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Oração de Sto Agostinho para compreender a Palavra divina


Senhor, Deus meu, "atendei a minha oração" (Sl 60, 2), e oxalá a vossa misericórdia ouça o meu desejo (Sl 10, 17), porque não é só por mim que ele palpita, senão também por aqueles que a caridade me faz olhar como a irmãos. Vós vedes no meu coração que assim é. Sacrificar-Vos-ei as operações do meu pensamento e da minha língua. Dai-me, porém, aquilo que Vos desejo oferecer e sacrificar. "Eu sou pobre e indigente. Vós sois rico para os que Vos invocam" (Rom 10, 12), vigiando sobre nós com segurança.

Purifica os meus lábios e o meu coração de toda temeridade e mentira. Sejam as Sagradas Escrituras as minhas castas delícias. Que eu não seja enganado nelas, nem com elas engane os outros. Escutai a minha alma, Senhor, e tende piedade de mim, ó meu Deus, que sois luz dos cegos, força dos enfermos, e simultaneamente luz dos que vêem a força dos fortes. Escutai compassivo a minha alma, ouvi-a enquanto clama do mais profundo abismo em que se encontra. Se os vossos ouvidos não estão presentes lá nesse abismo, para onde nos dirigiremos? Por quem chamaremos?

"Vosso é o dia e vossa é a noite" (Sl 73, 16). A um aceno da vossa vontade, os instantes voam. Concedei-me, por conseguinte, tempo para meditar os segredos da vossa lei, e não a fecheis aos que lhe vêm bater à porta. Não foi em vão que quisestes fossem escritas tantas páginas sagradas cheias de mistérios. Porventura esses bosques não possuem também os seus veados que aí se acolhem e refugiam, aí passeiam e pastam, aí se deleitam ruminando?

Ó Senhor, aperfeiçoai-me e patenteai-me esses mistérios. A vossa palavra é a minha alegria. A vossa voz é mais deleitosa do que toda a afluência de prazeres. Concedei-me o que amo, porque estou inebriado de amor. E isso me concedestes. Não abandoneis os vossos dons, nem deixeis de regar esta erva sequiosa.

Oxalá Vos confesse tudo o que encontrar nos vossos livros e "ouça a voz dos vossos louvores" (Sl 25, 7). Possa eu inebriar-me de Vós e considerar as maravilhas da vossa lei, desde o princípio em que criastes o céu e a terra, até ao tempo em que partilharemos convosco do reino perpétuo da vossa Santa Cidade.

Senhor, tende compaixão de mim e ouvi o meu desejo. Julgo que nele não há nada de terrestre, nem de ouro, nem de prata, nem de pedras preciosas, nem de vestidos luxuosos, nem de honras e poderes, nem de prazeres da carne, nem de coisas necessárias ao corpo e a esta nossa via de peregrinos. Tudo nos é dado por acréscimo, a nós, que buscamos o reino do céu e vossa jsutiça (Mt 6, 33).

Vede, Senhor meu Deus, de onde nasce o meu anseio. "Os maus contaram-me as suas alegrias, mas estas não são como as que provêm da vossa lei, ó Senhor" (Sl 118, 85). Eis de onde brota o meu anseio. Vede, ó Pai, aprovai e tende por bem que eu, sob o olhar da vossa misericórdia, encontre graça diante de Vós, para que os arcanos das vossas palavras se abram, quando o meu espírito lhes bater à porta.

Rogo-vos por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo, "vosso Filho, o homem sentado à vossa destra, o Filho do Homem" (Sl 79, 18), ao qual confirmastes como Mediador entre Vós e nós. Por Ele nos buscastes quando Vos não procurávamos. Buscastes-nos para que também Vos buscássemos.

Rogo-vos por intermédio do vosso Verbo, pelo qual criastes todas as coisas, e, entre elas, a mim. Rogo-Vos pelo vosso Unigênito, pelo qual chamastes à adoção o povo dos crentes, entre os quais estou eu também. Por Ele, que "está sentado à vossa direita e intercede por nós diante de Vós" (Rom 8, 34). N'Ele se encontram todos os tesouros de Sabedoria e Ciência (Col 2,3), aos quais procuro nos vossos livros.

Sto Agostinho, Confissões, Livro XI, Cap. 2.

"Abortar, eu? Jamais!" - Mãe do Chaves


Todos nós temos muito a agradecer a essa senhora. Obrigado, mãe do Chaves, por não tê-lo abortado.
Este agradecimento se estende a todas as mães e meninas grávidas que, mesmo no anonimato, se decidiram pela vida dos seus pequenos.

A Criação canta a glória de Deus


Proclamem todas estas coisas que não se fizeram a si próprias:

"Existimos porque fomos criados. 
Portanto, não existiríamos antes de existir, para que nos pudéssemos criar."

Sto Agostinho, Confissões, Livro XI, Cap.6.

1º Podcast GRAA - 5 perguntas aos protestantes

Pessoal, ponho aí o primeiro podcast aqui do blog. Como vocês poderão ver - ou ouvir, rs - a dicção não é lá o meu forte, embora eu tenha melhorado muito, rsrs... Eu sou melhor cantando. O podcast trata de cinco perguntas que eu faço aos protestantes - assunto já muito conhecido pelos católicos - e que, sob o meu sotaque nordestino, eu espero que sejam bem compreendidas, de modo que estou aberto a objeções.

Bom, quando o assunto é texto, a gente diz: "boa leitura". Mas, e quando é áudio? "Boa ouvida"? rsrs Seja como for, espero que vos seja útil. Pax.

História do Sacrifício - Parte IV - O Sacrifício Eucarístico


Na noite em que foi entregue, no decorrer da ceia pascal, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de ter dado graças, o abençoou, partiu e deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo que é entregue por vós”. Do mesmo modo, tomou o cálice, deu graças e entregou-lhes, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, sangue da Nova Aliança, que vai ser derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados.” E acrescentou: “Fazei isto em memória de mim”. 

Para que os judeus se recordassem que tinham sido libertados da escravidão do Egito, Deus tinha-lhes ordenado que imolassem e comessem todos os anos, na festa da Páscoa, um Cordeiro sem mácula, na flor da idade. 

Foi depois de ter cumprido este preceito e comido com seus discípulos o Cordeiro pascal, que Cristo transformou o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue. Durante a ceia da Antiga Aliança, Cristo selou com seu sangue a Nova Aliança. “Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado”. (1Cor 5,7), diz São Paulo. 

O Cordeiro que os judeus imolavam não era senão o símbolo do verdadeiro Cordeiro de Deus que veio imolar-se para tirar os pecados do mundo. Sem duvida, somente no dia seguinte, este Cordeiro será imolado de modo sangrento na Cruz; mas na ceia ele está já oferecido como vítima destinada com antecedência à morte; Jesus se oferece como vítima aceitando livremente a morte que lhe será imposta, no dia seguinte; oferece de maneira ritual e mística a imolação que, no dia seguinte, será realizada de maneira visível e sangrenta; doravante sua vida não lhe pertence mais, ele a entregou já para a salvação do mundo. 

Assim, o Salvador é sacerdote segundo a ordem e o ritual de Melquisedec; este último ofereceu a Deus em sacrifício pão e vinho; Jesus, na última ceia, ofereceu-se a si próprio, sob as espécies do pão e do vinho, tornando assim realidade o que o salmista tinha predito, há muitos séculos: “O Senhor fez juramento e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). 

Após ter convertido o pão e o vinho em seu corpo e em seu sangue, Jesus disse a seus discípulos: “Fazei isto em memória de mim”. 

Com estas palavras, deu-lhes o poder de consagrar seu corpo e seu sangue, e impôs-lhes o dever de se lembrarem dele. São Paulo nos explica de que maneira se faz essa lembrança: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). 

É, pois, Jesus Crucificado que a Eucaristia nos lembra; é seu corpo partido, seu sangue derramado! A Missa durante a qual a Eucaristia é consagrada é, portanto, um memorial da Paixão de Cristo, de Cristo agonizando, de Cristo morrendo por nós; é também uma representação viva do sacrifício da cruz: o sacerdote é o mesmo, a vítima também. 

O Sumo Sacerdote da Nova lei, ou melhor, o único sacerdote, é Jesus Cristo. E se na Missa ele se oferece pelo ministério dos sacerdotes, é unicamente porque ele assim quis fazer depender sua presença no altar da vontade e da ação de um homem. O sacerdote não é sacerdote senão em dependência de Cristo, e só age como seu representante. Na consagração ele diz: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue” e não isto é o Corpo de Cristo, isto é o sangue de Cristo. 

Assim como a última Ceia foi um verdadeiro sacrifício porque oferecia a vítima que ia ser imolada no dia seguinte, assim também a Missa é um verdadeiro sacrifício, porque renova a oferta da vítima já imolada no Calvário. 

Cumprindo a ordem do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”, os Apóstolos e depois deles os seus sucessores, os bispos e os sacerdotes, têm sempre oferecido este sacrifício. 

No tempo dos Apóstolos, os cristãos já se reuniam para o que chamavam “a fração do pão” especialmente ao domingo. Nos Atos dos Apóstolos, lemos no capítulo 20: “No primeiro dia da semana, quando nos reunimos para partir o pão...” 

São Paulo diz muitas vezes que benziam e bebiam o cálice e que partiam e comiam o pão: O cálice de bênção, escreve ele aos Coríntios, que consagramos não é, porventura, a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do Corpo do Senhor?” (1Cor 10,16).

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Comentada

Mensagem de Bento XVI ao Presidente da CNBB por ocasião da abertura da Quaresma


MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
AO PRESIDENTE DA CONFERÊNCIA
DOS BISPOS DO BRASIL POR OCASIÃO
DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2012

Ao Venerado Irmão 
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida (SP) e Presidente da CNBB

Fraternas saudações em Cristo Senhor!De bom grado me associo à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que lança uma nova Campanha da Fraternidade, sob o lema «que a saúde se difunda sobre a terra» (cf. Eclo 38, 8), com o objetivo de suscitar, a partir de uma reflexão sobre a realidade da saúde no Brasil, um maior espírito fraterno e comunitário na atenção dos enfermos e levar a sociedade a garantir a mais pessoas o direito de ter acesso aos meios necessários para uma vida saudável.

Para os cristãos, de modo particular, o lema bíblico é uma lembrança de que a saúde vai muito além de um simples bem estar corporal. No episódio da cura de um paralítico (cf. Mt 9, 2-8), Jesus, antes de fazer com que esse voltasse a andar, perdoa-lhe os pecados, ensinando que a cura perfeita é o perdão dos pecados, e a saúde por excelência é a da alma, pois «que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?» (Mt 16, 26). Com efeito, as palavras saúde e salvação têm origem no mesmo termo latino salus e não por outra razão, nos Evangelhos, vemos a ação do Salvador da humanidade associada a diversas curas: «Jesus andava por toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo o tipo de doença e enfermidades do povo» (Mt 4, 23).Com o seu exemplo diante dos olhos, segundo o verdadeiro espírito quaresmal, possa esta Campanha inspirar no coração dos fiéis e das pessoas de boa vontade uma solidariedade cada vez mais profunda para com os enfermos, tantas vezes sofrendo mais pela solidão e abandono do que pela doença, lembrando que o próprio Jesus quis Se identificar com eles: «pois Eu estava doente e cuidastes de Mim» (Mt 25, 36). Ajudando-lhes ao mesmo tempo a descobrir que se, por um lado, a doença é prova dolorosa, por outro, pode ser, na união com Cristo crucificado e ressuscitado, uma participação no mistério do sofrimento d’Ele para a salvação do mundo. Pois, «oferecendo o nosso sofrimento a Deus por meio de Cristo, nós podemos colaborar na vitória do bem sobre o mal, porque Deus torna fecunda a nossa oferta, o nosso ato de amor» (Bento XVI, Discurso aos enfermos de Turim, 2 de maio de 2010).

Associando-me, pois, a esta iniciativa da CNBB e fazendo minhas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de cada um, saúdo fraternalmente quantos tomam parte, física ou espiritualmente, na Campanha «Fraternidade e Saúde Pública», invocando ­ pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida ­ para todos, mas de modo especial para os doentes, o conforto e a fortaleza de Deus no cumprimento do dever de estado, individual, familiar e social, fonte de saúde e progresso do Brasil tornando-se fértil na santidade, próspero na economia, justo na participação das riquezas, alegre no serviço público, equânime no poder e fraterno no desenvolvimento. E, para confirmar a todos estes bons propósitos, envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 11 de fevereiro de 2012.

PAPA BENTO XVI

Fonte: Site do Vaticano

História do Sacrifício - Parte III - Sacrifício da Nova Aliança: Jesus, Sacrificador e Vítima


Sacrifício da Nova Aliança

Na Nova Aliança, há um só sacrifício: o sacrifício que Jesus Cristo instituiu na última Ceia, consumou no dia seguinte sobre a Cruz e que a Missa renova todos os dias.

Jesus, Sacrificador e Vítima

Nos sacrifícios antigos o sacerdote era distinto da vítima. Escolhiam como vítima, nos sacrifícios cruentos, considerados os mais perfeitos, um ser vivo, de preferência um animal doméstico, que, por pertencer ao homem, podia legitimamente substituí-lo.

Ofertavam-no a Deus, separando-o de todo uso profano, para consagrá-lo ao serviço e à honra da divindade. Imolavam-no em seguida, a fim de mostrar que o pecador, tendo ofendido a Deus, não tinha mais o direito de viver, que merecia a morte.

Em certos sacrifícios , após ter queimado uma parte da vítima, comiam a outra parte, para comungar assim à vítima e, por meio dela, à divindade. Porque, após a glorificação de Deus, a união com ele, quebrada pelo pecado, era o fim para o qual tendia o sacrifício.

Portanto, três atos principais constituíam o sacrifício: o oferecimento, a imolação e a comunhão que se chamava também consumação. Tudo isto não eram senão figuras ou símbolos que preparavam o sacrifício verdadeiro, o sacrifício que devia oferecer o Homem-Deus, o Sumo Sacerdote da nova Lei, para glorificar a Deus e salvar seus irmãos. Ora, Deus tem direito a homenagens infinitas; para render-lhe tais homenagens e reparar a ofensa a ele feita pelo pecado, era necessário um sacrifício de valor moral infinito. E, para que assim seja, Jesus, nosso Sumo Sacerdote, quis ser não somente o sacrificador, mas também a vítima. Só deste modo, sob este duplo aspecto, o sacrifício oferecido por ele teria verdadeiramente um valor infinito, pois a dignidade de um sacrifício depende da dignidade da pessoa que o oferece e da vítima oferecida. Ora, Jesus, sacerdote e vítima, não é outro senão o Homem-Deus, isto é, uma pessoa infinita.

Desde o primeiro instante de sua encarnação no seio virginal de Maria, Cristo se ofereceu a seu pai como vítima para substituir todos os holocaustos. Lemos na Epístola aos Hebreus 10,5-6: "Entrando no mundo, Cristo diz: 'Tu não quiseste sacrifício nem oblação, mas me deste um corpo. Os holocaustos pelo pecado não te agradam. Então eu disse: eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade'".

E toda a sua vida foi uma cruz e um martírio, orientada para a imolação final que constituíra o ato essencial de seu sacrifício. Sua imolação como vítima começa com sua Paixão, no Jardim da Agonia, para terminar no Calvário. Mas, antes de se deixar imolar pelos algozes, Jesus quis de novo oferecer-se como vítima e, desta vez, num verdadeiro sacrifício, acompanhado de ritos misteriosos, o sacrifício da última Ceia. "Tomai e comei, este é o meu Corpo, dado por vós." "Bebei todos, porque este é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, que é derramado por vós para a remissão dos pecados."

No Jardim das Oliveiras, vendo-se carregado dos pecados dos homens, submerso pelas águas turvas de todas as iniquidades humanas e isto diante do Deus de toda santidade, uma tristeza mortal apodera-se de sua alma e um suor de sangue corre-lhe ao longo do corpo. Gostaria de ver longe dele este cálice de amarguras, mas submete-se à vontade de Deus: "Meu Pai, se é possível, permiti que passe de mim este Cálice; faça-se, contudo, não como eu quero, mas como vós quereis" (Mt 26,39).

Traído por Judas, renegado pelo chefe dos doze, abandonado por quase todos os seus discípulos, esbofeteado, injuriado pelos servos do sumo sacerdote, condenado pelo Sinédrio por ter-se proclamado o Filho de Deus, condenado por Pilatos que, no entanto, momentos antes tinha proclamado sua inocência, flagelado, coroado de espinhos e carregando uma pesada Cruz, sobe penosamente o monte Calvário, estende seus membros doloridos, vê seus pés e suas mãos traspassados pelos cravos, ouve os insultos e as zombarias dos chefes de seu povo, Escribas e Fariseus; e em vez de se vingar, como bem poderia fazer, pede a seu Pai que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem. Ele é o Bom Pastor que dá sua vida por suas ovelhas, conforme tinha dito: "Eu sou o Bom Pastor; o Bom Pastor dá sua vida por suas ovelhas... Ninguém me tira a minha vida, mas eu a entrego por mim mesmo; tenho o poder de entregá-la e tenho o poder de retomá-la novamente. Este é o mandamento que recebi de meu Pai" (Jo 10).

Cumprido o mandamento, pôde exclamar: "Está tudo consumado". Só lhe falta permitir à morte levar sua vítima voluntária, e o fez oferecendo-se pela última vez a seu Pai como vítima de propiciação.

"Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). Dizendo isto, expirou; e Deus foi glorificado como jamais o tinha sido; e os homens foram salvos.

Os antigos, após a imolação da vítima, desejavam um sinal que comprovasse ter sido a oferta aceita por Deus. Às vezes o Senhor enviava o fogo do céu para consumir a vítima que, então, se elevava ao céu como um sacrifício de agradável odor (ver Elias). Houve algo de análogo após a imolação do Calvário. Em vez de enviar o fogo do céu, para consumir a vítima, Deus ressuscitou seu Filho, conferindo a seu corpo glorioso um poder santificador que se exercerá pela Eucaristia, banquete sagrado pelo qual entramos em comunhão com a vítima e por meio desta com Deus a quem foi oferecida.

Quarenta dias após sua ressurreição, Cristo subiu glorioso ao céu, de corpo e alma, para assentar-se à direita do Pai, onde, continuamente, advoga a nossa causa e intercede por nós.

São Paulo, após ter observado que os sacerdotes da Lei antiga tinham necessidade de sucessores porque eram mortais, acrescenta: "Mas Este (Cristo) como permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno. E por isso pode salvar perpetuamente os que por ele chegam a Deus; está sempre vivo para interceder por nós. Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores e mais elevado do que os céus; que não precisa, como os outros sacerdotes, oferecer diariamente sacrifícios, em primeiro lugar pelos seus pecados, depois pelos do povo; porque isto o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo" (Hb 7,24-27).

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Meditada

"É a nós mesmos que Ele quer"



Deus não exige muito do nosso tempo, nem da nossa atenção. Ele não exige nem todo o nosso tempo nem toda a nossa atenção; é a nós mesmos que ele quer. Valem para todos nós as palavras de João Batista: "Importa que ele cresça e que eu diminua". Deus será infinitamente misercordioso em relação às nossas falhas repetitivas; mas não conheço nenhuma promessa em que ele aceite uma negociação deliberada. Em última instância Ele não tem nada a nos oferecer a não ser a si mesmo; e Deus só pode nos dar isso, na medida em que a nossa vontade auto-suficiente se retrai, abrindo espaço para ele em nossa alma. Não tenhamos dúvidas em relação a isso. Não restará nada "de nós mesmos" para vivermos nenhuma vidinha normal. Não quero dizer que todos nós vamos necessariamente ser chamados para sermos mártires ou ascetas. Se acontecer, que aconteça. Para alguns (não sabemos quem) a vida cristã incluirá muito lazer e muitas ocupações naturalmente prazerosas. E isso será recebido diretamente das mãos de Deus. Para um cristão perfeito isto seria tão próprio de sua religião, do seu "serviço", como suas tarefas mais difíceis, e seus banquetes seriam tão cristãos quanto os seus jejuns. O que não podemos admitir de forma alguma - e deve ser admitido somente como um inimigo não derrotado, mas ao qual se resiste diariamente - é a idéia de que tenhamos algo "só nosso" a conservar; alguma área de nossa vida que esteja fora do jogo e sobre a qual Deus não tenha nada a reivindicar.

Deus exige tudo de nós, porque ele é amor e é próprio dele nos abençoar. MAs ele não pode nos abençoar enquanto não nos possuir por completo. Sempre que tentarmos reservar uma área de nossa vida como propriedade nossa, estaremos reservando uma área onde impera a morte. Por isso é que ele exige, com todo o amor, que nos entreguemos por inteiro. Sem chance de barganha.

C.S Lewis, Peso de Glória

História do Sacrifício - Parte II - Sacrifícios sangrentos e não sangrentos no Antigo Testamento


Sacrifícios sangrentos e não sangrentos

Todos os povos e todas as religiões tiveram seus sacrifícios. Aparecem já praticados pelos filhos dos nossos primeiros pais. Caim e Abel (Gn 4), e achamo-los em todas as épocas entre os pagãos e os judeus. Egípcios, Caldeus, Assírios, Persas, Gregos, Romanos, etc. ofereciam sacrifícios a seus deuses para aplacá-los ou para implorar seu auxílio. Chegaram até a imolar seres humanos. Sabemos, pela Sagrada Escritura, que o rei dos Moabitas, para escapar ao cerco do rei de Israel, imolou seu filho primogênito.

Os Fenícios e outros povos da Ásia sacrificavam, todos os anos, crianças a Moloc, o deus do fogo com cabeça de touro. "O que os pagãos imolam, escrevia São Paulo aos Coríntios, imolam-no aos demônios e não a Deus" (1Cor 10,20). A humanidade, mesmo envolta nas trevas da ignorância e da perversão, sempre sentiu a necessidade de oferecer sacrifícios à divindade, ainda que confundindo o verdadeiro Deus com os falsos ídolos. Em Atenas, no tempo de São Paulo, não havia entre os inúmeros altares um altar ao "Deus desconhecido"?

Havia sacrifícios cruentos e sacrifícios incruentos (sangrentos e não sangrentos). Os primeiros consistiam na imolação, no derramamento do sangue de uma vítima escolhida no reino animal (bezerros, carneiros, ovelhas, cabras, rolas e até seres humanos). Nos segundos, em que não se derramava sangue, as ofertas eram escolhidas no reino vegetal e podiam ser objetos sólidos (trigo, farinha, pão, frutos da terra, etc.), ou líquidos (vinho, azeite). Os sólidos eram queimados e os líquidos derramados ao pé do altar. Oferecia-se também incenso.

Sacrifícios do Antigo Testamento ou da Lei Mosaica

Os sacrifícios dos pagãos não eram senão tentativas para chegar ao verdadeiro sacrifício de expiação ou de ação de graças à divindade: ofereciam animais sem defeitos físicos, crianças inocentes ou produtos escolhidos da terra, para serem vítimas perfeitamente imaculadas e, portanto, agradáveis aos deuses.

Quando Deus escolheu para si, nos descendentes de Abraão, um povo eleito, do meio do qual ia nascer o Salvador do gênero humano, ele próprio fez a Moisés, após a saída do Egito, numerosas prescrições sobre os sacrifícios que lhe deviam ser oferecidos, enquanto durava a Antiga Aliança.

"No Antigo Testamento tudo era coberto de sangue como figura do sangue de Jesus Cristo que nos devia purificar" (Bossuet).

Pela Bíblia sabemos que os judeus tinham três tipos de sacrifícios: os holocaustos, os sacrifícios de expiação e os sacrifícios pacíficos.

1. No holocausto (gr.: ólos, inteiro; e caústos, queimado), chamado também "sacrifício perfeito", a vítima era imolada e inteiramente consumida pelo fogo sobre o altar. Demonstrava-se assim o domínio absoluto de Deus sobre suas criaturas, representadas pela vítima.

No Templo de Jerusalém, único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios, todo dia ao nascer do sol e à tarde imolava-se um cordeiro que devia ser queimado por completo; e aos sábados, em vez de um, sacrificavam-se dois cordeiros pela manhã e dois à tarde. Ao mesmo tempo, no altar dos perfumes, um outro sacerdote queimava incenso sobre o braseiro que ali se encontrava. É esta última função que desempenhava Zacarias, quando lhe apareceu o anjo para lhe anunciar que teria um filho, "a quem porá o nome de João" (Lc 1).

2. Os sacrifícios expiatórios destinavam-se a aplacar a cólera do céu, a expiar os pecados do povo, e a purificá-lo das suas iniquidades.

Destas vítimas, uma parte era queimada sobre o altar e outra ficava reservada para o sustento dos sacerdotes.

Cada ano os judeus celebravam a festa da expiação (Yom Kippur). Neste dia o sumo sacerdote oferecia em holocausto um touro para a expiação de seus próprios pecados e dos pecados da sua família; e um bode oferecido pelo povo, para a expiação dos pecados da comunidade. Em seguida, pondo suas mãos sobre a cabeça de um segundo bode vivo oferecido também pelo povo, carregava-o de todos os pecados da nação e o expulsava para o deserto, levando assim simbolicamente para longe de Deus as iniquidades de seu povo (bode expiatório).

No dia da sua purificação, isto é, 40 dias após o nascimento de Jesus, Maria e José, em obediência à lei, "levaram o menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, e para oferecerem em sacrifício (de expiação) um par de rolas ou dois pombinhos" (Lc 2,22-24).

3. Os sacrifícios pacíficos tinham por finalidade dar graças a Deus pelos bens e dons recebidos, pedir-lhe uma graça ou cumprir uma promessa: após a imolação da vítima, uma parte dela era queimada no altar; uma outra reservada aos sacerdotes e uma terceira consumida, num convívio sagrado, pela pessoa que mandou oferecer o sacrifício e pelos membros de sua família. Esta refeição figurava a Eucaristia.

Além dessas três espécies de sacrifícios sangrentos, havia os sacrifícios não sangrentos, ou oblações, que acompanhavam obrigatoriamente os holocaustos e os sacrifícios pacíficos, ou podiam ser feitos isoladamente.

A matéria oferecida era uma substância, sólida ou líquida, mais frequentemente incenso, farinha (misturada com sal e azeite), ou vinho.

Todos estes sacrifícios não eram senão figura do verdadeiro sacrifício da Nova Aliança selada pelo sangue de Cristo. Por isso cessaram, conforme os profetas o tinham anunciado, depois do Sacrifício do Calvário: o símbolo deve ceder o lugar à realidade, como a noite à luz.

São Paulo, na sua Epístola aos Hebreus, (9,11), diz a esse respeito: "Cristo veio como Pontífice dos bens futuros; e passando por um tabernáculo mais excelente e perfeito, não feito por mão do homem, quer dizer: 'não deste mundo', entrou no santuário não pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, e de uma vez para sempre, porque alcançou a redenção eterna. Ora, se o sangue dos cabritos e dos touros e a aspersão da cinza duma novilha santifica os impuros pela purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito Santo, se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!"

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Meditada

História do Sacrifício - Parte I


Sacrifício e Sacramento

A missa é o ato litúrgico durante o qual renova-se de modo místico e incruento o sacrifício cruento de Cristo na cruz; e administra-se aos fiéis, pela Eucaristia o alimento espiritual para as suas almas. Na missa, portanto, celebra-se não somente um sacramento, o maior dos sacramentos, mas renova-se também um sacrifício, o verdadeiro e perpétuo sacrifício da Nova Aliança.

A Eucaristia é sacrifício, enquanto se oferece; é sacramento, enquanto se recebe.

Sacrifício em geral

O sacrifício é a oferta voluntária de uma coisa sensível que é destruída, se for um ser inanimado, ou imolada, se for um ser animado; feita por um ministro legítimo, a Deus só, para reconhecer seu domínio absoluto e, no caso de pecado, para aplacar sua justiça e obter a reconciliação e a união com ele.

O sacrifício, que é o ato de culto mais característico e mais sublime, deriva da dupla obrigação do homem para com Deus: a nossa dependência absoluta dele, como criaturas; a nossa inimizade com ele, como pecadores.

A necessidade do sacrifício como reconhecimento da nossa dependência de Deus sempre existiu, mesmo no estado de inocência de nossos primeiros pais, no paraíso terrestre, antes da queda: Adão e Eva, mesmo se não tivessem pecado, teriam de oferecer sacrifícios a Deus, em sinal de submissão e de gratidão.

Quando, porém, o pecado abriu um abismo entre Deus e o homem, o sacrifício assumiu uma segunda finalidade, tornando-se o meio de reconciliação. O sacrifício, enquanto expiação do pecado, tem o caráter de representação ou substituição.

1. A essência do sacrifício é a destruição de uma coisa sensível ou a imolação de um ser vivo. A melhor maneira para o homem exprimir sua dependência e a dependência das outras criaturas é, evidentemente, a morte voluntária, isto é, o fato de entregar livremente sua vida àquele de quem a recebeu. Foi isto que Deus quis fazer entender aos homens quando ordenou a Abraão que lhe imolasse seu filho único, Isaac. Mas, quando logo depois, satisfeito pela obediência cega de seu servo, substituiu Isaac por um carneiro, desaprovou ao mesmo tempo os sacrifícios humanos, aos quais tinha direito, e indicou o modo de substituí-los.

2. O ministro do sacrifício deve ser legítimo. O sacrifício é um ato de culto público. Ninguém pode cumpri-lo se não tiver títulos para falar ou agir em nome da sociedade. Na lei evangélica como na lei mosaica (e até entre os pagãos) somente os sacerdotes são delegados para esta missão.

3. O fim, o escopo do sacrifício, é reconhecer o absoluto domínio de Deus e aplacar sua justiça, se o ofendemos.

Pela criação existe entre o Criador e sua criatura um laço que os liga um ao outro: laço de soberania da parte do primeiro, e laço de dependência da parte do segundo. O sacrifício é o ato pelo qual exprimimos esta relação e proclamamos, de um lado, a infinita grandeza de Deus, e, de outro, o nosso nada, a nossa pequenez; e no caso de natureza decaída, nossa ingratidão e nosso arrependimento.

A coisa essencial num sacrifício  é dar ou renunciar a um objeto de valor (valor em si ou para quem dá), por amor de Deus. Para dar a esta oferta todo o seu significado, os homens costumavam destruir o objeto sensível: esta destruição impedia que se pudesse voltar a possuir aquele objeto e com isto se exprimia a verdade seguinte: que não somos nada diante de Deus.

A dádiva oferecida ocupava o lugar do homem. Por isso aquele que fazia a oferta colocava, muitas vezes, a mão sobre o animal sacrificado, e fazia-se aspergir com o sangue ainda quente e fumegante da vítima. Assim fizeram Abel, Caim, Noé. Abel imolou e queimou as primícias dos seus rebanhos; Caim, seu irmão, queimou os frutos da terra; Noé matou e queimou animais à saída da arca.

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Comentada

Prazeres espirituais X corporais



Existe essa diferença entre os prazeres espirituais e corporais, a saber, que os corporais geram o desejo antes de os termos obtido e, depois de obtidos, a repugnância; os prazeres espirituais, pelo contrário, não são apreciados quando não os temos, mas desejados quando os temos."

São Gregório Magno.

Início da Quaresma


Foi estabelecido com grande efeito salutar, por instituição divina que, para reparar-se a pureza dos espíritos, nos fosse prescrita exercitação de quarenta dias, durante os quais resgatassem as obras pias as culpas do passado, e santos jejuns as destruíssem.

Caríssimos, havendo de entrar nos dias místicos, também consagrados aos remédios dos jejuns, procuremos obedecer aos preceitos apostólicos, purificando-nos de toda impureza da carne e do espírito, a fim de que, coibidas as lutas existentes entre as duas partes de nós mesmos assim reprimidas, encontre a alma a dignidade de seu domínio, pois convém que, a Deus subordinada e por ele governada, domine o corpo por ela animado. A nenhum detrator demos ensejo para escândalo e censura a nosso ministério. (II Cor 6,2)

E, com efeito, seríamos justamente acusados pelos infiéis e pelas línguas maldizentes, por culpa nossa, com prejuízo para a religião, se a prática da religião nos afastasse da continência perfeita. Não consiste, portanto, nosso jejum só na abstinência de alimentos. Sem proveito, pois, seria a diminuição do alimento, se a alma não se afastasse do pecado.

São Leão Magno, Serm. IV Quadr., 1-2.

Aviso: Estarei em Retiro


Caríssimos,

A partir de hoje, estarei em um retiro, pelo que o blog ficará sem postagens até eu voltar. Retomo, então, na quarta-feira, se Deus quiser. E como, neste dia, estaremos vivendo o início da Quaresma, gostaria de vos recomendar um livro - que já recomendei outros anos - e que, penso, poderá ser útil à vossa meditação.

Trata-se do Caminho dos Ascetas - Iniciação à Vida Espiritual, do escritor Tito Colliander. É um livro que traz a espiritualidade dos Padres do Deserto. E, embora seja uma obra relativamente curta, ela compensa na profundidade. E uma das suas grandes características é que ela oferece modos bem práticos de aplicação daquilo que o autor diz. Recomendo mesmo. Se se interessarem, façam somente o pequeno esforço de imprimir o livro. Para acessá-lo, cliquem na imagem abaixo.



Deixo-vos, enfim, com uma frase do livro e que deve ser aplicada já agora no Carnaval:

"Se confias em ti mesmo, serás derrubado de imediato, e perderás toda a vontade de continuar a luta."



Abraço. Que Deus nos abençoe e guarde. Que a Virgem Santíssima nos conduza.

Ad Iesum Per Mariam

Fábio

O homem, sua indigência e sua sede


O homem, ser finito, contingente, precário, não tem em si a razão de sua existência. Procede de outra causa para existir e a ela deve subordinar-se para seu aperfeiçoamento. Acredite ou não, quer queira, quer não, o homem tem um destino, foi criado e ordenado para uma superior felicidade. Não é na vida temporal que há de achar a dita. E está nisto a tragédia do homem atual. Sente sede insaciável de ser feliz e em vez de ir a desalterar essa sede nas fontes de água viva que manam para a vida eterna, seduzido pelo próprio orgulho quer em seu pequeno mundo satisfazer sua indigência.

Monsenhor Emílio Silva de Castro, Filosofias da Hora e Filosofia Perene.
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