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A Igreja Católica seria a Prostituta do Apocalipse? - Parte 1


O livro do Apocalipse, que comumente é entendido como referindo-se ao final dos tempos e que tem fecundado o imaginário das pessoas desde que foi escrito, fala, dentre outras coisas, de uma "Prostituta", a quem chama de "Babilônia, a Grande."

Desde então, muitas pessoas têm se questionado sobre a quem João estaria se referindo. Os primeiros cristãos tendiam a identificá-la com a Roma Pagã. Depois, muitos foram também os que a associaram a Jerusalém. Contudo, depois da Reforma Protestante, não faltaram os que viram nela a Igreja Católica. Este artigo tem o intuito de analisar esta última alternativa e ver se ela tem mesmo fundamento.

Antes de começarmos, demos uma olhada no que diz exatamente João a este respeito:

"Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: 'Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas, com a qual se contaminaram os reis da terra. Ela inebriou os habitantes da terra com o vinho da sua luxúria. Transportou-me, então, em espírito ao deserto. Eu vi uma mulher assentada em cima de uma fera escarlate, cheia de nomes blasfematórios, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um nome simbólico: 'Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra.' Vi que a mulher estava ébria do sangue dos mártires de Jesus; e esta visão encheu-e de espanto.
Mas o anjo me disse: 'Por que te admiras? Eu mesmo te vou dizer o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres que a carrega. (...) Aqui se requer uma inteligência penetrante. As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais se assenta a mulher. São também sete reis: cinco já caíram, um subsiste, o outro ainda não veio; e quando vier, deve permanecer pouco tempo. Quanto à Fera que era e já não é, ela mesma é um oitavo (rei). Todavia, é um dos sete e caminha para a perdição. Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam o reino, mas que receberão por um momento poder real com a Fera. (...)
O anjo me disse: "As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas. Os dez chifres que viste, assim como a Fera, odiarão a Prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e a queimarão ao fogo. (...) A mulher que viste é a grande cidade, aquela que reina sobre os reis da terra.

Depois disso, vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo.

Ouvi outra voz do céu e que dizia: 'Meu povo, sai de seu meio para que não participes de seus pecados e não tenhas parte nas suas pragas, porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribui-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos. Pois ela disse no seu coração: estou no trono como rainha, e não viúva, e nunca conhecerei o luto. Por isso, num só dia virão sobre ela as pragas: morte, pranto, fome. Ela será consumida pelo fogo, porque forte é o Senhor que a condenou.

Hão de chorar e lamentar-se por sua casa os reis da terra que com ela se contaminaram e pecaram, quando avistarem a fumaça do seu incêndio. Parados ao longe, de medo de seus tormentos, eles dirão: 'Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução!'

Também os negociantes da terra choram e se lamentam a seu respeito, porque já não há ninguém que lhes compre os carregamentos: carregamento de ouro e prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, bem como de toda espécie de madeira odorífera, objetos de marfim e madeira preciosa; de bronze, ferro e mármore; de cinamomo e essência; de aromas, mirra e incenso; de vinho e óleo, de farinha e trigo, de animais de carga, ovelhas, cavalos e carros, escravos e outros homens. Eis que o bom tempo de tuas paixões animalescas se escoou. Toda a magnificência e todo o brilho se apagaram, e jamais serão reencontrados. Os mercadores destas coisas, que delas se enriqueceram, pararão ao longe, de medo de seus tormentos, e hão de chorar e lamentar-se, dizendo: 'Ai, ai da grande cidade, que se revestia de linho, púrpura e escarlate, toda ornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Num só momento toda essa riqueza foi devastada!'

Todos os pilotos e todos os navegantes, os marinheiros e todos os que trabalhavam no mar paravam ao longe e exclamavam, ao ver a fumaça do incêndio: 'Que havia de comparável a essa grande cidade?' E lançavam pó sobre as cabeças, chorando e lamentando-se com estas palavras: 'Ai, ai da grande cidade, de cuja opulência se enriqueceram todos os que tinham navios no mar. Bastou um momento para ser arrasada!' Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa.

Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: 'Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada. Já não se ouvirá mais em ti o som dos citaristas, dos cantores, dos tocadores de flauta, de trombetas. Nem se encontrará em ti artífice algum de qualquer espécie. Não se ouvirá mais em ti o ruído do moinho, não brilhará mais em ti a luz de lâmpada, não se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa; porque teus mercadores eram senhores do mundo, e todas as nações foram seduzidas por teus malefícios. Foi em ti que se encontrou o sangue dos profetas e dos santos, como também de todos aqueles que foram imolados da terra;

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos.." (Apo 17-19,4)
A citação é um tanto longa, mas é necessária para que peguemos todas as referências a esta entidade. Então resumamos as suas características básicas:

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- É chamada de Grande Meretriz ou Prostituta;
- É chamada de Grande Cidade;
- Se assenta à beira de muitas águas que contaminaram os reis da terra;
- Inebriou os habitantes da terra com o vinho de sua luxúria;
- Está sentada sobre uma fera escarlate, com sete cabeças e dez chifres;
- Está vestida de púrpura e escarlate;
- Está adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas;
- Carrega uma taça de ouro, cheia de abominações e imundícias de sua prostituição;
- Tem escrito na testa o nome de Babilônia, a Grande, mãe das prostituições e abominações da terra;
- Estava ébria com o sangue dos mártires de Jesus;
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O anjo então adverte João de que para compreender o que foi dito, é necessário ter uma inteligência penetrante, o que significa: ninguém queira tratar esses assuntos com vulgaridade e grosseria. Ele passa então a explicar os símbolos:

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- Sete cabeças - Sete montanhas - sete reis
- Dos sete reis - Cinco já caíram, um subsiste, outro ainda não veio; quando vier, fica por pouco tempo;
- O oitavo rei é a Fera; mas é também um dos sete;
- Dez chifres - dez reis que ainda não receberam o reino, mas receberão por um momento poder real com a Fera, o oitavo rei;
- Águas sobre as quais se assenta a Prostituta - povos e multidões, nações e línguas;
- Os dez chifres e a fera odiarão a Prostituta;
- A mulher ou Prostituta - Grande Cidade, a que reina sobre os reis da terra.
- Todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria;
- Os reis da terra pecaram com ela;
- Os marcadores se enriqueceram com o excesso do seu luxo;
- A prostituta se dizia rainha, e não viúva;
- Será consumida pelo fogo;
- Hão de chorar por sua causa os reis e negociantes da terra;
- Ela tinha paixões animalescas;
- Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos;
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Eis aí as características básicas desse ser. Vejamos a quem isso tudo se aplica.

Dissemos das três possibilidades: Roma Pagã, Roma Papal e Jerusalém. Como o propósito deste texto é analisar primeiramente se isso tudo se enquadra na Igreja Católica, comecemos por aqui.

Antes, porém, digamos de uma estratagema comum usado pelos acusadores da Igreja: eles consideram-na uma continuação do Império Romano. Assim, todas as referências do texto que digam respeito inequivocamente à Roma Pagã, eles entenderão como uma confirmação de que se refere à Roma Papal. Veremos também se há, de fato, uma continuidade entre os dois.

A primeira dificuldade aqui é que, mesmo sabendo que o sentido todo é simbólico, conforme o próprio anjo diz, os acusadores da Igreja se valem de uma leitura literal de várias figuras, como, por exemplo, do cálice dourado, das cores púrpura e escarlate, da riqueza, e alguns outros ainda da Prostituição.


É A IGREJA CATÓLICA A PROSTITUTA?



Entendamos, pra começar, o que é esta prostituição de que se fala. Não se trata de impureza sexual, mas de contaminação com o paganismo ou com doutrinas estranhas à estabelecida por Deus. Deus, na Sua relação com Israel, se compara sempre com um esposo a quem Israel, em voltar-se para os ídolos, trata com infidelidade. Por causa disso, Ele sempre acusa Jerusalém de ser uma prostituta (Cf. Jer 13,27).

Isso não é ponto polêmico, pois todo o protestantismo que acusa a Igreja de ser esta entidade aceita esta interpretação. Em seguida, eles costumam atacar a Igreja dizendo que ela se corrompeu com o Império Romano, tornando-se idólatra e ensinando esta idolatria ao mundo. Nisto consistiria a sua prostituição. Mas será que tal se dá?

Quando foi que a Igreja deixou de ter uma relação conflituosa com o Império Romano? Isto ocorre no século IV, quando Constantino fez cessar a perseguição aos cristãos, em 313 d.C. O motivo foi o seguinte: indo para uma guerra contra o seu rival Maxêncio, ele teria visto um sinal no céu: uma Cruz e a inscrição latina "in hoc signo vinces", que significa: "com este sinal, vencerás". De fato, ele vence a batalha, e, por isso, dá aos cristãos, que eram perseguidos desde o primeiro século, liberdade de culto. Porém, somente com o imperador Teodósio I, o cristianismo se tornará a religião oficial do Império, com o Edito de Tessalônica, em 380 d.C.

É importante destacar o seguinte: no século IV, o cristianismo já estava distribuído no mundo todo. Uma grande novidade em termos doutrinais levantaria uma imensa resistência geral. É conveniente relatar também que, por causa de uma matança em Tessalônica a mando de Teodósio, o bispo de Milão - na época, chamada Mediolano -, Santo Ambrósio, o excomungou e escarneceu em público, proibindo-lhe entrada na igreja, ao que Teodósio necessitou fazer longa penitência a fim de poder reaver seu direito como cristão. Vejamos o que diz disso o historiador do Séc. V, Teodoreto de Cirro:


“Tessalônia é uma cidade grande e populosa na província da Macedônia. Por causa da revolta que aconteceu lá, o Imperador [Teodósio] irou-se sobremodo e satisfez seu desejo por vingança desembainhando a espada de maneira injusta e tirânica contra todos – inocentes e culpados. É dito que sete mil pereceram sem qualquer base legal ou sentença judicial, mas que foram todos cortados como espigas de trigo no tempo da colheita.
Quando Ambrósio ouviu falar desta deplorável catástrofe, saiu para se encontrar com o Imperador que, em seu retorno a Milão, desejou, como de costume, entrar na santa igreja. Mas Ambrósio proibiu sua entrada dizendo: ‘Parece que tu não percebes, ó Imperador, o tamanho da tua culpa por um tão grande massacre. Agora que tua fúria foi apaziguada, não vês o tamanho do teu crime? Não se deslumbre com o esplendor da púrpura que tu vestes para que não te esqueças da fraqueza do corpo que ela cobre. Teus súditos, ó Imperador, são da mesma natureza que tu és. E não somente isto. Também são servos como tu és, pois só há um único Senhor e Governador sobre todos, Aquele que é o Criador de todas as criaturas, tanto do príncipe quanto do povo. Como ousas tu olhar para o templo d’Aquele que é o Senhor de todos? Como podes tu erguer as mãos para orar estando mergulhado no sangue de um massacre tão injusto? Vá embora em vez de se tornar ainda mais culpado por um segundo crime’.
O Imperador, que havia sido criado no conhecimento das Sagradas Escrituras e conhecia bem a distinção entre o poder eclesiástico e o poder temporal, se submeteu à censura e, com muitas lágrimas e gemidos, voltou ao seu palácio. O Imperador se trancou em seu palácio e chorou muito. Depois de diversas tentativas sem sucesso de apaziguar Ambrósio, o próprio Teodósio finalmente se encontrou com Ambrósio em particular e implorou por misericórdia dizendo: ‘Eu imploro que, em consideração à misericórdia de Nosso Senhor em comum, me libertes destas cadeias e que não feches a porta que é aberta pelo Senhor para todos que verdadeiramente se arrependem’. Ambrósio estipulou que o Imperador provasse seu arrependimento revogando diversos decretos injustos e especialmente ‘que quando uma sentença de morte ou proscrição fosse assinada contra alguém, deveria haver um espaço de trinta dias antes da execução e, durante esse tempo, o caso deve ser trazido a ti. Isso lhe dará tempo para se acalmar, para que possas pensar sobre o caso com justiça’. O Imperador deu ouvidos ao seu conselho e achou excelente. Ele imediatamente ordenou que a lei fosse elaborada e ele mesmo assinou o documento. Ambrósio, então, o readmitiu a comunhão.

O Imperador, que estava cheio de fé, agora tomou coragem de entrar na santa igreja, na qual ele não orou de pé ou ajoelhado, mas lançou-se ao chão. Ele puxava os cabelos, batia na testa e chorava muito enquanto implorava pelo perdão de Deus. Ambrósio restaurou seu favor, mas o proibiu de entrar no gradil de comunhão, ordenando que seu diácono lhe dissesse: ‘somente os presbíteros, ó Imperador, tem permissão para ultrapassar o gradil de comunhão. Se retire, então, e fique com os outros leigos. A púrpura faz o Imperador, mas não os presbíteros…” Teodósio humildemente obedeceu e elogiou Ambrósio dizendo: “Ambrósio somente merece o título de ‘bispo’“. (História Eclesiástica, V.17-18, Disponível Aqui)

Não contrasta a alegada submissão da Igreja ao Império Romano com o fato aí descrito? Só por este acontecido, largamente reconhecido, pode-se objetar qualquer tipo de suposta subserviência que a Igreja teria tido ao Império. E não convém pensar, também, que Ambrósio fosse o único bispo honesto. Pelo contrário, basta um pouquinho de esforço para perceber que todo o clero cristão dessa época era de uma santidade eminente.

Depois, se de fato a Igreja se prostituiu com o Império Romano, e se isto só é possível de ter ocorrido no século IV, basta fazer-se um estudo sobre o que cria a Igreja durante os quatro primeiros séculos. Ver-se-á, então, que, longe de diferir, a Igreja já era basicamente a mesma que é hoje, com bispos, dioceses, padres, e suas crenças fundamentais.: divindade de Jesus, Ss Trindade, observância do Domingo, culto aos santos e mártires, culto especial à Virgem Maria, prática da confissão auricular, batismo de crianças, imagens, Santa Missa, etc. Nada falta! É absurdo, portanto, falar de prostituição da Igreja com o Império Romano. Veja ainda o que diz Jonathan Edwards:

“Deus agora se manifestou para executar juízos terríveis sobre seus inimigos. Os registros históricos fornecem relatos surpreendentes do quão terrível foi fim de imperadores, príncipes, generais e capitães pagãos, que se empenhavam na perseguição de cristãos; morrendo miseravelmente, um após o outro, sofrendo estranhos tormentos do corpo, horrores na consciência, com a mão de Deus visivelmente pesando contra eles. O paganismo foi, em grande medida, abolido por todo o Império Romano… A Igreja Cristã foi conduzida a um estado de grande paz e prosperidade…. Satanás, o príncipe das trevas, o rei e deus dos pagãos estava sendo derrubado. O leão que ruge foi conquistado pelo Cordeiro de Deus, no mais forte domínio que ele já teve… (...) O Evangelho prevalecendo da maneira que fez contra uma oposição tão forte demonstra claramente a mão de Deus. O governo romano que, com tanta violência, trabalhou para impedir o sucesso do Evangelho e para destruir a Igreja de Cristo, foi o Império mais potente que já havia aparecido no mundo; e não somente isso, mas também pareciam ter a Igreja nas mãos. Os cristãos que estavam sob seu domínio nunca pegaram nas armas para se defender, se armaram unicamente com a paciência e armas espirituais. Ainda assim, essa grande potencia não podia conquistá-los, mas o Cristianismo é que prevaleceu. O Império Romano havia dominado muitos reinos poderosos; eles dominaram a monarquia Grega, apesar desta ter resistido ao máximo. Mas não foram capazes de conquistar a Igreja em suas mãos. Pelo contrário, a Igreja triunfou e prevaleceu”. (A History of the Work of Redemption, “The Success of Redemption from the Destruction of Jerusalem, to the Time of Constantine”, Disponível aqui.)

Não há, portanto, NENHUMA evidência de "prostituição" doutrinal da Igreja com Roma. Como se vê, muito pelo contrário.


Usa-se também a referência "está vestida de púrpura e escarlate" para indicar a cor das vestes litúrgicas dos bispos e cardeais. 

Porém, as cores "púrpura" e "escarlate" não indicam cores literais, mas significados simbólicos. Elas contrastam com as "vestes brancas", que simbolizam pureza. Vejamos:

Apo 3,5 - "O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, e o proclamarei diante do meu Pai e dos seus anjos."

Apo 3,18 - "Aconselho-te que compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez";

Apo 7,9 - "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão."

Apo 3,4 - "Todavia, não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem."

Dn 7,9 - "Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes."

Agora contrastemos isso com este texto:

"Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Isa 1,18)

Aqui as cores claramente simbolizam o pecado e a pureza. O vermelho e o escarlate, cores gritantes, contrastam com a placidez do branco. É óbvio que literalmente Deus não tem vestes.

Assim, as cores vermelho e púrpura das vestes da Prostituta simbolizam a intensidade da sua prostituição e do seu pecado. Mas será que isto pode mesmo simbolizar a Igreja?  Obviamente, como é feita de homens, estes pecam. Assim como os 12 apóstolos pecavam. Mas não há possibilidade de falar que a Igreja enquanto tal, isto é, em virtude de sua essência, foi promovedora de pecados escarlates. De fato, houve papas bons e maus, assim como clérigos bons e maus. Alguns foram bastante pecadores, mas isso nunca foi uma regra na Igreja, de modo que não há homogeneidade no mal. Os pecados que se deram não se destacaram tanto quanto se quer fazer pensar, nem foram promovidos pela Igreja de modo proposital. E aqui há que se perguntar: a que se referem os acusadores? Provavelmente, citarão certas imoralidades perpetradas inclusive por Sumos Pontífices. No entanto, nunca poderão fazer disso uma regra, senão circunstâncias muito pontuais. Não é, porém, o que ocorre com a Prostituta do Apocalipse. E o que dizer dessa vista grossa suspeita para a imensa quantidade de santos, cujas vidas se elevaram a alturas tão vertiginosas que os líderes protestantes sequer conseguem acompanhar com os olhos?

Depois, há que se dizer que o "roxo" e o "vermelho" não são as cores principais do clero católico. Todos os padres vestem preto, se estão de batina, ou branco e outras cores, quando estão celebrando. Os bispos e cardeais, quando celebram, variam as cores a depender do tempo litúrgico. Elas podem ser o roxo (celebrações penitenciais, quaresma, finados, advento), o vermelho (memória dos mártires, Pentecostes), o branco (festas em geral), o azul (celebrações marianas) ou o verde (tempo comum). Sem celebrar, usam vestes pretas, e faixas roxas (bispos) e vermelhas (cardeais), ou murças roxas (bispos) ou vermelhas (cardeais). 

Cardeais com túnicas e murças vermelhas

Bispos e cardeais com batinas pretas e faixas e solidéus roxos (bispos) e vermelhos (cardeais)
Padre com batina, veste ordinária

Casulas usadas apenas para celebrações


O roxo sempre representa sobriedade, penitência, conversão. O vermelho, por sua vez, indica o sangue dos mártires, o de Cristo e também a disposição em dar o próprio sangue. Já a cor das vestes papais é toda branca. É óbvio que se João quisesse referir-se à Igreja, teria variado bastante nas cores, referindo-se principalmente ao branco e ao preto, ou teria principalmente mencionado a cor do Papa, o branco. Como vimos, porém, o branco é a cor dos remidos.

Por fim, em se tratando de vestes literais, é fato que Deus mesmo ordenou que, nas cerimônias litúrgicas de Israel, as vestes sacerdotais fossem roxo e escarlate (Ex 28,4-8, 15, 33; 39,1-8, 24, 29).

Próximo ponto.


"Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos".

Geralmente, quando se trata disso, o imaginário protestante é imediatamente levado às cenas da Inquisição, o que não deixa de ser interessante, tendo em vista a total ignorância no assunto por parte da extrema maioria deles. Os que, ao invés, se detêm em estudar um pouco que seja este tema, rapidinho abandonam tais devaneios.



Dentre os hereges condenados pela Inquisição, se encontravam principalmente os cátaros, uma variante do maniqueísmo. Mas também havia outras correntes, como os huguenotes, na França, e os albigenses, bastante semelhantes aos primeiros, nos países baixos, Alemanha, Lombardia e sobretudo na França.

Vamos ver quem eram cada um desses? Depois, vocês mesmos me dirão se eles podem ser chamados de santos.

Cátaros e Albigenses são basicamente os mesmos. A denominação distinta dependia dos lugares. Foi basicamente por causa deles que o Tribunal da Inquisição começou a "trabalhar". No que criam? Dissemos que era uma variante do maniqueísmo. Comecemos então definindo o que é o maniqueísmo: tipo de gnosticismo que afirma existirem dois princípios substanciais: o bem e o mal. Esses dois princípios são duas divindades, uma boa e outra má. A divindade boa criou o mundo dos espíritos. A divindade má criou o mundo material e aprisionou o espírito humano dentro de um corpo físico. Conclusão: a matéria é má e é preciso redescobrir o meio de despertar a nossa verdadeira natureza, a centelha divina que está presa dentro do invólucro corporal. Para isto, é preciso conhecer um segredo oculto: a gnose. Este segredo nos foi dado por Jesus, que havia ensinado como fazer para adquirir a liberação.

Jesus, porém, não foi verdadeiro homem, pois ser homem é ser material. Logo, não é verdade que ele se encarnou. Tampouco morreu, nem ressuscitou, pois todas essas coisas promovem a matéria. Vão observando quem são os pretensos santos. Para eles, o Deus do Antigo Testamento é o Deus mau, Satanás. O Deus do Novo Testamento é que é bom.

Em termos práticos, isso fazia com que eles condenassem as relações sexuais, que identificavam com o Pecado Original, e sobretudo o casamento, que era como uma legitimação das torpezas e imoralidades. Consideravam que as mulheres grávidas eram tipos de possessas, pois carregavam o mal na barriga, e chegavam a assassiná-las. Pregavam o suicídio por inanição, numa prática chamada endura, e que impunham até às crianças. Há uma fonte que afirma que os cátaros morreram mais disso do que por qualquer iniciativa da Inquisição. Além disso, invadiam e incendiavam propriedades. Como eram geralmente identificados como religiosos, a Igreja era chamada para intervir e evitar a justiça com as próprias mãos por parte dos civis. Foi numa dessas ocasiões que o Papa Inocêncio III enviou o seu delegado, Pierre de Castelnau, para pregar no sul da França. Na volta, porém, ele foi assassinado por quem? Pelos cátaros. Este incidente motivou a chamada Cruzada dos Albigenses. As idéias cátaras estavam se espalhando de modo terrivelmente rápido, urgindo uma intervenção. Historiadores insuspeitos, como o protestante Henry C. Lea, afirmam que, se nada fosse feito, eles teriam levado a civilização ocidental a um colapso. Santos Cátaros? Só numa cabeça doente.

E os huguenotes? Seriam coisa boa? Seriam santos? Vejamos.

A seita começou em Paris, e foi exterminada na Noite de São Bartolomeu que, ao contrário do que se diz, não teve nenhum tipo de participação da Igreja, conforme você pode ver nesta série de artigos a respeito:


Mas, ainda assim, vejamos quem eram os tais.

Os huguenotes defendiam o Calvinismo e viviam do calor provocado pela revolta de Lutero. Sobre aqueles dias, escreve o historiador francês Jorge Gandy:


"O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou a Miguelada, efetuada pelos huguenotes, de sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, a 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França." (Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J.-J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse))


Carlos Buet, por sua vez, comenta:

"As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas" (François_de Guise)

Os hereges não queriam apenas um lugar ao sol, como se costuma dizer. Pelo contrário, eles atacavam de armas na mão. Pouco se fala das Inquisições Protestantes, essas sim, uma cena dramática de carnificina e ódio. Não à toa a Igreja, por vezes, tinha de intervir com o braço secular. Mas falaremos disso mais adiante.

E o que dizer dos famosos reformadores mortos pela Inquisição?

John Huss, Zwinglio, Lutero, Wycliffe?

Comecemos por este último? Bom, é breve: Wycliffe morreu de morte natural. Próximo.

Lutero? Suicida. Próximo.

Zwinglio? Convocou uma luta armada na Suiça e morreu em combate.

Vamos então a John Huss. Esse de fato morreu na Inquisição. Observemos em quais circunstâncias.




Jan Husinecký, ou o seu correspondente latino, Johannes de Hussinetz., foi o fundador dos hussitas, e defendia as idéias de Wycliffe. Dentre as bandeiras propagadas pelo sr. Huss, estavam:

a) Negação das indulgências;

b Negação do purgatório;

c) Negação do papado; 

d) Negação da realidade da transubstanciação, professando a novidade luterana da empanação;

e) Dizia que os fiéis não estavam submissos à autoridade civil a menos que estas estivessem em estado de graça. 

Além disso tudo, ele era visto como um líder boêmio contra os interesses do rei, de modo que as suas posições tinham fortes repercussões políticas. A época também é particularmente caótica, e conhecida como o Grande Cisma do Ocidente: havia três pretensos papas, todos falsos: João XXIII, Bento XIII e Gregório XII, cada um apoiado por sua própria região e grupos de poder. O Concílio de Constança teve seu início durante esse processo complicado, e, a partir de um sistema de votações, foi destituindo um a um os supostos pontífices, chegando, depois, a estabelecer um novo Papa: Martinho V, que restaurou a unidade da Igreja. No meio dessa briga político-religiosa, a negação da autoridade papal afirmada por Huss tinha fortes ecos políticos. João XXIII chegou a excomungá-lo, mas sem incluir nisso sanções civis, como que a adverti-lo para que ficasse quieto. Mas nada feito. Huss apareceu no concílio a fim de defender suas teses, sob um salvo conduto do Imperador, que, no entanto, não o evitou de ser considerado herege e de ser preso. Diz-se que o Impeador, sob a alegada afirmação de que não queria se opor à Igreja, achou nisso um conveniente para cessar a voz de um seu perseguidor político. Por dois meses e meio fizeram um exame geral dos escritos de Huss, durante os quais ele continuou a pregar e escrever sob prisão domiciliar no Castelo de Gottlieben.

A 6 de Julho de 1415, John Huss, depois de se ter negado a renunciar aos próprios erros, aceitou a pena civil da execução na fogueira.

Há que se dizer que o Papa Martinho V só foi eleito dois anos depois. Ou seja: John Huss morreu no cume da confusão. Portanto, não se deve dizer que este foi um evento típico na Igreja.

Mas reflitamos um pouco no significado da Heresia.

O termo, do grego Haeresis, faz referência ao ato de escolher, num corpo de doutrinas, aquelas às quais se vai aderir, estabelecendo a consciência individual como autoridade máxima em religião, atitude que é a raiz do subjetivismo e individualismo moderno.

Na Idade Média, a Heresia não era apenas um pecado moral individual, mas era considerado crime civil - algo que pode ser comparado, na indignação que despertava no povo, ao atual crime de pedofilia - e, além disso, era tido como crime de lesa majestade, isto é, contra o Rei, Deus. Toda a sociedade medieval era teocêntrica. Uma heresia implicava em turvar a revelação que Deus havia feito de si mesmo. Isto provocava de um lado uma ofensa a Ele, e de outro expunha as almas à condenação eterna. A heresia era dita matar a alma. Como o homem medieval tinha, sobretudo, o ideal da salvação, os hereges lhes apareciam como inimigos-mor do povo e de Deus. Frequentes eram as execuções levadas a termo pelos próprios civis, e, se a Igreja intervinha, frequentemente ela minorava o rigor com que os hereges eram tratados, inclusive poupando-os da morte na imensa maioria das vezes. O Rei Luís VII, da França, em 1162, ainda antes da Inquisição, mas já numa situação insuportável por conta dos hereges, escreve ao Papa Alexandre III: 

"Vossa sabedoria preste atenção toda particular a esta peste e a suprima antes que se possa agravar. Eu vos suplico pela honra da Fé cristã, dai nesta causa toda a liberdade ao Arcebispo (de Reims), êle destruirá aqueles que assim se levantam contra Deus, sua severidade justa será louvada por todos os que, nesse país, estão animados de genuína piedade. Se Vós agirdes de outro modo, os murmúrios não se aquietarão e desencadeareis contra a Igreja Romana as veementes censuras da opinião." (Dictionnaire de Théologie Catholique, Paris, 1923)

Somente quase cem anos depois é que a Inquisição entrará em cena. Ela era vista, pelos criminosos em geral, como um tribunal justo, ao ponto de vários deles, presos por crimes civis, inventarem logo em seguida um crime de heresia para que pudessem ser transferidos e julgados pela Inquisição. Isso ocorreu, por exemplo, com os Templários, na França, mas o seu pedido foi indeferido. Além disso, a Inquisição deixava à disposição dos acusados um advogado de defesa, era feita uma profunda investigação sobre os fundamentos da acusação; se o acusador fosse provado ser falso, ele era quem pagava a sanção. Se em qualquer fase do processo o réu se arrependia dos seus delitos, os confessava e renunciava as suas posições, ele era perdoado e escapava da pena capital. A Inquisição representou ainda um grande avanço nos sentido humanitário. Todos os tribunais civis do mundo faziam amplo uso da tortura. A Igreja quase a excluiu de vez. Permitia que fosse aplicada apenas uma vez, sem derramamento de sangue e na presença de um médico, e a confissão sob tortura só era válida se confirmada posteriormente, sem tortura. Em 200 anos, a tortura foi aplicada apenas 3 vezes. As prisões da Inquisição eram muito mais dignas do que as civis. As punições mais comuns eram penitências pessoais - como os "autos da fé" - peregrinações, expropriação de algum pertence, etc. Dentre as poucas execuções penais, várias delas eram apenas simbólicas, com bonecos sendo queimados.

O crime de heresia, como contaminava socialmente - a exemplo dos cátaros -, e expunha muitas almas ao perigo do erro e da apostasia, ameaçando-lhes do inferno - que, no imaginário medieval, era muito real, e certos estavam eles - exigia que a Igreja, ciosa dos seus filhos, agisse como mãe detendo o perigo. A morte física não é o maior perigo a não ser para uma sociedade materialista, como a nossa. Este materialismo instaura necessariamente a covardia, o interesse, o egoísmo, e a ditadura dos prazeres, que é o que vivemos. A consequência é uma redução drástica do alcance da consciência e a vedação, total ou parcial, do senso da transcendência. O bom senso, porém, não está no lado de cá, mas no de lá. Os protestantes que acusam a Igreja, como são supostamente dotados desse senso do sagrado, fariam bem de refletir um pouco sobre essas coisas.

E nos contentamos apenas a afirmá-las, sem entrar em maiores detalhes, porque o artigo não é sobre o assunto. Mas disponibilizamos os seguintes textos a respeito:


Os Arquivos da Inqusição, que contêm a maior quantidade de fontes primárias, foram abertos oficialmente em 1998, pelo Papa João Paulo II, o que inspirou um Simpósio Internacional de Historiadores sobre a Inquisição, presidido por Rino Cammilleri, escritor e jornalista italiano, que, depois, escreveu o livro "A verdadeira história da Inquisição".




Rino, nesta obra, escreve: "Em 50 000 processos inquisitoriais uma ínfima parte levaram à condenação à morte, e dessas só uma pequena minoria produziu efetivamente execuções".

Ele diz ainda que em Toulouse, onde a Inquisição ocorreu de modo mais forte, "houve apenas 1% de sentenças à morte".

Ou seja, longe de ser o que dizem os devaneios da Renascença, escritos por mentirosos confessos, como Diderot, Voltaire et caterva, e que são não obstante assumidos hoje como as mais confiáveis testemunhas por livros do MEC e protestantes incautos, a Inquisição foi um tribunal justo. Excessos existiram cá e lá, pois, na inexistência de telefones, internet e estradas, era complicado que Roma desse conta de inspecionar todos os lugares de uma vez. Às vezes uma determinação papal demorava um ou dois anos para chegar num dado vilarejo. Clérigos aqui e ali não raro se corrompiam por interesses políticos, e essas coisas de fato influenciavam no andamento de alguns processos. Contudo, isso nunca foi uma lei. O senso moral, tanto dos padres quanto dos fiéis, levado a alturas singulares pela educação cristã, não permitia que tal se desse. É de uma ingenuidade desonesta afirmar que os homens medievais eram todos tolos. Qualquer historiador especialista haverá de afastar de uma vez para sempre a cômica e ridícula pecha de "idade das trevas".

Diga-se, por fim, mais duas coisas. A Inquisição é mais conhecida, nos seus excessos violentos, pelo que se deu na Espanha, com Torquemada. Ocorre, porém, o seguinte: a Inquisição Espanhola não foi um tribunal da Inquisição Eclesiástica, mas do poder régio. Inclusive os inquisidores de lá, de novo movidos por interesses políticos, foram diversas vezes ameaçados de excomunhão pela Igreja. E, ainda assim, a violência ventilada pelos inimigos da Igreja está longe de ser verdadeira. Um estatístico afirmou que as bicicletas infantis são 14 vezes mais letais do que a Inquisição Espanhola, isto é, ocorrem 14 vezes mais acidentes letais com crianças por causa das bicicletas infantis do que réus que eram condenados à pena capital pela Inquisição Espanhola.

Rino, na obra supracitada, esclarece: "As fontes históricas demonstram muito claramente que a inquisição recorria à tortura muito raramente. O especialista Bartolomé Benassa, que se ocupou da Inquisição mais dura, a espanhola, fala de um uso da tortura 'relativamente pouco frequente e geralmente moderado.'"

A outra coisa é: a Revolução Francesa matou mais pessoas em uma só semana do que todos os mil anos de Inquisição, e isto também é facilmente comprovado. No entanto, quais são os valores que norteiam a vida contemporânea? Exatamente aqueles da Revolução Francesa, elencados por Roberpierre: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade - ou a Morte." Idéias profundamente ideológicas que escondem, sob o verniz arco-íris, o vermelho vivo do sangue e o negro profundo do inferno.

Como se viu, os "santos" mortos pela Inquisição não eram tão santos assim, nem a Inquisição pode ser acusada de "derramar o sangue dos santos", como se vivesse a matar gente. Convido o amigo leitor, católico, protestante, agnóstico ou ateu, a nos trazer nomes específicos de supostos santos que teriam morrido pelas mãos da Inquisição. A Prostituta do Apocalipse está bêbada com o sangue deles, o que indica que têm de ser muitíssimos. Pois bem, tragam-nos dados e nomes. Fazer uma alegação dessas baseados em nada, ou melhor, em mentiras - que são menos que nada - da Renascença e do Iluminismo, inimigos que são da religião, é desonestidade, levantamento de falso testemunho e prestação de serviço à mentira. Não se pode pretender que a leitura correta do apocalipse deva se fundamentar nestas lorotas. Afinal, o anjo disse que, para entender os símbolos, é necessário uma inteligência penetrante, e não um caráter flatulante.

Fábio.

Sta Teresa D'Avila sobre a Inquisição

Também começou aqui o demônio, de boca em boca, a espalhar e dar a entender que eu tinha tido alguma visão ou revelação sobre o caso. Várias pessoas vinham a mim, com muito medo, dizer-me que os tempos não andavam bons. Poderiam levantar contra mim algum falso testemunho e denunciar-me aos inquisidores. Achei graça na idéia. Fez-me rir, porque neste ponto nunca temi. Tinha consciência de que, em matéria de fé, eu estava pronta a morrer mil vezes para não ir contra a menor cerimônia da Igreja, ou por qualquer verdade da Sagrada Escritura. Respondia, pois, que a esse respeito nada receassem. Em bem mau estado andaria minha alma se nela houvesse coisa de tal natureza, que me fizesse temer a Inquisição. Se eu imaginasse haver necessidade, seria a primeira a ir buscá-la. Se eram falsas as acusações, o Senhor tomaria minha defesa, fazendo redundar tudo em meu proveito.

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida, Cap. 33, n.5.

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Daqui se depreendem algumas coisas:

- A denúncia aos Inquisidores poderia se dar através de falso testemunho, obviamente. Mas a santa não tinha medo disso, pois, como se sabe, a Inquisição agia através de investigações. Não sendo comprovado o tema da preocupação, a punição recairia sobre o denunciador, se porventura este tivesse sido movido por inveja ou algum outro motivo infundado;

- Sta Teresa D'Avila, sabendo disso, se ri;

- Sta Teresa D'Avila revela que a Inquisição investigava as coisas a partir de duas fontes: a doutrina da Igreja e as verdades da Sagrada Escritura, sendo falso, portanto, o que dizem alguns de que os Inquisidores ignoravam a Bíblia. Portanto, não se pense que Lutero fosse melhor formado que os Inquisidores e residisse a razão do interrogatório que lhe fizeram no fato de ele basear-se na Escritura. Pelo contrário, tudo isso se baseava nos erros doutrinais e teológicos de Lutero que não encontravam base nenhuma na Bíblia.

A CNBB dá a sua versão da Inquisição



"Para garantir proteção contra toda e qualquer possibilidade de intento de mudança, tanto no modo de pensar como de agir, iniciativas foram tomadas pelo Estado e pelo cristianismo. O ponto mais alto deste pacto aconteceu com a Inquisição. As pessoas suspeitas de propor alguma mudança no pensamento, nas convicções, nas ciências e na estrutura social e religiosa passaram, então, a ser perseguidas, presas, torturadas e assassinads. Foi, sem dúvida, uma página horrível na história do ocidente, principalmente para a religião cristã.

Inquisição (inquirir, indagar, investigar, interrogar judicialmente). A Santa Inquisição ou Santo Ofício tinha como objetivo instaurar oficialmente um processo jurídico contra as pessoas que não aceitavam a doutrina e a moral da Igreja Católica, e puni-las. Os suspeitos de heresia representavam uma ameaça à autoridade clerical e do Estado, e a Inquisição era um recurso para impor à força a supremacia católica, fazendo calar e mesmo exterminando os que não aceitavam o que a Igreja ensinava."

CNBB, Instrumento de Trabalho, 3º Congresso Missionário Nacional. p. 16-17.

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Mas para que o leitor não se deixe enganar, vamos à verdade dos fatos? Sugiro a leitura dos seguintes artigos, já publicados neste blog:

Inquisição IV - Final - Exame das Censuras Feitas à Inquisição



I.                   Observações gerais e importantes
II.                Pormenores e discussão das censuras feitas à Inquisição da Espanha:
1º tribuna de sangue; 2º autos de fé; 3º processos da Inquisição.

I.       É particularmente a Inquisição da Espanha que foi acusada de ser um tribunal de sangue explorado pelo poder monacal.

Não procuraremos justificar a Inquisição Espanhola, pois que até os papas repreenderam-na muitas vezes por causa de seus rigores; repetiremos somente que ela não é instituição da Igreja, mas apenas do poder real; suficientemente o provamos, e os pontífices romanos, amiúde desaprovam-na censurando-lhe os excessos. Não foi nem tampouco um instrumento dos monges; o grande inquisidor foi às vezes cardeal, sempre arcebispo ou bispo. Entre os conselheiros eclesiásticos, seis eram seculares e dois regulares, dos quais um Dominicano e o outro pertenceu sucessivamente às diversas ordens religiosas; os outros conselheiros, em número de três ou quatro, eram leigos. “Este tribunal, disse Lenormand, compunha-se, em maioria, de seculares.” Assim desaparece o fantasma do poder monacal.

Mostraremos mais longe que a Inquisição Espanhola não merece, de modo absoluto, a reputação de crueldade, barbaria e sangue que lhe fizeram certos historiadores. Mas aqui vão logo algumas observações necessárias:

1º Este tribunal não fez mais do que aplicar as leis do reino: leis severas, dirão alguns? Sim, com certeza, mas ao colocar-se na época e nas circunstâncias para as quais foram feitas, reconhecer-se-á que a situação da Espanha as explica e justifica totalmente. Os judeus eram não só os inimigos encarniçados da fé, mas perturbadores do reino e fautores de desordens e crimes; quanto aos maometanos, durante oito séculos, tinham avassalado os espanhóis ou lutado contra eles, e sua má fé, e a violação dos tratados depois da tomada de Granada, exigiam naturalmente represálias.

2º Não devem julgar os atos dos séculos XV e XVI como se fossem dos séculos XIX ou XX. Na idade média, os reinos cristãos consideravam como um crime, não menos prejudicial à sociedade do que à Religião, a heresia ou o insulto feito à fé e à moral. Em toda a Europa, o crime de lesa-majestade era punido com a pena de morte, e este crime se dividia em lesa-majestade divina e humana. Ora, qualquer crime enorme contra a Religião era tratado como crime de lesa-majestade divina. Daí o uso geral de queimar os sacrílegos, parricidas, heresiarcas e hereges obstinados... É preciso pois lançar sobre o tempo e as idéias a culpa dessa severidade que hoje acharíamos excessiva, e não é somente a Inquisição, mas a humanidade inteira que conviria acusar.

3º Enfim, para apreciar uma instituição qualquer, não se deve julgá-la por partes, nem em um momento dado, mas sim nos seus resultados gerais. Graças à Inquisição, a Espanha, em primeiro lugar, viu-se livre de seus inimigos interiores, os judeus e os mouros; e, mais tarde, foi preservada da invasão do protestantismo que, por dois séculos, dilacerou a França, a Alemanha e a Inglaterra, por meio de guerras civis, homicídios e matanças que fizeram mil vezes mais vítimas do que todas as Inquisições. “Não houve na Espanha, confessa Voltaire, durante os séculos XVI e XVII, nenhuma das revoluções sangrentas, das conspirações, dos castigos cruéis que se viam nas outras cortes da Europa”. (1) E esse estranho filósofo atribui tal resultado à Inquisição da qual ele pretende entretanto assinalar os horrores.

II.    Feitas essas observações gerais, vejamos em seus pormenores as censuras feitas à Inquisição Espanhola.

Foi ela um tribunal de sangue? – É claro que a Inquisição, sendo encarregada de aplicar as leis da Espanha, teve de como qualquer tribunal neste mundo, verificar delitos e aplicar castigos. Não é o tribunal, mas a lei que se deve culpar de suas aplicações severas e até sangrentas. É pois à legislação real que se deve imputar toda a responsabilidade daquelas penalidades, e além disso, é bem sabido: 1º que nenhuma prescrição da Inquisição podia não somente ser executada, mas até publicada sem o consentimento prévio do rei; 2º os membros eclesiásticos dos tribunais da Inquisição tinham mais ou menos as mesmas atribuições do que os membros do jury nos tribunais atuais. Os juízes civis perguntavam: “Sim ou não, é o acusado culpado de tal crime ou delito religioso previsto e castigado pelas leis civis?”, isto é, acha-se realmente apóstata, ou herético relapso, manchado de tal crime reputado enorme contra os costumes? Segundo a resposta, os magistrados aplicavam a pena citada pelas leis civis ou soltavam o acusado. Tudo o que Cesar Cantú escreveu dos heréticos da Itália, aplica-se igualmente à Espanha. “Desde então, o culpado não pertencia mais à Igreja; tornava-se criminoso de Estado, e o Estado não executava uma sentença da Inquisição, mas aplicava a pena estabelecida pela sociedade civil.” (1) 3º Os inquisidores que pronunciavam sobre a culpabilidade, não se esqueciam, ao entregar o culpado à justiça secular, de implorar em seu favor a compaixão e a comiseração, mesmo quando todos os meios de o levar ao arrependimento e de salvá-lo não tivessem sucedido.

A despeito dessas certezas, o ódio sistemático em primeiro lugar, pelas penas de Puigblanch e de Villanuyeva, o seu copista, e de um fogoso escritor, Llorente; depois a ingenuidade crédula ou o preconceito e o sistema de hostilidade à Religião, se esforçaram por aumentar o número das vítimas da Inquisição e por imputar tudo à Igreja. (2)

O fator principal desse tumulto é certamente Llorente, autor da História Crítica da Inquisição da Espanha. Que valem os seus testemunhos? Quem era ele? E qual pode ser a autoridade de sua obra? Llorente (1756-1823) era um sacerdote espanhol, apóstata, que livrou sua pátria aos Franceses em 1811; traidor à Igreja, procurou dilacerá-la pelo cisma; traidor à Inquisição mesma, de que era secretário, queimou os arquivos dessa instituição, para poder desfigurá-la à vontade na sua parcial história.

O historiador alemão e protestante, Ranke, disse dele: “Este autor escreve no interesse do partido Frances na Espanha... Por causa do mesmo interesse, vê na Inquisição uma usurpação do poder eclesiástico sobre o poder do Estado. Contudo, dos fatos invocados por ele mesmo, resulta que a Inquisição da Espanha é um tribunal régio. Os inquisidores eram oficiais régios.” (3)

Essa restrição, feita por um adversário, vale a pena de ser conservada.

Outro historiador protestante, Prescott, na sua Historia de Filipe II, dá-nos este aviso sobre a sinceridade de Llorente: “É preciso desconfiar das indicações de Llorente, porque, em diversas circunstâncias, admitiu, com leviandade, as avaliações mais inverossímeis.”

Que podem valer, pois, as asserções de um escritor tão parcial e tão leviano? Não importa, baseando-se neste autor continuar-se-á a caluniar a Inquisição. Dir-se-á, segundo Llorente, que ela, na Espanha, num espaço de trezentos anos, proferiu trinta mil sentenças de morte.

Notemos que essa avaliação fantástica baseia-se num cálculo manifestamente inexato e falso. Procede deste princípio, que no ano de 1481, a Inquisição de Sevilha por si somente mandou queimar duas mil pessoas, e sobre esta única base estabelece uma proporção rigorosa de anos e de tribunais, que o leva ao total de trinta mil. Ora, o número de dois mil, fornecido pelo jesuíta Mariana, não é só do ano 1481, mas de toda a duração da Inquisição de Torquemada (1482-1498), e fornecido pelos quatro tribunais relevando de sua autoridade. O ponto de partida é falso e o cálculo não o é menos, porque não se pode estabelecer uma proporção rigorosa baseada num dado só, e generalizá-lo para tribunais aliás menos importantes do que o de Sevilla. – O número de vítimas citado por Llorente, é pois exagerado, e poderia, segundo o parecer do sábio monsenhor Hefelé, ser reduzido a cinco ou seis mil. (4)

Quanto aos motivos de sua condenação, é preciso lembrar que a Inquisição não sentenciava somente a respeito do crime de heresia, mas, em geral, contra todos os crimes: crimes contra a natureza, pilhagens, extorsões, roubos nas igrejas, usura, magia, feitiçaria, etc. É preciso lembrar também que, não só a Inquisição Espanhola, mas os mesmos Estados protestantes promulgaram semelhantes condenações, especialmente contra os mágicos e feiticeiros, e em proporções consideráveis.

O mesmo Llorente avalia em oitocentos mil o número de judeus expulsos da Espanha, em conseqüência do edito de 1492. Ainda que esse número fosse verdadeiro, dele a Inquisição não fica responsável; é o resultado da política de Izabel e de Fernando. Mas escritores espanhóis mais sinceros e mais dignos de crédito avaliam somente em trinta mil famílias, isto é, aproximadamente a cem mil indivíduos, o total de judeus emigrados. (5)

Este número poderá parecer considerável, assim como rigorosa a medida tomada contra os emigrantes, que não levariam, da venda perfeitamente livre de seus bens, numerário algum, mas simples letras de câmbio. Todavia explicam-se essas medidas ao considerar a exasperação em que se achava a população espanhola, por causa das exações e da usura deles, assim como pelas crueldades monstruosas e pelos odiosos sacrilégios de que eram acusados.

Qualificou-se de severo o edito de 12 de fevereiro de 1502, que proscrevia os Mouros da Espanha. Mas esse rigor também se concebe. Em 1492, depois da tomada de Granada, deixara-se aos mouros a posse de seus bens, de suas leis, e o livre exercício de seu culto. Mas tinham eles o ódio de seus vencedores e um profundo pesar pela perda de sua independência. Daí freqüentes insurreições das quais algumas foram sangrentas. Os reis então não se julgaram mais ligados por sua palavra. Um decreto de 1499 não deixou aos discípulos de Maomé senão a alternativa do batismo ou do exílio, e a pragmática de 1502 estendeu a medida a todos os mouros do reino.

Com poucas modificações, pode-se aplicar aos mouros e aos mouriscos tudo quanto se acaba de dizer dos judeus. Era uma raça detestada, combatida durante oito séculos, inspirando ódio e desconfiança. – Aliás, seu desterro foi longe de ser total, porque ainda se acha uma porção deles, no século XVII, na província de Valença e no antigo reino de Granada, vivendo em paz durante o reinado de Filipe III. (6)

Que se deve pensar dos tremendos autos de fé da Inquisição Espanhola? – Os romances e a má fé representaram os autos de fé da Espanha como cenas de fanatismo e de barbaria. A verdade é que se dava o nome de autos de fé (atos de fé) às sentenças de perdão das pessoas falsamente acusadas e à reconciliação com a Igreja dos pecadores arrependidos. Nesse momento não se queimava e não se torturava a ninguém. Acabada a reconciliação, estava terminado o auto de fé e os inquisidores se retiravam. Então somente os heréticos obstinados ou os criminosos convencidos eram entregues ao braço secular.

A dar fé em Llorente, nos autos de fé de Toledo, a 12 de fevereiro de 1486, teria havido 750 vítimas da Inquisição, 900 a 2 de abril, 1700 a 1º de maio e a 10 de dezembro do mesmo ano. Julgar-se-á, sem dúvida, que se trata de vítimas do fogo ou do gládio? Pois bem, não houve uma só condenação capital, e o próprio Llorente, por toda essa época, não pode citar ao todo mais de vinte e sete condenações à morte pronunciadas pelo tribunal de Toledo. Eis portanto a que se reduzem aquelas espantosas execuções, e é o que levou um ministro da república francesa, o senhor Bourgoing, embaixador na Espanha, a dizer, no seu Quadro da Espanha Moderna: “Confessarei, para prestar homenagem à verdade, que a Inquisição poderia ser citada, em nossos dias, como um modelo de equidade.

Pelo menos, não houve nas devassas da Inquisição, arbitrariedades, violências, processos ignominiosos ou infamantes? A Inquisição Espanhola, dissemos por mais de uma vez, foi, às vezes, de uma severidade excessiva, contrastando especialmente com os nossos costumes atuais. Muitos, obcecados pela paixão, representaram-na como um monstro insaciável, sempre à espreita para, à menor suspeita, agarrar vítimas.

A verdade é que, se os homens que a personificavam puderam exceder em alguma coisa, a instituição mesma tinha regulamentos indulgentes antes do que severos. Tinha que conceder, até três vezes, prazos de graça; a lei queria que os filhos dos heréticos fossem tratados com bondade, mesmo depois desses prazos; que ninguém fosse preso por blasfêmia proferida num momento de raiva, e, quando se tratava de proposições heréticas, exigia um certificado do médico, atestando que não havia alienação mental. O artigo 8 dos estatutos de 1496 ordena um castigo público contra as falsas testemunhas, e recomenda desconfiar dos acusadores. O artigo 23 permite ao acusado de escolher um procurador entre os advogados do Santo Ofício e exigir dele o juramento de guardar o sigilo, de defender sincera e lealmente seu cliente. Se o acusado era pobre, seu advogado era pago pelo fisco. O acusador devia prestar o juramento de que não era inspirado pelo ódio. Os autos eram lidos duas vezes ao acusado na presença de testemunhas eclesiásticas. Enfim, os inquisidores deviam lançar mão de todos os meios para conhecer tudo quanto podia desculpar o acusado, e uma vez concluída a instrução, perguntar-lhe ainda se não desejava que se fizessem novas pesquisas.

Não é verdade que a Inquisição Espanhola tenha inventado tormentos inauditos. Procurava, pelo contrário, tornar mais brandos os processos da justiça, naquela época. Llorente confessa: que quando os outros cárceres eram covas negras e úmidas, os da Inquisição eram quartos de abóbadas e secos. Não havia nem correntes, nem algemas, nem coleiras de ferro. Contrariamente aos hábitos dos tribunais civis, não se permitia renovar a tortura no decurso do mesmo processo.

Quanto ao famoso sambenito, ou sacco-benito (saco bento), de que se fez um vestuário de ignomínia, na verdade, era empregado nos autos de fé, e de reconciliação. Era um fato semelhante ao dos frades. As insígnias com que o guarneciam, nas abjurações de gravi, estavam em harmonia com as idéias da idade média. Este vestuário não tinha nada de infamante e não era destinado senão a fixar os olhares e inspirar mais horror para a heresia e o crime.

Tal foi a Inquisição Espanhola. Para os incrédulos e livres pensadores, para quem Deus, a Religião, a fé e a virtude nada são, seria insensatez defendê-la; mas para quem estima essas grandes coisas, é claro que a Inquisição Espanhola, se por muitas vezes excedeu em rigor, quis servir a causa da Religião e da pátria, e não merece todas as censuras com que a sobrecarregaram seus inimigos.

Além disso, na Espanha, não houve nada que se possa comparar com as matanças e perseguições praticadas pelos protestantes contra os católicos, na França, na Alemanha, na Holanda, e particularmente na Inglaterra. É por milhares que se contam as execuções de Henrique VIII e de sua digna filha, Izabel. “Esta rainha sanguinária, diz Cobbet (cartas sobre a Reforma na Inglaterra), fez morrer mais pessoas em um ano do que a Inquisição em toda a sua existência.”

O historiador inglês Gibbon confessa igualmente que a Inquisição fez morrer infinitamente menos pessoas, conservando a ordem e a unidade, do que o estabelecimento do protestantismo, que espalhou por toda a parte as discórdias e as guerras civis. Só na Inglaterra, a boa rainha Izabel fez supliciar quarenta e três mil vítimas; Henrique VIII setenta mil. Donde vem que tantas vezes se evocam as execuções da Espanha e tão poucas vezes as carnificinas praticadas pela Reforma?

Nem tampouco se fala das vítimas feitas na França pela Inquisição jacobina, durante o período revolucionário. – Todavia, segundo estatísticas sérias e dignas de fé, na capital e nas grandes cidades, em seis anos foram executadas mais de trinta mil pessoas, muito mais do que a Inquisição da Espanha em seis séculos. (7)

Contudo, conviria trazer nessas importantes matérias um espírito equitativo. Dever-se-ia meter em linha de conta os tempos, os países, os costumes, e não deixar a uma instituição o monopólio de todos os rigores e de todos os crimes. Julgamos ter suficientemente restabelecido a verdade dos fatos e julgado as responsabilidades; se não temos feito a luz completa, pelo menos elucidamos alguns pontos nesta difícil e tenebrosa história da Inquisição.

Repitamos: apesar de atenuações importantíssimas às acusações de fanatismo e barbaria, assacadas contra a Inquisição Espanhola, não pretendemos justificar todos os seus atos, pois que os Sumos Pontífices, às vezes, lhe censuraram os excessivos rigores; mas com Balmes, judicioso e grave escritor espanhol, concluiremos:

“Sem desconhecer as circunstâncias excepcionais nas quais se achou esta instituição, creio que teria feito muito melhor de, a exemplo da Inquisição de Roma, evitar, quanto fosse possível, a efusão do sangue. Podia perfeitamente zelar pela conservação da fé, prevenir os males com que a Religião era ameaçada pelos mouros e pelos judeus, preservar a Espanha do protestantismo, sem fazer uso desse rigor excessivo que lhe valeu tão graves censuras, admoestações da parte dos papas, provocou as reclamações dos povos, foi a causa que tantos acusados apelaram para Roma, e forneceu aos adversários do Catolicismo um pretexto para acoimar de crueldade uma Religião a quem horroriza a efusão do sangue. Repito, a Religião católica não é responsável de nenhum dos excessos que puderam ser cometidos em seu nome; e quando se fala na Inquisição, não se deve considerar principalmente a da Espanha, mas sim a de Roma. Lá onde reside o soberano Pontífice, a Inquisição foi em extremo branda e indulgente”. (8)

(1)   Cesar Cantú, Les héretiques de l’Italie, t. I, p. 193.
(2)   Ver, a respeito desses escritores, Balmes, Protestantisme et Catholicisme, t. II, cap. XXVII, apêndice.
(3)   Ranke, Princes et Peuples, t. I.
(4)   Monsenhor Héfélé, Vie du Cardinal Ximenes.
(5)   Mariana, Histoire d’Espagne. – Ferreras, item.
(6)   Padre de Vayrac, État présent de l’Espagne, t. I, p. 241.
(7)   Romain, Sicence et Foi: l’Inquisition, Introdução, XI.
(8)   Balmes, Le Protestantisme compare au Catholicisme, cap. XXXVI e XXXVII e nota 9. – Estudar-se-á com proveito, sobre esta questão, em monsenhor Héfélé, o consciencioso capítulo que consagra a este tribunal (Le cardinal Ximenes, cap. XVIII), em que atenua consideravelmente as acusações feitas contra ele, servindo-se, a maior parte do tempo, das declarações de seu principal acusador, Llorente. – Ver também, Conférences du R. P. Monsabré, 1882 (58ª Conf., 2ª parte; e o notável Index III, no fim do volume).


Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Apologética Cristã, Tomo IV, pp. 383-393

Inquisição III - A Inquisição Espanhola



I.                   Sua origem e seu verdadeiro fim.
II.                É uma instituição régia: sua composição.
III.             Principais personagens que desempenharam o papel de grandes inquisidores
IV.             Verdadeira intervenção da Igreja.

I.       Muitos estados cristãos tinham-se apressado, como já vimos, em estabelecer no seu país um tribunal da Inquisição. É assim que, na França, Filipe Augusto o estabeleceu contra os Albigenses, de acordo com o papa Inocêncio III. A Espanha, desde o século XIII, possuía também um tribunal da Inquisição, porém, puramente eclesiástico.

No século XV, Fernando e Izabel dela fizeram uma instituição política da Espanha, e fundaram em 1479 o primeiro tribunal da Inquisição Espanhola, primeiro limitada, na sua ação, aos únicos judeus batizados, os maranos, que exteriormente se faziam cristãos, mas nem por isso deixavam de ficar apegados às crenças e ao culto do mosaísmo. Esta instituição foi, ao depois, estendida a todos os judeus, cujas conspirações tinham motivado o decreto de proscrição geral contra todos aqueles que não receberiam o batismo. Este decreto, publicado a 31 de março, foi aplicado depois de 31 de julho de 1472.

Era uma medida de bem público: atribuía-se aos judeus uma série de atos de vingança, fanatismo e revolta: cruzes mutiladas, hóstias sagradas profanadas, meninos cristãos crucificados. Em 1485, em Toledo, tinham combinado de apoderar-se da cidade no dia da festa do Corpo de Deus, e matar todos os cristãos.

Depois da conquista do Granada (1492), Izabel e Fernando comprometeram-se em deixar aos Mouros a propriedade de suas mesquitas e o livre exercício de seu culto. Os soberanos não julgaram derrogar às suas promessas fazendo evangelizar os Mouros pelos mais santos bispos da Espanha. Houve numerosas conversões. Daí revoltas da parte dos Mouros fiéis a seu culto. Izabel e Fernando julgaram então poder tratá-los como rebeldes. Não lhes deixaram mais do que a alternativa de receberem o batismo ou emigrarem. Todavia, garantiam-lhes os bens, salvo um imposto de dez florins de ouro por cabeça.

A maior parte dos Mouros fizeram-se cristãos, e foram chamados moriscos. Em 1502 o edito real foi estendido aos Mouros das províncias de Castela e de Leão; foram submetidos como os de Granada à jurisdição dos inquisidores.

A Inquisição Espanhola nunca se propôs de obrigar os judeus e os mouros a mudarem de religião. Usava de rigor somente contra os apóstatas que, depois de terem sido batizados, voltavam ao judaísmo e ao islamismo, e tornavam-se cúmplices dos crimes ou das revoltas de que o povo acusava os correligionários deles. Os reis da Espanha não tinham imaginado a Inquisição apenas com um fim religioso ou absolutista; no seu pensamento, era um meio de fazer prevalecer a nacionalidade espanhola contra o judaísmo e o islamismo; por isso era extremamente popular, e quando um dia o inquisidor, Pedro de Arbues, foi assassinado, toda a cidade de Saragossa sublevou-se para vingar a morte dele.

Mais tarde o papel da Inquisição foi estendido ao protestantismo. Fiel às recomendações de seu pai Carlos Quinto, Filipe II tomara a peito preservar seus estados deste erro “que teria trazido, diz Balmes, a guerra civil na Espanha, como nos outros Estados”. E este escritor acrescenta: “Se Filipe II tivesse procedido de outro modo, tratá-lo-iam de incapaz.” É assim que o crime de heresia dependeu, assim como a magia e certos outros crimes, do tribunal da Inquisição.

II.    A Inquisição Espanhola não pode ser invocada como um argumento sério contra o Catolicismo a não ser que se prove que a Igreja, abusando do seu poder legislativo e coercitivo, tenha ordenado atos bárbaros, não menos contrários às leis da natureza do que ao espírito evangélico. Os inimigos da Religião teimam em confundir a própria instituição do tribunal eclesiástico com a Inquisição Espanhola. Ora, este é um procedimento desleal. Basta ler as atas régias para se convencer de que este último tribunal era intimamente ligado com o absolutismo político.

“Julga-se que este tribunal é puramente eclesiástico, diz Maitre; é um erro. O tribunal da Inquisição Espanhola é puramente régio. É o rei que designa o inquisidor geral, e este, por sua vez, nomeia os inquisidores particulares, com o consentimento do rei.

Com efeito, o regulamento constitutivo deste tribunal foi publicado em 1484 por Torquemada, de acordo com o rei de Espanha. As Cortes ultra-liberais de 1812, que suprimiram a Inquisição, confessam francamente: “Que os reis sempre repeliram os conselhos que lhes foram dirigidos contra este tribunal, porque são, em todos os casos os senhores absolutos de nomear, suspender ou despedir os inquisidores.

Os estatutos que, em 1484, foram dados à Inquisição, indicam, por si próprios, a veracidade dessas asserções, e provam, até a evidência, que ela era realmente uma instituição do Estado. Encontram-se sempre expressões como estas: “Suas Altezas (Izabel e Fernando) querem..., ordenam, etc.

Assim a Inquisição Espanhola é uma instituição régia e não eclesiástica. Ouvimos as Cortes o proclamarem: todo o pessoal, tanto clérigos como leigos, era nomeado pelo soberano e subtraído à autoridade da Igreja. O grande inquisidor foi escolhido pelo rei, e o maior desejo do monarca foi de fazer confirmar pelo papa a nomeação real. Os tribunais da Inquisição foram igualmente estabelecidos pela autoridade do rei, primeiro em Sevilha, em seguida, nas diversas cidades de Castela, de Aragão, de Valença e de Catalunha, onde se contaram até onze tribunais. Quarenta e cinco inquisidores gerais procuravam os culpados, instruíam os processos, que eram depois julgados pelo grande inquisidor, assistido de conselheiros ou familiares escolhidos entre a nobreza.

O tribunal contava seis conselheiros eclesiásticos seculares, e dois regulares, dos quais um Dominicano. Todos, como já dissemos, dependiam da nomeação do rei e do grande inquisidor por ele designado.

O célebre Dominicano Torquemada foi o primeiro grande inquisidor de Espanha (1482-1498). É a seu nome que se ligam as mais graves incriminações e é a seu ofício que a Inquisição Espanhola foi devedora da reputação de terror que lhe conservaram os séculos. Teve por sucessor D. Diego de Deza, a quem o historiador Llorente acusa de ter excedido em severidade o próprio Torquemada; o zelo, na verdade duro e severo, do novo inquisidor não podia deixar de lhe atrair semelhante censura. Ximenes, grande inquisidor especial do Aragão (1507-1717), trouxe no desempenho de sua missão mais discernimento e sabedoria. Com este homem ilustre, a Inquisição foi menos entregue ao arbitrário. Destituiu certo número de mandatários que tinham abusado do poder, e, desde então, o tribunal espanhol perdeu sua reputação de rigor e severidade.

III. No meio de tantas acusações formuladas contra a Inquisição Espanhola, é fácil descobrir a verdadeira intervenção da Igreja.

Não é a ela, certamente, que se deve atribuir esta instituição tão depreciada. Michelet nota que Sixto IV, Inocêncio VIII, Leão X, lembraram aos inquisidores espanhóis a parábola do Bom Pastor, e que, quando Carlos Quinto quis introduzir a Inquisição em Nápoles, o papa Paulo III animou a resistência dos Napolitanos, acusando a Inquisição da Espanha de afastar-se dos exemplos de brandura que lhe eram dados por aquela de Roma. (1)

Todavia, para a justificação da Igreja e dos papas nesta importante matéria, não podemos fazer melhor do que citar os próprios testemunhos de Llorente, historiador da Inquisição da Espanha, adversário da Igreja, autor primeiro e principal de todas as acusações feitas contra a instituição espanhola. Sua narrativa servirá de comentário à afirmação de Michelet. “Sixto IV, não conseguindo impedir pelo menos avisou os inquisidores que não podiam pleitear sem o consentimento dos bispos. Além disso, estabeleceu um Tribunal de apelação papal, ao qual podiam recorrer aqueles que teriam que se queixar da Inquisição, e anulou ou suavizou muitas sentenças.

A despeito dos esforços feitos por Izabel e Fernando, assim como por Carlos Quinto para iludir esta intervenção da Santa Sé, a história conservou a memória de condenados aos quais este tribunal de apelação mandou restituir os bens e direitos civis. A história ensina-nos também que o mesmo tribunal salvou da infâmia e da confiscação os filhos de muitas vítimas.

“Leão X excomungou, em 1521, o inquisidor de Toledo, apesar das prostestações de Carlos Quinto. Queria mesmo reformar radicalmente a Inquisição da Espanha, submetendo-a aos bispos; mas Carlos Quinto o desviou desse intento com o espantalho de Lutero. Mais tarde o erudito escritor Virués, tendo sido condenado como suspeito de luteranismo, Paulo III declarou-o inocente e nomeou-o bispo das Canarias. O célebre latinista Marco-Antonio Muret, condenado à fogueira, foi acolhido em Roma, onde ensinou à juventude sob a proteção do papa” (2)

Por outro lado, os soberanos pontífices não pouparam as exprobações e censuras aos próprios grandes inquisidores, quando se afastavam da mansuetude. – Sixto IV, que só a custo consentira em dar a Bula da instituição da Inquisição da Espanha (1478) e ratificar a nomeação de Torquemada, censurou severamente, num breve de 29 de Janeiro de 1482, os inquisidores de Sevilha por causa de sua dureza. Alexandre IV, em 1494, ameaçou de destituição o grande inquisidor se não tivesse, no exercício de seu ministério, mais brandura evangélica e maior respeito pelas instruções pontifícias.

Deste modo, a Igreja, que não teve nenhuma parte nos regulamentos da Inquisição Espanhola, se esforçava por suavizar-lhe os rigores: excitava à indulgência os juízes por demais severos; tomava a defesa dos oprimidos. Longe de adotar como sua esta instituição da Espanha, repudiava-a energicamente: Paulo III e Pio IV – este último com o concurso de seu sobrinho são Carlos Borromou, - opuseram-se ao projeto de introdução da Inquisição Espanhola em Nápoles e Milão.

Deixe-se, portanto, de atribuir à Igreja o que não é obra dela. Esta observação de José de Maistre fica sempre verdadeira: “Quereis, diz ele, conhecer sobre este ponto essencial o verdadeiro espírito sacerdotal? Estudai-o nos países em que o sacerdote segurou o cetro, e onde o possui ainda. Circunstâncias extraordinárias tinham estabelecido na Alemanha uma multidão de principados eclesiásticos. Para julgá-los relativamente à Justiça e à brandura, bastaria lembrar o velho provérbio alemão: É agradável viver debaixo do báculo. Os provérbios são o fruto da experiência dos séculos e nunca se enganam. Apelo pois para este testemunho, corroborado, além disso, por aquele de todos os homens que têm juízo e memória.” (3)


(1)   Michelet, Précis de l’HIstoire Moderne, p. 50.
(2)   Llorente, Histoire critiqué de l’Inquisition d’Espagne.
(3)   Cartas a um fidalgo russo sobre a Inquisição.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Apologética Cristã, Tomo IV, pp. 377-383.
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