprias idéias, convictos de nossa própria sabedoria, orgulhosos de nossas capacidades e profundamente comprometidos com nossa ambição pessoal, desejar a contemplação é perigoso para qualquer um de nós. Entretanto, se realmente queremos nos libertar desses pecados, o desejo pela liberdade contemplativa e pela experiência da realidade transcendente provavelmente surgirá em nós por si mesmo, naturalmente.

Thomas Merton. A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 167-168.

A verdadeira contemplação não é tensa nem obsessiva


Não há tensão na verdadeira contemplação, pois, se o dom é verdadeiro, não dependemos dele; não somos escravizados pela "necessidade" de experimentar alguma coisa. O contemplativo não busca confirmação da confiança em si mesmo, em sua virtude, em seu estado ou em sua "oração". A confiança dele está em Deus, não em si mesmo. A paz e o "repouso" da contemplação são frutos de uma fé viva na ação da graça divina. O contemplativo é capaz de abandonar a si mesmo e a tudo o mais, por saber que tudo o que realmente importa em sua vida está nas mãos de Deus; por saber que não tem de "pensar no amanhã". Ele percebe completamente que a mensagem de salvação do Evangelho depende da graça de Deus, não do engenho humano.

(...) A vida comunal regular é geralmente vivida no ritmo dos que são ativos e extrovertidos. Impacientes com sutilezas interiores e intolerantes com o que não traz um resultado tangível, essas boas pessoas querem, no final de cada dia, ter certeza de que fizeram alguma coisa a serviço de Deus. Por isso, a vida delas está ordenada para lhes confirmar sua confiança. O dia é dividido em um número definido de exercícios, entre os quais está a prece, marcada pelo relógio e pela exatidão com o que o cerimonial é executado. A atenção está toda concentrada no desempenho exterior.

É bem verdade que a regularidade é uma coisa muito importante. Mas, quando se torna um fim em si mesma, frustra o propósito para o qual foi instituída. Quando a atenção centra-se antes de tudo no exterior, e quando há uma necessidade obsessiva de perfeição em tudo (não para a glória de Deus, mas para a obtenção de paz interior), a verdadeira contemplação se torna impossível, pois esta pressupõe que o homem esteja livre de quaisquer interesses, sejam altos ou baixos, espirituais ou materiais. Isso não quer dizer que descuido e falta de disciplina sejam mais favoráveis à oração interior do que a observância regular. Evidente, a vida regrada é necessária: mas a disciplina é boa precisamente na medida em que liberta a mente de preocupações perfeccionistas com coisas exteriores. A disciplina cuida das coisas exteriores, deixando-nos livres para meditar e orar. Evidentemente, portanto, faz uma grande diferença o espírito com que alguém se determina a cumprir uma regra religiosa. Quando a regularidade é sinal de amor e liberdade espiritual, ela favorece a contemplação. Mas, quando é sintoma de perfeccionismo legalista e pretensioso, mata então a vida contemplativa em sua raiz.

Thomas Merton, A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.163-164.

O perigo do inspiracionismo


Um dos maiores perigos confrontados por todo homem que leve a sério a experiência espiritual é o perigo do inspiracionismo. O problema, nesse caso, consiste em levar de tal modo a sério a própria experiência subjetiva que esta se torna mais importante que a verdade, mais importante que Deus. Uma vez encarada como objeto, a experiência espiritual se transforma em um ídolo; torna-se uma "coisa", uma "realidade" à qual servimos. Não fomos criados para servir a "coisa" alguma, fomos criados para servir somente a Deus, que não é, nem pode ser uma "coisa". Servir Àquele que não é um "objeto" é liberdade. Viver para a experiência espiritual é escravidão, e tal escravidão faz da vida contemplativa algo tão secular (ainda de modo mais sutil) quanto o ato de servir a qualquer outra "coisa", por mais vil que essa coisa possa ser: dinheiro, prazer, sucesso. Certamente, essa avidez pelo sucesso espiritual foi a causa da ruína de muitos que poderiam ser contemplativos. É por isso que, logo no começo desse ensaio, enfatizei o perigo da busca pela "felicidade" como objetivo em uma vida de contemplação. Isso é ainda mais perigoso, diante do fato de que a satisfação derivada das coisas espirituais é pura e perfeita; logo, muito mais difícil de se sujeitar a uma crítica objetiva.

É esse o perigo de dar importância exclusiva ao que nós mesmos experimentamos, e de crer que toda intuição nos vem de Deus. Quando um homem não sabe mais olhar criticamente os movimentos que surgem em seu coração, travestidos de inspiração, os piores erros podem ser tomados como verdades.

(...) O que realmente importa na experiência espiritual não é a interioridade desta, ou sua pureza natural, seu gozo, luz, exaltação ou o efeito transformador que possa ter: todas essas coisas são secundárias e acidentais. O que importa não é o que se sente, mas o que realmente acontece além do plano do sentido ou da experiência. Na contemplação autêntica, o que acontece é um contato da realidade mais interior da pessoa criada com a infinita realidade de Deus. A experiência que acompanha esse contato pode ser um sinal mais ou menos fiel do que aconteceu. Mas a experiência, a visão, a intuição são apenas um sinal e, além disso, passíveis de ser dissociadas de qualquer realidade, tornando-se meras figuras vazias. O inspiracionista é aquele que se apega ao sinal, à experiência sem consideração pela substância invisível de um contato que transcende toda experiência.

(...) O verdadeiro contemplativo é um amante da sobriedade e da obscuridade. Prefere tudo o que é calmo, humilde e despretensioso. Não aprecia excitações espirituais. Estas facilmente o desgastam. Sua inclinação é para aquilo que parece ser nada, que lhe diz pouco ou nada, aquilo que nada lhe promete. Somente quem seja capaz de permanecer em paz no vazio, sem projetos ou vaidades, sem discursos para justificar sua própria inutilidade aparente, pode estar a salvo do apelo fatal dos impulsos espirituais que o convidem a auto-afirmar-se e a "ser alguma coisa" aos olhos dos outros. O contemplativo é, de todos os homens religiosos, o que mais provavelmente perceberá que não é um santo e também o que se mostrará menos ansioso por parecer tal aos olhos dos outros. Ele está, de fato, liberto das aparências e se importa muto pouco com estas. Ao mesmo tempo, já que não tem nem a inclinação nem a necessidade de ser um rebelde, não precisa alardear seu desprezo pelas aparências. Simplesmente não lhes dá atenção.

Thomas Merton. A experiência interior;. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.154-158

Contemplação e Marxismo


Deve ficar claro que o contemplativo e o marxista nada têm em comum. Eles não pensam do mesmo modo, nem mesmo enxergam as mesmas coisas. Para ser marxista, é necessário reprimir todo e qualquer "interesse" interior e pessoal pela realização espiritual e perder-se inteiramente no mistério coletivo da revolução. A contemplação só pode interessar a um marxista se o pegar na ressaca, depois de perder a graça dialética, em um momento em que sua fome interior acidentalmente exija reconhecimento. 

(...) Há no marxismo uma quantidade suficiente de falso misticismo e pseudo-religião para seduzir quem quer que sinta necessidade de um substituto para a religião espiritual. Não há dúvida de que a exigência de "fé" e auto-sacrifício feita pelo marxismo é uma realidade muito mais humana e muito mais sólida que o irresponsável pseudocristianismo que ainda floresce em certas sociedades inteiramente devotadas a valores seculares. Existe algum perigo espiritual no marxismo e na pseudocontemplação que sua visão de mundo implica. Esse perigo reside no apelo misteriosamente religioso que este oferece àqueles que não têm mais estômago para as formas vazias de religião popular, nas quais o conceito de "deus" morreu de cansaço.

Thomas Merton. A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.153-154.

O homem exterior


A vida do homem exterior é uma vida de automatismos, de pensamentos e ações ditados inconscientemente, de adaptação mecânica aos parões e preconceitos daqueles que nos cercam - ou, que seja, de mecânica e compulsiva revolta contra os mesmos padrões e preconceitos. Pois a vida interior não consiste numa rebelião contra os padrões externos. Justamente ao contrário, essa rebelião é geralmente apenas outra forma de compulsão, e certamente apenas um outro aspecto da mesma compulsão. É uma espécie de conformidade negativa.

Ora, as pessoas que vivem nesse plano "automático" não percebem, de modo algum, o quanto a vida delas é alienada e desprovida de espontaneidade. Os hábitos e as rotinas mecânicas adquiriram o poder de satisfazê-las com uma espécie de pseudo-espontaneidade, um tipo de falsa naturalidade. O que é falso e nada espontâneo se tornou, para elas, uma segunda natureza. Assim, o pensamento que para elas parece lúcido é, na verdade, confuso. O que lhes parece boa vontade é, de fato, uma fuga covarde. O que parece liberdade é mera compulsão. Isso não quer dizer, é claro, que essas pessoas não sejam moralmente responsáveis por seus atos. Não, elas são sãs e "livres". No entanto, quando se observa a vida delas do ponto de vista do homem interior e espiritual, faltam-lhes sanidade e liberdade em uma medida assustadora. Isso se aplica a todos nós: pois mesmo o espiritual não é espiritual o tempo todo. Talvez essas pessoas tenham apenas uns raros momentos de "despertar", quando percebem sua vida comum como esta realmente é - e então recaem na escravidão.

Thomas Merton, A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 130.

A nossa era é de decadência da religião


"A nossa era é de decadência da religião (e, espero, renascimento). Nossos contemporâneos, especialmente os que se inclinaram para a religião popular, têm frequentemente reduzido a fé à concordância com frases de propaganda desprovidas de significado. Ao presumir a realidade de essências e seres cuja existência não pode ser verificada pela experimentação científica, um número demasiado grande de pessoas liberou-se de qualquer senso de responsabilidade pelo assunto, entregando essa responsabilidade a um Deu vago, o qual, segundo lhes disseram, existie e se ocupa Ele mesmo dessas questões importantes. A pessoa comum deve ocupar-se, franca e completamente, de uma existência puramente secular: ganhar dinheiro, prazeres e sucesso. Suas prudentes excursões ao domínio do sagrado devem se limitar a umas poucas preces e a uns poucos gestos comunais, necessários à obtenção do auxílio divino para levar a bom termo os propósitos seculares. Essa "fé" é sem dúvida uma superstição moderna."

Thomas Merton, A experiência interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 151

O que é secularismo


A expressão "o mundo" é talvez muito vaga Não se refere simplesmente a "tudo que está em torno de nós" ou ao universo criado. O universo não é mau, é bom. O "mundo" no mau sentido, certamente não é o cosmos, embora escritos de alguns autores cristãos neoplatônicos sugiram este significado para a expressão. Para eles, o saeculum é o que é temporal, o que muda, dá a volta e retorna ao ponto de partida. Isso se deve a influências gnósticas e platônicas que se infiltraram no cristianismo, persuadindo os homens de que o universo é regido por anjos mais ou menos caídos ("as potências dos ares"). Nosso adjetivo "secular" é proveniente do latim saeculum, que significa tanto "mundo" quanto "século". A etimologia da palavra é incerta. Talvez esteja relacionada ao Grego kuklon, "roda", do qual tiramos "ciclo". Portanto, originariamente, o "secular" era o que percorre, interminavelmente, ciclos sempre recorrentes. Isso é o que faz "a sociedade mundana", cujos horizontes são de uma sempre repetida mesmidade:

Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é de lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas. (...) O que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol! (...) Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." (Ecle 1)

Ora, toda a nossa existência nesta vida está submetida à mudança cíclica. Só isso por si não a faz secular. A vida se torna secularizada quando se compromete inteiramente com os "ciclos" do que parece ser novo, mas de fato é a mesma coisa de sempre. A vida secular é uma vida de vãs esperanças, aprisionada à ilusão de novidade e mudança, uma ilusão que nos faz voltar sempre ao mesmo ponto, a contemplação de nossa própria nulidade. A vida secular é uma vida desesperadamente dedicada à fuga, pela novidade e variedade, de nosso temor da morte. Quanto mais nos decepcionam as novidades, mais desesperadamente voltamos ao ataque, forjando novas esperanças, ainda mais extravagantes que as anteriores; e também estas nos decepcionam. Voltamos então à mesma condição de que tentávamos em vão escapar. Nas palavras de Pascal:

Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação. Ele sente então todo o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio." (Pensamentos, 131)

A sociedade "secular" está, por sua própria natureza, comprometida com o que Pascal chama "divertimento", isto é, com o movimento que tem antes de tudo a função anestésica de aquietar nossa angústia. Toda sociedade, sem exceções, tende a ser, em alguma medida, "secular". Uma sociedade genuinamente secular, no entanto, é a que não pode se contentar com inocentes fugas de si mesma. tende, cada vez mais, a necessitar e exigir, com insaciável dependência, satisfação em ações injustas, malignas e mesmo criminosas. Daí o crescimento de negócios economicamente inúteis, que existem para o lucro e não para a produção real, que criam necessidades artificiais às quais satisfazem prontamente com produtos sem valor e de rápido consumo. Daí também as guerras que surgem quando produtores competem por mercados ou por fontes de matéria-prima. Daí o niilismo, o desespero e a anarquia destrutiva que se seguem à guerra; e, por fim, a cega corrida para o totalitarismo como fuga do desespero. Nosso mundo já alcançou o ponto em que, para conseguir algum divertimento, está pronto a se explodir. A era atômica é o ponto mais alto já alcançado pelo secularismo. Isso nos indica, é claro, que a raiz do secularismo é a privação de Deus.

O secular e o sagrado refletem duas espécies de dependência. O mundo secular depende das coisas de que precisa para se divertir e fugir de sua própria nulidade; depende da criação e multiplicação de necessidades artificiais, que ele então "satisfaz". Portanto, o mundo secular é um mundo que pretensamente exalta a liberdade humana, mas no qual cada homem é de fato escravizado pelas coisas de que depende. Na sociedade secular, o próprio homem é alienado; é mais uma "coisa" que uma pessoa, porque está submetido ao governo do que lhe é inferior e exterior. Está sujeito a suas sempre crescentes necessidades, sua intranquilidade, insatisfação, ansiedade e seus temores, mas, acima de tudo, à culpa que o reprova por ser infiel à verdade que leva dentro de si. Para escapar a essa culpa, ele então mergulha ainda mais fundo na falsidade.

MERTON, Thomas. A Experiência Interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.72-74

Filhos de Deus alienados


Há milhares de cristãos caminhando sobre a face da Terra, portando em seus corpos o Deus infinito, do qual, no entanto, não sabem praticamente nada. São filhos de Deus e não percebem sua própria identidade. Em vez de buscar conhecer a si mesmos e sua própria dignidade, lutam miseravelmente para representar personagens alienados cuja "grandeza" consiste na violência, na astúcia maligna, na luxúria e na cobiça.

Thomas Merton, A Experiência Interior

Eu exterior, Eu interior e Contemplação


Abaixo transcrevo um texto magistral do Thomas Merton. Embora ele sirva, óbvio, para todos os tipos de pessoa, eu gostaria de recomendá-lo principalmente aos religiosos - sobretudo aos tradicionalistas -, pois, nestes, as ilusões e vaidades costumam ser sacralizadas e reassumidas num outro nível como se fossem a mais fina santidade, ou simplesmente associadas a certos traços que, embora corretos objetivamente, se tornam pontos de defesa na medida em que servem de suporte às nossas ilusões de grandeza. Que a leitura das linhas a seguir sirva-nos de exame de consciência.

***

Reflita, algumas vezes, sobre o inquietante fato de que a maior parte das afirmações que você faz sobre suas próprias opiniões e esperanças, bem como sobre seus gostos, atos, desejos e temores, são afirmações sobre alguém que não está presente. Quando você diz "eu acho", frequentemente não é você quem acha, são "eles" - é a autoridade anônima da coletividade falando por meio da máscara "você". Quando você diz "eu quero", algumas vezes está somente realizando um gesto automático de aceitar, ou pagar, o que lhe foi impingido. Quer dizer, só está querendo aquilo que fizeram você querer.

Quem é esse "eu" que imaginamos ser? Um ramo pragmático e simplista do pensamento psicológico dirá que, se você é capaz de conjugar o pronome adequado com seu nome próprio e declarar que é você o portador desse nome, então você sabe quem você é, ou seja, está "consciente de si como pessoa". Talvez haja um começo de verdade nisso: é melhor que um indivíduo se descreva como um nome próprio do que com um substituto aplicável a toda uma espécie, pois assim ele estará evidentemente consciente de si mesmo como um sujeito individual, e não como um simples objeto, como uma unidade para uma multidão. É bem verdade que para o homem moderno, mesmo a capacidade de chamar-se por seu nome próprio é uma façanha que causa espanto nele e nos outros. Isso, contudo, é apenas um começo, e um começo do qual o homem primitivo talvez pudesse rir, pois, ainda que uma pessoa dê mostras de saber seu próprio nome, isso não quer dizer que esteja consciente de que esse nome representa uma pessoa de verdade. Pode ser que o nome, em vez disso, qualifique um personagem fictício, ocupado ativamente em autopersonificar-se no mundo dos negócios, da política, no mundo acadêmico ou no religioso.

Esse, no entanto, não é o "eu" que pode estar diante de Deus, consciente d'Ele como "Tu". Para esse "eu", talvez nem exista claramente nenhum "tu". Talvez mesmo as outras pessoas sejam vistas por ele como extensões do "eu", imagens do "eu", modificações do "eu", aspectos do "eu". Talvez nem haja uma distinção clara entre esse "eu" e os outros objetos: ele pode se encontrar desprovido de sua própria subjetividade, ainda que esteja bastante consciente quando diz, agressivamente decidido, "eu".

Se um "eu" dessa espécie ouvir falar em contemplação, talvez decida "tornar-se um contemplativo", isto é, gostará de ver em si essa coisa chamada contemplação. Para isso, vai ter de introjetar a contemplação em seu eu alienado. Vai fazer cara de contemplativo para si mesmo, como uma criança em frente ao espelho, vai cultivar uma aparência contemplativa que lhe pareça apropriada e que goste de ver em si mesmo. Ademais, o fato de seu diligente narcisismo estar voltado para o interior e alimentar-se de si mesmo em quietude e secreto amor o levará a crer que sua experiência de si mesmo é uma experiência de Deus.

Mas o "eu" exterior, o "eu" dos projetos, das finalidades temporais, o "eu" que modifica os objetos para tomar posse deles, é estranho ao "eu" interior e oculto, que não tem projetos, que não busca realizar nada, nem mesmo a contemplação. O "eu" interior busca simplesmente ser e mover-se (pois é algo dinâmico) segundo as misteriosas leis do Ser enquanto tal e em conformidade com as ordenações de uma liberdade superior (a de Deus), em vez de planejar e realizar de acordo com seus próprios desejos.

Seria realmente uma ironia se o eu exterior se voltasse para algum aspecto de si mesmo e o manipulasse sutilmente, como para tomar posse de um segredo contemplativo, imaginando que essa manipulação possa de algum modo conduzir ao afloramento do eu interior, pois este é justamente o eu que não pode ser enganado nem manipulado por ninguém, nem mesmo pelo diabo. Ele é como um tímido animal silvestre, que nunca se mostra na presença de seres estranhos e que só se manifesta quando tudo está perfeitamente pacífico, em quietude, quando está só e não é perturbado por nada. O eu interior não pode ser seduzido por nada nem ninguém, pois responde somente à atração da liberdade divina.

Triste é o caso do eu exterior que se imagina contemplativo e busca alcançar a contemplação por meio do esforço planejado e da ambição espiritual. Ele adotará as mais diversas atitudes, meditará no significado interior de suas próprias poses e tentará fabricar para si uma identidade contemplativa. No entanto, não há nenhum eu real ali para corresponder a essa identidade forjada. Há apenas um "eu" ilusório, fictício, que busca a si mesmo, que luta para criar-se do nada, somente mantido no ser por sua compulsão, prisioneiro de sua própria ilusão pessoal.

O chamado para a contemplação não é e nunca poderá ser dirigido a um "eu" assim.

MERTON, Thomas. A Experiência Interior. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 7-10.

Efeitos da verdadeira meditação cristã


Quem sou eu? Sou uma palavra pronunciada por Deus. Pode Deus falar uma palavra que não tenha sentido?

Entretanto, estarei certo de que o sentido de minha vida é o sentido planejado por mim por Deus? Será que Deus impõe um sentido à minha vida por fora através do acontecimento, do costume, da rotina, da lei, do sistema, do impacto com outros na sociedade? Ou sou eu chamado a criar por dentro, com Ele, com sua graça, um sentido que irradie sua verdade e me torne sua "palavra" livremente pronunciada em minha situação pessoal? Minha verdadeira identidade permanece oculta no chamado de Deus à minha liberdade e em minha resposta a ele. Quer isso dizer que devo empregar minha liberdade para amar, com plena responsabilidade e autenticidade. Não se trata apenas de receber uma forma que me é imposta por forças externas, ou de organizar minha própria vida conforme um padrão social aprovado, mas trata-se de dirigir meu amor para a realidade pessoal de meu irmão e de abraçar a vontade de Deus em toda a sua nudez e, com frequência, em seu impenetrável mistério. Não posso descobrir meu "sentido" se procuro escapar ao medo que surge ao experimentar, de início, minha falta de sentido!

Pela meditação, penetro na mais íntima cada da base da minha vida; procuro o pleno sentido da vontade de Deus para mim, de sua misericórdia para comigo, de minha absoluta dependência para com ele. Essa penetração, entretanto, deve ser autêntica. Deve ser algo genuinamente vivido por mim. Isto, por sua vez, depende da autenticidade do conceito integral que tenho de minha vida e do que me proponho. Mas as metas da minha vida têm uma tendência ser artificiais, inautênticas, na medida em que tento apenas adaptar minhas ações a certas normas exteriores de conduta que me darão a possibilidade de desempenhar uma função "aprovada" na sociedade em que vivo. Afinal, isso importa pouco mais do que aprender a representar um papel. Às vezes, os métodos e os programas de meditação têm por fim, simplesmente, o seguinte: aprender a representar um papel religioso. A idéia da "imitação" de Cristo e dos Santos pode degenerar em mera "impessoalização", se permanece somente exterior.

Não basta à meditação investigar a ordem cósmica e nela situar-me. A meditação é algo mais do que obter controle de uma Esltanschauung (uma visão filosófica do cosmos e da vida). Ainda que esse tipo de meditação pareça conseguir uma resignação à vontade de Deus tal como se manifesta na ordem cósmica ou na história, não é profundamente cristã. Em realidade, pode essa meditação estar fora de contato com as mais profundas verdades do cristianismo. Consiste em aprender algumas fórmulas racionais, explanações que permitam a alguém permanecer resignado e indiferente nas grandes crises da vida e assim, infelizmente, poderá tornar possível a evasão, ali onde uma confrontação direta com o nosso nada é exigida. Em lugar da aceitação estóica dos decretos e acontecimentos "providenciais", e de outras manifestações da "lei" no cosmos, devemos deixar-nos conduzir, nus e indefesos, até o centro daquele medo onde permanecemos sós diante de Deus, em nosso nada, sem explicação, sem teorias, completamente dependentes da sua solicitude e providência, numa necessidade aguda do dom de sua graça, de sua misericórdia e da luz da fé.

Thomas Merton, Contemplação e Poesia

A vida espiritual deve estar fundada na realidade - O obstáculo da inércia espiritual


Thomas Merton

Outro obstáculo. E talvez seja ele mais comum. Trata-se da inércia espiritual, da confusão interior, da frieza, da falta de confiança. Pode esse ser o caso dos que, depois de haverem iniciado bem, experimentam o inevitável “tombo” que surge quando a vida de meditação começa a tornar-se séria. Aquilo que no princípio parecia fácil e agradável, de repente mostra-se totalmente impossível. A mente não funciona. Não se consegue concentrar em coisa alguma. A imaginação e as emoções vagueiam. Por vezes disparam. A esta altura talvez, no meio de uma oração cheia de aridez, desolação e repugnância, inconscientes fantasias podem apoderar-se de quem medita. Podem ser desagradáveis e mesmo assustadoras. Com mais frequência, nossa vida interior torna-se simplesmente um deserto destituído de qualquer interesse. 

Isso pode, sem dúvida, ser explicado como provação passageira (a “noite dos sentidos”), mas devemos enfrentar o fato de que é, muitas vezes, coisa mais séria. Pode ser o resultado de um ponto de partida errado no qual surgiu uma ruptura entre a “vida interior” e os demais setores de nossa existência. Nesse caso, a suposta “vida interior” pode nada mais ser do que uma corajosa e absurda tentativa para evadir-se inteiramente da realidade. Sob pretexto de que aquilo que se acha “no interior” é, de fato, real, espiritual, sobrenatural, etc... cultiva-se a negligência e o desprezo pelo que é “exterior” como sendo mundano, sensual, material e oposto à graça. Isto é má teologia e mau ascetismo. É, de fato, mau sob todos os aspectos, pois, em lugar de aceitar a realidade tal como é, nós a rejeitamos para explorar algum domínio perfeito de ideais abstratos que, concretamente, não possuem realidade alguma. Muitas vezes, a inércia e a repugnância que caracterizam a chamada “vida espiritual” de muitos cristãos poderiam, talvez, ser curadas com um simples respeito pelas realidades concretas da vida cotidiana, pela natureza, pelo corpo, pelo trabalho que executamos, pelos nossos amigos, nosso ambiente, etc. 

Um falso sobrenaturalismo que imagina ser o “sobrenatural” uma espécie de região platônica de essências abstratas totalmente separadas e opostas do mundo concreto da natureza não oferece verdadeira base para uma autêntica vida de meditação e oração. A meditação não tem sentido nem é real se não está em raizada na vida. Sem essas raízes, nada pode produzir senão ressequidos frutos que geram repugnância, acedia e até mórbida e degenerada introversão, masoquismo, dolorismo, negação.

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

Não há "truques" na vida espiritual e seremos sempre principiantes nela


Thomas Merton

A boa utilização do esforço é determinada pelas indicações da vontade de Deus e sua graça. Quando se está simplesmente obedecendo a Deus, um pequeno esforço basta para fazer muito caminho. Quando, em realidade, se está resistindo a Ele (embora declarando não ter outra intenção senão realizar Sua vontade), esforço algum, por maior que seja, pode produzir bom resultado. Pelo contrário, a teimosa capacidade de continuar a resistir a Deus apesar de indicações sempre mais nítidas de sua vontade, é sinal de que se está em grande perigo espiritual. Com frequência, a pessoa interessada é incapaz de percebê-lo por si mesma. Essa é mais uma razão por que um guia ou pai espiritual pode ser realmente necessário. 

Este trabalho do pai espiritual não consiste tanto em ensinar um método secreto e infalível para atingir experiências esotéricas, mas em mostrar-nos como reconhecer a graça de Deus e sua vontade, como ser humildes e pacientes, como desenvolver nossa visão interior em relação a nossas próprias dificuldades e como remover os principais obstáculos que nos impedem de sermos pessoas de oração. 

Esses obstáculos podem ter raízes profundas em nosso caráter e, em realidade, podemos afinal ficar sabendo que uma vida inteira mal será suficiente para removê-los. Por exemplo, muitas pessoas que têm alguns dons naturais e um pouco de engenho têm tendência a imaginar que soa capazes de aprender facilmente, por sua própria esperteza, a dominar os métodos – poder-se-ia dizer, os “truques” – da vida espiritual. A dificuldade, porém, está no fato de que, na vida espiritual, não existem “truques” nem atalhos. Os que imaginam poder descobrir “passes” especiais e pô-los em prática por si mesmos, geralmente desconhecem ou não fazem caso da vontade de Deus e de sua graça. São autoconfiantes e até autocomplacentes. Resolvem alcançar isto ou aquilo e tentam escrever seu próprio itinerário na vida contemplativa. Podem mesmo parecer ter algum êxito, até certo ponto. Porém, alguns sistemas de espiritualidade – notavelmente o budismo zen – colocam grande ênfase num estilo de direção muito severa, “nada de tolices”, que resolve em pouco tempo esse tipo de autoconfiança. Não se pode nem mesmo começar a fazer frente às verdadeiras dificuldades da vida de oração e meditação se não se está primeiro perfeitamente satisfeito em ser um principiante e experimentar que se é realmente alguém que sabe pouco ou nada, tendo necessidade premente de aprender mesmo aquilo que é mais rudimentar. Os que pensam “saber” desde o início, jamais chegam, de fato, a saber alguma coisa. 

As pessoas que tentam orar e meditar acima do seu próprio nível, que se mostram demasiadamente desejosas de alcançar o que creem ser “um elevado grau de oração”, afastam-se da verdade e da realidade. Ao observarem-se a si próprias e ao tentarem convencer-se de seus progressos, tornam-se prisioneiras de si mesmas. Quando então percebem que a graça delas se afasta, permanecem presas em seu próprio vazio, na inutilidade de seus esforços e ficam desamparadas. A acedia substitui o entusiasmo do orgulho e da vaidade espiritual. Um longo tirocínio no caminho da humildade e da compunção, eis o remédio! 

Não queremos ser principiantes. Mas fiquemos convencidos do fato de que jamais seremos outra coisa a não ser principiantes a vida inteira!

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

Autocomplacência - Sinal de Estagnação Espiritual


"Quantas vezes o guia espiritual, ouvindo almas religiosas aparentemente admiráveis, se entristece e fica atônito pelo sentimento de que diante dele se encontra um muro de auto-suficiência, vaidade e inconsciente auto-satisfação, reforçado de "frases feitas" banais, plagiadas de piedosos autores, muro inteiramente preparado a resistir a toda e qualquer penetração da humildade e da verdade. Seu coração se contrai, é tomado por um sentimento de inutilidade da coisa, de que não há jeito de destruir essa armadura e libertar a verdadeira pessoa enterrada e presa debaixo dessa falsa fachada. A autocomplacência habitual é quase sempre um sinal de estagnação espiritual. Os complacentes não experimentam nenhuma necessidade urgente do auxílio de Deus, não têm consciência real da sua indigência. A meditação desses é confortável, reconfortante e inconcludente. Sua oração mental degenera rapidamente em distrações, castelos no ar ou sono indisfarçado. Por essa razão, as provações e tentações podem ser uma verdadeira bênção na vida de oração. Simplesmente porque nos forçam a orar. Quando começamos a descobrir a necessidade que temos de Deus, é que aprendemos pela primeira vez como, realmente, meditar."

Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação

A abertura criadora do amor humano e o egoísmo do nosso século


Thomas Merton

A Igreja compreende o amor humano com uma inteligência melhor e mais profunda do que o homem hoje, que pensa conhecer-lhe todos os segredos. A Igreja bem sabe que frustrar a finalidade criadora da geração humana é confessar um amor que é insincero. E insincero porque é menos que humano, menos até que animal. Amor que só procura gozar, sem nada criar, não é sequer uma sombra de amor. Não tem poder nenhum. A impotência psicológica da nossa exagerada geração deve ser imputada à irresistível acusação de insinceridade que todo homem e toda mulher que amam unicamente pelo prazer sentem no fundo da alma. Um amor que tem medo de filhos por qualquer motivo que seja, é um amor que tem medo do amor. É dividido contra si próprio. É uma mentira e contradição. A própria natureza do amor exige o aproveitamento da sua força criadora, a despeito de qualquer obstáculo. O amor, mesmo humano, é mais forte do que a morte. Por conseguinte, o verdadeiro amor é mais forte do que a pobreza, a fome ou a angústia. E, no entanto, os homens do nosso tempo não põem, em amar, essa coragem de arriscar mesmo o incômodo.

Não é surpreendente que a Igreja despreze completamente os argumentos econômicos dos que pensam ser o dinheiro e o conforto mais importantes do que o amor? A vida da Igreja é em si mesma a forma mais alta do amor, e nesse amor mais elevado todos os amores menores recebem a proteção e a guarda de uma sanção divina. É inevitável que no dia em que os homens esvaziem de toda a sua força e conteúdo o amor humano, continue a Igreja o seu último defensor. Mas, o que é certamente irônico, é que a sábia doutrina da Igreja proteja mais o prazer físico do amor humano, do que os sofismas daqueles cujo fim aparente é só o prazer. Aqui, ainda, sabe a Igreja de que é que está falando, ao lembrar-nos que o homem é feito de corpo e alma, e que o corpo só preenche bem as suas funções quando inteiramente sujeito à alma, e esta à graça, isto é, ao amor divino. Segundo a doutrina da Igreja, a virtude da temperança não é destinada a esmagar ou desviar o instinto humano de prazer, mas a levá-lo a servir a seu fim: conduzir o homem à perfeição e à felicidade em união com Deus.

E, assim, é a Igreja obrigada pela sua inflexível lógica a deixar ao homem toda a ordenada plenitude de prazeres necessários ao bem-estar da pessoa e da comunidade. Ela jamais considera o prazer como um "mal necessário" a tolerar. É um bem, que pode contribuir à santificação do homem, embora seja extremamente difícil ao homem decaído fazer dele um bom emprego. Daí o rigor das suas leis. Mas não devemos esquecer a finalidade das leis, que é a de assegurar tanto os direitos de Deus, como os do homem. Inclusive, os direitos do corpo do homem.

Uma vez ainda, não me acusem de exagero ao buscar o problema da sinceridade em suas raízes no amor humano. O egoísmo de uma época devotada ao mero prazer manchou toda a raça humana com um erro que converte todos os nossos atos mais ou menos em mentiras contra Deus. Um século como o nosso não pode ser sincero.

MERTON, Thomas. Homem Algum é Uma Ilha. Rio de Janeiro: Agir, 1968. p. 167-168.

São Francisco de Assis e a Vocação Mais Perfeita


Thomas Merton

Estes pensamentos sobre a vocação são evidentemente incompletos. Mas há uma lacuna que precisa ser preenchida para evitar toda a confusão. Falamos das vidas ativa e contemplativa, sem até aqui nos referir à vocação que S. Tomás coloca acima de qualquer outra? a vida apostólica em que os frutos da contemplação são divididos com outros.

Em lugar de falar teoricamente desta vocação, consideremo-la, antes, em sua perfeita encarnação num dos maiores santos: Francisco de Assis A estigmatização de S. Francisco foi o sinal divino de que ele foi de todos os santos o mais semelhante a Cristo. Ele conseguiu, mais do que nenhum outro, reproduzir em sua vida a simplicidade, a pobreza e o amor de Deus e dos homens, que marcaram a vida de Jesus. Mais do que isso, Ele foi um Apóstolo que encarnou perfeitamente o espírito e a mensagem do Evangelho. Conhecer S. Francisco é simplesmente compreender o Evangelho, e segui-lo no seu verdadeiro e integral espírito, é viver o Evangelho em toda a sua plenitude. O gênio da sua santidade fê-lo capaz de comunicar ao mundo os ensinamentos de Cristo não neste ou naquele aspecto, não em fragmentos desenvolvidos pelo pensamento e a análise, mas na total plenitude da sua simplicidade existencial. S. Francisco foi, como devem ser todos os santos, simplesmente "um outro Cristo".

Sua vida não reproduziu somente este ou aquele mistério da vida de Cristo. Ele não se contentou de reviver as humildes virtudes da infância divina e da vida oculta em Nazaré. Não foi só tentado como Cristo no deserto ou cansado como Ele nas viagens do seu apostolado.  Não fez só milagres como Jesus. Não foi, apenas, crucificado como Ele. Todos esses mistérios foram unidos na vida de Francisco, e nós os encontramos todos ali, ora em separado, ora em conjunto. Cristo ressuscitado reviveu perfeitamente nesse santo que foi completamente possuído e transformado pelo Espírito da divina caridade.

A frase de S. Tomás, contemplata aliis tradere (dividir com outros os frutos da contemplação), não é retamente compreendida se não temos em mente a imagem de um S. Francisco andando pelas estradas da Itália medieval, transbordando de alegria com a mensagem que só podia ser-lhe diretamente comunicada pelo Espírito de Deus. A sabedoria e a salvação pregadas por Francisco foram não apenas a exuberância da mais alta espécie de vida contemplativa, mas foram simplesmente a expressão da plenitude do Espírito cristão, isto é, do Espírito Santo.

Homem algum poderá ser um apóstolo de Cristo, se não é cheio do Espírito Santo. E homem algum é cheio de Espírito Santo, se não faz o que normalmente se espera de um homem que segue Cristo até o fim: abandonar todas as coisas, para recobrá-las em Cristo.

O que há de notável em S. Francisco, é que no sacrifício que fez de todas as coisas, ele incluiu também todas as "vocações", no sentido limitado do termo. Edificados durante séculos pelos vários ramos da família religiosa franciscana, ficamos surpresos de pensar que S. Francisco se pôs em marcha nas estradas da Umbria, sem a menor idéia de possuir uma "vocação franciscana". E de fato não possuía. Ele lançara aos ventos todas as vocações, com as suas vestes e outras possessões. Não se considerava um apóstolo, mas um mendigo errante. Certamente não se tomou por monge; se tivesse querido ser monge, teria achado uma porção de mosteiros para entrar. E, evidentemente, não era também consciente de ser um "contemplativo". Nem se preocupava com comparações entre as vidas ativa e contemplativa. Levava, entretanto, as duas ao mesmo tempo, e com a mais alta perfeição. Nenhuma boa obra lhe foi estranha, nenhuma obra de misericórdia, corporal ou espiritual, faltou em sua bela vida! Sua liberdade abraçava tudo.

Francisco poderia ter sido ordenado padre. Recusou por humildade (pois isso também teria sido uma "vocação", e ele estava acima das vocações). Mas tinha, de fato, a perfeição e a quintessência do espírito apostólico de sacrifício e caridade, que são necessários na vida de cada sacerdote.

É preciso um instante de reflexão para aceitar o pensamento que S. Francisco nunca disse Missa, o que é difícil de crer a quem for penetrado do seu espírito.

Se havia em seu tempo uma vocação reconhecida, que Francisco podia ter associado com a sua vida, era a de eremita. Os eremitas foram os únicos membros duma classe definida de religiosos, que ele imitou com nitidez. Saía, frequentemente, para as montanhas a rezar e a viver solitário. Mas não pensou, jamais, que tinha a "vocação" de só fazer isto. Ficava sozinho enquanto o Espírito o conduzia à solidão, e depois deixava-se levar de volta às cidades e aldeias, pelo mesmo Espírito.

Se ele tivesse pensado nisso, poderia ter reconhecido que a sua vocação era essencialmente "profética". Era como outro Elias ou Eliseu, ensinado pelo Espírito na solidão, mas reconduzido por Deus às cidades dos homens com uma mensagem a dizer-lhes. As muitas facetas da vocação de um S. Francisco mostram que aqui ultrapassamos os ordinários "estados de vida". Mas é por este motivo mesmo que, ao falar de "vida mista", ou de "vocação apostólica", faríamos bem em pensá-las em termos de um S. Francisco ou de um Elias. A "vida mista" é muito facilmente reduzida ao seu nível mais baixo, onde ela não é mais que uma forma da vida ativa. Nesse plano, ela perde em comparação com a vida contemplativa. Por quê? Porque a dignidade da vida apostólica, segundo S. Tomás, deriva não do elemento de ação que ela contém, mas do elemento de contemplação. Uma vida de pregação sem contemplação não passa de uma "vida ativa", e, embora possa ser muito santa e meritória, não pode reivindicar a dignidade atribuída por S. Tomás à vida que "divide, com outros os frutos da contemplação".

Mas na proporção em que um frade mendicante se aproxima do ideal de fundador, na proporção em que ele vive a pobreza e a caridade de Francisco ou Domingos, e mergulha no conhecimento amoroso de Deus que só a poucos é concedido, na proporção em que se abandona ao Espírito Santo, ele ultrapassará de muito a perfeição contemplativa daquele cuja contemplação é um dom recebido para si somente.

MERTON, Thomas. Homem Algum É Uma Ilha. Rio de Janeiro: AGIR, 1968. p. 139-141.

Vocações


Thomas Merton

Deus quis em todas as vocações se manifestasse o seu amor no mundo. Em cada vocação especial, Ele dá ao homem um lugar especial no mistério de Cristo, um papel a cumprir na salvação de toda a humanidade. A diferença entre as vocações reside na diversidade dos meios que cada uma dá aos homens para descobrir o amor de Deus, apreciá-lo, corresponder a Ele, e d'Ele participar em companhia de outros homens. Cada vocação tem por objeto propagar a vida divina no mundo.

No casamento, o amor de Deus torna-se conhecido e participado sob os véus sacramentalizados do afeto humano. A vocação para o matrimônio é um chamado à sobrenatural união que santifica e propaga a vida humana e estende o reino de Deus no mundo pela criação de filhos, futuros membros de Cristo místico. Tudo o que é mais humano e mais instintivo, tudo o que é melhor nos afetos naturais do homem, é aqui consagrado a Deus, e torna-se sinal do amor divino e ocasião de graça.

Na vida conjugal, o amor divino é mais plenamente encarnado do que em outras vocações. Por esta razão, ele é aí mais fácil de ver, de apreciar. Mas a sua extensão, por ser menos espiritual, é também menos vasta. A esfera de ação do amor do pai e da mãe estende-se apenas aos próprios filhos e parentes, e a um círculo de amigos e de relações.

A fim de estender a eficácia da caridade divina, as outras vocações espiritualizam pouco a pouco as nossas vidas e atos, para que influenciem áreas cada vez mais largas. Assim, na vida religiosa ativa ou no sacerdócio secular, a expressão física do amor humano é sacrificada, a vida de família é dada em renúncia, e, assim, as forças de amar, postas em liberdade, podem aplicar-se a toda uma paróquia, a um hospital ou a uma escola.

Na vida ativa, os afetos humanos instintivos são mais plenamente consagrados a Deus do que na vida de família, e dum modo menos carnal. Mas ainda é fácil ver e apreciar a ação do amor de Deus nas obras corporais de misericórdia - cura dos doentes e dos pobres, e a carinhosa solicitude com as crianças, os velhos, etc. Aqui também, os trabalhos, dificuldades e sacrifícios da vida servem para proteger os valores humanos na alma do que é "chamado". Ocupando-se com os outros, ele guarda o senso da relatividade e da integração.

Na vida contemplativa, os problemas e dificuldades são mais interiores e também muito maiores. Aí, o divino amor é menos encarnado. Devemos compreendê-lo e corresponder de formação ainda mais espiritual. A fidelidade torna-se muito mais difícil. Em uma vida de silêncio e solidão, os afetos humanos não recebem muito da sua normal satisfação. A ausência quase total de expressão pessoal, a frequente impossibilidade de "fazer coisas por" outros segundo um critério visível e tangível, será, às vezes, uma tortura, e pode levar a grandes decepções. Eis a razão pela qual a vocação puramente contemplativa não convém a quem não é maduro. É preciso ser muito forte e muito sólido, para viver na solidão.

Afortunadamente a vida monástica não é assim tão puramente contemplativa que não proporcione certa soma de atividade e de expressão pessoal. Vivendo e trabalhando juntos em uma comunidade monástica, os monges normalmente preservam o seu senso de relatividade e de humanidade. Pelo contrário, se são fiéis ao espírito da sua regra, achar-se-ão aprofundadas e espiritualizadas as afeições humanas em uma grande união de caridade que não dependerá mais do humor e dos caprichos subjetivos. E, assim, eles virão a perceber um pouco da sua missão de abraçar o mundo inteiro em um afeto espiritual que não se limita ao tempo e ao espaço.

Quanto mais alto subimos na escala das vocações, tanto mais cuidadosa deve ser a seleção dos candidatos. Normalmente, na vida conjugal, a seleção se faz por si mesma: a vontade de Deus pode ser encarnada numa decisão baseada na atração natural. Na vida ativa, a atração e a aptidão normalmente vão juntas, e a pessoa "chamada" pode ser aceita sob o fundamento da sua habilidade a fazer em paz e com alegria espiritual o trabalho requerido.

Normalmente, mais da metade dos que se apresentam à admissão nos mosteiros contemplativos não têm vocação. A "atração" pela vida contemplativa é um critério de vocação muito menos sério do que a atração pela vida ativa. Quanto mais estrita e solitária uma Ordem contemplativa, tanto maior será o hiato entre "atração" e "aptidão". Isso é especialmente verídico em um tempo como o nosso, em que os homens não podem encontrar o quinhão normal de silêncio e solidão que a natureza humana exige para o seu funcionamento sadio. Há, talvez, muitas freiras e irmãos nas Ordens ativas, de vocação ativa perfeitamente boa, mas que são a tal ponto sobrecarregados de trabalho e famintos por uma vida normal de oração, que eles imaginam a necessidade de converter-se em trapistas ou cartuxos. Em alguns casos, a solução pode ser, de fato, a passagem para uma Ordem claustral, mas na maior parte das vezes o que se requer é um adequado ajustamento do seu próprio instituto. O problema desses ajustamentos é por demais amplo para ser sequer mencionado aqui.

Mais sobe um homem na escala das vocações, e mais deve poder espiritualizar e estender as suas afeições. Para viver só com Deus, ele precisa realmente poder viver solitário. E ninguém pode viver solitário, se não pode suportar a solidão. E ninguém pode suportar a vida à parte, se o seu desejo de "solidão" é formado por um desejo recalcado de afeto humano. Para pô-lo em linguagem clara, é inútil tentar alguém viver num claustro a sua vida, se o coração é devorado pelo pensamento de que ninguém o ama. É preciso ser capaz de não fazer caso de tudo isso, e simplesmente amar o mundo inteiro em Deus, abraçando todos os irmãos nesse mesmo amor puro, sem querer saber de sinais de afeto, e sem cuidar se estes serão, ou não, jamais dados. Se pensam que isto é muito fácil, asseguro-lhes que estão enganados.

Dizer que a vida claustral e contemplativa é mais rigorosa do que a vida ativa não é dizer que o contemplativo trabalha mais rigorosamente, ou que ele possui maiores responsabilidades e obrigações a saldar. A vida contemplativa é sob muitos aspectos mais fácil do que a vida ativa. O que não é mais fácil é vivê-la bem.

É relativamente fácil "escapar" num mosteiro contemplativo, observar a regra, estar no devido lugar às horas dadas, e executar todos os movimentos devidos. A rotina é reconhecidamente laboriosa e fatigante, mas é possível a alguém acostumar-se com ela. O que é duro não é produzir esforço físico, mas o trabalho de realmente levar uma vida inteira de oração debaixo de todo esse esforço.

O simples fato de ser tudo, num mosteiro contemplativo, ordenado a uma vida de oração, é precisamente o que torna difícil a quem não tem verdadeira vocação viver frutuosamente no claustro. Esses levam mais facilmente uma vida de oração, quando há mais trabalho do que oração no emprego cotidiano do tempo. Em uma vida onde tudo é oração, aqueles que não tiverem a verdadeira vocação contemplativa acabam muitas vezes por rezar menos do que faram na vida ativa.

A atração por certo tipo de vida e a aptidão para a mesma ainda não são suficientes para estabelecer a certeza da vocação. De fato, a atração, que pode ser importante em muitos casos, não é sempre aparente. Um homem pode ser chamado ao sacerdócio e ainda assim experimentar sensível repugnância por certos aspectos da sua vocação. Uma vocação trapista não exclui necessariamente o receio da austeridade dessa vida. A coisa que resolve em definitivo uma vocação é a capacidade de tomar a firme decisão de abraçar certo estado de vida, e de agir segundo esta decisão.

Se uma pessoa não consegue jamais decidir-se, jamais resolver-se a fazer o que é preciso para seguir uma vocação, não tem provavelmente vocação. Ela pode ter-lhe sido oferecida: mas isso é coisa que não se pode decidir com certeza. Se resiste ou não à graça, o que parece certo é que ele "não é chamado". Mas, uma calma e definida decisão, que não desanima com os obstáculos nem se quebra ante a oposição, é um bom sinal de que Deus deu a graça de responder ao seu chamado, e que é correspondido.

Para decidir uma vocação, é comum consultar-se um diretor espiritual. Sua função é dar conselhos, encorajamento, sugestões e ajuda. Ele pode, em certos casos, proibir uma pessoa de levar avante a idéia de tornar-se padre ou religioso. Mas, se ele julga que alguém pode, prudentemente, seguir uma vocação, é a essa pessoa que compete decidir afinal. Ninguém nem mesmo um confessor ou um diretor, nem mesmo um superior eclesiástico, pode decidir por ela. Deve decidir por si mesma, pois a sua decisão é a expressão da sua vocação. Se o interessado, então, pede admissão num seminário ou num mosteiro, e se é aceito o seu pedido, ele pode dizer que provavelmente "tem a vocação".

MERTON, Thomas. Homem Algum É Uma Ilha. Rio de Janeiro: Agir, 1968. p. 135-139.

Pureza de Intenção, Desapego, Disciplina e Direção Espiritual


Thomas Merton

Mesmo com os ideais que possamos ter, por mais espirituais e ocupados que pensemos ser com a glória de Deus e o seu reino, a avareza e as paixões invadirão o nosso trabalho para convertê-lo em agitação, desde que cessarem de ser puras as nossas intenções. E quem pode jurar pela pureza de suas intenções, lá nas profundezas do seu subconsciente, onde os antigos motivos egoísticos se movem tranquilamente, como monstros marinhos em águas onde são invisíveis!

A fim de defender-nos da agitação, devemos ter o desapego não só dos resultados imediatos do trabalho - e esse desprendimento é difícil e raro - mas também de todo o complexo de motivos que governam a nossa vida na terra. Temos de deixar a saúde e a segurança, os prazeres e as riquezas, as pessoas e os lugares, as circunstâncias e as coisas. Devemos ser indiferentes à própria vida, no sentido do Evangelho, vivendo como os lírios do campo, a procurar primeiro o reino dos céus, seguros de que, em acréscimos, todas as nossas necessidades materiais serão atendidas. Quantos de nós podem dizer, com alguma segurança, que começaram a viver assim?

Sem esse desapego, ficamos sujeitos a mil temores correspondentes a nossos milhares de desejos ansiosos. Tudo que amamos é incerto: quando buscamos uma coisa, tememos não poder alcançá-la. Quando a obtemos, tememos, ainda mais, perdê-la. Cada ameaça à nossa segurança converte em agitação o nosso trabalho. Basta uma palavra, basta o imaginário pensamento que atribuímos a outro, a suspeita de que ele nos suspeite, para transformar o nosso dia num torvelinho de confusão, de ansiedade, de pressa, e quem sabe lá que outras coisas piores.

Precisamos, antes de tudo, adquirir uma perspectiva sobrenatural, contemplar todas as coisas à luz da fé, e, depois, começar o longo e árduo trabalho de libertação dos nossos medos e desejos irracionais. Somente um homem relativamente espiritual é capaz sequer de começar essa obra com bastante delicadeza para anular o risco de agitação em seu ascetismo mesmo.

É tão fácil apegar-se a um método ascético, como a qualquer outra coisa, neste mundo. O que não significa que devamos renunciar a toda idéia de sistema em nossa renúncia. Cuidemos só de lembrar que os sistemas não são fins em si. São meios para um fim. Seu fim próximo é levar a paz e a calma a um espírito desprendido, libertar o espírito das suas paixões, para ser mais sensível à razão e à graça divina. O fim último de todas as técnicas, usadas num contexto cristão, é a caridade e a união com Deus.

A disciplina não é eficiente senão quando sistemática, pois a falta de sistema geralmente trai a falta de finalidade. Os bons hábitos só se desenvolvem com atos repetidos, e nós não podemos disciplinar-nos a repetir com certa inteligência as mesmas coisas, se não as empreendemos sistematicamente. É preciso, principalmente no início da nossa vida espiritual, fazer certas coisas em tempos fixados: jejum em certos dias, oração e meditação a certas horas do dia, exames regulares de consciência, regularidade na frequência dos sacramentos, aplicação sistemática aos deveres do estado, atenção particular às virtudes que nos são mais necessárias.

Desejar uma vida espiritual é, assim, desejar disciplina. De outro modo, o nosso desejo é uma ilusão. É uma verdade que a disciplina é considerada uma força capaz de levar-nos, eventualmente, à liberdade espiritual. Entretanto, o nosso ascetismo não nos deve tornar espiritualmente rígidos, mas flexíveis, porque rigidez e liberdade não se conciliam. Mas a nossa disciplina deve ter um certo elemento de severidade. Do contrário, ela nunca nos livrará das paixões. Se não somos rigorosos conosco, a nossa carne depressa nos enganará. Se não nos obrigamos severamente a rezar e a fazer penitência nos dias definidos, e a fazer a nossa mente guardar as resoluções a despeito dos inconvenientes e dificuldades, seremos logo envolvidos por nossas próprias desculpas, e levados pela fraqueza dos nossos caprichos.

É muito útil ter um diretor espiritual a guiar os nossos esforços de disciplina. Embora, em teoria, a direção não seja absolutamente necessária a uma vida espiritual sólida, muitos homens, na prática, não teriam sem ela chegado a nada. Além da valiosa instrução que um bom diretor pode dar-nos, nós precisamos, ainda, do seu encorajamento  e das suas correções. É muito mais fácil perseverar em nossa penitência, meditação e oração, quando temos alguém que nos recorde as resoluções que começamos a esquecer. A direção espiritual nos protegerá, até certo ponto, contra a nossa própria instabilidade. A função do diretor é orientar a nossa disciplina para a liberdade espiritual. Para isso, é preciso um bom diretor, e bons diretores são raros.

MERTON, Thomas. Homem Algum é Uma Ilha. Rio de Janeiro: Agir, 1968. p. 104-106.

O pecado é uma suprema injustiça contra Deus e contra nós mesmos


É nas profundezas mesmo da nossa personalidade, que o pecado nos ataca. Ele destrói a única realidade de que depende o nosso caráter, identidade e ventura: a nossa orientação fundamental para Deus. Somos criados para querer o que Deus quer, conhecer o que Ele conhece, amar o que Ele ama. O pecado é a vontade de fazer o que Deus não quer, de conhecer o que Ele não conhece, de amar o que Ele não ama. Cada pecado, assim, é um pecado contra a verdade, um pecado contra a obediência, e contra o amor. Ora, nessas três coisas, o pecado mostra ser uma suprema injustiça não só contra Deus, mas, sobretudo, contra nós mesmos.

Pois, onde está o bem de conhecer o que Deus não conhece? Conhecer o que Ele não conhece, é conhecer o que não é. E por que amar o que Ele não ama? Há qualquer finalidade em amar o que não é nada? O que Deus ama, é. A vontade de amar o que não é implica, ao mesmo tempo, a recusa de amar o que é. Por que nos destruirmos a nós mesmos, em querer o que Deus não quer? Querer contra a sua vontade, é voltar a nossa vontade contra nós próprios. Temos a necessidade mais profunda de tudo que Deus quer para nós. Querer outra coisa, é privar-nos da nossa própria vida. Assim, quando pecamos, o nosso espírito morre de inanição.

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha

A vida espiritual não é um sonho; é real e tem de ser real


‎"Considero a vida espiritual como a vida do verdadeiro eu do homem, a vida desse eu interior, cuja flama, tantas vezes, consentimos em ver abafar sob as cinzas da angústia e dos mais fúteis cuidados. Orientada para Deus, e não para as necessidades materiais, a vida espiritual nem por isso é uma vida irreal ou uma vida de sonhos. Bem ao contrário, sem a vida do espírito, é a nossa existência toda que se torna inconsistente e ilusória. Integrando-nos na ordem de coisas estabelecidas por Deus, a vida do espírito nos põe no mais pleno contato com a realidade, não como a imaginamos, mas tal qual é em si mesma."

"Este encontro de Cristo não é jamais sincero se não for mais que uma fuga para fora de nós. Muito ao contrário, ele não pode ser uma evasão. Deve ser uma consumação. Não posso descobrir Deus em mim nem a mim em Deus, se não tenho a coragem de enfrentar-me exatamente como sou, com todas as minhas limitações, e de aceitar os outros como são, com todas as suas limitações. A solução religiosa não é religiosa, se não é plenamente real. Evasão é a resposta da superstição."

MERTON, Thomas. Homem Algum é Uma Ilha. 5 Ed. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1968.
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