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A Mística de S. Bernardo de Claraval - II


II. A Liberdade

Dentro dos moldes de sua antropologia S. Bernardo elaborou uma psicologia da vontade, que merece uma exposição à parte. Não é possível isolar esta doutrina do seu contexto místico sem lhe fazer certa violência. Contudo, enquanto não perdermos de vista esta circunstância, poderemos não só expô-la sem receio de desfigurá-la, como também auferir grande proveito das novas perspectivas que nela se abrem para o campo filosófico.

1. O livre arbítrio

O homem foi criado para participar da felicidade de Deus. Para ser feliz é mister que se possa gozar o bem desejado; e para atingi-lo requer-se um ato de assentimento ou afirmação. Ora, o poder de assentir implica a liberdade. Por isso o homem foi dotado de uma vontade livre, a que cabe decidir de sua salvação ou perdição eterna. Como vimos acima, o que o capacita a participar de Deus é precisamente esta sua vontade livre; pelo que a liberdade constitui a essência mesma da imagem de Deus no homem.

Ao passo que Agostinho repõe a imagem de Deus preferentemente no espírito do homem, com suas potências e relações mútuas, S. Bernardo propende mais para a opinião dos Padres gregos, vinculando a idéia da imagem com a da liberdade.

O livre arbítrio é uma estrutura complexa que, além dos fatores "livre" e "arbítrio", contém dois outros aspectos, relacionados a outras potências da alma.

a) O fator "livre"

A vontade consiste essencialmente no poder de consentir ou dissentir. Onde há vontade, ali há liberdade: liberdade da necessidade ("libertas a necessitate") ou, em vista da incompatibilidade entre liberdade e constrangimento, liberdade da coação ("libertas a coactione").

A liberdade da necessidade e da coação é um privilégio inseparável da vontade; encontra-se da mesma maneira em todos os seres dotados de vontade: nos homens, nos anjos, em Deus; possuem-na, igualmente, os santos e os pecadores. Nem mesmo o pecado, pois, é capaz de anulá-la. Por este motivo, o próprio pecador continua a ser uma imagem de Deus.

b) O fator "arbítrio"

O segundo fator constitutivo do livre arbítrio é uma energia espiritual. O "arbítrio" envolve conhecimento e julgamento. A vontade é apta a julgar seus próprios atos, isto é, a decidir de sua bondade ou malícia.

Por isso o livro arbítrio não é apenas autodeterminação livre, mas também autojulgamento, dado que o ato volitivo, enquanto ato de um ser racional, vem sempre acompanhado de um ato cognoscitivo. Este poder de autojulgamento inere ao próprio livre arbítrio, e por isso é inamissível.

c) A "libertas consilii et complaciti"

O livre arbítrio, e portanto, a liberdade da necessidade e da coação estão sempre presentes onde quer que haja uma vontade que se julgue a si mesma; entretanto, há duas outras liberdades que, embora devessem acompanhar o livre arbítrio, são contudo facilmente amissíveis. Pois nem sempre tomamos a reta decisão, e nem sempre nos regozijamos no que é objetivamente reto.

Como se vê, a estrutura do ato volitivo é bem mais complexa do que poderia parecer à primeira vista. A decisão da vontade é precedida de uma espécie de reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, bem como de um ato de agrado ou desagrado. Aquela consiste na ponderação dos motivos, e este é o efeito da atração ou da repulsa que os motivos exercem sobre o sujeito; a decisão final, por sua vez, procede de um ato livre da vontade. A ponderação dos motivos chama-se "consilium", e "complacitum" o ser-solicitado pelos mesmos motivos. Em poucas palavras: o "consilium" tem a função de oferecer ao livre arbítrio os objetos; estes são aceitos ou rejeitados pelo "complacitum", que lhes avalia o valor subjetivo; ao livre arbítrio, enfim, compete tomar a decisão definitiva.

O livre arbítrio é simplesmente inamissível; a "libertas complaciti", ao contrário, pode perder-se, o que infelizmente acontece com frequência. Enquanto o livre arbítrio é um poder de decisão e auto-determinação, a "libertas consilii" é a aptidão de bem avaliar os valores em vista da ação, e portanto, de os libertar do pecado; a "libertas complaciti" é o poder da complacência imperturbada nos referidos valores, pela qual nos libertamos da miséria.

2. Liberdade e Servidão

O homem é imagem de Deus pelo "liberum arbitrium", e semelhança de Deus pelo "liberum consilium" e o "liberum complacitum"; esta pode ser perdida, aquela não. Só a posse de todas estas liberdades, porém, o torna verdadeira e perfeitamente livre. A perda do "liberum consilium" e do "liberum complacitum", ocasionada pelo pecado original, reduziu o homem à condição de escravo.

Mas como pôde ele perder aquelas liberdades? A princípio, o homem era naturalmente livre de toda coação, e sobrenaturalmente isento do pecado e da miséria. Mas, infelizmente, ele abusou de sua liberdade. Tal abuso foi possível porque as duas formas superiores da liberdade - em oposição à liberdade fundamental do livre arbítrio - são passíveis de certa gradação. Com efeito, cada espécie de liberdade admite pelo menos dois graus. Assim, a "libertas consilii", que consiste na reta avaliação das coisas, e portanto, na liberdade do pecado, pode significar: a) a impecabilidade ("non posse peccare"), que é própria de Deus, dos anjos e dos bem-aventurados, e b) o poder de não pecar ("posse non peccare"), e este é o grau inferior da "libertas consilii". Semelhantemente, a "libertas complaciti" comporta um grau superior: o não-poder-sofrer ("non posse turbari"), e um grau inferior: o poder-não-sofrer ("posse non turbari"). Ainda que o homem só possua o grau menos perfeito dessas liberdades, a sua posse lhe assegura uma posição privilegiada entre a totalidade dos seres vivos. Graças à sua vontade livre, ele é o único ser capaz de alcançar uma genuína vitória, pois a liberdade não lhe foi dada para pecar, mas para triunfar do pecado.

Todavia, em consequência do abuso da liberdade, o homem perdeu a liberdade do pecado e da miséria; o poder de não pecar e não sofrer transformou-se na impossibilidade de não pecar e não sofrer. Só lhe fica o poder de livre decisão. Donde a sua condição de escravo do pecado e devedor da morte.

Pela queda, o livre arbítrio se vê na presença de uma razão em desacordo com a vontade, e de uma vontade em desacordo com a razão. Despojado da semelhança com Deus, fonte da sua dignidade sobrenatural, e descaído de sua antiga nobreza, o homem terminou por condenar-se ao exílio e à solidão da "regio dissimilitudinis".

a) O descaimento do estado original

Essa deformação é um efeito da perda do poder de reta avaliação e da reta complacência nas coisas. A perda da reta complacência conduz à deformação do amor e da vontade, que de "vontade comum" se desfigura em "vontade própria"; o poder da justa avaliação, por sua vez, é suplantado pelo "proprium consilium".

A vontade própria ou egoísta é um dos piores flagelos da alma. Mais pernicioso, por mais espiritual, é o "proprium consilium", isto é, a teimosia e obstinação na avaliação das coisas. Por causa de sua natureza oculta, ele deve ser considerado como o mais nocivo de todos os males da alma. Corrompe-a na mesma medida em que a domina. O "proprium consilium" reina nos corações daqueles que, embora zelosos pela causa de Deus, carecem de conhecimento (como diz S. Paulo), e se obstinam em seguir seus próprios erros, rejeitando toda instrução. Têm-se em conta de grandes e, desconhecendo a justiça de Deus, preferem confiar na própria justiça. Na verdade, é grande a presunção daquele que prefere seu próprio julgamento ao da comunidade inteira! Em suma, o "proprium consilium" não passa de uma espécie de idolatria mal disfarçada.

b) A cura da vontade

A cura da vontade pressupõe, necessariamente, a restauração daquelas duas liberdades. Embora fundamentalmente possível, graças ao livre arbítrio, tal restauração é inexequível pelo só esforço humano.

O primeiro passo para o restabelecimento das referidas liberdades é a erradicação da vontade própria; tal renúncia, por sua vez, pressupõe que a intenção ("intentio") volte a orientar-se pelo amor. Esta reorientação, enfim, pressupõe a cura da perversão capital que é o "proprium consilium". A emenda da intenção requer que se submeta o próprio julgamento à verdade, pois ao saneamento da vontade deve preceder a cura da cegueira do entendimento. É mister que a vista interior volte a ser lúcida, simples e verdadeira; o que só é possível pela fé.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

Leitura dos Clássicos - Prof. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto

A Mística de S. Bernardo de Claraval - I


I - O homem como imagem e semelhança de Deus

1. A Imagem de Deus

Diz a Escritura que o homem foi criado conforme a imagem de Deus. Por conseguinte, ele não é a imagem de Deus em sentido estrito, visto haver apenas uma imagem de Deus, a saber, o Verbo. O homem é a imagem desta imagem de Deus.

Que significa "ser imagem de Deus"? Em primeiro lugar, a expressão denota a extraordinária dignidade da condição humana, e sua aptidão para participar na glória de Deus. Na verdade, o homem possui uma "anima magna", uma grande alma. Essa dignidade, recebida no ato da criação, é inseparável da alma humana; todavia, ela apenas informa a alma, sem identificar-se com esta. Não obstante isso, a alma não pode perder esta forma sem cessar de ser o que é.

2. A semelhança de Deus

Além desta aptidão para participar da glória de Deus, a alma traz em si uma aspiração concriada para os bens superiores: ela é "appetens supernorum". Sob este ponto de vista ela é uma semelhança ("similitudo") de Deus.

Esta aspiração fundamenta a retidão sobrenatural da alma. Assim como sua grandeza deriva da aptidão de participar da vida divina, sua retidão provém do desejo de participar desta vida de Deus. Como a grandeza, assim a retidão é algo distinto da alma; além disso, a grandeza difere da retidão, visto que esta é separável da alma, e aquela não. Priva-se da retidão todo aquele que perde o amor e o desejo dos bens superiores.

Desta dupla semelhança depende, pois, a integridade e a perfeição do ser humano: sem a imagem o homem cessa de ser homem, e sem a semelhança ele se desfigura ou deforma. Por isso o homem se humaniza na mesma medida em que cresce na semelhança com Deus. Nisto está toda a sua grandeza.

II- Perda e recuperação da semelhança divina.

1. A dessemelhança

Desgraçadamente, o homem distanciou-se livre e conscientemente das coisas do céu, preferindo-lhes os bens da terra. Antepondo seus próprios interesses aos de Deus, e recurvando-se sobre si mesma, sua alma transformou-se de "anima recta" em "anima curva".

É verdade que mesmo neste estado a alma retém sua semelhança com Deus, graças à sua grandeza; mas desassemelha-se de Deus em consequência daquela "curvatura". Pela mesma razão ela se desassemelha de si mesma. Pois uma vez perdida a semelhança com o modelo original, a imagem deixa, pelo mesmo fato, de assemelhar-se a si mesma. Todavia, a alma conserva a consciência de sua grandeza: sabe-se ao menos parcialmente semelhante a Deus, e por conseguinte à sua própria natureza, pois sua capacidade para o divino permanece. Ao mesmo tempo, porém, ela se dá conta de haver sido infiel à sua própria natureza. Este estado anormal dá origem a um penoso sentimento de desequilíbrio interior em que a alma, com saber-se de certo modo semelhante a si, sente-se contudo dessemelhante de si mesma. Donde o horror que tem de si própria.

2. A possibilidade do retorno

A possibilidade do retorno é assegurada pela indestrutibilidade da imagem de Deus no homem, ou, em outros termos, por sua receptividade incoercível para o divino.

Como vimos, "ser imagem de Deus" equivale a "ser capaz de Deus". Por isso a imagem de Deus impressa no homem forma o ponto de partida da mística cisterciense, que outra coisa não é do que a teoria e a prática daquilo que se exige do homem que aspira a restaurar do modo mais perfeito possível a semelhança divina em sua alma, até atingir ao "amplexus Verbi", que é o grau mais elevado deste processo de assimilação à Divindade.

Em vista desse ideal, é mister que o homem arrepie caminho, extirpando de sua alma, pela graça e pela prática da humildade e da caridade, as causas da dessemelhança com Deus. Pela renúncia ao pecado, pelo restabelecimento de sua condição original e pela reorientação espontânea e amorosa para as coisas de Deus, a alma se dispõe para a união extática ao divino esposo. A alma torna a ver-se tal qual fora na aurora da criação: como semelhança pura de Deus; e nesta visão interior de si mesma ela vê a Deus assim como é vista por Ele, e O ama assim como é amada por Ele. Neste conhecimento e amor recíprocos entre esposo e esposa consiste o êxtase místico. Este, por sua vez, não é senão um antegosto da visão beatífica, onde a semelhança perfeita com Deus permitirá uma união definitiva, embora sem confusão de substâncias.

Não cabe aqui uma análise pormenorizada desta sublime mística cisterciense. suas idéias principais podem resumir-se no seguinte: a alma é criada segundo a imagem de Deus; ela é grande por ser capaz de Deus e é reta enquanto aspira às coisas de Deus. A alma que perde este desejo e tende às coisas da terra se "recurva"; mas, graças à sua grandeza nativa, ela retém a possibilidade de retornar a Deus.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

"Só no Céu haverá alegria sem anuviamento"


Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets. Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento...

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

"Não quero ser santa pela metade"


"Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única coisa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes"

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

Valores Morais: Fidelidade.


Recomendo veementemente o texto que vai abaixo, de autoria do grande Dietrich Von Hildebrand. Embora seja um tanto extenso, vale muito a leitura. Coragem! Deleitem-se...

***

Entre as atitudes humanas fundamentais para a vida moral, figura também a fidelidade.

Pode-se falar de fidelidade em sentido amplo e em sentido estrito. Temos em vista o sentido estrito quando falamos de fidelidade a seres humanos; assim, por exemplo, no caso da fidelidade entre amigos, da fidelidade conjugal, bem como da fidelidade à própria nação ou da fidelidade a si mesmo.

Mas esta fidelidade já pressupõe a fidelidade em sentido amplo. Refiro-me àquela constância que primordialmente confere à vida a sua coesão interna, a sua íntima unidade. Só firmando-nos nas verdades e valores que um dia se nos desvelaram é que se nos torna possível construir a personalidade.

O decurso de uma vida humana encerra um contínuo revezamento de diversas impressões, tomadas de posição, ações. Não conseguimos pensar muito tempo seguido numa única idéia ou permanecer com a atenção fixa num só ponto. Assim como na vida biológica se sucedem a fome e a saciedade, a fadiga e o vigor, assim também a vida do espírito tem certa mobilidade peculiar. Dada a sucessão de impressões que nos marcam, dada a torrente de acontecimentos que nos trazem ao espírito uma heterogeneidade de objetos, a nossa atenção não se pode fixar sempre do mesmo modo; e o nosso pensamento caracteriza-se por um ir e vir de conteúdo para conteúdo, outro tanto se podendo dizer dos nossos sentimentos e desejos. Mesmo num acontecimento feliz, como o reencontro longamente ansiado do ser amado, não nos podemos demorar muito; do pleno presente da alegria profunda, a torrente da nossa experiência retorna pressurosamente a outros rumos que nos prendem a atenção e as vivências.

Mas o homem tem diversos níveis de profundidade. A sua vida interior não se limita ao nível em que se dá essa contínua mudança, ao nível da atenção expressa da consciência "atual". Quando continuamos a correr para outra impressão ou conteúdo, o passado, em vez de se perder sem mais, finca-se na camada mais profunda e aí sobrevive. Decerto que é já exemplo disto a memória, a capacidade de recordar, que liga passado e presente; mas, para além disso, a sobrevivência de fundo das nossas atitudes em face do mundo, da posição tomada perante as verdades e os valores fundamentais, enquanto a nossa atenção atual se fixa em questões inteiramente diferentes.

É mais ou menos desse modo que a alegria de um acontecimento profundamente feliz sobrevive no funda da nossa alma, dando um colorido especial a tudo o que fazemos em determinado instante. Enquanto trabalhamos, continua a resistir, vivo, no fundo de nós mesmos, o amor ao ser amado, como uma reserva oculta por cima da qual se passa tudo o mais.

Sem esta capacidade, o homem careceria de qualquer unidade interior, seria apenas um feixe de impressões e vivências sucessivas. Se uma impressão sempre e sem mais se substituísse a outra, se o passado se perdesse indiferentemente, a vida interior do homem ficaria privada de sentido e de conteúdo; não haveria nenhuma estrutura, nenhum desenvolvimento, não haveria sobretudo "personalidade" alguma.

Ora, ainda que esta capacidade de retenção, sem a qual se tornaria impossível a vida própria da pessoa espiritual, se dê em todos os homens, é decerto variável o grau em que se forma nos indivíduos concretos a coesão interna e persistente da sua vida.

Os homens distinguem-se uns dos outros pela sua diferente profundidade: uns vivem na camada mais superficial da sua consciência atual, e neles as vivências se sucedem fragmentariamente umas às outras, de modo que bem poderíamos denominá-los efêmeros; desses homens dizemos que se esgotam inteiramente no momento que passa. Outros vivem das camadas mais profundas da pessoa, e nada de significativo desaparece só por não ser já presente, antes se torna um cabedal humano sobre o qual se constrói algo de novo, cheio de sentido. Só estes últimos merecem o nome de personalidades. Só neles se pode formar uma riqueza interior.

Quantos não há que chegaram a conhecer grandes obras de arte, viram países magníficos, entraram em contato com homens notáveis - mas sem nada lhes deixar efeito duradouro! Talvez, por instantes, tenham ficado fortemente impressionados, mas nada lançou neles raízes profundas, nada "retiveram", pois desapareceu mal se deixaram levar por novas impressões. Esses homens são como uma peneira por onde tudo passa. Podem ser bons, afetuosos, honestos, mas atolaram-se num estado puerilmente inconsciente; não têm nenhuma profundidade, escapam-nos, são incapazes de relacionar-se realmente com outros homens, porque lhes faltam de todo em todo laços profundos com o que quer que seja.

São homens irresponsáveis, já que desconhecem condições duradouras e nada conservam de um dia para o outro. Ainda que as suas impressões sejam vivas, decerto não chegam a penetrar naquelas camadas profundas em que, por sobre as mudanças de um instante, se encontram as orientações e atitudes elevadas. Prometem honestamente alguma coisa num instante, mas logo a seguir tudo se esvai; concebem propósitos sob uma impressão forte, mas qualquer impressão mais forte que se siga lhos apaga. São tão impressionáveis que, na sua vida, só a camada exterior da consciência atual tem a palavra. Para esses homens, o que determina a dedicação e o interesse não é o valor e o peso de um assunto, mas apenas o viço e a intensidade do "presente". O que os domina é esta preferência geral pela intensidade, em que a impressão presente ou a presente situação levam a melhor sobre o passado.

Há duas espécies no gênero destes homens volúveis. Primeiro, a daqueles em que, geralmente, nada avança até a camada mais profunda, que permanece neles como que vazia. São sempre homens superficiais, carentes de vida profunda e de qualquer firmeza interior; parecem areia movediça, que logo cede sem mais: se procurarmos neles um âmago duradouro, sobre o qual se possa construir, logo se toca no vazio. Evidentemente, nunca é este o caso de um homem são; quem, em sentido literal, fosse puramente "instantâneo", seria um psicopata. No entanto, mesmo sem os podermos qualificar de doentes psíquicos, são frequentes os homens cuja vida costuma transcorrer assim.

Da outra espécie fazem parte os que, embora tenham impressões profundas e um âmago duradouro e firme na sua pessoa, perturbam-se tanto com a impressão momentânea que o que têm de permanente não consegue sobrepor-se à impressão do instante que passa. Só quando esta se dissipa é que volta ao de cima o que têm no íntimo. Tais homens, por exemplo, podem ter por alguém um amor profundo e duradouro; mas basta uma situação forte, viva, expressiva, para num momento se perturbarem de tal maneira que "esquecem" o ser amado, e fazem coisas ou dizem palavras que nem de longe combinam com aquele amor que sobrevive lá no íntimo.

São homens que sempre estão em perigo de se tornar traidores. Neles, o presente avantaja-se continuamente ao ausente, pelo interesse momentâneo, pelo papel que desempenha nos seus pensamentos, sensações e desejos, embora, fundamentalmente, estimem mais o ausente, que a longo prazo manifesta uma importância inteiramente diferente.

Em contraste com estes dois tipos, o homem constante conserva tudo o que se lhe deparou como verdade e valor genuínos. A vivacidade do presente não tem poder algum sobre a sua vida, em confronto com o peso interno das verdades, uma vez reconhecidas, ou do valor ético, uma vez captado. A repercussão das coisas na sua consciência depende exclusivamente da altura do valor que possuem, e não da sua "atualidade". Tais homens estão, por isso, imunizados contra a tirania de tudo o que é simples moda; já nada os impressiona só por ser moderno, por andar momentaneamente no ar, mas apenas por ser valioso, belo, bom, verdadeiro.

Para homens assim, o mais valioso, o mais importante, é também e continuamente o "mais atual". Para eles, o valioso nunca passa de moda, mesmo que há muito tenha sido posto de lado no seu ambiente. A vida destes homens constitui uma trama coerente e cheia de sentido, que espelha continuamente no seu decurso a hierarquia objetiva dos valores, ao passo que a dos inconstantes vem a ser presa das situações e impressões que se lhes deparam fortuitamente. São eles os únicos a captar a sublimidade do que vale plenamente em todas as épocas e que, cheio de valor e de verdade, nunca envelhece, nunca desmerece. Compreendem que uma verdade significativa não perde o interesse nem nos deve ocupar menos, só porque nos é conhecida de longa data. Reconhecem sobretudo que o que é valioso não se limita a exigir-nos a atenção e o interesse no momento presente.

Só o homem constante compreende realmente a exigência do mundo dos valores éticos, só ele é capaz de responder aos valores com a resposta que objetivamente lhes é devida; isto é, com uma resposta duradoura, independente do encanto da novidade, da vivacidade do presente. Só aquele para quem jamais passa qualquer valor que uma vez tenha brilhado, aquele que não esquece nenhuma verdade se uma vez a penetrou - só esse faz justiça à peculiaridade do mundo da verdade e dos valores,tornando-se capaz de se lhe manter fiel.

Esta constância, ou fidelidade no verdadeiro sentido da palavra, é uma consequência necessária de toda a verdadeira compreensão dos valores e, portanto, de toda a vida moral no seu conjunto. Só uma resposta que se prende duradouramente ao valioso é uma resposta moralmente madura e plenamente consciente.

Sob o ponto de vista moral, só um homem destes é realmente adulto, digno de confiança; só ele se sente responsável por tudo o que tenha feito noutras situações; só ele se arrepende realmente da injustiça anteriormente cometida; só ele se sairá bem nas provações.

Com efeito, para esse homem, a luz dos valores morais continua a brilhar no meio do embotamento do dia-a-dia, mesmo através da noite das tentações, porque é das profundezas que ele vive e é do fundo de si mesmo que ele se impõe ao momento passageiro. Quanto mais constante e fiel for o homem, tanto mais rico e valioso será, tanto mais capaz de se tornar um autêntico vaso de valores éticos, um ser que viva e duradouramente abrigue e irradie pureza, justiça, humildade, amor e bondade.

Basta observarmos as diversas esferas da vida, para logo encontrarmos por toda a parte o significado fundamental da fidelidade neste sentido amplo. Com efeito, essa atitude é o pressuposto de qualquer crescimento da pessoa em geral e sobretudo de todo o desenvolvimento e progresso moral. Como há de crescer moralmente quem não retém todos os valores que se lhe revelaram, quem não faz deles para sempre um cabedal próprio? Como há de realizar-se uma construção progressiva num homem dominado exclusivamente por impressões momentâneas e de pouca duração? Sem estabilidade, de que serve a melhor educação? De que servem as mais penetrantes advertências, a viva descoberta de valores, se nenhuma raiz se prende no fundo ou no fundo fica apenas e sempre a dormitar?

Por mais estranho que pareça, os homens volúveis não mudam nunca. Conservam as imperfeições e as preferências que possuem de seu natural, mas não conquistam novos valores éticos. Ainda que num determinado momento compreendam tudo e concebam os melhores propósitos, ainda que não lhes falte boa vontade, a inconstância impede-lhes qualquer progresso moral duradouro. Não porque se fechem, à maneira daquele que se contorce na sua soberba, tornando-se como que impermeável, mas porque se abandonam demais a qualquer impressão, não conseguindo "segurar" no turbilhão da sua vida nem mesmo aquilo que tomam a sério.

A atitude fundamental da fidelidade é, pois, pressuposto de toda a auto-educação. Só o homem fiel consegue digerir interiormente as impressões contraditórias, extraindo o bem de cada uma delas, aprendendo e crescendo com as mais variadas situações da vida, porque permanece nele estável e viva a craveira dos valores autênticos. Em contrapartida, o homem volúvel cede, ora a uma, ora a outra impressão, e, sem mais, "cai"; tudo nele passa mais ou menos sem deixar rasto.

Só o homem fiel, por outro lado, prefere o mais relevante ao menos relevante, o valioso ao que o é menos; o volúvel, esse, no melhor dos casos, mede pela mesma rasoura todas as realidades valiosas, mesmo que assim pereça algum valor mais alto. Ora, para o crescimento moral e, de modo geral, para a vida moral da pessoa, nada é mais importante do que a consideração da hierarquia objetiva dos valores, a capacidade de preferir constantemente os valores mais altos.

A atitude fundamental da fidelidade é também pressuposto de toda a confiança, de toda a credibilidade. Como há de alguém manter uma promessa ou merecer crédito na luta das idéias, se vive apenas no momento que passa, sem formar uma unidade de sentido com passado, presente e futuro? Quem poderá contar com ele? Só o homem fiel torna possível aquela confiança que constitui o fundamento de qualquer comunidade; só ele possui aquele elevado valor moral que reside na firmeza, na lealdade; na confiabilidade.

A fidelidade é, além disso, pressuposto da própria capacidade de confiar, da fé heróica. O volúvel, além de que não merece nenhuma confiança, jamais consegue crer com fé firme, inabalável: nem nos outros homens, nem em verdades, nem em Deus. É que lhe falta o vigor necessário para viver do valor que uma vez contemplou, se o rodeia a noite e a escuridão, ou se outras impressões fortes arremetem contra ele. Não é por acaso que, nas línguas latinas, a palavra fides significa simultaneamente fidelidade e fé. Com efeito, a fidelidade é parte constitutiva e essencial do vigor da fé e, portanto, de toda a religião.

Muito especialmente nítido é o significado transcendente da fidelidade no campo das relações humanas. O que é o amor sem fidelidade? No fundo, uma mentira. Porque o sentido mais profundo de todo o amor, o "sim" interior que se pronuncia no amor, é uma íntima dedicação e entrega de si mesmo, que sobrevive sem prazo algum, inabalável através de todas as mudanças na correnteza da vida. Um homem que, por exemplo, diga: "Amo-te agora, mas por quanto tempo não sei", nem amou realmente, nem faz idéia nenhuma da essência do amor. A fidelidade é tão essencial ao amor que qualquer um tem de considerar perene a sua dedicação. Isto vale para todos os amores: para o amor aos pais, para o amor aos filhos, aos amigos, para o amor conjugal. Quanto mais profundo é o amor, tanto mais o penetra a fidelidade.

É precisamente nesta fidelidade que repousa o especial brilho moral do amor, a sua casta beleza. O que o amor tem de especificamente comovente, naquele caráter único com que nos surge no Fidelio de Bethoven, prende-se essencialmente com a fidelidade. A fidelidade imperturbável do amor de mãe, a fidelidade inconcussa de um amigo, possuem uma especial beleza moral que toca o coração de quem se abre aos valores. A fidelidade é, assim, o núcleo de qualquer amor grande e profundo.

O que é que há, em contrapartida, de mais moralmente baixo e disforme do que a infidelidade manifesta, a antítese radical da fidelidade, que ultrapassa largamente a inconstância? Que mácula moral se pode comparar com a do traidor que, por assim dizer, apunhala o coração que se lhe ofereceu cheio de confiança e indefeso? Quem for falto de fidelidade na sua atitude fundamental é um Judas perante todo o mundo dos valores éticos.

Sem dúvida, há homens para quem a fidelidade não passa de simples virtude burguesa, de mera correção ou probidade. O homem livre, grande, genial - assim pensam eles - não precisa de fidelidade. Néscio mal-entendido! Talvez haja, efetivamente, uma espécie de fidelidade inócua e complacente. Mas o ceto é que a autêntica fidelidade é parte indispensável, constitutiva de toda a grandeza moral, de toda a verdadeira força e profundeza de uma personalidade.A autêntica fidelidade de que aqui tratamos é o contrário da mera probidade burguesa ou da simples atitude de quem se aferra aos seus costumes. Não deriva também de um temperamente apático, como a inconstância não deriva de um temperamento vivo e impulsivo.

A fidelidade é uma resposta livre e cheia de sentido ao mundo da verdade e dos valores, à sua significação imutável e autônoma, às suas exigências próprias. Sem a atitude fundamental da fidelidade, não há nenhuma cultura, nenhum progresso no conhecimento, nenhuma comunidade; mas, sobretudo, nenhuma personalidade moral, nenhum amadurecimento moral, nenhuma vida interior una e consistente, e nenhum amor verdadeiro. Todo o esforço de educação tem que ter em conta este significado fundamental da fidelidade em sentido amplo, se não quiser condenar-se de antemão ao malogro.

Dietrich Von Hildebrand, Atitudes Éticas Fundamentais.

Tudo é nada comparado a Ele


Considera o que há de mais formoso e grande na terra..., o que apraz ao entendimento e às outras potências..., o que é recreio da carne e dos sentidos... E o mundo, e os outros mundos que brilham na noite: o Universo inteiro.

E isso, mais todas as loucuras do coração satisfeitas..., nada vale, é nada e menos que nada, ao lado deste Deus meu! - teu! -, tesouro infinito, pérola preciosíssima, humilhado, feito escravo, aniquilado sob a forma de servo no curral onde quis nascer, na oficina de José, na Paixão e na morte ignominiosa..., e na loucura de Amor da Sagrada Eucaristia.

S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 432

A amizade...


Eu não poderia deixar passar este dia sem escrever algo a respeito dos meus amigos. Embora este assunto seja de caráter mais pessoal - e textos assim eu os escrevo no Amor e Pobreza - quero, contudo, colocá-lo aqui, lugar onde considero ser o trabalho um tanto mais sério, para mostrar que a amizade, para mim, ocupa lugar de honra.

O que são os amigos? Quando nascemos, somos primeiramente entregues aos cuidados dos nossos pais e, cercados por um ambiente de amor, vamos nos adaptando e acostumando com estes que aprenderemos chamar de pai e mãe. Nem sempre isto ocorre do modo como deveria, mas, ainda assim, haverá alguém que assuma a responsabilidade pela criação do pequeno. Às vezes, o infante também se relacionará com um irmãozinho, e é nesta relação que o primeiro germe da amizade surge. Um pouco mais adiante, é comum que a criança inicie um certo convívio com outras crianças da família ou de amigos dos pais e este será o primeiro contato com uma pessoa diferente, que não partilha dos mesmos laços sanguíneos, não divide sempre os mesmos espaços e age de um modo que ela ainda não conhece. Além disto, talvez o pequeno se afeiçoe particularmente por este sujeito de fora, fascinante porque diferente do convívio que tem desde o nascimento.

Mas é na escola que as relações da pessoinha se alastram e ela se verá exposta, agora, numa grande rede de estranhos, e submetida aos cuidados de adultos que nunca viu. É quase como um segundo parto. Um mundo totalmente diferente é apresentado à criança e, mais terrível, ela terá de o enfrentar sozinha. Olha ao lado, e a ninguém vê que lhe seja familiar. O que deve fazer? Não se sabe bem... O que é fato é que as crianças se sentirão mais ou menos ameaçadas. Hoje isto parece ser um tanto menos intenso que antigamente, quando as crianças eram mais tímidas. 

Porém, é neste desconforto, nesta falta da segurança familiar, que a criança terá ocasião de desenvolver-se imensamente. E isto é tão precioso que é comum que o sujeito lembre com imensa doçura destes dias de sua infância. Quantos de nós não gostaria de voltar atrás e visitar, pelo menos mais uma vez, aqueles dias em que levávamos à escola as nossas lancheiras, em que as cores dos brinquedos e o som do ambiente tanto nos impressionavam, em que fizemos os nossos primeiros amigos? É como ir a Nárnia pela primeira vez...

Sim, os primeiros amigos geralmente são feitos nesta Nárnia chamada escola. Amigos que partilham das primeiras aventuras. Até hoje eu lembro de certos sonhos que tive com os amigos daquela época. Que felicidade a de estar juntos: de jogar bola, de brincar de se esconder, de polícia e ladrão, de amarelinha, etc... - brincadeiras tão boas e sadias, mas que hoje foram quase que de todo deixadas de lado. - E quando eu descobri a existência do video game? Uauuu!!!! Desenhinhos que eu podia controlar! Que respondiam aos meus movimentos! Que sonho! Que felicidade! E tudo isto eu conheci por intermédio dos meus amigos. 

Sim, meus amigos me apresentaram, também, algumas vezes, coisas que não eram boas, mas que eu tinha de conhecer, de um modo ou de outro. Isto serviu para despertar as primeiras preocupações morais e fazer florescer o senso de responsabilidade. E quando uns de nós ficávamos intrigados, sempre por besteira, depois de algum tempo tínhamos de fazer um dolorido exercício: o de vencer o orgulho e reatar a amizade... Os dois geralmente queriam, mas um deles tinha de tomar a iniciativa e isto era particularmente nocivo ao ego gigante de crianças. E já que ambos sabiam disso, ninguém comentava quem havia sido o primeiro. Importava que alguém o tinha feito e a amizade seguia. Na minha experiência particular, a gente conseguia isso chamando o outro pra jogar video game. Se o outro aceitasse, tínhamos o nosso amigo de volta.

De lá pra cá, alguns amigos se afastaram... outros se foram embora.. alguns até já não estão mais entre nós. Mas outros tantos tantos vieram.. e conforme a gente vai amadurecendo, os amigos vão ocupando um lugar cada vez mais sério na nossa vida. Quando entrei na Igreja, era mais uma vez um outro mundo completamente diferente e que eu devia desbravar. Agradava-me ver a amizade dos outros e eu desejava intimamente poder ser incluído naquilo. De início, eu não me fazia notar em nada. Nunca fui bonito como outros rapazes, e minha extrema timidez me deixava no grau zero da ousadia. Insegurança era o que me definia e eu ficava lisonjeado por qualquer manifestação de simpatia alheia. Então, a meu ver, amizade não era tanto algo a que eu tinha direito, mas era sobretudo algo que os outros, num exercício pleno de bondade, talvez me concedessem. Desse modo, eu era muito condescendente com o que diziam e falavam, ainda que aquilo me incomodasse de algum modo. Desenvolvi muitos respeitos humanos por ser tão passivo e, até hoje, luto muito por deixá-los. Mas o que importa é que eu realmente fiz amigos.

Observando bem, os amigos estão em toda a nossa vida. Eles são uma espécie de garantia dos sorrisos da alma. Eles nos consolam nos momentos duros, e forçam o nosso amor quando tendemos ao egoísmo. Nos orientam quando não sabemos o que fazer, e nos preludiam docemente o Céu. Sim; somente quem experimentou a graça de uma amizade gratuita, sem interesse, sem intenções dúbias, pode entender do que eu estou falando. Quem, ao contrário, apenas conhece este jogo medíocre de interesses que perpassa a nossa sociedade em grande parte, haverá de considerar isso tudo muito romântico. De minha parte, estou muito convencido de que Deus pôs os amigos no mundo para que, de algum modo, O pudessem representar e ajudar a desenvolver algo de bondade em nós, pois estamos no mundo para aprender a ser bons, e para isso é preciso amar. Os amigos nos forçam a amar.

Porém, ser amigo é algo mais do que falar. É algo da alma. Por ser um mistério bonito, muitos desejam poder possuí-lo pelo mero exercício da palavra. Mas isto não é suficiente. Um amigo de verdade morre, mas não trai. Acontece que grande parte das nossas amizades ainda está atravessada de interesses, e é mantida como um modo de evidenciar o nosso ego e de se obter o que buscamos. São estas coisas que asfixiam a amizade. São como que um punhado de terra somado ao lugar onde, antes, seria preciso cavar para encontrar este tesouro escondido.

Enfim, a amizade, por ser prelúdio e abertura para Deus, somente pode se dar perfeitamente em Deus. A amizade, fazendo que amemos algo fora de nós, é, pela própria natureza, transcendente. Se desenvolve quando esquecemos as nossas seguranças e abandonamos o nosso conforto - como na escola. E tem a aptidão de dilatar e amadurecer a nossa alma à medida em que ela mesma cresce, pois a única coisa que nos apequena nesta vida é o egoísmo. Acabo de ler: "Amigo de verdade é aquele que vira Super Saiajyn quando você morre". É justamente isto! É o amor a algo fora de nós que nos faz crescer. E é Deus quem nos ensina este mistério. São Paulo nos dá uma cartilha de como fazer: "considerai os interesses uns dos outros maiores do que os próprios". E o próprio Deus nos chama de amigos ao esquecer-se de Si mesmo e entregar a própria vida por nós. 

Hoje em dia, eu posso dizer que possuo amigos. Não são muitos, obviamente. Tantos são apenas conhecidos e bons colegas. Outros, sequer são colegas. Mas alguns, embora poucos, são amigos. E são estes amigos que me fazem sentir um gostinho do céu. São estes amigos que atiçam em mim a sede do infinito e me fazem desejar alcançar um dia as eternas paragens a fim de com eles conviver pela eternidade. São estes amigos que me fazem vislumbrar algo do que seja Deus. São estes amigos que me forçam a querer ser melhor, que me exigem fidelidade, que me atravessam a alma quando me deixam, e que me fazem sorrir sem querer quando aparecem.

A transcendência da amizade permite que ela continue ainda quando não há proximidade física, pois a amizade é da alma e esta não está submetida às leis do espaço. A todos os meus amigos, pois... aos de perto e aos de longe, quero agradecer-lhes e dizer que, mesmo das trevas do meu egoísmo, eu consigo ver esses pontinhos de luz que são vocês e que me forçam para fora dessa minha redoma. Agradeço a Deus pela graça de tê-los e somente desejo que a nossa amizade se estenda pela eternidade. Meus amigos, eu os amo.


Dia do Preciosíssimo Sangue


Hoje é dia do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor... 
Este sangue suado no Jardim das Oliveiras.
Este sangue derramado profusamente na flagelação.
Este sangue que aguou a Árvore da Santa Cruz.
Este sangue vertido do Sagrado Peito de Nosso Senhor.
Este sangue dado a beber em cada Santa Missa até o fim do mundo.
Este sangue, cuja mínima gota seria suficiente para salvar mil mundos.

Homofobia? Onde?



Primeira Missa Tridentina na Canção Nova



Pessoal, em instantes terá início a primeira Santa Missa Tridentina celebrada na Canção Nova. Quem vir este post a tempo, pode acompanhar aqui: http://twitcam.livestream.com/b09ef

Pax.

Liturgia - Obedecer a Quem?


Quem quiser seguir os preceitos litúrgicos da Igreja à risca, sem transgressões, experimentará uma dificuldade imensa. E isto não acontece somente quando se pretende observar os costumes do Antigo Rito, o Tridentino. Também com relação ao Novus Ordo, costuma-se promover hoje uma total liberdade com relação àquilo que foi determinado pelo Concílio Vaticano II e pelos documentos que se seguiram, como a Redemptionis Sacramentum, de João Paulo II.

Parece haver um certo espírito progressista que precisa em tudo acompanhar as mudanças da época de modo que, hoje, mesmo as determinações do último Concílio tornam-se ultrapassadas e passíveis de desprezo. Em seu lugar, cumpre erigir outras normas, de acordo com o tempo e o lugar. E o mais irônico é que, não obstante este curso de coisas tenha por pressuposta a desobediência à Igreja, ele costuma exigir, no entanto, a adesão do fiel sob pena de chamar-lhe desobediente. Quem quiser, por exemplo, cantar o Glória segundo a fórmula que a Instrução Geral do Missal Romano prescreve, enfrentará todo tipo de dificuldades e será visto como se estivesse animado por qualquer capricho, apegado a rubricismos, e precisando acompanhar o transitar natural da vida, aceitando o espírito de contínua renovação. Se se opuser a este espírito, o sujeito será tido como rebelde. Embora nada mais queira senão obedecer, o fiel submisso à Igreja e ao Papa será tido como o  inconveniente, o arengueiro, o divisor, o que não aceita a pluralidade natural da Igreja que supostamente se manifestaria, também, neste caráter fluido com que cada comunidade e cada pessoa "cumpre" o seu papel na Liturgia.

Quem obedecer à Igreja será tachado de desobediente. Quem, no entanto, isento de qualquer maior zelo pela Sagrada Liturgia, não se importa de transgredi-la, será identificado como quem compreendeu bem a alma da coisa. Um movimento ou uma organização - ou uma Conferência -, contudo, que se obstina na expressa desobediência ao Papa não pode arvorar-se o direito de ser obedecida. A sua pertinácia é constante grito de revolta. Os seus desmandos são expressão da sua cerviz altiva, incapaz de submeter-se. Pluralismo, democracia, apego ao gosto pessoal, ignorância da natureza real da Liturgia: eis o que caracteriza este espírito que anda às soltas na Igreja, sobretudo na América Latina onde ainda se sente, de modo muito vivo, a influência da Teologia da Libertação que fez e continua a fazer estragos imensuráveis.

Em que compensa obedecer à Igreja se o sujeito se verá sozinho, se atrairá para si a animosidade de muitos e complicará a própria vida? Compensa sim! Estar do lado de Nosso Senhor quando este está a ser ultrajado é o que de melhor podemos fazer. Defendê-lo das injúrias e ofensas; ser uma voz, ainda que solitária, a gritar no meio de uma multidão dispersa: "servirei! Faça-se como o Espírito Santo e a Igreja determinaram"; tudo isso é uma honra sem tamanho! "Sofrer pelo Amado é melhor que fazer milagres", diz S. João da Cruz. Experimentar a solidão deste maior Solitário que é Nosso Senhor... Compensa sim.. Lutemos e amemos, compreendendo que o nosso amor por Ele também se expressa pelo zelo por Sua casa.

Em que compensa desobedecer à Igreja para brincar de protagonismos e desmandos na Liturgia? Mesmo se obtiveres o apreço das pessoas, "que vale ao homem ganhar o mundo se vier a perder a própria alma?"

Diz S. Paulo: "Se eu quisesse agradar aos homens, eu não seria servo de Cristo". Eis algo que deveria nos nortear no nosso serviço litúrgico! Obedeçamos à Igreja, ainda que isto nos dê a fama de rebeldes. Sirvamos à Igreja, ainda que isto arruíne a nossa "carreira". Lutemos por uma Liturgia bem celebrada, pedindo a Nosso Senhor que o zelo por Sua casa também nos devore e rezando para que as pessoas despertem de seu sono e façam como Jacó que, ao acordar, exclamou: "Que terrível é este lugar! É aqui a casa de Deus!"

Sta Teresa reza pelos teólogos e pregadores e diz como devem ser


Podereis perguntar-me por que insisto em afirmar que devemos ajudar aos que são melhores que nós. Explicarei, pois creio que ainda não entendeis bem o quanto deve ao Senhor por vos ter trazido a esta casa, onde estais livres de negócios, ocasiões perigosas e tratos com o mundo. É grandíssima esta graça!

O mesmo não se dá com aqueles de quem falo, os pregadores e teólogos. Nem conviria ser assim - nestes tempos ainda menos que em outros; a eles compete dar ânimo à gente fraca e encorajar os pequenos. Que seria dos soldados sem comandantes! Vêem-se estes obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos.

E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e envolver-se em negócios do mundo, e adaptar-se à conversação do mundo e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo, e inimigos do mundo, e viver nele como exilados? Em uma palavra: não ser homens, mas, anjos?

Com efeito, se assim não forem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.

Se no íntimo não estiverem fortalecidos, por mais que encubram sua fraqueza, ela transparece. Devem entender quanto lhes importa calcar tudo aos pés, viver desapegados das coisas efêmeras e abraçados às eternas.

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição

Jesus está no Chão - Sobre a Descuidada Comunhão na Mão

Dom Eugênio Sales - Uma Escola de Fidelidade


Fidelidade. Talvez não haja outra palavra para descrever melhor o que Dom Eugênio significou em minha vida. Fidelidade a Deus, à Igreja, ao Papa, às amizades, aos compromissos assumidos, à fé professada, aos princípios morais, à liturgia, à disciplina canônica, aos horários, à orientação dos médicos... A lista seria grande demais para elencar. Uma fidelidade que todos viam, que saltava aos olhos, que gritava sobre os tetos...

Mas o que talvez nem todos conhecessem era a alma desta fidelidade: o querer agradar a Deus em tudo e por tudo. Sim, mesmo que isto desagradasse aos homens; mesmo que isto desagradasse aos seus projetos pessoais e justas aspirações. Quem conviveu com Dom Eugênio pôde presenciar, no dia a dia, estas pequenas ou grandes violências que o Cardeal Sales fazia sobre si mesmo, para não desagradar a Deus.

Sua vida toda foi marcada por este drama interior que só os seus íntimos tiveram o privilégio de testemunhar. Uma dócil fidelidade à vontade de Deus, mesmo quando esta vontade se revestia da aparente irracionalidade da cruz.

Nos últimos anos de vida, Dom Eugênio viveu um verdadeiro calvário – seja por razões pessoais, familiares ou eclesiais. A todos que perguntavam se ele estava bem, se estava sofrendo ou se precisava de ajuda, Dom Eugênio respondia com frequência: “Eu estou muito bem. Meu Pai é bom! Ele pode tudo. Ele sabe tudo”. Confiança de um filho que deseja agradar ao Pai, mesmo quando não o compreende.

Na noite de ontem, Dom Eugênio, viveu a sua última Páscoa. Enquanto ele se apresenta diante de Deus, nós, seus filhos espirituais, temos o dever de sufragar sua alma e pedir ao Senhor que lhe conceda o descanso eterno. Mas, como quem conheceu de perto Dom Eugênio, sinto forte a tentação de dizer que, na verdade, as nossas orações serão usadas por Deus para outra finalidade. É bem possível que ele não as necessite e que esteja desde já ouvindo o convite do Pai bondoso, no qual tanto confiou: “Eia, servo bom e fiel, entra para a alegria do teu Senhor!” (Mt 25, 21).

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Vortex - Ensinemo-nos Uns aos Outros


Vi no blog do Prof. Angueth

O Apelo da Beleza

Governo Dilma prepara-se para implantar aborto no Brasil - Pe. Paulo Ricardo

Pe. Reus mais próximo da beatificação!



Aqui vai uma ótima notícia do Jornal VS neste mês de julho (datada de 04/07, quarta-feira passada), em que rezamos a Novena em honra do Servo de Deus Pe. João Baptista Reus, SJ (de 12 a 20 de julho, a oração pode ser vista aqui), que temos como um dos co-patronos da ARS.

Neste ano, 2012, comemoraremos os 65 anos da morte do Servo de Deus, ocorrida em 21/07/1947.

Estudo deixa processo de beatificação de Padre Reus mais perto

Ângela Virtuoso/Da Redação

Novo Hamburgo  - Passados 65 anos de sua morte, Padre Reus continua a fazer história. Ao longo desse período, conquistou milhares de fiéis, principalmente no Brasil, onde viveu mais da metade da vida, e teve seu nome levado ao Papa para reconhecimento de sua santidade. Um processo de beatificação e canonização foi, então, instalado entre 1953 e 1958, outorgando a ele o título de Servo de Deus. No entanto, a primeira fase foi concluída somente na manhã de ontem, em um tribunal eclesiástico, ocorrido a portas fechadas na casa episcopal da Diocese de Novo Hamburgo.

Na presença do padre Mark Lindeijer, enviado do Vaticano como representante do padre Anton Witwe, postulador da causa do Padre Reus; do vice-postulador, padre Guido Lawisch, também reitor do Santuário Sagrado Coração de Jesus, em São Leopoldo; do bispo da Diocese de Novo Hamburgo, Dom Zeno Hastenteufel, e dos demais integrantes da Comissão Postuladora Diocesana, os quatros historiadores convidados Arthur Rambo, padre Inácio Spohr, Luiz Leite e Ângela Molin apresentaram o resultado de dois anos de estudo da vida do religioso. Foram cerca de três horas de reunião.

Além de entregarem relatórios individuais e um compilado de 30 páginas, o quarteto respondeu a 12 perguntas do Papa, trazidas por padre Mark Lindeijer. O representante de Roma saiu da sessão com um pilha de depoimentos e documento de mais de um metro de altura. "Agora, levarei o material para ser analisado por nove historiadores e seis teólogos do Vaticano a fim de se comprovar a fama de santidade do Padre Reus e suas virtudes, entre elas as de fé, esperança e amor", destaca padre Mark.

Biografia de Padre Reus

Nascido em 1868, na aldeia de Pottenstein, na Baviera, maior Estado da Alemanha, Johann Baptist Reus (João Batista Reus) era o oitavo filho de uma família de 11 irmãos. Na juventude, entrou para a Companhia de Jesus, ordenou-se padre, com 25 anos, e foi mandado para o Brasil, em 1900, sete anos depois. Passou por Rio Grande e Porto Alegre antes de chegar a São Leopoldo. No município, trabalhou como capelão do Colégio São José e lecionou Teologia no Colégio Cristo Rei. 

Ficou conhecido por ser místico: tinha muitas visões, principalmente durante as missas, dentre elas da Santíssima Trindade. Esses e outros eventos foram descritos e desenhados por ele e constam em seu diário. Padre Reus morreu em 1947, com 79 anos. Seu túmulo está localizado no Cemitério dos Jesuítas, no Santuário Sagrado Coração de Jesus e recebe a visita de milhares de devotos a cada ano.


Dois trechos bíblicos que provam a Imortalidade da Alma


Um dos pontos em que costuma haver divergência entre o catolicismo e algumas linhas do protestantismo é o que se refere à imortalidade da alma. Porém, a existência desta tensão de posições é algo que, sinceramente, não tem razão de ser, pois é evidente que a Sagrada Escritura - crida por ambos - dá testemunho da manutenção da vida pós-morte, quando a alma ausenta-se do corpo. Quisera que esta postagem chegasse ao conhecimento dos negadores da imortalidade da alma, pois, diante de tal evidência, ou aceitariam a afirmação bíblica e seriam obrigados a concordar com os católicos, ou então teriam de negar não somente a Fé Católica, mas também a veracidade da Escritura. Bem.. há vários trechos do Novo Testamento que comprovam este fato. Porém, quero apenas citar dois, considerados por mim os mais claros, e vindos ambos do Apóstolo Paulo. Vamos a eles:

"Pois para mim a vida é Cristo e a morte um lucro. Porém, se o viver na carne significa para mim trabalho fecundo, não sei o que escolher... Sinto-me premiado dos dois lados: por um lado, desejo partir e estar com Cristo, o que, certamente, é muito melhor; mas, por outro lado, ficar na carne é mais necessário para vós" (Fl 1,21-24).

Alguém duvida aí que Paulo está preferindo morrer porque, então, poderia estar com Cristo? Disto se deduz, irrefutavelmente, que, segundo a Bíblia, quem morre na amizade divina vai para o Céu.

Segundo trecho:

"Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto ao Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe. Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." (II Cor 5,6-10)

Há ainda muitos outros trechos, mas quero por ora restringir-me a esses para não espantar os preguiçosos que correm de postagens longas. Fica, pois, provado: quem quer que dê crédito à Escritura terá de reconhecer que a imortalidade da alma é doutrina bíblica.

Regional Sul 1 da CNBB denuncia nova manobra abortista do governo Dilma



Fonte: Ecclesia Una

O Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil acaba de divulgar um documento, alertando sobre a nova estratégia dos abortistas para implantar a cultura de morte em nosso país. O texto foi “preparado e aprovado na reunião extraordinária” do último dia 23 de junho, pela Comissão em Defesa da Vida.

Disponibilizamos, abaixo, o texto completo, na íntegra. É muito importante que esta denúncia seja lida e divulgada, pois se trata de um ataque sorrateiro à democracia e aos direitos humanos. Como alertou o reverendíssimo padre Paulo Ricardo, estamos bem perto de assistir a nossa saúde pública prestando serviço à morte. Por isso, urge resistirmos heroicamente, e manifestarmos a nossa repugnância às táticas do governo Dilma – e, de modo especial, da sua ministra Eleonora Menicucci – para transformar em bom o que é intrinsecamente mau, em legal aquilo que é essencialmente criminoso e atroz.

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No dia 16 de outubro de 2010, a então candidata a Presidente da República, Dilma Rousseff, assinou uma carta de compromisso na qual afirmava: “Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita Presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família”.

Em 4 de outubro de 2010, o Diário Oficial da União publicava a prorrogação, até fevereiro de 2011, do termo de cooperação Nº 137/2009, assinado alguns dias antes pelo governo Lula, criando no Ministério da Saúde um grupo de “estudo e pesquisa para despenalizar o aborto no Brasil e fortalecer o SUS”.

Se a Presidente Dilma fosse coerente com o que escreveu na carta de 16 de outubro, logo eleita, acabaria com este grupo de estudo e pesquisa. Mas não foi isto que ela fez.

Um novo termo de cooperação Nº 217/2010 foi publicado no Diário Oficial do dia 23/12/10 para criar um “grupo de estudo e pesquisa para estudar o aborto no Brasil e fortalecer o SUS”. Do nome do grupo foi retirado o termo “despenalizar”, mas os demais nomes e detalhes são os mesmos. Este novo termo de cooperação foi prorrogado através de nova publicação no Diário Oficial de 22/12/11 e novamente prorrogado com publicação no Diário Oficial de 09/01/12 para vigorar até 30/08/12.


Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
As decisões e os atos de uma pessoa falam mais alto do que as palavras faladas ou escritas. Com a designação de Eleonora Menicucci como Ministra das Políticas para as Mulheres, a Presidente Dilma rasgou a carta de 16 de outubro de 2010, pois entrou em contradição com o compromisso assumido naquele documento.

Os jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e Correio Braziliense noticiaram, na primeira semana de junho deste ano, que o governo Dilma, quebrando todas as promessas feitas, estaria implantando, através do Ministério da Saúde, uma nova estratégia, desenvolvida pelos promotores internacionais do aborto, para difundir esta prática, burlando a lei sem, por enquanto, modificá-la. Segundo esta estratégia, o sistema de saúde passará a acolher as mulheres que desejam fazer aborto e as orientará sobre como usar corretamente os abortivos químicos, garantindo em seguida o atendimento hospitalar, e serão criados centros de aconselhamento para isso (Folha de São Paulo, 06-06-12).

Na última semana de maio a Ministra Eleonora Menicucci afirmou à Folha de São Paulo que “somente é crime praticar o próprio aborto, mas que o governo entende que não é crime orientar uma mulher sobre como praticar o aborto” (Folha de São Paulo, 06-06-12).

Ainda segundo a imprensa, estaria sendo elaborada uma cartilha para orientar as mulheres na realização do aborto com segurança (Estado de São Paulo, 07-06-12).   Estaria também sendo elaborada, por parte do Ministério da Saúde, uma nova Norma Técnica sobre os cuidados do pré-aborto, sendo que os do pós-aborto já estão garantidos por Norma Técnica anteriormente publicada (Correio Braziliense, 09-06-12).

Como coroamento de todo este trabalho de difusão da prática do aborto, mesmo deixando as leis como estão, o Correio Braziliense, do dia 9 de junho, noticia a possibilidade por parte do Ministério da Saúde de liberar para o público a venda de drogas abortivas, atualmente em uso somente nos hospitais.

De fato, esta é a política da Presidente Dilma: incentivar e difundir o aborto, favorecendo os interesses de organismos internacionais que querem impor o controle demográfico aos países em desenvolvimento, mesmo se isto leva a Presidente a desrespeitar a vontade da maioria do povo brasileiro, que é contrária ao aborto, e a infringir as mais elementares regras da democracia.

Não queremos que a Presidente Dilma faça pronunciamentos por palavras ou por escrito, queremos fatos:

    1. A demissão imediata da Ministra Eleonora Menicucci da Secretaria das Políticas para as Mulheres; 
    2. A demissão imediata do Secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães, que está coordenando a implantação das novas medidas a serem tomadas por esse Ministério; 
    3. O rompimento imediato dos convênios do Ministério da Saúde com o grupo de estudo e pesquisa sobre o aborto no Brasil.

Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB

Estamos em Guerra!

Crise da Igreja. Que Crise?

Onde Deus te chame

Caos Litúrgico, Alguns Pressupostos e Frutos.


Como se sabe - e não há coisa mais fácil de provar irrefutavelmente do que isso - vivemos num caos litúrgico. Depois do último Concílio, o do Vaticano II, é fato que a coisa desandou. Não que antes gozasse de perfeição, mas os desmandos que se seguiram raiam ao absurdo. Haverá quem diga que o problema está no modo como se leu o Concílio; haverá, também, quem afirme ser o próprio Concílio o problema. Se formos algo além de "torcedores" que optam por uma das posições segundo lhe pareça mais simpática, devemos reconhecer que isto é algo realmente delicado e cuja discussão requer, sim, bastante preparo, tanto filosófico e teológico quanto histórico.

Deixemos, pois, a natureza do Concílio um pouco de lado aqui. Observemos, ao invés, os inúmeros problemas litúrgicos a que somos obrigados a assistir diariamente. Por que eles se mantêm? O que pressupõem? Quais os efeitos que geram?

Primeiramente, notemos que um dos grandes fatores que favorecem a perseverança no erro é a ausência de uma reta formação. Este fator, porém, não é o único, pois muitos dos responsáveis diretos desta bagunça litúrgica são sujeitos dos quais se pode presumir conheçam bem as regras e os preceitos litúrgicos. Contudo, a falta de uma formação mais profunda, também por parte dos leigos, favorece imensamente que os erros tomem lugar. Este problema - o de uma formação insuficiente - pode ser visto como produto da carência dos meios para se obter uma compreensão mais exata do assunto. Porém, penso ser mais razoável a hipótese de que isto se faz por puro interesse. Parece haver um desejo positivo de que os desmandos continuem e, para assegurar tal intento, cumpre manter os leigos e, se possível, os seminaristas e sacerdotes, distantes e distraídos de uma formação mais ortodoxa.

Isto provoca em pouco tempo a perda da unidade litúrgica. Com a ausência de preceitos claros e fixos, a Liturgia se torna um constructo arbitrário da comunidade ou do Ordinário. Isto significa que teremos uma Liturgia relativizada aos gostos de cada um. Há como que um protestantismo na Liturgia e que se exerce pela prática do livre exame do Sagrado. Surge, logo, o falso pressuposto de que a Liturgia é, antes de tudo, construída pelos homens. Se tal é assim, ela perde todo o seu caráter sobrenatural, e se torna reduzida ao tamanho humano. Teremos uma naturalização da Mística, isto é, um reducionismo absurdo da religião que se torna mero capricho humano - como uma brincadeira - donde consequentemente se segue a super-valorização da criatividade como garantia de se ter uma liturgia mais real e dinâmica. O realismo aqui identifica-se com a agradabilidade. Se a Liturgia é feita pelos homens e para os homens, cumpre que ela seja, também, agradável. A naturalização da mística se degrada na religião do bem estar. Como se pode perceber, esta via leva à auto-promoção do homem, à adoração de si mesmo, à auto-suficiência e, naturalmente, à perda do senso do sagrado. É um modo muito eficaz de se utilizar da religião para perpetuar, a partir dela, a grande revolta contra a objetividade divina.

A não obediência aos preceitos Litúrgicos em função dos próprios gostos só pode ser promovida por aquele mesmo espírito que moveu os nossos primeiros pais à infidelidade com Deus, donde resultou a entrada de toda a espécie de males no mundo. Uma Liturgia, portanto, que se submeta aos gostos pessoais será, antes, uma proclamação de revolta, e não aquela suave e alegre docilidade a Deus, característica dos Seus amigos, e que se traduz de modo perfeito no singelo "Fiat" de Maria Santíssima.

Por trás, portanto, dos desmandos litúrgicos, há um espírito de revolta, de auto-promoção, de soberba - e lembremos que Deus resiste aos soberbos. Uma "liturgia criativa" veda ou dificulta, pois, o acesso a Deus. Há também o falso pressuposto de que a Liturgia é construída por nós, quando na verdade ela é dada por Deus, isto é, ela nos precede e nos ultrapassa, sendo o modo perfeito de como Deus quer ser cultuado. A obstinação no erro causa, ainda, divisão no seio da Igreja Católica, que deve ser Una, e faz com que cada paróquia tenha uma Liturgia peculiar, segundo os próprios gostos, num ato contínuo de subversão. Tal estado de coisas leva, por fim, à religião do bem estar, a um certo hedonismo pretensamente espiritual que identifica o Bem e a Verdade com o bem-estar e a opinião dos sujeitos. Nada há de bom, portanto, que surja disto. 


O que podemos fazer é rezar bastante, reconhecendo que o auxílio maior nestes tempos de crise é dado pelo próprio Deus. Depois, devemos estudar para ter uma reta compreensão da natureza da Igreja, da Liturgia, da Mística, etc. Em seguida, temos de nos despir dos cuidados e respeitos humanos, a fim de que possamos entrar nesta luta sem receios e fazer, dentro das nossas capacidades, o possível para que mais e mais pessoas se tornem conscientes destas coisas. É fundamental, também, que cuidemos para não cair num certo extremismo que pensa ser virtude todo tipo de balbúrdia e agitação e desaforo, ainda que supostamente favoráveis à Tradição. Já dizia S. Josemaria Escrivá: "Intransigência não é destempero". Não é preciso comprar o desgosto e o desapreço de todo mundo, como se isso fosse um valor em si. É preciso, somente, ter a disposição de uma exposição sincera, clara, sem ambiguidades, e, dentro do que nos convém e do que de nós depende, sem falsos protagonismos, promover a retidão dos costumes litúrgicos. Em suma: ensinar e discutir com argumentos e, além disto, se exercermos alguma função litúrgica, fazer o possível para que seja correta. Busquemos, também, que não estejamos sozinhos nesta empresa. Só não deixemos que o descaso passe a nós por osmose.

Dizer que se tem a verdade não é necessariamente arrogância. Pode ser humildade


Não seria uma arrogância falar de verdade em matéria de religião e chegar a afirmar que se encontrou na própria religião a verdade, a única verdade? [...] Hoje converteu-se num slogan de enorme repercussão rejeitar como simultaneamente simplistas e arrogantes todos aqueles a quem se pode acusar de crer que "possuem" a verdade.

Essas pessoas - dizem-nos -, ao que parece, não são capazes de dialogar e por conseguinte não podem ser levadas a sério, pois ninguém "possui" a verdade; só podemos "buscar" a verdade. Mas é preciso objectar a esta última frase: que busca é essa que nunca pode chegar à meta? Será que realmente busca, ou antes não quer encontrar a verdade, porque o que vai encontrar não deve existir? Naturalmente, a verdade não pode consistir numa posse; diante dela, devo sempre ter uma atitude de humilde aceitação, [...] recebendo o conhecimento como um presente do qual não sou digno, do qual não posso vangloriar-me como se fosse uma descoberta minha. Se me foi concedida a verdade, devo considerá-la como uma responsabilidade, o que significa também um serviço aos outros. [...]

Mas não será antes uma arrogância dizer que Deus não nos pode dar o presente da verdade? Não será desprezar a Deus afirmar que nascemos cegos e que a verdade não se coaduna connosco? [.„] A verdadeira arrogância consiste em querer ocupar o posto de Deus e querer determinar quem somos, que fazemos, que queremos fazer de nós e do mundo. [...]

A única coisa que podemos fazer é reconhecer com humildade que somos mensageiros indignos que não se anunciam a si mesmos, mas que falam com santa timidez daquilo que não lhes pertence, mas provém de Deus. Só assim se torna inteligível a tarefa missionária, que não significa um colonialismo espiritual, uma submissão dos outros à minha cultura e às minhas ideias. A missão exige, em primeiro lugar, uma preparação para o martírio, a disposição de perder-se a si mesmo por amor à verdade e ao próximo.

Só assim a missão merece crédito. A verdade não pode nem deve ter nenhuma outra arma que não ela mesma.

(Cardeal Joseph Ratzinger in ‘El relativismo, nuevo rostro de la intolerancia’)

Via Ian Farias

Dia São Tomé, Apóstolo de Nosso Senhor


Sempre presente nas quatro listas do Novo Testamento, nos primeiros três Evangelhos ele aparece junto a Mateus (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,25), enquanto nos Atos se encontra ao lado de Felipe (cf. At 1,13). Seu nome deriva da raiz hebraica, ta'am, que significa "emparelhado, gêmeo". De fato, o Evangelho de João o chama muitas vezes pelo apelido de "Dídimo" (cf. Jo 11,16; 20,24; 21,2), que em grego quer dizer "gêmeo". Não está clara a razão deste apelido.

É o quarto Evangelho o que nos oferece mais informações que permitem evidenciar alguns traços significativos de sua personalidade. O primeiro tem a ver com a exortação que fez aos demais apóstolos, quando Jesus, num momento crítico de sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro e aproximou-se perigosamente de Jerusalém (cf. Mt 10,32). Naquela ocasião Tomé disse a seus condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com Ele!" (Jo 11,16). Esta sua determinação de seguir o Mestre é verdadeiramente exemplar e nos oferece um ensinamento precioso: revela a total disponibilidade para juntar-se a Jesus, até identificar a própria sorte com a dele e querer compartilhar com Ele a prova suprema da morte. De fato, o mais importante é não separar-se nunca de Jesus. Além do mais, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar que para onde Ele se dirige, ali também deve ir o seu discípulo. Deste modo, a vida cristão se define como uma vida com Jesus Cristo, uma vida que deve ser vivida junto a Ele. São Paulo escreve algo parecido, quando tranquiliza assim os cristãos de Corinto: "Vocês estão em nossos corações para a vida e para a morte" (2Cor 7,3). O que se produz entre o apóstolo e os seus cristãos deve naturalmente valer, antes de mais nada, para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer junto a Ele, viver junto a Ele, estar em seu coração como Ele está no nosso.

Na Última Ceia ocorre uma segunda intervenção de Tomé. Nessa ocasião, Jesus, prevendo a sua iminente partida, anuncia que se vai para preparar os seus discípulos e para que estejam também onde ele se encontra; e lhes precisa: "E para onde eu vou, vocês já conhecem o caminho" (Jo 14,4). E então Tomé intervém dizendo: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?" (Jo 14,5). Na verdade, com esta resposta ele está se colocando num nível de entendimento bastante limitado; mas estas palavras suas oferecem a Jesus a ocasião de pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6). Portanto Tomé é o primeiro a quem Ele faz esta revelação, embora seja válida para todos nós e para todos os tempos. Cada vez que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos nos colocar na mente de tomé e imaginar que o Senhor fala também conosco como falou com ele. Ao mesmo tempo, a sua pergunta nos dá o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Frequentemente não compreendemos a Ele. Temos a coragem de dizer: não o compreendo, Senhor, ouça-me, ajude-me a compreender. Deste modo, com esta franqueza, que é a verdadeira forma de rezar, de falar com Jesus, expressamos a pobreza de nossa capacidade de compreensão, e ao mesmo tempo nos mostramos confiantes como quem espera luz e força da parte de quem está capacitado a dá-las.

Conhecidíssima e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, realizada oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, não acreditou que Jesus tivesse aparecido em sua ausência e disse: "Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão na ferida dele, eu não acreditarei" (Jo 20,25). Do fundo destas palavras emerge a convicção de que Jesus é reconhecível não tanto por seu rosto quanto por suas feridas. Tomé considera que as marcas significativas da identidade de Jesus agora são, antes de tudo, suas feridas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisso o apóstolo não se equivoca. Como sabemos, oito dias depois Jesus volta a aparecer entre os seus discípulos, e desta vez Tomá está presente. E Jesus o interpela: "Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque a minha ferida. Não seja incrédulo, mas tenha fé" (Jo 20,27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28). 

Santo Agostinho comenta a este propósito: Tomé "via e tocava ao homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via e nem tocava. Mas aquilo que via e tocava o induzia a crer naquilo de que até aquele momento duvidava" (In Iohann, 121,5). O evangelista continua com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto!" (Jo 20,29). Esta frase também pode ser transportada para o presente. Aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, quer dizer, para todos nós. É interessante observar como outro Tomás, o grande teólogo medieval de Aquino, compara esta fórmula de felicidade com aquela aparentemente oposta que transmite Lucas: "Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem" (Lc 10,23). Mas o de Aquino comenta: "Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê vendo" (In Iohann, XX lectio VI, 2566). De fato, a Carta aos Judeus, quando refere toda a série de antigos patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver a realização de suas promessas, define a fé como uma "forma de possuir o que se espera, um meio de conhecer as coisas que não se vêem" (Hb 11,1). O caso do apóstolo Tomé é importante para nós ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola de nossa insegurança; segundo, porque nos demonstra que toda dúvida pode desembocar numa saída luminosa livre de qualquer incerteza; e, por último, porque as palavras que lhe dirige Jesus nos lembram o verdadeiro sentido da fé madura e nos animam a continuar, apesar das dificuldades, em nosso caminho de adesão a Ele.

Há uma última observação sobre Tomé no quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no lago de Tiberíades (cf. Jo 21,2). Naquela ocasião ele é mencionado, precisamente, logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da notável importância de que gozava entre as primeiras comunidades cristãs. De fato, em seu nome logo foram escritos os Atos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos, mas importantes para o estudo das origens do cristianismo. Por último, vamos lembrar que, segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim é referido por Orígenes, partindo de Eusébio de Cesareia, Hist. Eccl. 3, 1), e mais tarde alcançou a Índia ocidental (cf. Atos de Tomás 1-2 e 17 ss.), e daí também chegou à Índia meridional. Com esta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando o desejo de que o exemplo de Tomé confirme mais, a cada dia, a nossa fé em jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

Bento XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo.
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