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A morte espiritual e o retorno à vida


O Homem possui duas vidas, e pode morrer duas vezes. Isso nada tem que ver com a crença tola na reencarnação. Me refiro à vida física e à vida espiritual ou da graça. Quando Adão foi criado, ele possuía a vida natural - que o tornava imagem de Deus - e a vida da graça - que o tornava semelhança de Deus. Havia sido advertido de que não comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pois no dia em que dela comesse certamente ele morreria. Ocorre que Adão comeu e, porém, ainda viveu quase mil anos. Uma leitura superficial e imediata concluiria que Deus errou no profetizar a morte imediata de Adão após a queda. Ou isso ou será preciso recorrer a hermenêuticas esquisitas para encontrar na expressão "no dia" uma metáfora mais esquisita ainda.

A morte de que se fala é a morte espiritual que, então, não indica uma cessação da vida orgânica, mas a perda de um vínculo que unia o homem a Deus e sobrenaturalizava as suas ações, dispondo-o para a consumação da visão beatífica, o ver Deus face a face. Com o Pecado, o homem perdeu sua semelhança com Deus e a sua alma, antes luminosa, encheu-se de trevas.

Esta Queda foi ocasião de uma intervenção ainda mais direta de Deus. Para salvar o homem, vendo-o impedido de salvar a si mesmo, de sair da vala na qual tinha caído, Deus assume a natureza humana - corpo e alma - e se entrega em Sacrifício, corrigindo o antigo erro. A angústia e fidelidade de Jesus no jardim do Getsêmani corrigem a traição no jardim do Éden. Aquilo que, neste último, terminou com a expulsão dos nossos primeiros mais, culminará no esponsal divino com os homens.

Se a primeira mulher foi ocasião de Queda, agora será dada aos homens uma segunda, nascida já do lado aberto da fidelidade consumada do Cristo dormido na cruz, e, portanto, geradora de fidelidade nos homens: a Igreja. Quanto ao fruto proibido, é dito que a mulher, vendo-o de agradável aspecto, tomou-o e comeu-o. Já o fruto desta nova árvore, Jesus dá-o antecipadamente aos Apóstolos que igualmente "tomam e comem", "tomam e bebem": a Santíssima Eucaristia.

O Salmo da Quinta Feira Santa nos diz que "é sentida por demais pelo Senhor a morte dos seus santos, seus eleitos." Sendo que a alma humana é imortal, a morte física é apenas uma passagem. Isso, obviamente, embora seja um mal - visto que não é natural que a alma exista separada do corpo -, não o é de todo. Nesta ordem atual de coisas, os santos desejam morrer para estar com Deus. É o que Paulo deseja quando escreve que prefere partir. Parece-me que a morte aí referida é, antes, a morte espiritual, a perda da graça, aquela mesma que ocasionou a encarnação e a morte de Jesus.

Todos nós podemos perder a vida da alma. Basta que cometamos um pecado mortal. Neste sentido, Sta Teresa D'Avila escreve que este é o único mal de fato digno deste nome porque ameaça de condenação eterna a pobre alma. Cito-a:

"Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso (que é a alma), esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro de sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristal o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva." (Castelo Interior)

Eis, pois, que a treva, numa espécie de paródia da luz, enquanto esta é união divina, aquela é união com o demônio. Isto significa que a alma que peca mortalmente se torna de tal modo apartada de Deus que, em certo sentido, consegue fugir da Onipresença, isto é, esquivar-se dos raios do amor divino, e atar-se ao que é inferior. O pecado mortal é o despencar do in excelsis para o in infieris. Isto, obviamente, não se dá literalmente - no sentido espacial nem no afastamento ontológico de Deus -, uma vez que Deus persiste em trazê-la - à alma - através das graças atuais. Mas o centro da alma, tomado assim de rebeldia, tende a resistir-Lhe e fazer-se de cego e surdo diante dos Seus apelos. Porém, se Deus lamenta assim a morte dos Seus, infinitamente maior que o lamento é o gozo que Ele experimenta quando vê um filho Seu voltar à vida. Assim como chorou quando da morte de Lázaro, sem dúvida sorriu quando lhe trouxe de novo à vida. Isto significa que poderemos compensar os destratos aos quais submetemos o coração divino nos colocando novamente sob os influxos da Sua paixão, e isto se dá no Confessionário. Na primeira queda, havia um anjo de espada flamejante que protegia o jardim para que ninguém lá voltasse. Deste novo jardim, os porteiros são os padres, e basta que deixemos para trás o veneno que trazíamos para que as mãos sacerdotais, como que empunhando espadas divinas, ajam no próprio centro da nossa alma extirpando de lá o pus da infecção e tornando-nos novamente vivos. Acorramos aos confessionários, pois a glória de Deus é o homem vivo.

Fogo e sangue, cruz e renúncia.


"Os ritos, as manifestações de respeito para com o culto, o próprio dízimo, as oferendas sobre o altar, e a contribuição para o culto, tudo isso se conjuga sem grande dificuldade com uma vida segundo o Mundo. Mas Cristo é uma chama que passeia pela nossa alma e devora toda a nossa substância: 'vim trazer fogo à Terra'. É de fogo, e de sangue, de cruz, de renúncia, que se trata. O amor dá a sua vida. Fogo e sangue, cruz, renúncia."

Pe. Jaques Leclercq

Quaresma - tempo de mortificação


Os católicos observamos a Quaresma como um tempo de preparação para a Páscoa. A princípio, viu-se a necessidade de uma preparação de três dias, que se tornou o que hoje chamamos de "tríduo pascal". Mas, pela enormidade do significado, os cristãos acharam por bem aumentar o tempo de preparação, e estabeleceram o sugestivo número de quarenta dias. 40 é um número que aparece recorrentemente na Bíblia, e indica sempre um período delimitado que é como que uma tensão preparatória para algo. O símbolo maior desta preparação se dá no jejum que Jesus, inspirado pelo Espírito, faz no deserto e que antecede o começo da sua vida pública.

Toda preparação busca desenvolver os meios necessários para aquilo que se vai executar. Assim, Jesus jejua e é tentado pelo demônio. Na quaresma, nós somos convidados a jejuar, fazer mortificações, e enfrentar os nossos demônios. O deserto é, já, um lugar difícil, áspero, escasso em objetos de satisfação. Portanto, é o lugar propício para o combate. Não à toa, é o lugar para onde Deus leva Israel a fim de falar-lhe ao coração. No deserto da quaresma, Deus deseja também falar-nos e nos preparar para o esponsal que Ele mesmo realizará, não mais no deserto, mas num jardim, sobre uma árvore frondosa cujos frutos anularão os efeitos do pecado: a árvore da Cruz.

Quero neste texto meditar um pouco sobre o significado das mortificações. Quase ninguém insiste nisso, hoje, e a pregação dos padres se resume, no mais das vezes, à dimensão política. A Campanha da Fraternidade, posta durante a quaresma, também não ajuda. Esta desatenção às mortificações é profundamente prejudicial. A Igreja sempre declarou, nos seus santos e doutores, que estas são não somente uma recomendação, mas uma necessidade para a vida espiritual, de modo que quem não se mortifica não avança. Os santos, que são os verdadeiros representantes do cristianismo, foram dela muito amigos e não dispensavam oportunidades de praticá-la. Dada, então, a sua importância essencial na vida cristã, falemos dela.

Mortificar significa fazer morrer alguma coisa. Há em todos nós forças internas que nos impelem para a direção contrária à que deveríamos seguir. Todos nós sabemos disso por experiência: nós somos gulosos, luxuriosos, egoístas, violentos, orgulhosos, vaidosos, preguiçosos, covardes, dissolutos. A mera tomada de consciência dessas coisas não é, contudo, suficiente para nos fazer mudar. Uma coisa é conhecer o que eu deveria ser e não sou, e outra muito diferente é ter a força de me tornar isso que eu deveria ser. São Paulo apóstolo descreve, de modo formidável, o drama pelo qual passa todo filho de Adão que intenta conformar-se ao Cristo: 

"Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já não o faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros." (Rm 7,14-23)

Vemos aqui que o pecado é como uma lei interna nossa, e, além disso, Paulo lhe atribui autoria pelo pecado, como se ele fosse um falso eu em nós. Qualquer perspectiva espiritual que não perceba isso tudo é mera ilusão. Daí se vê a puerilidade de certos discursos que atribuem o não ser santo a apenas uma questão de falta de vontade, de "safadeza" pessoal, como se o "participar da natureza divina" estivesse ao alcance do homem. Ledo engano. Nós não somos auto-suficientes, e, além do fato de a santidade estar infinitamente acima dos nossos esforços naturais, nós sequer sabemos o que seja um santo antes de nos tornarmos um. Assim, mesmo que tivéssemos a força necessária - o que não é mesmo o caso -, não poderíamos nos dar aquilo que não conhecemos. É uma contradição trivial.

A santidade, junto com as virtudes teologais, nos é dada por Deus. Não há outra fonte. E devemos mesmo desesperançar de querer produzi-la por nossos meros esforços. O que fazer, então? Dissemos que a santidade nos é dada por Deus, e, sendo esta a nossa vocação e a razão mesma da nossa existência, é claro que Deus deseja dá-la a todos os homens. E por que não o faz? Porque não encontra a devida abertura na nossa alma. Não há espaço em nós para que Deus aja, e isto porque estamos vivendo ainda sob a lei do pecado e estamos inchados de egoísmo. O que fazer, então? Felizmente a nossa natureza não está de todo estragada. A luz da inteligência ainda dá conta de perceber verdades fundamentais, e a vontade, devidamente informada, pode ainda dispender certos esforços necessários para que a ação de Deus se dê. Contudo, nada é fácil.

O problema fundamental é o seguinte: desde que nascemos, estamos viciados no prazer, o que nos torna egoístas. Abraçamos o que nos agrada, rejeitamos o que nos desagrada, e assim atribuímos às coisas e pessoas como que uma segunda natureza, que ofusca a sua identidade verdadeira, e, assim, falseia a nossa visão de todas elas, inclusive de nós mesmos. Este vício começa bem antes de tomarmos consciência do problema. Logo, temos dele anos e anos de prática. Como o prazer é manipulável, aprendemos a provocá-lo, a intensificá-lo e a mediar as nossas relações sempre com vistas nele. O nosso eu se torna, assim, o eixo da nossa existência; se torna um ídolo que se fortalece na medida em que sacrificamos valores, coisas e pessoas no seu altar. Esta centralidade do ego é o que se chama egoísmo. E é importante frisar: quando nos percebermos egoístas, já o teremos sido por muito tempo. Assim, não é a simples tomada de consciência e o desejo de deixar de sê-lo que serão suficientes para resolver o caso. Pelo contrário, se não cuidarmos, será bem capaz que o próprio desejo de sermos bons e santos tenha por motivação última o próprio egoísmo. No lusco-fusco da nossa alma, tateando entre sutilezas e obscuridades, vamos errando no caminho qual estrelas perdidas, e se confiarmos em nossa própria cegueira, cairemos, infalivelmente, no buraco; teremos fracassado.

O que fazer, então? Duas coisas: a primeira é pedir ajuda a Quem pode nos ajudar, que é Deus, e a segunda é fazer o pequeno papel que nos cabe. Falemos um pouco da primeira.

Pedir ajuda a Deus não se resume a rezar. Nosso Senhor estabeleceu meios objetivos para que participássemos daquilo que Ele nos conseguiu na Cruz. Aquilo que Ele conseguiu foi a Graça divina, e os meios objetivos são os Sacramentos. Sem a força da Graça propiciada pelos sacramentos todo o projeto de santidade é apenas um projeto mal orientado.

O que nos cabe fazer é rezar e nos mortificar. Como nós temos essa busca natural pelo prazer, que sempre nos limita e nos condiciona, a mortificação, com vistas a nos devolver a liberdade de uma ação mais correta, buscará atacar o eu a partir de desconfortos voluntários ou da aceitação de desconfortos involuntários, o que nos dará as mortificações ativa e passiva.

O princípio do prazer espraia-se em tudo quanto fazemos: amizades, trabalho, ocupações diversas, oração, etc,: tudo está como que abrangido por ele. Costumamos chegar atrasados no trabalho ou ficamos felizes se saímos antes da hora porque o nosso ego não se agrada de que lhe sejam impostas obrigações. Se rezamos, gostamos de sentir Deus e procuramos ativamente por ficarmos em paz, às vezes reduzindo as nossas orações - ou as intensificando - precisamente quando estamos necessitados. Sempre é o nosso eu quem dita. Sempre é a nossa vontade a nossa verdadeira senhora. Quando nos mortificamos, nos impomos desprazeres, e nos acostumamos ao desconforto, começa a acontecer uma coisa estranha em nós. A princípio, será só tédio, impaciência, desconfiança, desatenção, cansaço, angústia. Mas, se perseveramos, a melhora se segue ao amargor do remédio. Vamos percebendo que estávamos como que bêbados e sonolentos - nem isto sabíamos! -, e agora a consciência meio que acorda e passa a luzir num outro nível. Contornos sutis da realidade, antes despercebidos, se revelam qual um degradê de montanhas sequenciadas que estavam encobertas pela névoa da concupiscência. A cor postiça que impúnhamos aos entes empalidece e a cor real, subjacente à nossa ilusão, desponta. Não apenas as coisas se revelam, mas as relações entre elas também se tornam visíveis, e o próprio gosto nelas presente, uma vez que tenhamos aprendido o desapego e a fruição desinteressada, se dá a nós sem esquivas. Estes são efeitos que estão ao alcance mesmo de uma ascese natural, não necessitando ainda da Graça santificante para serem experimentados. Mas é claro que tais efeitos não serão imediatos.

Além do efeito anticoncupiscência e seu ulterior despertar - que se dá como iluminação da inteligência -, a mortificação revigora a vontade que andava enfraquecida sob os ditames da sensibilidade e do desejo. Aquele "outro" que nos habita, e que era testemunhado por São Paulo como autor do mal, perde terreno e o nosso verdadeiro eu, antes desmaiado nalguma sarjeta interior, recupera os sentidos e lhe passa a exercer maior resistência, podendo, aos poucos, tomar-lhe as rédeas. Isto libera certas energias da alma, o que dá à existência um grande senso de vitalidade e inclusive melhora a saúde e aprimora o caráter. Ao contrário do que dizem por aí, que pessoas mortificadas são sujeitos cabisbaixos e sem gana, é uma vida permissiva e dissoluta que mina a disposição e gera timidez, tristeza, angústia e fraqueza.

Por fim, a mortificação faz a pessoa perceber o seguinte: se eu desejo algo e, não obstante, eu o renuncio, como que se cria entre o desejo e o eu um espaço, e este espaço torna evidente que o eu não é o desejo. Quando deixo de me identificar aos meus desejos, aos meus apegos, aos meus caprichos, poderei encontrar, sob os escombros desses movimentos automáticos, a sede da minha liberdade e a minha verdadeira identidade subjacente. Perceberei que não é uma relação óbvia que um desejo engendre uma ação, pois o desejo pode me surgir como um estranho, uma espécie de rebelião interna a que é preciso pacificar. Não é outra coisa a "noite dos sentidos", de São João da Cruz. Uma vez que a "casa está sossegada", o verdadeiro eu assume liberdade e seus movimentos ficam desimpedidos. Isto permite uma satisfação de um nível totalmente superior, e é esta satisfação, resultante da saúde da alma e da sua operação em correspondência à sua natureza espiritual, que pode ser corretamente chamada de alegria. Não é que o prazer cessa de existir; reencaixado na santidade, ele até será mais intenso, enquanto que desprovido de seus apelos desordenados. Ele será também não um fim das ações, mas um acompanhante, um efeito de uma vida reta, ordenada, e reconciliada com a realidade.

Quarta feira de Cinzas - Significado das Cinzas


Queremos antes de tudo corrigir um equívoco uma vez propagado aqui pelo blog: Não. Hoje, Quarta feira de cinzas, não é dia de preceito. Não obstante, é altamente recomendável que o católico vá à Santa Missa. Além do sugestivo sinal das cinzas, e da recepção do Sacratíssimo Corpo do Senhor, é também o início formal da Quaresma. Nada melhor do que adentrar neste tempo forte e santo da Igreja participando do Sacrifício e Banquete do Senhor, e comendo, como dizia Sta Teresa Benedita da Cruz, o "pão seco dos fortes".

"Mas qual o significado das cinzas?", alguém pode perguntar. "Esses católicos inventam muita coisa". Desde o Antigo Testamento, as cinzas sempre foram apresentadas como sinal de penitência. Os habitantes de Nínive, ao ouvirem a pregação de Jonas, se arrependem e fazem penitência, inclusive o rei, vestindo-se de sacos e cobrindo-se de cinzas. (Jn 3,5-6) Mardoqueu, no livro de Ester, ao saber do decreto do Rei Asuer I que condenava à morte todos os judeus do império, veste-se de saco e cobre-se de cinzas implorando o favor divino. (Est 4,1) Jó, quando arrependido, faz o mesmo. (42,6) Também Daniel, suplicando a Deus, impõe-se o cilício e se reveste de cinzas (Dn 9,3). Por fim, Jesus igualmente faz referência ao uso das cinzas em Mt 11,21.

Vê-se que o seu uso está grandemente fundamentado nas Escrituras e indica um claro sinal de arrependimento, de contrição, de súplica pela misericórdia divina. Assim, nada mais apropriado do que ser reutilizado no início da Quaresma, tempo por excelência de conversão.

Além deste significado, as cinzas também encerram a idéia da finitude e efemeridade da vida. Quando o padre no-las impõe à festa, ele diz a fórmula: "porque és pó e em pó te hás de tornar." A consciência da finitude, do limite, da não auto-suficiência é um realismo necessário sem o qual não há vida espiritual. "Deus resiste aos soberbos", diz a Escritura. Portanto, o pressuposto da conversão é a humildade. A cinza, sendo o resto daquilo que era vivo - são os restos das palmas usadas na celebração de ramos do ano anterior -, antecipa o destino humano. Torna presente aquilo que infalivelmente será a sua sorte. Ela traz à consciência a célebre fórmula de Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." Ao desesperançar do que vai debaixo do sol, a alma se abre àquilo que está acima do efêmero, à "Beleza tão antiga e tão nova", Àquele que, por transcender o tempo, renova todas as coisas, inclusive o nosso coração.

Mas lembremos que o cinza é também uma cor, e, como tal, ocupa um lugar entre o preto e o branco. O preto, sendo ausência de cores, foi entendido pela Igreja como um símbolo da morte - ausência de vida - ou com as trevas exteriores. O preto assim pode simbolizar aquilo que está fora da via de salvação. Um primeiro movimento em direção a Deus seria a tomada de consciência da distância d'Ele e o arrependimento. Este primeiro passo espiritual marca o trânsito entre o preto e o branco. A primeira saída do preto em direção ao branco gera o cinza. Assim, o cinza se torna, também pelo simbolismo das cores, o sinal do início de uma mudança que, por ser só início, é disposição do coração, arrependimento. "Rasgai os vossos corações", diz Deus, "e não as vestes". O coração é o que há de mais íntimo no homem, em oposição às vestes, que são aquilo que está aparente. Nesta Quaresma, peçamos ao Senhor que a nossa conversão seja verdadeira, e não meramente exterior. Que a Virgem Santíssima caminhe conosco. Pax.

Fábio

Homilia de Santo Efrém sobre o Natal


Hoje, Maria, ao levar a divindade, se tornou para nós céu; e Cristo, sem deixar a glória paterna, se encerrou nos apertados limites do ventre materno, para exalçar os homens à dignidade mais elevada. Escolheu só esta Virgem, dentre todas as virgens, para instrumento de nossa salvação.

Nela se realizaram todos os vaticínios de todos os justos e profetas. Dela própria saiu aquele esplendidíssimo astro sob cuja guia o povo que andava em trevas viu grande luz. (Is 9,2)

De diversos nomes pode ser Maria acertadamente designada. E, com efeito, é ela o templo do filho de Deus que dela saiu de modo diverso do que entrou, pois no ventre entrara sem corpo e dele saíra revestido de nossa humanidade.

É ela o místico novo céu (Ap 21,1) em quem habitou, como em sua sede, o Rei dos reis, e donde baixou à terra, levando diante de si forma e semelhança terrenas. É ela a videira de frutificação de suave odor (Ecle 24,23), cujo fruto, embora diferente da natureza da árvore, dela devia ter tomado algo semelhante.

É ela a fonte que brota (Joel 3,18) da casa do Senhor da qual jorraram para os sedentos águas vivas que matarão a sede para sempre (Jo 4,13) de todo aquele que apenas com os lábios as tiver provado.

Erra, portanto, caríssimos, quem julga poder comparar-se o dia de hoje de reparação ao da criação! E, de fato, no princípio, a terra foi criada; hoje, foi renovada. No início, dado o crime de Adão, foi maldita por causa da obra dele (Gn 3,17); hoje, porém, a paz e a segurança lhe foi restituída. No início, pelo delito dos  primeiros pais, a morte passou a todos os homens (Rm 5,12); hoje, no entanto, por Maria, passamos da morte à vida (1Jo 3,14) No início, a serpente penetrou nos ouvidos de Eva, donde o veneno infeccionou todo o corpo: hoje, Maria deu ouvidos à afirmação da felicidade perpétua. O que, portanto, fora de morte passou a ser, ao mesmo tempo, instrumento de vida.

Aquele cujo trono assenta sobre os querubins (Sl 98,1) ei-lo sentado nos braços de uma mulher; aquele que o mundo todo não encerra, só Maria o abraça; aquele que os tronos e as dominações reverenciam, a donzela acaricia; aquele cuja sede se acha nos séculos dos séculos (Sl 44,7), eis que se senta nos joelhos virginais; a terra é escabelo de seus pés, tocando-a com as plantas dos pés infantis.

Ó feliz e afortunado Adão, que, ao nascer o Senhor, recobrou a honra e o esplendor perdidos! Felicíssimos mortais que, vasos de ira para a morte (Rm 9,22) lhe deram o revestimento da própria argila! Redirei felicíssimos aqueles a quem foi dado ver o fogo de nossos corações envolto em seus paninhos!

Tamanhas coisas fez Deus para corrigir a estultície de um só homem! Visto que o servo caíra pela própria soberba, o Senhor o levantara em sua humildade.

Demos, pois, irmãos caríssimos, graças a Deus Pai que, para remir servos, entregou o próprio Filho. Exaltemos igualmente a Jesus com os máximos louvores, pois curou com tanta felicidade as feridas dos homens. E, por fim, veneremos piamente o Espírito de ambos, que nos foi dado (Rm 5,5) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância. (Jo 10,10)

Santo Efrém, Doutor da Igreja. Sermão III de diversis.

A mártir mais jovem a ser beatificada pelo Papa na Coreia


***A notícia já é antiga, mas achei valer muito a pena de ser divulgada neste espaço. Que o exemplo dessa pequena nos inspire a fidelidade a Nosso Senhor.***
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NO SÁBADO, 16 de agosto (2014), por ocasião de sua primeira viagem à Ásia, especificamente à Coreia do Sul, o Papa Francisco beatificará 124 mártires daquele país, entre os quais se encontra o caso muito especial de uma pequena menina, porém verdadeira gigante da fé, assassinada friamente pelo ódio a Jesus Cristo à sua Igreja, antes de completar os 12 anos de idade.

Anastasia Yi Bong-geum nasceu em 1827, filha de Paul Yi Seong-sam e Anastasia Kim Jo-i, que nesse período viviam sua fé na clandestinidade, porque sofriam a perseguição Jeonghae.

Educada pela mãe, desde pequena sabia cumprir bem seus deveres religiosos e manifestava grande fé e amor por Nosso Senhor Jesus Cristo. Com dez anos de idade, aprendeu as orações da manhã e da tarde, assim como o Catecismo da Igreja Católica. Conheceu um sacerdote missionário que se hospedou em sua casa; este, impressionado pela ardente devoção da menina, permitiu-lhe receber a Primeira Comunhão, mesmo sendo ainda tão jovem. 

A fé e as virtudes cresciam em Anastasia, dia a dia. Quando do início da perseguição Gihae, em 1839, ela fugiu com sua mãe para a casa de Protase Hong Jae-yeong. Ali, foi presa pela polícia e levada a Jeonju, onde enfrentou, sem vacilar, o seu martírio.

A menina foi logo interrogada pelo chefe policial, que lhe exigia informações sobre o padre missionário, ao que ela respondeu que era muito pequena para saber de tais coisas. Não satisfeito, o policial lhe disse que, se ela falasse contra Deus, e renegasse a fé cristã, ele lhe pouparia a vida. Anastasia então respondeu-lhe admiravelmente: “Não sabia como adorar o SENHOR até que cheguei ao uso da razão, aos meus sete anos. Eu era muito jovem para ler livros. Mas dos sete anos até agora, adorei o SENHOR. Portanto, não posso trai-lo nem pensar mal dEle, mesmo se tiver que morrer mil vezes!”...

Em princípio, Anastasia foi levada à prisão sem ser torturada, porque era apenas uma frágil menina. Sua mãe fingiu duvidar de sua firmeza e lhe disse que certamente trairia Jesus: "Você não tem coragem para enfrentar a tortura”. Ao ouvir isso, a pequena mais uma vez deu prova de sua firmeza de caráter e, certamente, da assistência divina que recebia. Respondendo que jamais trairia o Cristo, prometendo à sua mãe manter-se fiel ao ensinamento da Igreja, não importando o tipo de tortura que tivesse que sofrer.

O chefe policial e os guardas prisionais insistiram muito com Anastasia para que ela cooperasse e assim salvasse sua vida, porque ela era "ainda tão jovem e uma linda garota", mas ela não cedeu. Jogada na prisão, em tão tenra idade, foi ameaçada muitas vezes, mas não sucumbiu à intensa pressão psicológica. Ao dar-se conta de que a menina realmente não ia ceder, finalmente a autoridade policial ordenou que ela fosse torturada...

Mas os sofrimentos da santa criança não pararam aí. Além de ser torturada, Anastasia foi forçada a assistir o martírio de sua mãe. E mesmo depois, como órfã, continuou a se manter firme em sua adesão ao Evangelho, prosseguindo assim até o final de sua curta vida. O chefe policial, quando ela não tinha ainda completado 12 anos de idade, ordenou que fosse enforcada na prisão, no dia 5 ou 6 de dezembro de 1839.

Fonte: O Fiel Católico

A oração do terço - monotonia e distração?


O Rosário - ou o Santo Terço, sua versão reduzida - é uma oração maximamente recomenda aos católicos, não só pelos santos e Papas, mas pela própria Virgem Maria, que a pediu vivamente nas parições de Fátima. Não obstante, é fato que, para alguns, é uma atividade enfadonha, devido à sua repetição e monotonia. São Luís Maria Grignion de Montfort fala dos "devotos críticos", o primeiro grupo dos falsos devotos, que vêem nessas práticas populares algo mais adequado à gente simples. Eles, por sua vez, deveriam dar-se a altas contemplações, mais correspondentes à sua dignidade. Este tipo de erro pode surgir em nós quando consideramos, por exemplo, que ler um livro seria algo mais rentável espiritualmente do que rezar o terço. Quaisquer pensamentos neste sentido serão sempre falaciosos. Quando se quer e se organiza o dia, há tempo para tudo. Além disso, está mal orientado quem vive de calcular que tipo de atividade espiritual surtirá mais efeito. Isto torna a oração supersticiosa e somente reforça o ego. A coisa se torna uma espécie de "contra-oração".

Porém, ainda que não caiamos neste erro fundamental, alguns de nós podemos sim, pela nossa própria natureza, encontrar alguma dificuldade na oração do terço. Sta Teresinha de Lisieux relata a sua dificuldade pessoal quanto a isso. E, com ela, vários outros. Eu particularmente, embora consagrado à Virgem pelo método de São Luís Maria, nunca tive na oração do terço algo a que eu me adequasse inteiramente. Sempre é preciso fazer certa violência para que eu possa rezá-lo. E ontem, enquanto meus dedos corriam as suas contas, eu considerei algo desses assuntos e me propus a escrever um texto encaminhado a todos os demais que, como eu, sentem esta dificuldade. Pelo fato de fazermos algo que a nossa natureza não aprecia tanto, é comum que haja distrações, pelo que pode surgir a consideração: "mas adiantará alguma coisa que eu o reze se eu não consigo fazê-lo direito?" Eu gostaria então de dizer algumas coisas que comigo funcionam. São dicas da minha experiência pessoal. Podem não servir para algumas pessoas, mas eu creio que servirão para outras.

DISTRAÇÃO

Qual o valor do terço se eu só me distraio? A primeira coisa é a seguinte: isso não acontece somente com você. Jesus diz nos Evangelhos: "onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração". Salvo pessoas muito disciplinadas, é natural que a mente corra para as nossas preocupações pessoais. Há inclusive um mecanismo de defesa em nós que tenta nos proteger de atividades cansativas. É por isso que diante de uma palestra chata o sono aparece. É por isso também que o rosário é por muitos recomendado como remédio contra insônia. Então, como defesa, a mente se ausenta da fonte de cansaço e tenta encontrar algo mais agradável com que se ocupar. Isto é efeito da nossa sensibilidade decaída, e a luta que teremos de travar é natural, mesmo. São Domingos Sávio era um rapazinho muito ativo. Quando rezava, o seu natural o distraía e ele ficava fitando diferentes objetos. Teve de se forçar a manter-se de olhos fechados e o esforço era tamanho que isto lhe causava dores de cabeça.

São Bernardo de Claraval, um tanto quanto enervado pelo fato das distrações, foi consolado por Jesus que lhe disse ser normal: era muito raro alguém rezar uma ave-maria totalmente sem distração. O santo então resolveu fazer um teste. Andando a cavalo, falou com um rapaz que ia à frente: "se você conseguir rezar uma ave-maria inteira sem se distrair, este cavalo é seu." O rapaz, contente e crente de que já tinha ganho o cavalo, começou: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.... mas o cavalo é com sela ou sem sela?" São Bernardo então comprovou o que lhe havia sido revelado.

Portanto, amigo, você não está só. Há inclusive santos em sua companhia. Sabe o que isto significa? Que distrair-se não é motivo para não rezar. O que você não deve fazer é distrair-se voluntariamente. Tampouco deve agitar-se quando perceber a mente divagando, pois a agitação não gera quietude; bem pelo contrário.


TEMPO

Sta Teresa D'Avila dizia que a oração não se faz à força de falar muito, mas de amar muito. Isto significa que o fundamental é ter uma reta disposição e pura intenção. Ela dizia ainda: "a alma enamorada fala disparates com Deus". A atitude pressuposta da oração é, então, fundamental, e tê-la correta já é oração. O tempo reservado para a oração, ainda que não seja tão bem aproveitado segundo os nossos critérios, também já tem seu valor, pois o que interferiu nele foi a nossa fraqueza. Conscientemente, porém, a nossa decisão foi de aproveitá-lo para estar com Deus. E só poderemos melhorar nisso se praticarmos bastante. Ninguém fica bom em uma atividade deixando para executá-la apenas quando for perfeito. O aperfeiçoamento pressupõe o exercício desde os mais baixos graus da indisciplina. 

CONTEÚDO

Quando nos distraímos, as palavras nos saem sem atenção e se tornam como que "flatus vocis", isto é, mero som. Isto se formos seguir uma lógica meramente natural. Na oração, porém, a coisa é mais complexa.

Somada aos pressupostos da reserva do tempo e da reta disposição e intenção está a força própria dos termos da oração. No nosso caso, as orações dos Pai Nossos e das Ave Marias. Ora, sabemos que o Pai Nosso foi a oração ensinada pelo próprio Cristo. A conclusão que se segue é que não importa o nosso grau de atenção e formação teológica ou mística, o significado das palavras transcende sempre a nossa compreensão. O mesmo se diga da Ave Maria, oração que foi recitada pelo próprio Arcanjo Gabriel e por Sta Isabel quando estava cheia do Espírito Santo. Portanto, estas palavras não apenas são expressões de idéias nossas, mas, como palavras divinamente inspiradas, têm uma eficácia própria e podem produzir em nós o seu efeito. Elas poderão gerar na nossa alma o que significam.

Mas, a fim de acompanhar com mais advertência estas orações, convém que observemos palavra a palavra e lhes atribuamos significados simples e diretos. Nestes últimos dias, eu tenho rezado o Pai Nosso do seguinte modo, seguindo de perto São Máximo, Confessor:

Pai Nosso - indica a figura de Deus Pai
Santificado seja o Vosso Nome - o "Nome" aqui indica Jesus
Venha a nós o teu reino - O "Reino" indicaria o Espírito Santo
Seja feita a tua vontade - o significado aqui é claro
Assim na terra como no céu - De novo, um significado óbvio
O Pão nosso de cada dia - Isto indica a Eucaristia
Nos dai hoje - este "hoje" transcende o hoje atual, mas indica o "hoje" da eternidade, ou a imortalidade.
Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido - sentido óbvio
Não nos deixeis cair em tentação - temos as nossas fragilidades pessoais. Podemos aqui pensar nelas.
Mas livrai-nos do mal - o mal aqui, como o próprio Catecismo o declara, indica a pessoa de Satanás.
Amém.

Os significados, principalmente da primeira parte, podem mudar. Bento XVI dá outros sentidos à expressão "Vosso Nome", no seu livro "Jesus de Nazaré". Mas é bom que o significado não fique tão aberto. Do contrário, a nossa inteligência não fixará nada.

Agora, convém esclarecer o seguinte: o santo terço não deve ser rezado num processo cíclico de pensamento, passeando literalmente pelo significado de cada palavra da Ave Maria. Este movimento repetitivo é mesmo cansativo à mente, e é não natural. As "dez ave marias" devem servir-nos de "fundo musical" para a contemplação dos mistérios. Por exemplo, se estamos contemplando os mistérios gozosos - os meus favoritos -, os nossos lábios recitam as Ave-Marias enquanto a nossa mente reflete nos fatos contemplados, observando os detalhes e encontrando neles verdades escondidas. Portanto, acompanhar o significado literal dos termos não é importante. Isto permite que a mente diminua consideravelmente a sua inclinação a distrair-se. Isto também permite que o santo terço seja adequado igualmente tanto a pessoas simples quanto a pessoas mais sofisticadas intelectualmente. Os tesouros dos mistérios são inesgotáveis. A cada vez podemos intuir novas verdades.


HUMILDADE

Por fim, fazer a experiência da nossa fraqueza é a matriz mesma de onde surgirá a reta disposição da oração. Olhar para o céu como um necessitado dá consciência da razão de ser da oração. A humildade resultante pode se estabelecer em nós como um hábito, e isto é maximamente importante, pois Deus se revela aos pequenos. A humildade é a porta de abertura para que o contato entre Deus e a alma humana se estabeleça de fato.


MATERNIDADE

A Virgem Maria é também a nossa mãe. Ela sabe que, como crianças, ficamos à procura de satisfações, como um filho que se distrai diante de algum ensinamento dos pais. Ela, como mãe terna e doce que é, poderá educar o nosso coração para que ele amadureça. Muito mais do que nós, ela deseja a nossa santificação. 


EXALAR O PERFUME DE DEUS

O livro dos cânticos traz um belíssimo texto: "Enquanto o Rei descansa em seu divã, eu exalo o seu perfume." Esta expressão é seguida de perto por São Paulo: "nós devemos exalar o bom odor de Cristo." Para que possamos ter em nós este perfume, é preciso permanecer com Ele bastante tempo. Moisés, depois de ficar 40 dias com Deus, desceu do monte e o seu rosto brilhava. Torna-se luminoso quem permanece com a luz. Torna-se "cheiroso" quem permaneceu na presença do Cristo. Só então poderemos exalar este perfume e, então, ele encherá toda a casa. É como dizia Sta Teresinha de Lisieux: "far-me-ei santa; sê-lo-ei depressa. Assim converto-Te os corações." Rezar o terço nos dá esta graça: meditando nos mistérios da vida do Cristo, fazemos-lhe companhia e vamos nos tornando parecidos com Ele. Além de progredirmos tendo-O como um ser extrínseco a nós, somos também formados infusamente, modelados sem que o percebamos. Tal o efeito da oração.

Por isso, não nos esquivemos do rosário. Se nos falta tempo, apenas precisamos dar uma caminhada e levar o terço junto. Essas pequenas diligências nos disporão gradativamente para Deus. Que a Virgem Maria, mãe do Verbo, nos ensine e conduza.

O perigo de amar a Deus egoisticamente


Amemos a Deus, diz Sto Tomás, não egoística, mas desinteressadamente; não excluindo, de certo, nossa própria felicidade, mas também não rebaixando Deus a um 'meio' de nossa felicidade. 'Deus é em si mesmo um bem muito maior do que o bem da felicidade que gozaremos na posse d'Ele."

A felicidade, o prazer, são bens secundários que se conseguem funcionalmente, com o 'repouso na posse do bem'. Procure-se o bem como tal, não o bem funcional e subjetivo da 'felicidade'. O princípio hedonista é perigoso entrave na procura da perfeição cristã. Quem visa direta e principalmente 'salvar sua alma' ou ganhar 'a felicidade eterna', faz de Deus um meio para um fim egocêntrico. O egoísmo é planta viçosa que também vinga nos ambientes onde se procura a perfeição religiosa. É trepadeira que tudo cobre: o próprio Deus pode ficar irreconhecível sob a folhagem do egocentrismo espiritual. O Deus de infinita majestade torna-se então o 'meu' Deus, um Deus segundo as 'minhas' idéias e 'minhas' necessidades; um Deus funcional: 'meu' empregado para tudo, 'meu' auxílio em todas as aflições e afinal 'minha' recompensa, 'minha' felicidade eterna. Só poda impiedosa na floresta tropical dos adjetivos possessivos, libertará o homem de si mesmo, da profunda introversão e do egoísmo arraigado. 'Quem quiser guardar a sua alma, perdê-la-á', diz Jesus; 'mas quem a perder, (quem perder a si mesmo de vista) por meu amor, salvá-la-á.' (Lc 9,24)"

Frei Valfredo Tepe, O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 94-95.

O Natal está chegando. Preparemo-nos!


"O amigo se alegra em ouvir a voz do Esposo", falou S. João Batista, este que, anos antes, tinha vibrado no ventre de Isabel ao pressentir a presença do Cristo através da saudação de Maria. Este "salto" faz lembrar de perto a esposa dos cantares: "meu Amado passou a mão na fechadura da porta, e minha alma estremeceu." O Natal está chegando. O Esposo está vindo. Que Ele nos conceda estremecer na Sua vinda. Que Ele nos dê um coração de Simeão, que vive apenas para vê-Lo. Este santo tremor faz ainda lembrar do Pentecostes, quando o Espírito Santo, vindo do alto céu como vento impetuoso, prepara os Apóstolos para a consumação da união divina. Neste natal, estejamos com o coração preparado, esvaziado de si e pleno da Graça. Confessemo-nos, portanto, para que a nossa alma esteja em condições de percebê-Lo quando se avizinha, e possa estremecer de amor. É pela Graça que poderemos nos alegrar ao ouvir a voz do Esposo que, como infante, rompe em choro na escuridão do mundo. É por estar plena de Graça que Maria pode dizer: "minha alma se alegra em Deus." Que Deus seja a nossa alegria e, para isso, purifiquemos o coração pela Confissão.

"Não sei, Senhor, a hora em que vireis. (...) Mas o coração puro de longe, Senhor, Vos perceberá." Santa Faustina

Finados e Indulgência Plenária para as almas


“A indulgência retira as penas das almas do purgatório”

Prof. Felipe Aquino

No Dia de Finados, “aos que visitarem o cemitério e rezarem, mesmo só mentalmente, pelos defuntos, concede-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos. Diariamente, do dia 1º ao dia 8 de novembro, nas condições costumeiras, isto é, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice; nos restantes dias do ano, Indulgência Parcial (Encher. Indulgentiarum, n.13)”.

“Ainda neste dia, em todas as igrejas, oratórios públicos ou semi-públicos, igualmente lucra-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos; a obra que se prescreve é a piedosa visitação à igreja, durante a qual se deve rezar o Pai-nosso e Creio, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração na intenção do Sumo Pontífice (que pode ser um Pai Nosso e Ave-Maria, ou qualquer outra oração conforme inspirar a piedade e devoção).” (pg. 462 do Diretório Litúrgico da CNBB).

Mas, afinal, o que é indulgência? Para falar deste assunto tão comentado pelos fiéis da Igreja Católica, durante o Dia de Finados, o cancaonova.com conversou com o professor Felipe Aquino.

cancaonova.com: O que é indulgência?

Felipe Aquino: A indulgência é o cancelamento das penas devidas pelos pecados que nós cometemos e que já foram perdoados na confissão. Mas é preciso explicar uma coisa: quando se comete um pecado grave, há duas consequências: a culpa e a pena. A culpa é aquela ofensa que se faz a Deus e a confissão perdoa. No entanto, ainda fica a chamada ‘pena temporal’, que é o estrago causado pelo pecado na sua própria alma, porque você deixou de ser mais santo. Então, há de querer recuperar isso. Essa pena nós cumprimos aqui na terra com orações e penitências ou no purgatório, se a pessoa morrer com elas.

A indulgência retira essas penas das almas do purgatório; elas fazem aquilo que nós chamamos de sufrágio da alma.

cancaonova.com: A indulgência é do tempo de Jesus ou uma criação do Papa?

Felipe Aquino: A indulgência é uma descoberta da Igreja, mas que, evidentemente, está no coração de Jesus. Ele não ensinou todas as coisas para Igreja, mas deixou que o Espírito Santo fosse as ensinando. Tanto é que, na Santa Ceia, Ele disse para os apóstolos: “Eu ainda tenho muitas coisas para ensinar, mas vocês não estão preparados para ouvir agora. Quando vier o Espírito Santo ensinar-vos-á todas as coisas ” (Jo 16,12). O Espírito de Deus, então, foi ensinando para a Igreja, nesses 2 mil anos, e as indulgências começaram logo nos primeiros séculos. Ela foi aprovada pela Igreja e pelos papas até hoje, mas, evidentemente, está tudo no coração de Jesus.

cancaonova.com: Há diferentes tipos de indulgências?

Felipe Aquino: Há dois tipos de indulgências: a plenária e a parcial. A indulgência parcial é aquela que nós conseguimos para uma alma do purgatório, e ela fica aliviada de parte de suas penas. Na indulgência plenária, a alma fica aliviada de todas as suas penas, ou seja, dali, ela vai para o céu.

‘Cumprindo-se 4 exigências, pode-se ganhar uma indulgência plenária a cada dia’

cancaonova.com: Podemos fazer as indulgências em qualquer época do ano?

Felipe Aquino: Sim. Podemos ganhá-las todos os dias para a nossa alma ou para uma alma do purgatório. Basta fazer uma boa confissão, participar da Eucaristia, rezar pelo o Papa pelo menos um Pai Nosso e uma Ave-Maria. Depois, fazer uma das quatro coisas que eu vou dizer agora: fazer meia hora de adoração ao Santíssimo Sacramento, meia hora de leitura bíblica meditada, a via-sacra na Igreja, ou rezar um terço em família ou na comunidade diante de um oratório com a imagem de Nossa Senhora. Cumprindo essas 4 exigências, a pessoa pode ganhar uma indulgência plenária a cada dia, uma vez por dia e para cada alma.

cancaonova.com: Podemos oferecê-la para alguém? Qualquer alma pode recebê-las?

Felipe Aquino: Podemos oferecer para qualquer alma do purgatório ou para nossa própria alma. A condição é essa, que a alma esteja no purgatório.

cancaonova.com: Se eu ofereço a indulgência para alguma alma, preciso continuar rezando por ela?

Felipe Aquino: Se você quiser, continua rezando, mas se cumpriu as quatro exigências para a alma conseguir a indulgência, pronto. Agora, se você quiser continuar rezando mais, pode.

cancaonova.com: Se eu rezo por alguma alma, mas ela já está no céu ou no inferno, minhas orações são em vão?

Felipe Aquino: Não são. Todas as orações pertencem à comunhão dos santos, que é a união da Igreja que está na Terra, no Céu e no Purgatório. Qualquer oração, se não beneficia a Igreja padecente no purgatório, pode beneficiar a Igreja militante na Terra.

cancaonova.com: E quanto às crianças que faleceram, também necessitam de nossas orações?

Felipe Aquino: Recentemente, o Papa Bento XVI colocou essa questão bem clara; ele pediu, inclusive, para a Comissão Teológica Internacional do Vaticano estudar a questão. Eles foram bem claros: a criança que morre sem o batismo está salva, vai para o céu. Mas a Igreja recomenda que se reze por essa criança.

Saborear a cruz - S. Rafael Arnaiz Baron, monge trapista

A cruz de Cristo! Que mais posso dizer? Não sei orar, não sei o que é ser bom, não tenho espírito religioso, pois estou cheio do mundo. Só sei uma coisa, uma coisa que enche a minha alma de alegria, apesar de me ver tão pobre de virtudes e tão rico em misérias; sei apenas que tenho um tesouro que não trocaria por nada nem por ninguém: a minha cruz, a cruz de Jesus, essa cruz que é o meu único repouso. Como explicar isto? Quem não experimentou, não pode sequer suspeitar do que se trata.

Ah, se todos os homens amassem a cruz de Cristo! Se o mundo soubesse o que é abraçar plenamente, verdadeiramente, sem reservas, em loucura de amor, a cruz de Cristo! Tanto tempo perdido em conversas, devoções e exercícios que são santos e bons, mas que não são a cruz de Jesus, não são o que há de melhor.

Pobre homem que não prestas para nada, que não serves para nada, que arrastas a tua vida, seguindo como podes as austeridades da regra, contentando-te em esconder no silêncio os teus ardores: ama até à loucura o que o mundo despreza por não conhecer, adora em silêncio essa cruz, que é o teu tesouro, sem que ninguém se aperceba. Medita em silêncio diante dela nas grandezas de Deus, nas maravilhas de Maria, nas misérias do homem. Prossegue a tua vida sempre em silêncio, amando, adorando e unindo-te à cruz. Que queres mais? Saboreia a cruz, como disse hoje de manhã o senhor bispo. Saborear a cruz!

in Escritos espirituais, 03/IV/1938

Fonte: Senza Pagare

"De amor está se abrasando o que nasceu tiritando"


Nos dias que correm, temos o péssimo hábito de reduzir o existente ao percebido. Isso decorre de certas filosofias modernas que não convém trazer, aqui, à tona. Contudo, embora o homem comum, não versado nesses assuntos, tenda a concordar com a idéia, ela não resiste a um exame mais detido. Quando uma pessoa diz, por exemplo, que não acredita em Ets porque nunca os viu, ela está usando um argumento que, se levado a sério, a faria descrer de Deus. E, no mais comum das vezes, a pessoa que faz esses juízos é teísta.

Essas teorias, ainda quando não venham à margem da consciência, costumam influenciar o nosso modo de ver as coisas. Quem de nós nunca supôs adivinhar a disposição divina para conosco a partir do estado atual da nossa consciência e daquilo que percebemos em nós? Às vezes, uma pessoa angustiada porque errou tende a projetar essa auto-imagem que ela tem em Deus, e, então, supõe, a partir da sua autoconsciência, que Deus está tendo o mesmo tipo de atitude que ela tem consigo mesma. O contrário também ocorre: se fazemos atos bons, segundo os nossos critérios, a nossa tendência é supor que Deus também os considera tais. Contudo, isso tudo é muitíssimo frágil. Por que razão Deus adotaria a mesma reação que nós? Que tipos de garantia disso nós temos? Nenhuma... Se duas consciências humanas tendem a discordar na avaliação de fatos simples, imagine o que não acontece com duas consciências totalmente distintas como o são a nossa e a de Deus? Ele mesmo disse: "os meus pensamentos estão tão acima dos vosso pensamentos como o céu dista da terra."

A nossa percepção do mundo e até de nós mesmos é geralmente muito limitada. Há coisas que se passam no íntimo da nossa alma e que nos escapam mais ou menos completamente. É possível ir tomando consciência desses conteúdos, mas isso não se faz senão a partir de esforços, angústias e disciplina. Quando tratamos de Deus, então, ficamos sem muito apoio além daquilo que Ele mesmo revelou de Si. Como Deus é onisciente, é natural que as reações divinas sejam absolutamente não previsíveis por seres como nós que não conhecem quase nada. São João da Cruz, neste sentido, afirmava que não temos a mais mínima condição de saber se Deus está contente com a nossa ação. É claro que, se vivemos em pecados, podemos supor que Deus esteja desagradado de nós. No entanto, não saberemos a intensidade disso. Se, pelo contrário, julgamos estar vivendo bem, nem por isso podemos supor que Deus esteja feliz, pois vaidades, orgulho, auto-suficiência e outras realidades similares costumam esconder-se por trás das nossas ações e auto-imagem. Uma pessoa, por exemplo, que diz que não costuma pecar demonstra não possuir um grau mínimo de autoconsciência. Alguém que julgue que o Céu já lhe está devido, também não se entende sequer superficialmente. Esta inconsciência de si deve ser retirada aos poucos a partir da introspecção, orações e exercícios espirituais. Do contrário, quando ela for retirada bruscamente, por ocasião da morte, o estado mais provável do sujeito será o desespero, que é a causa de condenação de muitos, segundo o que Deus revelou a Santa Catarina de Sena.

As consequências do que foi dito até aqui são as de que nós podemos julgar Deus distante e acontecer de, na verdade, ele estar mais perto do que nunca. O contrário também pode ocorrer: afirmamos até sentir o toque divino e, na realidade, pode ser que não estejamos fazendo mais do que uma autoludibriação, enquanto Deus mantém-se "distante". Lembremos daqueles sujeitos que se surpreendem ao verem-se condenados: "Mas, Senhor, nós pregamos em teu nome e até expulsamos demônios!", isto é, "julgamos que estivesses felizes conosco e que nos fosses favorável". Contudo, a realidade foi bem outra: "afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade".

As realidades divinas, assim, não devem ser julgadas segundo critérios subjetivos. Não é o bem estar psicológico que será o sinal da que estamos concordes com Deus. 

Dito isto, podemos entrar no assunto específico deste texto. A frase que o encabeça procede de Sta Teresa D'Avila, e tentarei aqui fornecer alguma luz para compreendê-la. Comecemos pelo final:

Tiritar é um verbo que significa "tremer de frio". Naturalmente, este é um estado anormal para uma pessoa e que pede remediação. Teresa nos diz, no entanto, que esse sujeito de que ela fala nasceu tiritando, isto é, veio ao mundo já desprovido do seu estado de normalidade. O "nascer" aqui significa "vir à existência". O "tiritar" indica a ausência de um calor espiritual, que é a Graça santificante. Todos nós nascemos no estado de Pecado Mortal que, desde Adão, é-nos transmitido por herança. Assim como os primeiros pais viram-se nus depois da desobediência, todos nós nascemos neste estado de nudez, pelo que trememos de frio.

Ao mesmo tempo, Teresa indica a natureza deste frio: oposto ao abrasamento do amor, o frio é, naturalmente, a falta do amor. Sabemos que os seres humanos nascem com a capacidade de amar. Ainda que reduzida por este frio, que nos limita a expansão, esta faculdade nos está preservada. O amor, então, de que se fala não pode ser o mero amor natural. Na verdade, este fogo é o amor sobrenatural de Deus através do qual nos tornamos um só com Ele. A este amor sobrenatural a Igreja chama "virtude teologal da caridade", que nos vem junto com a Graça santificante. É este amor que nos une a Deus. Sem Ele, portanto, estamos afastados do Cristo - O frio também indica o estado de solidão, de não estarmos numa relação amorosa com Deus -. Este afastamento não será objeto claro da consciência; dito de outro modo, o frio ou o calor de que aqui se fala não são precisamente perceptíveis, pelo menos não no seu estado inicial, ainda que, a depender da intensidade dessas realidades, algo delas irrompa no nível da consciência.

Este amor, nós recebemos depois do nascimento, pelo batismo. É então que somos abrasados e rompemos as distâncias entre nós e Deus. Este abrasamento perseverará enquanto não houver pecado mortal, que só se torna possível já na idade da razão. Desse modo, uma criança batizada e que seja educada nos sacramentos terá tempo e ocasião de permitir crescer nela, de modo bastante considerável, a realidade da Graça. Gosto de comparar esta realidade a um Sol que é posto na alma. Não é uma mera disposição psicológica, mas uma realidade concreta. Este fogo celeste, assim como o fogo natural, possui duas propriedades: iluminar e aquecer. A primeira delas diz respeito à inteligência, e facilita a compreensão da verdade como um todo e, de modo particular, das verdades da Fé; a segunda propriedade se dirige à vontade, e torna-a capaz de amar com mais largueza, força e constância, pois é participação no amor de Deus.

Reiteramos: estas realidades escapam às distinções da percepção humana. Ninguém vai, a princípio, flagrar a Graça dentro de si. Mesmo nas confissões sacramentais, onde a mudança que ocorre, de tão brusca, excede a criação do universo material, em geral há pouca ou nenhuma consciência da mudança na alma, e, quando há, isto pode ser meramente o alívio psicológico natural de ter partilhado a notícia de "crimes" pessoais com o sacerdote. A Graça pode intensificar este alívio psicológico; no entanto, não é possível, em geral, ter uma precisão muito clara dos efeitos naturais e sobrenaturais, aí. E isto deve ser assim, pois usar critérios sensíveis para a mensuração daquilo que, em essência, não é sensível já é, por si só, algo carecente de sentido.

"Os sentidos humanos são tão experientes das coisas espirituais como um jumento o é das coisas racionais." São João da Cruz

Quando a Graça se estabelece na alma, ela começa a irradiar e comunicar uma qualidade divina a todos os atos de intelecção e de vontade, de modo que o ser humano, sobrenaturalizado, operando de certo modo a nível divino, pois participa da natureza de Deus, vai sendo, mais e mais, transformado em Deus, ou deificado. Vai abrasando-se naquele fogo infinito do amor de Deus e tornando-se mais e mais incandescente. Conforme a força do amor cresça, então o caráter sobrenatural deste ímpeto vai dando-se a perceber. E, como Deus é amor infinito, o ser humano que progrida no estado de santidade não terá limites na sua capacidade de amar, de modo que é possível que o amor, quando muito crescido, se torne uma aflição para o estado humano atual. Nestes casos, costumam acontecer as estigmatizações ou transverberações. No entanto, ninguém se engane em pensar que chegará aí do dia para a noite. Para abrasar-se a este nível, é necessário muita coragem e doação de si; os sofrimentos interiores são imensíssimos e o autoconhecimento deverá ser, permitam-me, "profundamente aprofundado". No entanto, desde o batismo e, aos já crescidos, desde a última confissão e enquanto não houver pecado mortal, estaremos abrasados neste amor. Não há frio na alma, pois arde nela, com divinas chispas, o Sol do amor absoluto.

Dia de São Francisco de Assis, nosso Pai Seráfico.


Hoje, 4 de outubro de 2014, é dia de São Francisco de Assis, e, nesta época de crise generalizada, mesmo as grandes figuras da Igreja terminam sendo distorcidas e instrumentalizadas para fins ideológicos. Dentre estes, o que mais sofreu com deformações foi sem dúvida o Poverello.

Se o leitor é um católico comum, que aprende religião nos meios ordinários de catequeses e homilias, é quase que certo que você tem uma idéia equivocada de Francisco. Na verdade, ele não é um hippie. Também não é verdade que ele se opôs à dita pompa da Igreja. A oração comumente atribuída a ele - Senhor, fazei-me instrumento... - tampouco é dele. Também não tem muito sentido dizer que Francisco tinha preocupações ecológicas. O lobo de Gubbio também é um conto mítico, embora seja de fato belo, etc, etc.

Como se pode ver, Francisco não foi o que se conta. Essa imagem natureba e hiponga que fizeram dele é, na verdade, um constructo tão real quanto o Goku. Quem foi São Francisco, então?

Ele era mais duro do que se pensa, embora também fosse profundamento terno. Extremamente rigoroso com relação às regras e materiais litúrgicos; rigoroso também nas suas palavras e nos seus hábitos. Francisco acostumou-se a uma mortificação extrema, ao ponto de raramente comer algo que fosse considerado de fato aproveitável por uma pessoa moderna. Quando a comida era fresca e boa, ele costumava misturar-lhe cinzas. As duras mortificações de Francisco, os seus olhos fundos de chorar, etc., não seriam qualidades apreciadas pelos católicos paz e amor de hoje, acostumados com padres galãs e cantores. Francisco, se vivesse entre nós, seria antes confundido com um desses intolerantes dogmáticos, pois, de fato, ele era assim.

Francisco não pode também ser aclamado com padroeiro dos coelhos, formigas e cogumelos. Na verdade, ele é o santo do Crucificado. Esta era a única coisa que ele dizia saber: Cristo crucificado. Inimigo do politicamente correto, dizia querer encher a boca do demônio de fezes, e pedia para lhe pisarem - a ele mesmo - na boca, acusando-o de falta de humildade.

Suas orações, jejuns e rigores, no entanto, não lhe impediam a alegria, é verdade; antes, eram causas dela, de uma alegria verdadeira e tão extasiante que fazia eco daquela promessa: "que a Minha alegria esteja em vós, e que seja plena"; mas esta alegria não era isenta de gravidade. 

Que Francisco tenha sido um mistério, ele mesmo o diz: "infeliz o homem que não tem segredos com o seu Senhor." O pouco que sabemos sobre suas orações vem de irmãos "espiões" que, sem permissão, iam olhá-lo nos seus momentos de intimidade com Deus e não raro viam-no levitar, ou comunicar-se com estranhas luzes, ou ainda estar acompanhado de multidões de santos e anjos.

Sua identificação com o Cristo foi tanta que ele recebeu, literalmente, as marcas da Paixão. Seu despojamento foi tanto que ele quis morrer nu, no chão. Seu amor a Deus foi tão violento que ele chamou a morte de irmã, e pediu perdão ao irmão corpo por ter sido tão duro com ele; até hoje sentimos a força daquele amor que abalou o mundo e fez São João Paulo II dizer: "Francisco, o mundo tem saudades de ti".

Que São Francisco de Assis, esposo fidelíssimo da Dama Pobreza, imitador perfeito do Cristo Crucificado, interceda por nós nestes tempos tão difíceis, e nos conceda de Deus a graça de o imitarmos com o coração decidido e o espírito resoluto.

Francisco de Assis, rogai por nós.

Jesus pergunta a Sta Teresa: "Sabes o que é amar-me de verdade?"


Certa vez enquanto fazia oração, senti-me invadida por uma felicidade muito íntima. Todavia considerando-me indigna de tal favor, comecei a pensar que merecia, com maior razão, estar naquele lugar que me estava destinado no inferno. O modo pelo qual nele me vi nunca me sai da memória. Com esta consideração, minha alma começou a inflamar-se mais. Sobreveio-me um arrebatamento de espírito que não sei descrever. Parecia-me estar imersa e repleta daquela majestade que já de outras vezes tenho entendido.

Nessa majestade compreendi uma verdade que é a plenitude de todas as verdades. Não sei dizer como, porque nada vi. Disseram-me - não sei quem, mas bem entendi ser a mesma Verdade: "Não é pouco isto que faço por ti: é uma das maiores graças de que me és devedora. Todo dano que vem ao mundo é porque os homens não conhecem com clareza as verdades da Escritura, da qual nem um til se deixará de cumprir."

Veio-me ao pensamento que sempre o havia crido e que todos os fiéis o crêem. O Senhor voltou a dizer-me: "Filha, quão poucos me amam verdadeiramente. Se me amassem, não lhes encobriria meus segredos. Sabes o que é amar-me de verdade? É compreender que tudo quanto não me agrada é mentira. Claramente verás isto, pelo fruto que sentirás em tua alma e que agora não entendes!"

Assim tem acontecido, Deus seja louvado! Desde então tudo que vejo não ir endereçado ao serviço de Deus, de tal modo me parece vaidade e mentira, que não saberia exprimir até que ponto o entendo. Que lástima sinto pelos que vivem em trevas acerca desta verdade!

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida, Cap. 40, n.1-2.

É suficiente a disposição natural de amar a Deus?


Todos sabem que para nós, cristãos, o grande mandamento é amar a Deus; o segundo, que é semelhante ao primeiro, é amar ao próximo.

Ora, dizemos que, a respeito deste duplo dever, o naturalismo lança as almas em ilusões muito funestas.

Deus que nos criou pôs no fundo da nossa natureza uma inclinação invencível para amar o bem em geral. E como Deus é o soberano Bem, o único Bem das almas, as almas, naturalmente, devem se voltar para Deus. Todo homem que pensa e medita no Autor de seu ser, sente-se naturalmente voltado para ele. É um dever ao mesmo tempo de justiça e gratidão. E as noções de justiça e gratidão têm sobre nós um poder tão grande que não podemos nos furtar desse dever e é sempre honroso cumprir deveres fundados em tão autênticos títulos. 

Sem o pecado original, a natureza se voltaria diretamente para seu Criador. Mas a ignorância e a concupiscência, frutos infelizes da queda original, fazem com que, muitas vezes, a alma pare diante de bens passageiros, se distraia e se acostume a amar ninharias em lugar de elevar seu amor até a fonte de seu ser.

Mesmo nesse estado de queda a lei de Deus permanece: Amarás o Senhor teu Deus. E a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo nos torna possível, fácil e doce a observação do grande mandamento.

O mal é que, com frequência, depois de ter perdido a graça, depois de ter decaído da caridade, como continua a encontrar em si o amor do bem em geral, a inclinação natural para amar a Deus, as pessoas se contentam com estas disposições, e crêem estar quites com Deus. Estão em pecado mortal, mas, como as inclinações naturais de amar a Deus, de amar o bem em geral, permanecem no fundo da alma, tomam estas disposições naturais, comuns a todos os homens, por disposições pessoais, como se fosse seu estado particular diante de Deus. Este estado, diante de Deus, é de pecado mortal, mas não percebem: as inclinações naturais ficam, são percebidas, contentam-se com elas e se induzem a crer que Deus se contentará também. Dizem para si mesmas: Não quero mal a Deus, sei que Ele é bom; sou inclinado a amá-Lo; como Deus poderia me querer mal se eu lho quero? Seria pior do que eu?

Aqui está, vista no fato, a grande ilusão cuja raiz é o naturalismo. Quantas pobres almas negligenciam os deveres mais essenciais do cristianismo, vivem sem a graça santificante, sem Nosso Senhor Jesus Cristo e, no entanto, afirmam que amam muito a Deus!

Lembram-nos um infeliz que pôs fim a seus dias, e antes de cometer seu irremediável crime, escreveu um adeus à sua família e nesse escrito, afirmava seu amor por Deus!

É evidente que ele tomava a inclinação natural de amar a Deus, que todos nós temos, por sua disposição pessoal, que não podia ser mais contrária ao amor de Deus!

Pe. Emmanuel-André. O naturalismo. Ed. Permanência, 2014. p. 17-18.

O Primeiro Grau de Oração - Parte 1


Sta Teresa D'Avila

Em terreno onde brotam muitas ervas más, o principiante imagine que vai plantar um jardim, onde o Senhor possa deleitar-se. Sua Majestade arranca as ervas más e vai plantando as boas. Suponhamos que isto já esteja feito quando a alma se resolve a ter oração. e nela começa a se exercitar. Com o auxílio de Deus, e como bons jardineiros, devemos procurar que cresçam as plantas, cuidando de as regar para que dêem flores de perfume suavíssimo, a fim de deliciar a esse Senhor nosso. Assim, ele virá muitas vezes deleitar-se em nosso jardim e espairecer entre as virtudes.

Vejamos de quantas maneiras se pode regar para sabermos o que fazer, o trabalho que nos há de custar, calcular se o esforço é maior do que o lucro, e o tempo que levará. Parece-me haver quatro modos de regar: o primeiro é apanhar água a baldes num poço, com grande trabalho. O segundo é tirá-la mediante nora e alcatruzes movidos por um torno (assim o fiz algumas vezes), o que cansa menos e dá mais água. O terceiro é trazê-la de algum rio ou arroio, e por este meio se rega muito melhor, o jardineiro tem menos trabalho, a terra fica bem molhada e não é necessário regar tantas vezes. O quarto é por chuvas frequentes e copiosas, modo incomparavelmente melhor que tudo que ficou dito. É então o Senhor quem rega, sem nenhum trabalho nosso.

Conforme o meu intento, apliquemos agora à oração essas quatro formas de regar com as quais se há de conservar o jardim, pois sem ser irrigado, perecerá. Por esta comparação creio poder explicar quatro graus de oração em que o Senhor, por sua bondade, tem posto algumas vezes minha alma. Praza a Sua Clemência, consiga eu dizê-lo de modo a aproveitar a uma das pessoas que me mandaram escrever (...).

Dos que começam a ter oração, podemos dizer que são os que tiram água do poço com baldes. É muito penoso, porque se cansam em recolher os sentidos e, como estão acostumados a andar distraídos, têm não pequeno trabalho. Cumpre irem-se habituando a não se importar com o que vêem ou ouvem. É preciso que assim façam efetivamente nas horas de oração, buscando soledade, e pensando, apartados de tudo, em sua vida passada. Isto, aliás, todos o devem fazer com frequência, tanto os que começam como os que já estão no fim do caminho, insistindo mais ou menos, como depois direi. Os principiantes ainda sofrem no início, porque julgam não se arrepender suficientemente de seus pecados. Contudo seu arrependimento é sincero, visto estarem realmente determinados a servir a Deus. Procurem ocupar-se da vida de Cristo, e nesta meditação a mente se cansa.

Até aqui podemos chegar por nós mesmos. Bem entendido com o favor de Deus, pois sem este, já se sabe, não conseguimos sequer ter um bom pensamento. Isto é começar a tirar água do poço a baldes,  e praza a Deus, não esteja seco! Ao menos fazemos o que é de nossa parte, indo apanhar água e empregando os meios ao nosso alcance para regar as flores. Deus pode permitir que o poço esteja seco por motivos que só ele conhece, e sempre é para nosso maior proveito espiritual. Se fizermos, porém, como bons jardineiros o que está em nossas mãos, ele, sendo tão bom, sustentará as flores e fará crescer as virtudes, mesmo sem água. Chamo água às lágrimas, e na falta delas, refiro-me à ternura e ao sentimento interior de devoção.

Neste ponto, o que fará quem, após muitos dias de trabalho, só acha secura, desgosto, dissabor, tédio de ir tirar água? Deixaria tudo se não fosse, por um lado, a lembrança de que presta serviço e dá prazer ao Senhor do jardim, e, por outro, o receio de perder todo o serviço passado, além da recompensa que espera ganhar pelo grande trabalho de lançar muitas vezes o caldeiro ao poço e tirá-lo sem água.

Acontecerá frequentemente que nem poderá levantar os braços, isto é, nem conseguirá formular um bom pensamento, porque este trabalhar com o intelecto - fique entendido - é tirar a água do poço. Digo pois: que deverá fazer aqui o jardineiro? Alegrar-se, consolar-se e ter por enorme favor trabalhar em jardim de tão grande Imperador. Sabe que com isto dá prazer ao Senhor, e não é seu intento contentar-se a si, senão a ele. Louve-o muito e entenda que Sua Majestade lhe mostra confiança vendo que, sem paga nem jornal, tem tão grande cuidado do que lhe encomendou. Ajude-o a levar a cruz e pense que durante toda a vida o Senhor viveu nela.

Não procure seu reino aqui na terra, e jamais abandone a oração. Determine-se a permanecer toda a vida nessa aridez, e não deixe Cristo cair sozinho sob o peso da cruz. Tempo virá em que tudo lhe será pago de uma só vez. Não tenha medo de que se perca seu trabalho; serve a bom patrão, que o está olhando. Não faça caso de maus pensamentos. Lembre-se de que também o demônio os representava a são Jerônimo no deserto.

Tais trabalhos têm seu valor, bem o seu, como quem os passou durante muitos anos. Quando me acontecia tirar uma gota de água desse bendito poço, pensava que Deus me fazia favor. Sei quão penosos são esses trabalhos, e, a meu ver, para superá-los é preciso mais coragem do que para enfrentar muitas outras dificuldades do mundo. Mas também tenho visto claramente que Deus não os deixa sem grande prêmio ainda nesta vida. É certo, em uma só das horas nas quais o Senhor me permitiu alegrar-me nele, considero recompensadas todas as angústias que por muito tempo passei, a fim de perseverar na oração.

Tenho para mim que o Senhor envia esses tormentos e várias outras tentações que se apresentam - muitas vezes no início e outras no fim - para pôr a prova os que o amam, e verificar se poderão beber o cálice e ajudá-lo a carregar a cruz, antes de confiar-lhes grandes tesouros. E acredito que, para nosso bem, Sua Majestade quer conduzir-nos deste modo a fim de compreendermos o pouco que somos. Com efeito, tem reservadas para nós graças de tão alta dignidade, que, antes de as dar, deseja que vejamos por experiência nossa miséria, para não nos acontecer o mesmo que a Lúcifer.

Que fazeis vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da alma que sabeis já ser vossa, pois entrega-se a vosso poder, resolvida a seguir-vos por onde fordes, até à morte de Cruz, com a determinação de vos ajudar a levá-la e de não vos deixar sozinho com ela? Quem vir em si tal determinação, nada, nada tem a temer! Gente espiritual não tem de que se afligir. Quem já está elevado a tão alto grau, de querer tratar a sós com Deus e deixar os passatempos do mundo, creia que a maior parte está feita.Louve a Sua Majestade. Confie em sua bondade, porque jamais faltou a seus amigos.

Feche os olhos da imaginação, e não fique pensando: por que dá devoção àquele em tão poucos dias, e a mim a nega em tantos anos? Creiamos que tudo é para nosso maior bem. Leve-nos Sua Majestade por onde e como quiser. Não somos nossos, mas seus. Bastante favor nos mostra em dar-nos disposição para cavarmos um jardim onde é Senhor, e trabalharmos junto dele, pois certamente está conosco.

Se permite que vicejem essas plantas e cresçam essas flores, dando a umas água tirada do poço, e a outras nenhuma, - o que tenho eu a ver? Fazei vós, Senhor, o que quiserdes, contanto que eu não vos ofenda, nem se percam as virtudes que já me destes, só por vossa bondade. Quero padecer, Senhor, pois vós padecestes. Cumpra-se em mim de todas as maneiras vossa vontade e praza a Vossa Majestade que algo de tanto preço como vosso amor não seja dado a gente que vos sirva só para ter consolações.

É muito de se notar, e assim digo porque o sei por experiência: a alma que nesta via da oração começa decididamente e consegue resolver-se a não fazer caso de aridez, quando lhe faltam delícias e ternuras, ou de consolação quando lha dá o Senhor, já tem andado grande parte do caminho. Não tenha medo de voltar atrás por mais que tropece, poque o edifício está assentado em firmes alicerces. Sim, o amor de Deus não consiste em ter lágrimas, nem tão pouco nesses gostos e ternuras que geralmente desejamos e com os quais nos consolamos, mas em servir a Deus com justiça, fortaleza de ânimo e humildade. O ter gostos mais me parece receber do que dar.

Para mulherzinhas como eu, fracas e inconstantes, acho conveniente que Deus as conduza com suavidades, como agora faz comigo para que possa sofrer alguns trabalhos conforme Sua Majestade dispôs que me sobreviessem. Mas servos de Deus, homens de valor, de estudos, de inteligência, dá-me desgosto vê-los preocupados e queixosos de que Deus não lhes concede devoção - como tenho ouvido. Não digo que não a aceitem e tenham em muita conta quando Deus a der, porque então Sua Majestade terá visto ser conveniente para eles. Quando, porém, não a tiverem, não se aflijam. Entendam que não lhes é necessária. Quando Sua Majestade a nega, andem senhores de si. Tenho visto e experimentado. Creio que é imperfeição não andar com liberdade de espírito e é enfraquecer-se com ânimo irresoluto para qualquer acometimento.

Nisto não me refiro tanto aos principiantes, ainda que muito insista com eles neste ponto. Importa muito começarem com essa liberdade e determinação. Falo principalmente para outros, pois haverá muitos que começaram de longa data e não conseguem sair do princípio, devido em grande parte - creio - a não abraçarem a cruz desde o início. Por esta razão andam aflitos, julgando que nada fazem. Não podem suportar se o intelecto deixa de trabalhar, mas a vontade se robustece e cobra forças, embora não o percebam.

Convençamo-nos de que o Senhor não apura estas coisas, que nos parecem faltas e não o são. Melhor do que nós, conhece nossa miséria e baixeza naturais, e sabe que estas almas já desejam amá-lo e pensar sempre nele. Esta resolução, eis o que o Senhor quer. No mais, a aflição que nos acabrunha só serve para inquietar a alma. Se está incapaz de tirar fruto durante uma hora, ficará na mesma quatro horas.

Muitas vezes tudo provém de indisposição corporal. Tendo disto grande experiência e sei que é verdade, pois o tenho considerado atentamente e consultado em seguida pessoas espirituais. Somos tão miseráveis que esta encarceradinha, que é nossa alma, participa das misérias do corpo. As mudanças de tempo e as variações dos humores fazem muitas vezes que, sem culpa sua, ela não possa realizar o que quer e padeça de todos os modos. Em tais condições, quanto mais lhe fazem violência, tanto mais dura o mal. É preciso discrição para ver quando é o caso, en ão atormentar a pobrezinha. Entendam que estão doentes; mudem a hora da oração, e às vezes será necessário que assim façam durante alguns dias. Passem este desterro como puderem. É bastante desventura, para a alma, que ama a Deus, ver-se tão miserável nesta vida. Não faz o que quer, pois tem tão mau hóspede como é o corpo.

Repito: é necessário ir com discrição, porque em algumas ocasiões será obra do demônio. É bom nem sempre deixar a oração quando o intelecto está muito distraído e perturbado, e nem sempre atormentar a alma obrigando-a ao que está acima de suas forças. Há outras ocupações de obras de caridade e leitura de bons livros, ainda que por vezes nem isto seja possível. Sujeite-se então a servir o corpo, por amor de Deus, para que ele muitas outras vezes sirva à alma. Tome alguns passatempos santos de conversações virtuosas, ou vá ao campo, conforme o conselho do confessor. Em tudo é grande coisa a experiência, que dá a entender o que nos convém. Em tudo se serve a Deus. Suave é o seu jugo. É grande sabedoria não trazer a alma arrastada, como se diz, senão levá-la com suavidade, para seu maior aproveitamento.

Torno a avisar, e não importa se eu o repetir muitas vezes, porque é muito importante: por securas, inquietações ou distrações nos pensamentos, ninguém fique atormentado ou aflito. Quem quiser adquirir liberdade de espírito e não andar sempre atribulado, comece por não se espantar com a cruz. Verá como o Senhor ajuda a levá-la. Deste modo viverá contente e tirará proveito de tudo. É claro: se o poço está seco, não podemos nós enchê-lo de água. O importante é que não nos descuidemos de tirá-la assim que a água começar a brotar, porque então Deus já quer por meio dela multiplicar as virtudes.

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida. 11ª Ed. São Paulo: Paulus, 2010. p. 81-87.
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