Tradutor / Translator


English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

A recusa, da parte do demônio, do projeto da Encarnação do Filho de Deus e de Maria Rainha dos Anjos e dos homens


O homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança, isto é, segundo a imagem do Filho que o Pai Eterno tinha na sua mente, quando, chegada a plenitude dos tempos, haveria de enviá-lo ao mundo para fazer-se homem e redimir a humanidade. O homem é, portanto, "figura daquele que haveria de vir" (Rm 5,14), Cristo Jesus. Por isso, esteve presente na mente de Deus, desde a eternidade, antes de qualquer outra criatura, e também a figura daquela em quem a Encarnação do Filho haveria de realizar-se: Maria Imaculada. Diz o Concílio Vaticano II: "A santíssima Virgem [foi] predestinada desde toda a eternidade, no desígnio da Encarnação do Verbo divino, para [ser] Mãe de Deus".1 A natureza humana de Cristo e de Maria é o vértice da obra da criação. Embora, cronologicamente, Cristo e Maria aparecessem no mundo muitos séculos depois da criação de todas as coisas, a Santíssima Trindade tinha em mente desde a eternidade esta obra-prima insuperável relativamente a qualquer obra criada por Deus: "Uma Mulher imaculada que fosse Mãe do Filho, dando-lhe a carne humana do seu seio por obra do Espírito Santo".

Nesta perspectiva, a Virgem Maria pode ser definida como "primogênita" do Pai, porque nos seus decretos divinos Ele a predestinou juntamente com o Filho Jesus Cristo, antes de todas as criaturas.2 Cristo e Maria foram pensados, queridos e amados pelo Pai Eterno, pelo seu Verbo e pelo Espírito Santo, antes de toda a criação, e, a eles, todas as coisas estão subordinadas e se ordenam necessariamente. Todo o universo material e espiritual foi criado intimamente unido ao homem, de que Cristo e Maria são o vértice, e só por meio do homem todas as coisas podem atingir o fim para que foram criadas. Portanto, a criação dos anjos, feita por Deus, esteve ligada à sua decisão de unir-se ao homem mediante a Encarnação: isto é, entrar no mundo da matéria, do espaço e do tempo. Portanto, a criação dos anjos foi orientada, desde o início, para a síntese admirável da criação, que é o homem, cujo representante máximo é o Verbo de Deus que se torna carne por meio de Maria e se faz homem. A criação do homem - e, em particular, a natureza humana do Verbo - dá consistência e significado a todo o universo, incluindo também os anjos.

É claro que, neste projeto de Deus, a Virgem Maria, embora constituída, como cada criatura humana, de espírito e matéria (alma e corpo), é elevada acima dos anjos que são espíritos puros. Pela sua natureza angélica mais semelhante a Deus, espírito puríssimo, Satanás pretendia que lhe competiria a proeminência sobre toda a criação, que Deus conferiu à Virgem Maria. Consequentemente, esta atitude implicava uma contestação decisiva quer da Encarnação do Verbo de Deus - que haveria de assumir a natureza humana, inferior à angélica - quer da presença daquela Mulher, da qual, encarnando, o Filho de Deus haveria de nascer no tempo. Ela, posta à sua direita, como Rainha dos homens e dos anjos, havia de fato sido eleita não só acima das criaturas humanas, mas também das angélicas. O fato de Satanás rejeitar Maria foi uma consequência lógica da rejeição da Encarnação.

No momento em que a Santíssima Trindade criou os anjos, já sabia que alguns deles haveriam de usar o dom da liberdade para recusar o seu projeto de amor sobre toda a criatura: voltar-se-iam contra Deus, seu Criador, operando pela destruição da sua criação, que era inteiramente boa, e haveriam de introduzir nela o mal, o sofrimento e a morte. Por isso, desde o princípio da Criação, Deus estabeleceu que a Encarnação do Verbo também haveria de ser redentora, a fim de salvar as criaturas que haveriam de continuar fiéis a Ele. Por isso, enquanto criava, Deus pensava no seu Filho feito homem - isto é, Jesus Cristo - como Redentor, e em sua Mãe, cooperadora com o Filho redentor.

O teólogo jesuíta espanhol Francisco Suárez3, que apresenta a síntese provavelmente mais completa de angelologia e demonologia da Idade Moderna, retomando a opinião do Padre das Igrejas, Lactâncio (cerca de 260-330) - segundo o qual o pecado do anjo foi o de inveja, não em relação ao homem, mas em relação ao Filho de Deus feito homem (o Logos) -, explica que, depois, por esse motivo, Lúcifer4 haveria de enganar o homem por inveja (Divinae Institutuiones). Suárez afirma que a revolta de Lúcifer e dos outros anjos rebeldes consistiu em não ter aceitado o plano que Deus lhes tinha preanunciado, relativo à futura Encarnação do Verbo. Esta hipótese teológica fundamenta-se nas seguintes palavras da Carta aos Hebreus (1,6): "Quando [Deus] introduz o Primogênito no mundo, diz: Adorem-no todos os anjos de Deus." De algum modo, Deus haveria de mostrar a todos os anjos a futura imagem do Filho, Deus feito homem, Jesus Cristo, convidando-os a reconhecer nele, desde então, o seu chefe, o autor da sua salvação e o seu legislador.

Lúcifer e uma parte dos anjos recusaram-se a adorar um homem inferior a eles por natureza, embora ao mesmo tempo superior, sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnada. Eles consideraram o projeto divino da Encarnação como uma ofensa inaudita à sua dignidade angélica e à sua grandeza na hierarquia dos seres; por isso, rejeitaram-no desdenhosamente5. Por isso, tratou-se de um pecado de soberba que brota, no entanto (e de acordo com o Beato Duns Escoto), do amor desordenado a si mesmo: amor de concupiscência e, simultaneamente, amor da sua própria excelência. De fato, cego pelo amor desordenado de si mesmo e da sua excelência, Lúcifer pretendeu que a união hipostática do Verbo6 não se fizesse com uma natureza humana, mas sim, necessária e exclusivamente, com a sua natureza angélica.

Por isso, quando os anjos foram convidados a reconhecer Cristo feito homem como seu chefe e seu salvador, e a adorá-lo como Deus, Lúcifer opôs-se, presumindo que essa honra deveria ser dada exclusivamente a ele. Na sua rebelião, arrastou os outros anjos, persuadindo-os de que só a ele conviria a dignidade da união hipostática (isto é: segundo Lúcifer, a natureza divina deveria unir-se à sua natureza angélica e não à natureza humana, como aconteceu em Cristo Senhor). Contra o plano de Deus, ele desejou a união hipostática do Verbo de Deus com a sua própria natureza angélica, porque essa união adquiriria uma proeminência; de fato, considerava que a união hipostática lhe era devida a ele e não ao homem, dado que a natureza angélica é superior à humana7. Por isso, trata-se de um pecado de soberba e de desobediência, a que se seguiu a inveja em relação a Cristo, associada à cólera e ao ódio contra Ele e contra o gênero humano, e muitos outros pecados.

Por conseguinte, a rejeição de Lúcifer não se manifestou somente em relação à Encarnação do Filho de Deus, mas também em relação à Virgem Maria, através de quem a Encarnação haveria de realizar-se. A mística mariana espanhola, a venerável Maria de Jesus d'Agreda (1602-1665)m na sua famosa obra La mística ciudad de Dios, afirma que Lúcifer, por ser a criatura mais luminosa da criaçaõ, pensava que estava destinado a ser ele o chefe dos anjos e da humanidade. No entanto, quando compreendeu que não iria ser ele mas outro - isto é, que o Filho de Deus se faria homem -, não só se recusou adorá-lo e reconhecê-lo como chefe dos anjos e dos homens, como também rejeitou a decisão que Deus lhe havia notificado: com a Encarnação do Verbo, os anjos "deviam considerar igualmente superior a mulher através da qual o Verbo haveria de fazer-se carne. Essa mulher, embora fosse uma criatura humana, e, portanto, de natureza inferior à sua, haveria de ser não só sua Rainha, a quem teriam de obedecer, mas também a Senhora de todas as criaturas, superando nos dons de graça e de glória todas as criaturas angélicas e humanas. Ao obedecerem a este preceito do Senhor, os anjos bons aumentariam a sua humildade, pela qual não só o acolheram, mas também louvaram o poder e os mistérios do Altíssimo. Mas não [fizeram] assim Lúcifer e os seus companheiros; por causa deste preceito e mistério, elevaram-se de tal maneira em soberba e em vaidade ainda maiores que, desordenadamente furioso, ele reclamou para si próprio o privilégio de ser chefe de toda a estirpe humana e de todas as ordens angélicas; e, se isto haveria de acontecer através da união hipostática, que ela se realizasse nele".

-----

1- Gaudium et spes 61.
2- Por predestinação não se entende algo de já estabelecido, independentemente da livre decisão da vontade do homem. Aliás, pode-se dizer que Deus já conhece o que irão fazer os seus filhos que, no entanto, são sempre livres de decidir em plena liberdade. Isto é, Deus predestina que sejam conformes com o seu Filho Jesus aqueles que o escolhem como Pai: "Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio. Porque àqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho" (Rm 8,28-29). Trata-se sempre de uma escolha livre. Por isso, embora seja predestinada a ser Mãe do Filho de Deus feito homem, Maria aderiu a Ele livremente. Também o Filho de Deus, mesmo que predestinado a encarnar através de Maria, escolheu livremente realizar este projeto de amor do Pai, para que os homens fossem conformes à sua imagem. Na carta aos Hebreus, Cristo diz: "Eis que venho - como está escrito no livro a meu respeito - para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Heb 10,7).
3- Nasceu em Granada em 1548 e faleceu em 1617.
4- É o nome de Satanás tinha antes do seu pecado. Deriva do latim e significa "portador de luz".
5- Aceitando-se a tese de que o pecado dos anjos se realiza na rejeição de adorar o Verbo encarnado, talvez compreendamos melhor o contínuo serviço dos próprios anjos na obra da Encarnação e na assistência prestada a Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, intuímos o motivo mais radical da luta do demônio contra Ele.
6- Por "união hipostática" entende-se a união da natureza divina com uma natureza alheia, isto é, com uma natureza que o próprio Deus criou.
7- Um dos teólogos do séc. XII, Honório d'Autun, afirmou que o Verbo não podia assumir a natureza angélica, porque nesse caso salvaria unicamente um anjo (já que cada um deles é uma "espécie", o que o torna diferente de todos os outros, enquanto os homens pertencem todos à mesma espécie).

Pe. Francesco Bamonte, A Virgem Maria e o Diabo nos Exorcismos. Prior Velho: Paulinas, 2010.
Blog Widget by LinkWithin

2 comentários:

Fique à vontade para comentar. Mas, se for criticar, atenha-se aos argumentos. Pax.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...