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De que modo os acidentes permanecem na Eucaristia


 Em segundo lugar, o acidente pode ser miraculosamente separado da substância e permanecer sem suporte algum, sustentado pela virtude divina, visto que o efeito depende muito mais da causa primeira do que da sua causa segunda. A influência da causa primeira, porque ela é mais universal e mais eficaz, pode manter o efeito quando desaparece a causa segunda. Quando um governo deixa de existir, todos os poderes subalternos, que estavam subordinados à sua autoridade, deixam de existir com ele;; mas, se no mesmo instante do desaparecimento uma melhor e mais forte autoridade substitui a que desaparece e penetra nos mesmos poderes subalternos, de fato eles não continuam as suas funções e representações? É isto que acontece no sacramento do altar. Deve-se concluir, pois, sem hesitação alguma, acrescenta Sto Tomás, que Deus pode fazer existir o acidente sem suporte algum.

HUGON, Padre Édouard, O. P. Os princípios da Filosofia de São Tomás de Aquino: as vinte e quatro teses fundamentais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. p. 75-76

A Eucaristia - símbolo ou realidade?


Desde a época de Jesus, aquilo que Ele chama de "Minha carne e Meu sangue" tem sido causa de divisão. Naquela ocasião, no discurso sobre o Pão da vida, no qual Jesus se contrapõe ao maná do Antigo Testamento e anuncia que o verdadeiro pão é a Sua carne para a salvação do mundo, a maior parte dos ouvintes considerou muito duras e esquisitas aquelas expressões, pelo que se afastaram. Naquele desertar de pessoas, Jesus olhou para os apóstolos e perguntou se também eles queriam ir embora, ao que Pedro respondeu: "a quem iremos, Senhor, se só Tu tens palavras de vida eterna?"

Daqui se depreende que seguir a Jesus implica necessariamente comer a Sua carne e beber o Seu sangue, seja lá o que isso for. De fato, o significado de tais expressões tem dividido alguns dentre os cristãos no decorrer dos séculos. Docetas, albigenses, e, futuramente, os protestantes negaram que aí houvesse um sentido literal; seria, antes, uma expressão simbólica de outra coisa. Geralmente, crê-se que Jesus está se referindo à Sua palavra, ao Seu seguimento, etc.

Resolver este ponto seria fundamental para que se realizasse aquele desejo manifestado por Nosso Senhor na Sua oração sacerdotal: "Que todos sejam um" (Jo 17,21). Se é a compreensão do que seja a carne e o sangue de Jesus o que tem distanciado os cristãos, é preciso, então, tentar sanar esta dúvida. Contudo, pouco se aproveita que se entenda com a razão se o coração não manifesta um desejo de aderir à verdade, seja qual for.

Tentaremos neste texto lançar um olhar, com toda a sinceridade, sobre este problema. Queira Deus que possamos lançar alguma luz na mente dos leitores.

A principal objeção que se coloca é: "não seria isto uma expressão simbólica, similar àquela em que Jesus se diz 'a porta'?"

A isto responderíamos o seguinte:

O trecho bíblico em que Jesus fala mais claramente sobre o Seu corpo e o Seu sangue se encontra no Evangelho de São João, no famoso capítulo 6. Numa discussão com os judeus, Jesus diz que o verdadeiro Maná não é o do Antigo Testamento (que era alimento literal), mas "aquele que desceu do céu" (v.32-33), que é Ele mesmo. Jesus Se coloca como o pão (v.35), o que sugere que Ele será um alimento. O próprio fato de Ele ter nascido em Belém já diz muito, pois o nome Belém (Bethlehem) significa exatamente "casa do pão". Contudo, falta esclarecer a natureza deste alimento: era o alimento da verdade? Era o alimento do amor? Era o alimento da vivência cristã? Jesus mesmo dizia que o Seu alimento era fazer a vontade do Pai: esta vontade era o Seu "pão". Então notemos o seguinte: a palavra pão aparece aqui como um "símbolo" de outra coisa. Com efeito, é o símbolo comum usado para representar qualquer tipo de alimento. Na oração que nos ensinou, Jesus nos diz para pedir ao Pai pelo "pão nosso de cada dia", o que se refere aos alimentos necessários para a nossa subsistência. Contudo, se Ele é o "pão" que se substitui ao maná da travessia do Egito - que era comida mesmo -, então convém que a coisa simbolizada, ainda que não seja pão literal, seja um alimento literal. A discussão segue e os judeus estranham o fato de Ele se dizer ter vindo do céu - já que conheciam os Seus pais. Jesus então esclarece o que seria esse pão: "o pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo." (v.51)

Notemos o seguinte: esta assertiva final pretende explicar qual seria, na realidade, aquele alimento. Jesus não poderia esclarecer a natureza do pão usando outro símbolo. O que ocorre aqui é antes o desvelamento do símbolo: o pão é a carne d'Ele.

Ao ouvirem isso, os judeus ficam escandalizados: "como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?" (v.52), e Jesus, ao invés de tirar-lhes a má impressão, ou de chamá-los de "lentos para crer", ou de "homens sem inteligência", como costumava fazer quando os seus ouvintes não O compreendiam, somente reforça a idéia: "Em verdade em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia." (v.53-54)

Segundo Jesus, o meio pelo qual teremos a vida em nós mesmos é comendo a "carne do Filho do homem e bebendo o seu sangue". Esta vida é a vida d'Ele, que nos é comunicada através deste alimento. Não há símbolos aí.

E a coisa fica ainda mais complicada para a objeção levantada quando, no versículo 55, Jesus declara: "a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida." Ora, o termo "verdadeiramente" (ἀληθής - alethes - verdadeiro, real) tem o significado de "literal".

Além deste trecho, os outros no Novo Testamento que trazem o mesmo termo "verdadeiramente" são os seguintes: 

- "Então, aproximaram-se os que estavam no barco, e adoraram-no, dizendo: és verdadeiramente o filho de Deus." (Mt 14,33)
- "O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!" (Mt 27,54)
- "Todos diziam: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão." (Lc 24,34)
- "E diziam à mulher: Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo." (Jo 4,42)
- "À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo." (Jo 6,14)
-"Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." (Jo 8,36)
- Porque eu lhes transmiti as palavras que tu me confiaste e eles as receberam e reconheceram verdadeiramente que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (Jo 17,8)
- "Então Pedro tornou a si e disse: Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus." (At 12,11)
- "Por este motivo, julguei necessário rogar aos irmãos que nos precedessem junto de vós e preparassem em tempo a generosidade prometida. Assim, será verdadeiramente uma liberalidade, e não uma mesquinhez." (2Cor 9,5)
- "Ora, se sois de Cristo, então sois verdadeiramente a descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa." (Gal 3,29)
- É o que acontece entre vós, desde o dia em que ouvistes anunciar a graça de Deus e verdadeiramente a conhecestes" (Col 1,6)
- "Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas. (...) Mas a que verdadeiramente é viúva e desamparada põe a sua esperança em Deus e persevera noite e dia em orações e súplicas." (1Tim 5,3-5)
- "Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele." (1Jo 2,5)
- "Todavia, eu vos escrevo agora um mandamento novo - verdadeiramente novo, nele como em vós, porque as trevas passam e já resplandece a verdadeira luz." (1Jo 2,8)

Como se nota, o termo "verdadeiramente" é usado para enfatizar a realidade factual do que é dito. Seria muito estranho se somente com relação à eucaristia ele adquirisse uma conotação simbólica.

E Jesus conclui:

"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente." (v.56-58)

Três coisas dignas de nota aqui: 

1- Jesus está sempre se contrapondo contra um alimento literal (o maná). Seria esquisito enfatizar esta comparação enquanto o primeiro pão fosse literal e o segundo só simbólico.

2- Depois, mais uma vez Jesus demonstra que o que ele quer sugerir pelo símbolo "pão" é, de fato, a sua carne. Podemos resumir a passagem acima no seguinte: "A minha carne: este é o pão que desceu do céu. Quem a come viverá para sempre."

3- Jesus vincula estreitamente a vida eterna ou salvação ao fato de se comer a sua carne e se beber o seu sangue. Um símbolo não teria tanta força.

Quanto às outras referências à Eucaristia, encontramo-las nos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e nas descrições de Paulo, que soube dessas coisas por revelação. Vemos sempre uma ênfase estranha na centralidade do Pão Eucarístico. Mas analisemos o fenômeno da Santa Ceia:

A Páscoa dos Judeus (Pessach) era como uma revivência (zikarón) dos fatos ocorridos na libertação de Israel. Era parte inerente da celebração da páscoa que os judeus comessem um cordeiro juntamente com pães ázimos, isto é, sem fermento, tal como o fizeram no Egito. Este cordeiro, como se sabe, prefigurava o Cristo - bem como os pães. Por que não era apenas suficiente fazer o sacrifício do cordeiro - simbolizando a morte na Cruz -, mas era preciso, também, comê-lo? É algo a se considerar. A razão disso era o seguinte: ao ser oferecido a Deus, o cordeiro ficava como que "preenchido" da presença divina, que o recebia. Então, quando os judeus comiam este cordeiro cheio da presença divina, isto era já um modo primitivo de comunhão eucarística ou de comida ritual.

Jesus já tinha celebrado outras páscoas com os seus apóstolos, e provavelmente em todas as outras havia um cordeiro para ser comido. Contudo, agora, na véspera da Sua Paixão, ei-lo celebrar a páscoa sem um cordeiro visível - pois o símbolo tinha cumprido o seu papel apontando para Ele, o vero Cordeiro de Deus que ia imolar-se logo em seguida - e, ao mesmo tempo, oferecendo as misteriosas ofertas de Melquisedec, a figura paradigmática do sacerdócio: pão e vinho. (Gn 14,18) Aqui, estas duas realidades estão como que fundidas: o pão ázimo e o vinho são, ao mesmo tempo, o Cordeiro pascal, que é Jesus mesmo. Os apóstolos, muito mais afeitos do que nós à sensibilidade judaica e ao imaginário próprio daquele povo, compreenderam, ainda que obscuramente, na ausência do cordeiro e na presença do pão e do vinho, o significado daquele momento. E, se alguma coisa havia ainda de misteriosa, ela foi devidamente iluminada com as palavras do Cristo: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Isto é o meu sangue, que será derramado por vós."

Aqui notamos duas coisas:

Primeiro, o verbo de ligação que indica identidade: "isto é". Toda a pretensão de simbologia, portanto, só pode se manter enquanto algo acrescido ou somado ao texto, pois o que o relato em si diz é que o pão é a carne, e o vinho é o sangue.

Segundo, como dito acima, costuma-se sugerir que o significado do suposto símbolo da carne e do sangue do Cristo seriam a sua doutrina, a sua verdade, etc. Contudo, aqui Jesus refuta estas idéias ao dizer que o pão, que é carne, é justamente aquilo que vai ser entregue, ou seja, o seu corpo literal, e o vinho é precisamente aquilo que vai ser derramado, isto é, o seu sangue literal.

Há ainda um trecho, no Evangelho de João, no qual, mesmo que não se esteja tratando deste tema especificamente, se nos esclarece como era o clima de comunicação entre Jesus e os Apóstolos naquela véspera. No versículo 29 do capítulo 16, João escreve que os discípulos falaram a Jesus o seguinte: "Eis que agora falas claramente e a tua linguagem já não é figurada e obscura." Quando um homem está para morrer, ele tem de ser claro, mesmo. E, não obstante, Jesus não revelou qualquer outro significado oculto e simbólico da Eucaristia. Pelo contrário, Ele manteve as mesmas afirmações, do que se conclui que elas, de fato, não são figuras.

O Apóstolo Paulo, já bem depois de todos estes fatos, afirma ter recebido de Deus, por revelação, a notícia destes acontecimentos. Conta ele: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim." Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: "Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim." (1Cor 11,23-25)

Primeiramente, notemos que, se Paulo conheceu estes fatos por revelação direta de Deus, isto significa que estes fatos são centrais para a salvação. Depois, Paulo mantém a afirmação simples e clara de que "isto é" o corpo e o sangue de Jesus, e não que os simboliza. Ao mesmo tempo, ele relaciona o cálice - com o sangue - à Nova Aliança, donde ser falso, de novo, que o sangue representa a verdade ou a doutrina. Com efeito, todos sabemos que a Nova Aliança foi estabelecida no Sacrifício de Cristo. Este cálice é, portanto, o sangue derramado em pagamento pela nossa redenção.

E a prova de que Paulo o entendia literalmente se encontra logo em seguida:

"Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." (v.27-30)

Mais uma vez, Paulo identifica o pão e o cálice ao corpo do Senhor de tal modo que pecar contra um é pecar contra o outro. Se o comungante, no ato de receber este pão, não "distinguir" (διακρίνων - diakrinó - distinguir, reconhecer, julgar) o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. A gravidade da punição só tem sentido em função da dignidade da natureza deste pão e deste cálice. Assim como, conforme vimos acima, a comunhão da carne e do sangue de Jesus estão indissociavelmente vinculados à salvação, o seu recebimento negligente está vinculado à condenação. Desse modo, a celebração eucarística, longe de ser um símbolo, ao qual não faria sentido tanto rigor, é, de fato, verdadeiramente o corpo e o sangue de Nosso Senhor. Tanto é assim que Paulo identifica as doenças e mortes na comunidade de Corinto como um efeito direito do descuido para com o Corpo do Senhor.

A mesma idéia se encontra no capítulo 10, onde Paulo diz: "o cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão." (v. 16-17)

Aqui mais uma vez Paulo afirma que comer este pão é comunhão (comungar) do corpo de Cristo, e beber este vinho é comunhão (comungar) do sangue de Cristo. O termo "comunhão", que Paulo usa, o grego κοινωνία (koinonia), indica participação. Por meio deste alimento, nós participamos de Cristo, participamos da Sua natureza divina, como dizia S. Pedro (cf. 2Pe 1,4). Participar é ter parte. Por este pão, nós temos parte com o Cristo, como Ele mesmo nos disse. (Jo 6,56-57) Além disto, a Eucaristia surge aqui como garantidora da unidade dos cristãos: nós formamos um só corpo porque todos comungamos do mesmo pão. Aquele desejo de Jesus de que falávamos no início - que todos sejam um - somente pode ser realizado através da carne e do sangue do Senhor.

Haveria muito ainda que dizer. Na verdade, isto não é senão um começo no trato deste assunto, que é tão profundo e tão vasto. Mas para que o texto não fique muito grande - o que tende a assustar leitores menos dispostos -, ficamos na análise destes trechos. Uma outra conveniência seria a de observar os comentários dos primeiros cristãos que se seguiram aos apóstolos a respeito deste assunto. Se os visitarmos - muitos deles herdeiros diretos dos apóstolos - veremos que o consenso a respeito do Santíssimo Corpo do Senhor foi um traço cristão - com as exceções de algumas heresias, como acima referido - até o século XVI, quando surgiu a reforma protestante. Queremos, então, terminar com a citação de apenas um deles, São Cirilo de Jerusalém, do séc. IV:

"Se ele em pessoa declarou e disse do pão: Isto é o meu corpo, quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: Isto é o meu sangue, quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galiléia, por própria autoridade, transformou a água em vinho. Não será digno de fé quando transforma o vinho em sangue? Convidado às bodas corporais, realizou este milagre maravilhoso. Aos companheiros do esposo não se concederá, com muito mais razão, a alegria de desfrutar do seu corpo e sangue?

Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza divina».

Não consideres, portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.

Tendo aprendido e estando seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de Cristo e porque sobre isto dizia vibrando Davi: O pão fortalece o coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante (Sl 104,15) fortalece o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória, em Cristo Jesus Senhor Nosso, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém."

Catequeses Mistagógicas sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia.

Fábio.

O incrível milagre eucarístico de Sokólka

Todos os dias, em todos os altares do mundo, dá-se o maior milagre possível: o da transformação do pão e do vinho no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo. No entanto, ao recebermos a comunhão, podemos tocá-lO apenas pela fé, pois aos nossos sentidos é oferecida apenas a forma do pão e do vinho fisicamente inalteradas pela consagração. O que é que, afinal, traz à nossa fé o acontecimento eucarístico de Sokólka?

Foi no domingo, 12 de Outubro de 2008, logo após a beatificação do servo de Deus Pe. Miguel Sopocko. Durante a Santa Missa iniciada na igreja paroquial de St. António de Sokólka às 8h30, durante a distribuição da Comunhão, caiu a um dos sacerdotes aos pés do altar uma Hóstia consagrada. O sacerdote interrompeu a distribuição da Comunhão, pegou nela e, de acordo com as normas litúrgicas, colocou-a no vasculum, um pequeno recipiente com água que se encontra normalmente ao lado do sacrário, servindo para o sacerdote lavar os dedos após a distribuição da Comunhão. A Hóstia deveria dissolver-se nesse recipiente.

No fim da Missa, a irmã Júlia Dubowska, sacristã da Congregação das Irmãs Eucarísticas, em serviço na paróquia, tendo a consciência de que a Hóstia consagrada levaria algum tempo a dissolver-se, a pedido do Pe. Stanislaw Gniedziejko, pároco da paróquia, despejou o conteúdo do vasculum noutro recipiente e colocou-o no cofre que se encontra na sacristia da paróquia. Só a Irmã e o Pároco tinham as chaves do cofre.

Ao fim de uma semana, no dia 19 de Outubro, Domingo das missões, a irmã Júlia – questionada pelo pároco sobre o estado da Hóstia – foi ver o cofre. Ao abrir a porta, sentiu um aroma delicado a pão ázimo. Quando abriu o recipiente, viu a água limpa com a Hóstia a dissolver-se e no meio desta uma mancha arqueada com uma cor vermelha intensa, lembrando um coágulo de sangue, com a forma de uma espécie de partícula viva de um corpo. A água permanecia incolor.

A Irmã informou imediatamente o Pároco, que veio logo com os sacerdotes locais e o missionário Pe. Ryszard Górowski. Todos ficaram surpreendidos e atónitos com o que viram.

Mantiveram discrição e prudência, não esquecendo o peso do acontecimento, pois tratava-se de Pão consagrado que, pelo poder das palavras de Cristo no Cenáculo, é verdadeiramente o Seu Corpo. Do ponto de vista humano, foi difícil definir se a forma alterada do fragmento da Hóstia é o resultado de uma reacção orgânica, química ou de outro tipo de acção.

Imediatamente notificaram do sucedido o Arcebispo Metropolitano de Bialystok, Edward Ozorowski, que se dirigiu a Sokólka juntamente com o chanceler da cúria, os sacerdotes prelados e catedráticos. Todos ficaram profundamente comovidos com o que viram. O Arcebispo mandou proteger a Hóstia, esperar e observar o que iria acontecer.

No dia 29 de Outubro, o recipiente com a Hóstia foi transportado para a capela da Misericórdia Divina na casa paroquial e colocado no sacrário. No dia seguinte, por decisão do Arcebispo, retirou-se a Hóstia com a mancha visível da água, colocou-se num pequeno corporal e em seguida no sacrário. Deste modo se conservou a Hóstia durante três anos, até ter sido solenemente levada para a igreja, no dia 2 de Outubro de 2011. Durante o primeiro ano foi guardada em segredo. Foi um tempo de reflexão sobre o que fazer, pois tratava-se de um sinal de Deus que era necessário interpretar.

Até meados de Janeiro de 2009, o fragmento da Hóstia alterada secou de forma natural e permaneceu como coágulo de sangue. Desde essa altura não mudou de aparência.

Em Janeiro de 2009, o Arcebispo ordenou que se fizessem análises pato-morfológicas à Hóstia e a 30 de Março desse ano criou uma comissão eclesial para analisar o fenómeno. 

O fragmento da Hóstia em forma alterada recolhido foi analisado pela Prof. Dr.ª Maria Sobaniec-Lotowska e pelo Prof. Dr. Stanislaw Sulkowski – de forma independente um do outro, com vista a uma maior credibilidade dos resultados, – pato-morfologistas da Universidade de Medicina de Bialystok. As análises foram realizadas no Instituto de Pato-morfologia dessa universidade. O trabalho de ambos os especialistas foi regido pelas normas e obrigações dos cientistas para analisar cada problema científico de acordo com as directrizes do Comité de Ética da Ciência da Academia das Ciências Polacas. As análises foram descritas e fotografadas exaustivamente. A documentação completa foi entregue à Curia Metropolitana de Bialystok.

Quando foram recolhidas as amostras para análise, a parte não dissolvida da Hóstia consagrada estava já embebida no tecido. Porém, a estrutura de sangue acastanhado do fragmento da Hóstia não perdeu nada da sua clareza. Este fragmento estava seco e frágil, intimamente ligado à restante parte da Hóstia em forma de pão. A amostra recolhida foi o suficiente para realizar todas as análises indispensáveis.

Os resultados de ambas as análises independentes sobrepuseram-se completamente. Concluíram que a estrutura do fragmento da Hóstia analisado é idêntica a tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. A estrutura da fibra do músculo do coração e a estrutura do pão estavam interligadas de forma muito estreita, de forma impossível de realizar por ingerência humana (vide declaração da Prof. M. Sobaniec-Lotowska na reportagem “O Milagre Eucarístico de Sokólka”, Lux Veritatis 2010).

As análises realizadas provaram que não foi adicionada nenhuma outra substância à Hóstia consagrada, mas que o seu fragmento tomou a forma de tecido do músculo do coração de uma pessoa em estado de agonia. Este tipo de fenómeno não é explicável pelas ciências naturais, sendo que os ensinamentos da Igreja nos dizem que a Hóstia entregue para análise é o Corpo do próprio Cristo pelo poder das Suas próprias palavras proferidas durante a Última Ceia.

O resultado das análises pato-morfológicas datadas de 21 de Janeiro de 2009 foram incluídas no protocolo entregue na Cúria Metropolitana de Bialystok.


Para concluir, no comunicado oficial que emitiu, a Cúria Metropolitana de Bialystok afirmou o seguinte: «O acontecimento de Sokolka não se opõe à fé da Igreja, antes pelo contrário, confirma-a. A Igreja professa que, após as palavras da consagração, pelo poder do Espírito Santo, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho no Seu Sangue. Para além disso, trata-se de um chamamento para que os ministros da Eucaristia distribuam o Corpo do Senhor com fé e cuidado e que os fiéis O recebam com adoração.»

in sokolka.archibial.pl

Fonte: Senza Pagare

Carta Circular sobre o sinal da Paz nas Missas - Corrigindo os abusos - Deo Gratias!


CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
CARTA CIRCULAR: O SIGNIFICADO RITUAL DO DOM DA PAZ NA MISSA

1. "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz"[1], são as palavras com as quais Jesus promete aos discípulos reunidos no cenáculo, antes de enfrentar a paixão, o dom da paz, para infundir-lhes a gozosa certeza de sua presença permanente. Depois de sua ressurreição, o Senhor leva ao termo sua promessa apresentando-se no meio deles, no lugar em que se encontravam por temor aos Judeus, dizendo: "A paz esteja convosco!"[2]. A paz, fruto da Redenção que Cristo trouxe ao mundo com sua morte e ressurreição, é o dom que o Ressuscitado segue oferecendo hoje a sua Igreja, reunida para a celebração da Eucaristia, de modo que possa testemunhá-la na vida de cada dia.
2. Na tradição litúrgica romana o sinal da paz, colocado antes da Comunhão, tem um significado teológico próprio. Este encontra seu ponto de referência na contemplação eucarística do mistério pascal - diversamente de como fazem outras famílias litúrgicas que se inspiram na passagem evangélica de Mateus (cf. Mt 5, 23) - apresentando-se assim como o "beijo pascal" de Cristo ressuscitado presente no altar [3]. Os ritos que preparam a comunhão constituem um conjunto bem articulado dentro do qual cada elemento tem seu próprio significado e contribui ao sentido do conjunto da sequência ritual, que conduz à participação sacramental no mistério celebrado. O sinal da paz, portanto, se encontra entre o Pater noster - ao qual se une mediante o embolismo que prepara ao gesto da paz - e a fração do pão - durante a qual se implora ao Cordeiro de Deus que nos dê sua paz -. Com este gesto, que significa a paz, a comunhão e a caridade"[4], a Igreja implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana, e os fiéis expressam a comunhão eclesial e a mútua caridade, antes da comunhão sacramental"[5], isto é, a comunhão no Corpo de Cristo Senhor.
3. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis o papa Bento XVI havia confiado a esta Congregação a tarefa de considerar a problemática referente ao sinal da paz[6], com o fim de salvaguardar o valor sagrado da celebração eucarística e o sentido do mistério no mundo da Comunhão sacramental: "A Eucaristia é por sua natureza sacramento da paz. Esta dimensão do Mistério eucarístico se expressa na celebração litúrgica de maneira específica com o gesto da paz. Trata-se indubitavelmente de um sinal de grande valor (cf. Jo 14, 28). Em nosso tempo, tão cheio de conflitos, este gesto adquire, também a partir ponto de vista da sensibilidade comum, um relevo especial, já que a Igreja sente cada vez mais como tarefa própria pedir a Deus o dom da paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana. [...] Por isso se compreende a intensidade com que se vive frequentemente o rito da paz na celebração litúrgica. A este propósito, contudo, durante o Sínodo dos bispos se viu a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembléia precisamente antes da Comunhão. Seria bom recordar que o alto valor do gesto não fica diminuído pela sobriedade necessária para manter um clima adequado à celebração, limitando por exemplo a troca da paz aos mais próximos"[7].
4. O Papa Bento XVI, além de destacar o verdadeiro sentido do rito e do sinal da paz, punha em evidência seu grande valor como colaboração dos cristãos, para preencher,  mediante sua oração e testemunho, as angústias mais profundas e inquietantes da humanidade contemporânea. Por esta razão, renovava seu convite para cuidar este rito e para realizar este sinal litúrgico com sentido religioso e sobriedade.
5. O Discasterio, baseado pelas disposições do Papa Bento XVI, dirigiu-se às Conferências dos bispos em maio de 2008 pedindo seu parecer sobre se manter o sinal da paz antes da Comunhão, onde se encontra agora, ou se mudá-lo a outro momento, com o fim de melhorar a compreensão e o desenvolvimento de tal gesto. Traz uma profunda reflexão, se viu conveniente conservar na liturgia romana o rito da paz em seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano. Oferecem-se na continuação algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembléias litúrgica antes da Comunhão.
6. O tema tratado é importante. Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, em seus gestos rituais, o significado correto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia. Portanto, junto às precedentes reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese a respeito, para a qual se ofereceram algumas linhas orientativas, submete-se a prudente consideração das Conferências dos bispos algumas sugestões práticas:
a) Esclarece-se definitivamente que o rito da paz alcança já seu profundo significado com a oração e o oferecimento da paz no contexto da Eucaristia. O dar-se a paz corretamente entre os participantes na Missa enriquece seu significado e confere expressividade ao próprio rito. Portanto, é totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar "mecanicamente" para se dar a paz. Se se prevê que tal troca não se levará ao fim adequadamente por circunstâncias concretas, ou se retem pedagogicamente conveniente não realizá-lo em determinadas ocasiões, pode-se omitir, e inclusive, deve ser omitido. Recorda-se que a rúbrica do Missal disse: Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offerte vobis pacem"[8].
b) Baseado nas presentes reflexões, pode ser aconselhável que, com ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido em seu momento. Por exemplo, naqueles lugares em nos quais se optou por gesto familiares e profanos de saudação, traz a experiência destes anos, poderiam-se substituir por gestos mais apropriados.
c) De todos os modos, será necessário que no momento de dar-se a paz se evitem alguns abusos tais como:
- A introdução de um "canto para a paz", inexistente no Rito romano [9].
- Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz.
- Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis.
- Que em algumas circunstâncias, como a solenidade de Páscoa ou de Natal, ou Confirmação, o Matrimônio, as sagradas Ordens, as Profissões religiosas ou as Exequias, o dar-se a paz seja ocasião para felicitar ou expressar condolências entre os presentes[10].
d) Convida-se igualmente a todos a Conferências dos bispos a preparar catequeses lirtúgicas sobre o significado do rito da paz na liturgia romana e sobre seu correto desenvolvimento na celebração da Santa Missa. A este propósito, a Congregação para o Culto Divino e a Disiciplina dos Sacramentos acompanha a presente carta com algumas pistas orientativas.
7. A íntima relação entre lex orandi e lex credendi deve obviamente estender-se a lex vivendi. Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que dele depende a qualidade de nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz[11].
8. Ao finalizar estas considerações, exorta-se aos bispos, e sob sua guia, aos sacerdotes a considerar e aprofundar no significado espiritual do rito da paz, tanto na celebração da Santa Missa como na própria formação litúrgica e espiritual ou na oportuna catequese aos fiéis. Cristo é nossa paz[12],a paz divina, anunciada pelos profetas e pelos anjos, e que Ele trouxe ao mundo com seu mistério pascal. Esta paz do Senhor Ressuscitado é invocada, anunciada e difundida nas celebração, também através de um gesto humano elevado ao âmbito sagrado.
O Santo Padre Francisco, no dia 7 de junho de 2014, aprovou e confirmou o que se contém nesta Carta circular, preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e ordenou sua publicação.
Na sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao dia 08 de junho de 2014, na solenidade de Pentecostes.

Antonio Card. CAÑIZARES LLOVERA
Prefeito

Arthur ROCHE
Arcebispo Secretário
NOTAS

[1]. Jo 14, 27
[2]. Cfr. Jo 20, 19-23.
[3]. Cf. MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum summorum pontificum cura recognitum, Editio typica, 1962, Ritus servandus, X, 3.
[4]. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 71: AAS 96 (2004) 571.
[5]. MISSALE ROMANUM, ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, auctoritate Pauli Pp. VI promulgatum, Ioannis Pauli Pp. II cura recognitum, editio typica tertiam, diei 20 aprilis 2000,Typis Vaticanis, reimpressio emendata 2008, Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82.
[6]. Cf. BENTO XVI, Exhort. Apost. pós-sinod., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49: AAS 99 (2007) 143
[7]. Cf. Bento XVI, Exhort. Apost., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49, nota n. 150: AAS 99 (2007) 143.
[8]. MISSALE ROMANUM, Ordo Missae, n. 128
[9]. No rito romano não está tradicionalmente previsto um canto para a paz porque se prevê um tempo brevíssimo para dar a paz somente aos mais perto. O canto da paz sugere, pelo contrário, um tempo muito largo para a troca da paz.
[10]. Cf. Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82: "Conveniente, contudo, que cada um expresse sobriamente a paz somente aos que tem mais próximo"; n. 154: "O sacerdote pode dar a paz aos ministros, permanecendo sempre dentro do presbitério, para não alterar a celebração. Faça-se do mesmo modo se, por uma causa razoável, deseja dar a paz a alguns fiéis"; CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., Redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 72: AAS 96 (2004) 572.
[11]. Cf. Mt 5, 9ss.
[12]. Ef. 2, 14.

Dia de Corpus Christi - Mistério insondável


Dia desses, fui à Missa e, olhando a Eucaristia, me pus a meditar..

A Eucaristia é Deus. Às vezes, a gente acha que entende o que é isso, mas não entende. Qualquer conceito que possamos ter de Deus, por mais elevado que seja, é sempre analógico e nunca literal. O que Ele é nos escapa. Por isso dizemos apenas que Ele é.

Neste sentido, escreveu S. Gregório de Nissa, na sua Vida de Moisés:

"Todo conceito formado pelo entendimento para tentar atingir e abranger a natureza divina não consegue mais do que forjar um ídolo de Deus, em vez de fazer conhecê-Lo."

Qualquer teologia que suponha poder dizer estritamente quem é Deus torna-se herética no ato mesmo de pretendê-lo. Quem é Deus? Não sabemos. As nossas afirmações d'Ele são sempre comparativas.

Se não sabemos isto, como pretendemos entender o fenômeno da Eucaristia? Simplesmente, não dá.. Podemos ter uma Fé profunda de que Deus está ali, mas a Fé é justamente a "visão obscura", o "ver confusamente" de que fala S. Paulo. Por isso, a Sta Edith Stein costumava dizer que a Eucaristia é "o pão seco dos fortes", pois é preciso ser forte, no sentido de vencer a nossa tendência natural de exigir comprovações e gostos sensíveis, como fazem as crianças com os alimentos, para encontrar ali o Cristo. Sta Faustina Kowalska dizia o mesmo: "A fé firme rasga este véu". E é assim mesmo que Deus o quer, pois diz São Paulo: "O justo vive pela fé" e "sem fé é impossível agradar a Deus." Jesus o exprime de modo claro: "Felizes os que crêem sem ter visto", e Tomás de Aquino, o doutor angélico, por sua vez, escreve em que consiste esta força: "Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela Fé." (Lauda Sion)

A Fé, portanto, não indica um bloqueio no sentido de nos deixar aquém daquilo que é percebido pelos sentidos. Pelo contrário, a Fé nos leva além deles, a um tipo de conhecimento que é tão intenso e se aproxima tanto da luz que, antes, nos ofusca. Mas, ao nos ofuscar, nos ilumina e nos prepara, gradativamente, para a visão. Os olhos incandescidos tendem a adaptar-se aos poucos à luz. A Eucaristia, exigindo-nos a Fé, nos prepara para a visão beatífica.

A Eucaristia é Deus. Ao dizê-lo, abre-se diante de nós um abismo de horizontes infinitos. Como esgotá-lo com o entendimento? Não dá. Os sentidos não o apreendem. A razão apenas assente. E, no entanto, Deus verdadeiramente Se dá, e nós O recebemos, e O comemos.

Deus é a raiz mesma da realidade. É a realidade por si mesma subsistente. É a realidade real por excelência. Duvidar da Eucaristia, portanto, é um contrassenso, pois é duvidar daquilo que é mais verdadeiro que qualquer verdade que conhecemos. Sob as espécies do Pão e do Vinho está aquele que disse: "Eu sou a Verdade" (Ego Sum Veritas).

Nós, que vivemos num mundo efêmero e frágil, que passa como um piscar de olhos, que é um momento entre duas eternidades, como bem o disse Sta Teresinha de Lisieux, ao receber a Eucaristia, recebemos Aquele que É, que não é suscetível de mudanças, que criou e sustenta todas as criaturas; Aquele ao qual tudo o que existe deve sua existência. Comemo-Lo e, ao fazê-Lo, sofremos uma espécie de adensamento da realidade. Nos tornamos mais nós mesmos, pois estamos comendo a própria Verdade. A Eucaristia, portanto, reforça o nosso ser, e tenderá necessariamente a iluminar a inteligência, permitindo-nos conhecê-Lo e conhecer-nos. Conhecer-nos é a raiz da humildade, que é início de qualquer virtude. A Eucaristia, assim, é causa eficiente de uma profunda dinâmica interior que culminará na santidade ou perfeita identificação com o Cristo, se o permitirmos. Não é outra coisa o que Ele mesmo diz a Sto. Agostinho:

"Ao comer-Me, não és tu que Me transformas em ti, mas Eu que te transformo em Mim."

Que mistério.. Uma criatura, abismo de nada, recebe em si mesma Aquele que é o tudo. Como pode um buraco na areia receber o oceano? Deus não pode, depois de recebido, não abrir a amplitude interior da alma, não torná-la grande, não estendê-la ao infinito, não dispô-la a Si. Se o recipiente torna o recebido semelhante a si, aqui se dá o inverso: é o recebido que adapta o recipiente. 

Neste dia de Corpus Christi, nós possamos contemplar o mistério absolutamente inefável da Eucaristia, o amor e a humildade vertiginosos que se comprimem ali, naquelas aparências tão vizinhas do nada, como dizia Sta Teresa D'Avila, e aceitar o fato de que não O vemos nem O entendemos. Não desejemos vê-Lo nem compreender tal mistério. Desejemos apenas amá-Lo e acreditar na Fé que nos diz que, naquele pequeno objeto frágil, magra hóstia branca, há um sobre-excesso de ser, uma raiz de eternidade, ou, como diziam os antigos, o remédio de imortalidade, pois, "quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna." (Jo 6,54)

Fábio

Justino dá uma descrição geral sobre como a Santa Missa era celebrada na metade do Século II


Para a época que seguiu à morte dos Apóstolos, um dos documentos mais antigos e mais interessantes é uma apologia dos cristãos escrita por São Justino, que morreu em 165. Entre 150 e 155 dirigiu ele ao imperador Romano Antonino sua primeira apologia na qual descreve o que se pratica nas assembléias cristãs, a fim de mostrar que as atrocidades que lhes são atribuídas pelos pagãos são pura calúnias. Nele refere-se duas vezes às celebrações eucarísticas. Não nos transmite um texto completo da liturgia nem fórmulas de orações ou de exortações, mas a sequência detalhada dos atos praticados nestas assembléias e a maneira como era celebrada a Eucaristia em Roma e nos países onde ele viveu, a Palestina (onde nasceu) e o Egito.

Eis sua descrição de uma reunião dominical:

1. No dia dito do sol (domingo) reúnem-se em um mesmo lugar todos os cristãos, os que residem nas cidades e os que residem no campo.

2. O leitor lê trechos tirados das memórias dos Apóstolos (Novo Testamento) e dos livros dos Profetas (Antigo Testamento).

3. terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para explicar aos presentes o que foi lido e exortá-los a pôr em prática tão belos ensinamentos (homilia).

4. Em seguida, levantamo-nos todos e dirigimos a Deus orações e súplicas (súplica insistente ou ecteni, após o Evangelho).

5. Suspendendo as orações, abraçamo-nos uns aos outros (Ósculo da paz).

6. Depois levam àquele que preside a reunião dos irmãos em Cristo, pão e um cálice contendo vinho, misturado com água (Procissão do ofertório).

7. O Presidente toma o pão e o cálice, louva e glorifica o Pai do universo em nome de seu Filho e Espírito Santo; dirige-lhe abundantes ações de graças por ter-se dignado dar-nos estes dons (Anáfora).

8. Terminada esta ação de graças (Eucaristia) todos os presentes exclamam: Amém.

9. Depois os ministros que chamamos diáconos distribuem a todos os presentes o pão da Eucaristia e o vinho misturado com água (Comunhão). Estes mesmos diáconos levam aos ausentes sua parte do pão e do vinho eucarísticos. 

10. Por fim, os ricos socorrem os indigentes (Coletas).

A partir do século III as alusões à Eucaristia são mais numerosas mas menos precisas por causa da disciplina do "Arcano" ou segredo, que foi adotada pela Igreja e que proibia falar da Eucaristia aos não-cristãos.

Monsenhor Pedro Arbex. A Divina Liturgia Explicada e Meditada. São Paulo: Editora Santuário, 1998. p.25-26.

História do Sacrifício - Antigo e Novo Testamentos - Mons. Pedro Arbex


Sacrifício e Sacramento

A missa é o ato litúrgico durante o qual renova-se de modo místico e incruento o sacrifício cruento de Cristo na cruz; e administra-se aos fiéis, pela Eucaristia o alimento espiritual para as suas almas. Na missa, portanto, celebra-se não somente um sacramento, o maior dos sacramentos, mas renova-se também um sacrifício, o verdadeiro e perpétuo sacrifício da Nova Aliança.

A Eucaristia é sacrifício, enquanto se oferece; é sacramento, enquanto se recebe.

Sacrifício em geral

O sacrifício é a oferta voluntária de uma coisa sensível que é destruída, se for um ser inanimado, ou imolada, se for um ser animado; feita por um ministro legítimo, a Deus só, para reconhecer seu domínio absoluto e, no caso de pecado, para aplacar sua justiça e obter a reconciliação e a união com ele.

O sacrifício, que é o ato de culto mais característico e mais sublime, deriva da dupla obrigação do homem para com Deus: a nossa dependência absoluta dele, como criaturas; a nossa inimizade com ele, como pecadores.

A necessidade do sacrifício como reconhecimento da nossa dependência de Deus sempre existiu, mesmo no estado de inocência de nossos primeiros pais, no paraíso terrestre, antes da queda: Adão e Eva, mesmo se não tivessem pecado, teriam de oferecer sacrifícios a Deus, em sinal de submissão e de gratidão.

Quando, porém, o pecado abriu um abismo entre Deus e o homem, o sacrifício assumiu uma segunda finalidade, tornando-se o meio de reconciliação. O sacrifício, enquanto expiação do pecado, tem o caráter de representação ou substituição.

1. A essência do sacrifício é a destruição de uma coisa sensível ou a imolação de um ser vivo. A melhor maneira para o homem exprimir sua dependência e a dependência das outras criaturas é, evidentemente, a morte voluntária, isto é, o fato de entregar livremente sua vida àquele de quem a recebeu. Foi isto que Deus quis fazer entender aos homens quando ordenou a Abraão que lhe imolasse seu filho único, Isaac. Mas, quando logo depois, satisfeito pela obediência cega de seu servo, substituiu Isaac por um carneiro, desaprovou ao mesmo tempo os sacrifícios humanos, aos quais tinha direito, e indicou o modo de substituí-los.

2. O ministro do sacrifício deve ser legítimo. O sacrifício é um ato de culto público. Ninguém pode cumpri-lo se não tiver títulos para falar ou agir em nome da sociedade. Na lei evangélica como na lei mosaica (e até entre os pagãos) somente os sacerdotes são delegados para esta missão.

3. O fim, o escopo do sacrifício, é reconhecer o absoluto domínio de Deus e aplacar sua justiça, se o ofendemos.

Pela criação existe entre o Criador e sua criatura um laço que os liga um ao outro: laço de soberania da parte do primeiro, e laço de dependência da parte do segundo. O sacrifício é o ato pelo qual exprimimos esta relação e proclamamos, de um lado, a infinita grandeza de Deus, e, de outro, o nosso nada, a nossa pequenez; e no caso de natureza decaída, nossa ingratidão e nosso arrependimento.

A coisa essencial num sacrifício  é dar ou renunciar a um objeto de valor (valor em si ou para quem dá), por amor de Deus. Para dar a esta oferta todo o seu significado, os homens costumavam destruir o objeto sensível: esta destruição impedia que se pudesse voltar a possuir aquele objeto e com isto se exprimia a verdade seguinte: que não somos nada diante de Deus.

A dádiva oferecida ocupava o lugar do homem. Por isso aquele que fazia a oferta colocava, muitas vezes, a mão sobre o animal sacrificado, e fazia-se aspergir com o sangue ainda quente e fumegante da vítima. Assim fizeram Abel, Caim, Noé. Abel imolou e queimou as primícias dos seus rebanhos; Caim, seu irmão, queimou os frutos da terra; Noé matou e queimou animais à saída da arca.

Sacrifícios sangrentos e não sangrentos

Todos os povos e todas as religiões tiveram seus sacrifícios. Aparecem já praticados pelos filhos dos nossos primeiros pais. Caim e Abel (Gn 4), e achamo-los em todas as épocas entre os pagãos e os judeus. Egípcios, Caldeus, Assírios, Persas, Gregos, Romanos, etc. ofereciam sacrifícios a seus deuses para aplacá-los ou para implorar seu auxílio. Chegaram até a imolar seres humanos. Sabemos, pela Sagrada Escritura, que o rei dos Moabitas, para escapar ao cerco do rei de Israel, imolou seu filho primogênito.

Os Fenícios e outros povos da Ásia sacrificavam, todos os anos, crianças a Moloc, o deus do fogo com cabeça de touro. "O que os pagãos imolam, escrevia São Paulo aos Coríntios, imolam-no aos demônios e não a Deus" (1Cor 10,20). A humanidade, mesmo envolta nas trevas da ignorância e da perversão, sempre sentiu a necessidade de oferecer sacrifícios à divindade, ainda que confundindo o verdadeiro Deus com os falsos ídolos. Em Atenas, no tempo de São Paulo, não havia entre os inúmeros altares um altar ao "Deus desconhecido"?

Havia sacrifícios cruentos e sacrifícios incruentos (sangrentos e não sangrentos). Os primeiros consistiam na imolação, no derramamento do sangue de uma vítima escolhida no reino animal (bezerros, carneiros, ovelhas, cabras, rolas e até seres humanos). Nos segundos, em que não se derramava sangue, as ofertas eram escolhidas no reino vegetal e podiam ser objetos sólidos (trigo, farinha, pão, frutos da terra, etc.), ou líquidos (vinho, azeite). Os sólidos eram queimados e os líquidos derramados ao pé do altar. Oferecia-se também incenso.

Sacrifícios do Antigo Testamento ou da Lei Mosaica

Os sacrifícios dos pagãos não eram senão tentativas para chegar ao verdadeiro sacrifício de expiação ou de ação de graças à divindade: ofereciam animais sem defeitos físicos, crianças inocentes ou produtos escolhidos da terra, para serem vítimas perfeitamente imaculadas e, portanto, agradáveis aos deuses.

Quando Deus escolheu para si, nos descendentes de Abraão, um povo eleito, do meio do qual ia nascer o Salvador do gênero humano, ele próprio fez a Moisés, após a saída do Egito, numerosas prescrições sobre os sacrifícios que lhe deviam ser oferecidos, enquanto durava a Antiga Aliança.

"No Antigo Testamento tudo era coberto de sangue como figura do sangue de Jesus Cristo que nos devia purificar" (Bossuet).

Pela Bíblia sabemos que os judeus tinham três tipos de sacrifícios: os holocaustos, os sacrifícios de expiação e os sacrifícios pacíficos.

1. No holocausto (gr.: ólos, inteiro; e caústos, queimado), chamado também "sacrifício perfeito", a vítima era imolada e inteiramente consumida pelo fogo sobre o altar. Demonstrava-se assim o domínio absoluto de Deus sobre suas criaturas, representadas pela vítima.

No Templo de Jerusalém, único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios, todo dia ao nascer do sol e à tarde imolava-se um cordeiro que devia ser queimado por completo; e aos sábados, em vez de um, sacrificavam-se dois cordeiros pela manhã e dois à tarde. Ao mesmo tempo, no altar dos perfumes, um outro sacerdote queimava incenso sobre o braseiro que ali se encontrava. É esta última função que desempenhava Zacarias, quando lhe apareceu o anjo para lhe anunciar que teria um filho, "a quem porá o nome de João" (Lc 1).

2. Os sacrifícios expiatórios destinavam-se a aplacar a cólera do céu, a expiar os pecados do povo, e a purificá-lo das suas iniquidades.

Destas vítimas, uma parte era queimada sobre o altar e outra ficava reservada para o sustento dos sacerdotes.

Cada ano os judeus celebravam a festa da expiação (Yom Kippur). Neste dia o sumo sacerdote oferecia em holocausto um touro para a expiação de seus próprios pecados e dos pecados da sua família; e um bode oferecido pelo povo, para a expiação dos pecados da comunidade. Em seguida, pondo suas mãos sobre a cabeça de um segundo bode vivo oferecido também pelo povo, carregava-o de todos os pecados da nação e o expulsava para o deserto, levando assim simbolicamente para longe de Deus as iniquidades de seu povo (bode expiatório).

No dia da sua purificação, isto é, 40 dias após o nascimento de Jesus, Maria e José, em obediência à lei, "levaram o menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, e para oferecerem em sacrifício (de expiação) um par de rolas ou dois pombinhos" (Lc 2,22-24).

3. Os sacrifícios pacíficos tinham por finalidade dar graças a Deus pelos bens e dons recebidos, pedir-lhe uma graça ou cumprir uma promessa: após a imolação da vítima, uma parte dela era queimada no altar; uma outra reservada aos sacerdotes e uma terceira consumida, num convívio sagrado, pela pessoa que mandou oferecer o sacrifício e pelos membros de sua família. Esta refeição figurava a Eucaristia.

Além dessas três espécies de sacrifícios sangrentos, havia os sacrifícios não sangrentos, ou oblações, que acompanhavam obrigatoriamente os holocaustos e os sacrifícios pacíficos, ou podiam ser feitos isoladamente.

A matéria oferecida era uma substância, sólida ou líquida, mais frequentemente incenso, farinha (misturada com sal e azeite), ou vinho.

Todos estes sacrifícios não eram senão figura do verdadeiro sacrifício da Nova Aliança selada pelo sangue de Cristo. Por isso cessaram, conforme os profetas o tinham anunciado, depois do Sacrifício do Calvário: o símbolo deve ceder o lugar à realidade, como a noite à luz.

São Paulo, na sua Epístola aos Hebreus, (9,11), diz a esse respeito: "Cristo veio como Pontífice dos bens futuros; e passando por um tabernáculo mais excelente e perfeito, não feito por mão do homem, quer dizer: 'não deste mundo', entrou no santuário não pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, e de uma vez para sempre, porque alcançou a redenção eterna. Ora, se o sangue dos cabritos e dos touros e a aspersão da cinza duma novilha santifica os impuros pela purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito Santo, se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!"

Sacrifício da Nova Aliança

Na Nova Aliança, há um só sacrifício: o sacrifício que Jesus Cristo instituiu na última Ceia, consumou no dia seguinte sobre a Cruz e que a Missa renova todos os dias.

Jesus, Sacrificador e Vítima

Nos sacrifícios antigos o sacerdote era distinto da vítima. Escolhiam como vítima, nos sacrifícios cruentos, considerados os mais perfeitos, um ser vivo, de preferência um animal doméstico, que, por pertencer ao homem, podia legitimamente substituí-lo.

Ofertavam-no a Deus, separando-o de todo uso profano, para consagrá-lo ao serviço e à honra da divindade. Imolavam-no em seguida, a fim de mostrar que o pecador, tendo ofendido a Deus, não tinha mais o direito de viver, que merecia a morte.

Em certos sacrifícios , após ter queimado uma parte da vítima, comiam a outra parte, para comungar assim à vítima e, por meio dela, à divindade. Porque, após a glorificação de Deus, a união com ele, quebrada pelo pecado, era o fim para o qual tendia o sacrifício.

Portanto, três atos principais constituíam o sacrifício: o oferecimento, a imolação e a comunhão que se chamava também consumação. Tudo isto não eram senão figuras ou símbolos que preparavam o sacrifício verdadeiro, o sacrifício que devia oferecer o Homem-Deus, o Sumo Sacerdote da nova Lei, para glorificar a Deus e salvar seus irmãos. Ora, Deus tem direito a homenagens infinitas; para render-lhe tais homenagens e reparar a ofensa a ele feita pelo pecado, era necessário um sacrifício de valor moral infinito. E, para que assim seja, Jesus, nosso Sumo Sacerdote, quis ser não somente o sacrificador, mas também a vítima. Só deste modo, sob este duplo aspecto, o sacrifício oferecido por ele teria verdadeiramente um valor infinito, pois a dignidade de um sacrifício depende da dignidade da pessoa que o oferece e da vítima oferecida. Ora, Jesus, sacerdote e vítima, não é outro senão o Homem-Deus, isto é, uma pessoa infinita.

Desde o primeiro instante de sua encarnação no seio virginal de Maria, Cristo se ofereceu a seu pai como vítima para substituir todos os holocaustos. Lemos na Epístola aos Hebreus 10,5-6: "Entrando no mundo, Cristo diz: 'Tu não quiseste sacrifício nem oblação, mas me deste um corpo. Os holocaustos pelo pecado não te agradam. Então eu disse: eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade'".

E toda a sua vida foi uma cruz e um martírio, orientada para a imolação final que constituíra o ato essencial de seu sacrifício. Sua imolação como vítima começa com sua Paixão, no Jardim da Agonia, para terminar no Calvário. Mas, antes de se deixar imolar pelos algozes, Jesus quis de novo oferecer-se como vítima e, desta vez, num verdadeiro sacrifício, acompanhado de ritos misteriosos, o sacrifício da última Ceia. "Tomai e comei, este é o meu Corpo, dado por vós." "Bebei todos, porque este é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, que é derramado por vós para a remissão dos pecados."

No Jardim das Oliveiras, vendo-se carregado dos pecados dos homens, submerso pelas águas turvas de todas as iniquidades humanas e isto diante do Deus de toda santidade, uma tristeza mortal apodera-se de sua alma e um suor de sangue corre-lhe ao longo do corpo. Gostaria de ver longe dele este cálice de amarguras, mas submete-se à vontade de Deus: "Meu Pai, se é possível, permiti que passe de mim este Cálice; faça-se, contudo, não como eu quero, mas como vós quereis" (Mt 26,39).

Traído por Judas, renegado pelo chefe dos doze, abandonado por quase todos os seus discípulos, esbofeteado, injuriado pelos servos do sumo sacerdote, condenado pelo Sinédrio por ter-se proclamado o Filho de Deus, condenado por Pilatos que, no entanto, momentos antes tinha proclamado sua inocência, flagelado, coroado de espinhos e carregando uma pesada Cruz, sobe penosamente o monte Calvário, estende seus membros doloridos, vê seus pés e suas mãos traspassados pelos cravos, ouve os insultos e as zombarias dos chefes de seu povo, Escribas e Fariseus; e em vez de se vingar, como bem poderia fazer, pede a seu Pai que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem. Ele é o Bom Pastor que dá sua vida por suas ovelhas, conforme tinha dito: "Eu sou o Bom Pastor; o Bom Pastor dá sua vida por suas ovelhas... Ninguém me tira a minha vida, mas eu a entrego por mim mesmo; tenho o poder de entregá-la e tenho o poder de retomá-la novamente. Este é o mandamento que recebi de meu Pai" (Jo 10).

Cumprido o mandamento, pôde exclamar: "Está tudo consumado". Só lhe falta permitir à morte levar sua vítima voluntária, e o fez oferecendo-se pela última vez a seu Pai como vítima de propiciação.

"Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). Dizendo isto, expirou; e Deus foi glorificado como jamais o tinha sido; e os homens foram salvos.

Os antigos, após a imolação da vítima, desejavam um sinal que comprovasse ter sido a oferta aceita por Deus. Às vezes o Senhor enviava o fogo do céu para consumir a vítima que, então, se elevava ao céu como um sacrifício de agradável odor (ver Elias). Houve algo de análogo após a imolação do Calvário. Em vez de enviar o fogo do céu, para consumir a vítima, Deus ressuscitou seu Filho, conferindo a seu corpo glorioso um poder santificador que se exercerá pela Eucaristia, banquete sagrado pelo qual entramos em comunhão com a vítima e por meio desta com Deus a quem foi oferecida.

Quarenta dias após sua ressurreição, Cristo subiu glorioso ao céu, de corpo e alma, para assentar-se à direita do Pai, onde, continuamente, advoga a nossa causa e intercede por nós.

São Paulo, após ter observado que os sacerdotes da Lei antiga tinham necessidade de sucessores porque eram mortais, acrescenta: "Mas Este (Cristo) como permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno. E por isso pode salvar perpetuamente os que por ele chegam a Deus; está sempre vivo para interceder por nós. Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores e mais elevado do que os céus; que não precisa, como os outros sacerdotes, oferecer diariamente sacrifícios, em primeiro lugar pelos seus pecados, depois pelos do povo; porque isto o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo" (Hb 7,24-27).

Na noite em que foi entregue, no decorrer da ceia pascal, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de ter dado graças, o abençoou, partiu e deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo que é entregue por vós”. Do mesmo modo, tomou o cálice, deu graças e entregou-lhes, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, sangue da Nova Aliança, que vai ser derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados.” E acrescentou: “Fazei isto em memória de mim”. 

Para que os judeus se recordassem que tinham sido libertados da escravidão do Egito, Deus tinha-lhes ordenado que imolassem e comessem todos os anos, na festa da Páscoa, um Cordeiro sem mácula, na flor da idade. 

Foi depois de ter cumprido este preceito e comido com seus discípulos o Cordeiro pascal, que Cristo transformou o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue. Durante a ceia da Antiga Aliança, Cristo selou com seu sangue a Nova Aliança. “Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado”. (1Cor 5,7), diz São Paulo. 

O Cordeiro que os judeus imolavam não era senão o símbolo do verdadeiro Cordeiro de Deus que veio imolar-se para tirar os pecados do mundo. Sem duvida, somente no dia seguinte, este Cordeiro será imolado de modo sangrento na Cruz; mas na ceia ele está já oferecido como vítima destinada com antecedência à morte; Jesus se oferece como vítima aceitando livremente a morte que lhe será imposta, no dia seguinte; oferece de maneira ritual e mística a imolação que, no dia seguinte, será realizada de maneira visível e sangrenta; doravante sua vida não lhe pertence mais, ele a entregou já para a salvação do mundo. 

Assim, o Salvador é sacerdote segundo a ordem e o ritual de Melquisedec; este último ofereceu a Deus em sacrifício pão e vinho; Jesus, na última ceia, ofereceu-se a si próprio, sob as espécies do pão e do vinho, tornando assim realidade o que o salmista tinha predito, há muitos séculos: “O Senhor fez juramento e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). 

Após ter convertido o pão e o vinho em seu corpo e em seu sangue, Jesus disse a seus discípulos: “Fazei isto em memória de mim”. 

Com estas palavras, deu-lhes o poder de consagrar seu corpo e seu sangue, e impôs-lhes o dever de se lembrarem dele. São Paulo nos explica de que maneira se faz essa lembrança: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). 

É, pois, Jesus Crucificado que a Eucaristia nos lembra; é seu corpo partido, seu sangue derramado! A Missa durante a qual a Eucaristia é consagrada é, portanto, um memorial da Paixão de Cristo, de Cristo agonizando, de Cristo morrendo por nós; é também uma representação viva do sacrifício da cruz: o sacerdote é o mesmo, a vítima também. 

O Sumo Sacerdote da Nova lei, ou melhor, o único sacerdote, é Jesus Cristo. E se na Missa ele se oferece pelo ministério dos sacerdotes, é unicamente porque ele assim quis fazer depender sua presença no altar da vontade e da ação de um homem. O sacerdote não é sacerdote senão em dependência de Cristo, e só age como seu representante. Na consagração ele diz: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue” e não isto é o Corpo de Cristo, isto é o sangue de Cristo. 

Assim como a última Ceia foi um verdadeiro sacrifício porque oferecia a vítima que ia ser imolada no dia seguinte, assim também a Missa é um verdadeiro sacrifício, porque renova a oferta da vítima já imolada no Calvário. 

Cumprindo a ordem do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”, os Apóstolos e depois deles os seus sucessores, os bispos e os sacerdotes, têm sempre oferecido este sacrifício. 

No tempo dos Apóstolos, os cristãos já se reuniam para o que chamavam “a fração do pão” especialmente ao domingo. Nos Atos dos Apóstolos, lemos no capítulo 20: “No primeiro dia da semana, quando nos reunimos para partir o pão...” 

São Paulo diz muitas vezes que benziam e bebiam o cálice e que partiam e comiam o pão: O cálice de bênção, escreve ele aos Coríntios, que consagramos não é, porventura, a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do Corpo do Senhor?” (1Cor 10,16).

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Meditada. São Paulo: Editora Santuário, 1998. p. 9-18.

Desabafo de um padre sobre missas

 
Pe. Luís Fernando

Sou padre há quase 5 anos. Fui seminarista por 7 anos. Já estive em vários lugares Brasil afora, já celebrei em tantos outros e guardo no meu coração uma tristeza profunda. Quando eu era criança na roça e ia com minha família à missa uma vez por mês eu sabia que naquela hóstia tinha Jesus. Eu sentia o cheiro da vela queimando e aprendi a me perseguinar toda vez que passava diante de uma Igreja. Eu achava tudo meio estranho porque não entendia a missa, mas, sentava no primeiro banco e respondia a todas as perguntas que o padre fazia na hora do sermão. Daí eu cresci, fomos pra cidade e eu continuava inocente. Fui pro seminário e as escamas de meus olhos caíram. A missa pela qual eu sempre nutri o maior religioso respeito
virou palco
virou show
virou passeata
virou passarela
virou camarim de estrela
virou sambódromo
virou terreiro
virou tudo e suportou tudo
menos ser de fato, missa.
Já vi tanto desleixo... alfaias puídas, vasos sagrados zinabrados, hóstias consagradas carunchadas dentro do sacrário, um sacrário no meio de uma reforma de Igreja com hóstias consagradas dentro, consagração de vinho em tamanha quantidade que as sobras Eucarísticas precisaram de um exército de MESC para consumi-las porque o padre não poderia fazê-lo sem ficar bêbado e outros tantos abusos. Quando veio a Redemptionis Sacramentum e a Ecclesia de Eucharistia veio uma lufada de ar fresco e os rebeldes da Teologia da Libertação, da Rede Celebra e das CEB`s reagiram vorazmente. O site do mosteiro da Paz que hospedava uma carta de Reginaldo Velloso eivada de críticas às necessárias mudanças na liturgia e catalizadora desta mentalidade saiu do ar, mas, encontrei-a no site da Montfort disponível aqui.
Capitaneada pelo dualismo marxista de tipo maniqueísta, a reinterpretação que a missa sofreu nas décadas que sucederam o Concílio Vaticano II seguiu as pegadas da subjetividade humana. É odioso ouvir: "ah o jeito do outro padre é diferente". Isto denota uma personalização que a missa não comporta. A missa nunca foi a missa do padre, mas a missa da Igreja!
Esta mentalidade impregnou tanto a liturgia que quando um Padre quer celebrar a missa da Igreja, aquela do Missal Romano, é chamado de retrógrado. O respeito às normas litúrgicas são sinônimo de opressão. A missa pura e simples foi esvaziada para poder ser enchida pela ideologia da enxada, da faixa, do cartaz, da freira, do padre TL... a missa se transformou...
virou manifestação e protesto contra o Governo e o Sistema
contra a Igreja
contra os padres
contra a fé católica de sempre
contra a liturgia de sempre.
Enfiaram bananeiras, berrantes, espeto de churrasco, cuia de chimarrão, pão de queijo, cachaça, coco, faca e facão, pipoca, balões e ervas de cheiro na missa, enfiaram panos coloridos para todos os lados, colocaram mães de santo manuseando o turíbulo e leigos lendo preces seminus. Para essa CORJA a missa já deixou há muito tempo de ser o sacrifício redentor de Cristo PRO MULTIS e se tornou só mais uma mesa para comensais na qual vale o discurso e não a fé, na qual o que importa é o que o homem diz aos seus iguais e não o que Deus diz ao homem. Lembro-me de um professor contando todo garboso que certa feita utilizou-se de uma Adoração ao Santíssimo Sacramento para dar uma aula de teologia ao povo - aos seus moldes é claro - porque para ele aquela hóstia era pobre de significado.
Aquela hóstia pobre...
tão pobre quanto o cocho de Belém,
tão pobre quanto a cama em Nazaré,
tão pobre quanto a casa de Pedro em Cafarnaum,
tão pobre quanto a casa de Lázaro em Betânia,
tão pobre quanto o coração do Filho de Deus,
ela só pôde se tornar Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Cristo
porque Ele se fez pobre!
Sua pobreza não comporta reduções
tampouco acréscimos desnecessários.
Ele é aquele que é e nada mais,
mas, só para quem tem fé!
Aos meus irmãos padres um apelo: que nós diminuamos e que Ele apareça. Não somos o noivo, apenas amigos do noivo! Rezemos a missa da Igreja, a missa do Missal. Que Ele fale aos corações e às mentes, inclusive às nossas mentes e corações! Ele ele toque as vidas, inclusive as nossas. Que sua voz ecoe nas consciências, também nas nossas. Que toda a nossa Liturgia seja feita Por [causa de] Cristo, Com Cristo e em Cristo a[o] Pai na Unidade do Espírito Santo. Só isso. Se fizermos isso bem feito teremos feito tudo o que nos compete nesta vida.
 
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