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Os problemas de alguns "retiros" - verdades que não podem ser ignoradas


É sempre assim: em muitos dos eventos, encontros, retiros que há por aí, sobretudo os que acontecem com jovens, a maior esperança é que os participantes consigam fazer experiências afetivas mais ou menos intensas. É o que a Psicologia chama de cartarse e que consiste numa liberação emocional que, sem dúvida alguma, pode dispor a pessoa a uma generosidade maior a ponto de investir a si mesma naquele caminho que lhe foi apresentado. Tudo bem... A catarse, em geral, faz bem. Mas... até aí, não há nada de especificamente espiritual.

O grande problema é que esta experiência emocional não raro se torna a grande finalidade, ao ponto de muitos chegarem a identificá-las com as ações de Deus. Disto resultam três coisas muito problemáticas: 1) a expectativa pessoal da ação divina fica restrita a um âmbito muito estreito e, em última instância, não necessariamente espiritual. As demais formas de intimidade com Deus (formas mais profundas e substanciais) são ignoradas e desprezadas. 2) Se se entende que Deus age pela liberação emocional que se pode ter, nada impedirá, a princípio, que o próprio sujeito "force" tais experiências, buscando provocá-las ou estendê-las, o que tanto prejudica a sinceridade da pessoa quanto compromete a sua constância, pois é óbvio que tais sentimentalismos não podem e não devem ser um contínuo na vida. A pessoa perde a sobriedade e fica cativa de quaisquer enganações, pois o critério que lhe ensinaram pode ser reproduzido, sem dificuldade, em qualquer lugar. Isto, inclusive, vai descambar na sensualidade. 3) O sujeito, forçando em si mesmo tais experiências e identificando a ação de Deus com elas, torna-se um egoísta, ocupado primeira e unicamente em satisfazer os próprios desejos "espirituais", sem atentar em nada mais alto. Por "mais  alto", essa pessoa geralmente entende "mais intenso" do ponto de vista da sensação.

Tudo isto, como já disse, é muito problemático e esconde, ainda, outras sutilezas, quase todas desinteressantes. Quem não perceberá que, neste contexto, pouca importância se dará ao campo preciso da Teologia? Por isto que é muito comum - comum demais - surgirem erros crassos nos discursos e pregações destes eventos. Depois, para muitos dos participantes, o retiro terá respondido uma questão fundamental da vida humana: "como eu posso chegar a Deus e viver com Ele?" Notem o seguinte: a pergunta é uma tensão que exige uma resposta. Enquanto há tensão, há busca. Porém, o retiro terá oferecido a muitos a resolução deste problema, o que lhes terá amortecido a dúvida. A questão é: terá sido esta resposta algo verdadeiro? Se não for, o problema agrava-se porque então não há mais busca e, portanto, o conhecimento desta verdade não mais buscada foi obstruído por um erro que se tomou por verdade.

Os que convivem neste meio - e eu já convivi por bastante tempo - conhecerão muitas pessoas que, não podendo reproduzir as tais experiências emocionais na vida cotidiana, começarão a transitar de encontro a encontro, de retiro a retiro, isentando-se de ter uma vida cristã no tempo ordinário. Será isto a vida santa que, muito inocentemente mas, também, irresponsavelmente, dizem aos berros que querem ter? Terá mesmo um cristão uma necessidade rigorosa de ficar reproduzindo sensações estomacais e arrepios para poder levar uma vida íntegra? Não, eu respondo. É claro que não. Um dos grandes problemas destes retiros é esse: lá, nos dois ou três dias, teremos muita gente convicta de que agora a coisa vai, agora vão tomar jeito. Porém, quando voltam à vida comum, em pouco tempo já estarão sentindo, de novo, o já tão conhecido descaso, a preguiça, os apelos da sensualidade, as correntes do egoísmo. E por quê? Porque o tal retiro, embora bem intencionado - não o duvido - pareceu ser, no fundo, mera distração, mera descontração, mera dinâmica de grupo, mero discurso levemente filosófico e moralista, mero cultivo de estados hipnóticos coletivos a partir da auto-sugestão dos participantes e, por fim, parece ter havido um certo tipo de superstição das emoções: "se eu senti foi bom; se eu senti bastante, foi muito bom; se eu não senti, não foi bom." Eis Deus reduzido a arrepios e espasmos. Eis a conversão apresentada como modo adocicado de viver. É óbvio, meus caros, que um tal "projeto de santidade" não vai longe. E se eu o denuncio aqui, não é simplesmente para acusá-los, mas para que os que trabalham com evangelização de jovens - e o GRAA também trabalha - atentem para estes problemas e comecem a dar importância àquilo que é "verdadeiramente verdadeiro". Vamos, então, à exposição de certas verdades que não podem ser ignoradas de modo nenhum na evangelização e que, não obstante a sua essencialidade, têm sido solenemente deixadas de lado para dar lugar aos gritos e trejeitos de pregadores de inspiração pentecostal protestante e que terminam por fazer confusão de tudo, dizer meio mundo de abobrinhas e, no final, ainda saem convictos de que são "pregadores da palavra". Não, não são... Sinto dizê-lo. Muitos deles são, no máximo, auto-enganadores; sujeitos inocentes que, à força de berros, passam a imagem de serem persuasivos. Neste tipo de contexto, uma frase profunda, cheia de sentido espiritual e dita com sobriedade é absolutamente ignorada, enquanto outra, non-sense, clichê, medíocre, mas dita aos berros e com bastante apelo emocional é capaz de arrancar lágrimas de alguém que, no fundo, não está preocupado em entender nada, mas quer apenas impressionar-se a cada momento. Não deixará passar, portanto, nenhuma oportunidade, ainda que não perceba o quão imbecil é recorrer a este tipo de subtefúrgio. 

Vamos lá, então.

A primeira coisa que estas pessoas têm de se preocupar é em dar uma visão correta de Deus e, naturalmente, da alma humana. Só que, dar esta visão correta supõe necessariamente conhecer esta visão correta. Em muitos casos, ela não será conhecida sequer pelos organizadores do encontro. Se isto acontece, isto é, se os pregadores e demais pessoas que estão a trabalhar num determinado evento pretensamente católico desconhecem quem seja Deus e o que seja o homem, a única coisa que pode se dar é o que foi dito por Nosso Senhor: "cegos que guiam cegos cairão todos no mesmo buraco". Um pretenso guia deve, naturalmente, conhecer o caminho e o  termo do caminho. Ora, este caminho não é outro senão o ensinado pela doutrina católica. Por que motivo, então, se faz tão facilmente, não somente abstração, mas até oposição a esta doutrina? Alguns dirão que o discurso teológico não é capaz de "tocar" o coração de iniciantes. Este tipo de alegação baseia-se num preconceito de fundo naturalista e esconde uma espécie de soberba e falta de fé. S. Paulo escreve, na primeira carta aos Coríntios, que não usava acréscimos nem suavizações nas pregações, para não desvirtuar a cruz de Cristo. (1,17) Isto demonstra que Paulo, como verdadeiro evangelizador que era, acreditava que a palavra de Deus, por si mesma, é dotada de força e de beleza. Ela atrai por natureza e, se mostrada em sua pureza, é apta para satisfazer os mais profundos anseios da alma humana. Não há que distorcer nada, portanto! Quando, ao contrário, queremos melhorar a coisa, torná-la mais deglutível, deixá-la mais emocional ou retirar as arestas mais incômodas do Evangelho, o que estamos fazendo é, simplesmente, revelando a nossa falta de Fé em Deus e supondo estupidamente que nós podemos ser os autores de um discurso mais maduro, mais eficaz. A auto-suficiência humana é, sem dúvida, sem fim.

Com isto, não estou a dizer que os "termos" utilizados precisam ser os mesmos termos técnicos da Teologia mais rebuscada. Não é preciso ler a Suma Teológica nas palestras a iniciantes. Mas, ainda que com uma linguagem simplificada e aproximada do cotidiano, não há que se desvirtuar o conteúdo preciso da pregação, sob pena de terminar por mostrar um "Deus" que é muito mais criação do homem do que seu Criador. E um "deus" que é segundo a nossa imagem e semelhança é, por força, uma ilusão, e uma ilusão não converte ninguém. É a verdade que liberta! E entendam aqui: a questão não está em manter simplesmente os nomes exatos das Pessoas da Trindade. Isto sempre se faz; o negócio é mostrar Deus como Ele é, segundo ensina a Doutrina Católica, a Verdade revelada pelo próprio Deus a respeito de Si mesmo.

Mas alguns costumam fazer uma distinção que pode ser um tanto ambígua: existe o discurso catequético, propriamente dito, e existe o que chamam de "discurso querigmático". A este último, atribuem um caráter mais espiritual e destinado à persuasão primeira daqueles que serão, pretende-se, os novos adeptos daquela proposta de vida. De fato, é possível aceitar esta distinção. Ela existe nos santos. Há um caso bastante ilustrativo disto: havia dois santos que se conheciam e dos quais agora não lembro o nome; um deles era bastante combativo no terreno da filosofia e da teologia mais técnica. Ele costumava vencer os hereges. No entanto, admitia: eu posso desmascarar as mentiras sutis no discurso herético. Mas, se a pessoa quiser converter-se, dirija-se ao outro. Isto pode parecer estranho para alguns, sobretudo para os que consideram que o único impedimento para a conversão de alguém está na compreensão errada de Deus. Porém, também existe, embora em menor número, aqueles outros casos de pessoas que compreendem a doutrina e os pontos mais importantes da Teologia e que, porém, não conseguem simplesmente aderir. Lembremos, caríssimos, que a Fé é um dom.

Pois bem. Uma certa distinção nos modos de expor o discurso cristão até existe, mas não pensemos que ambas sejam totalmente independentes, pois aí teríamos dois discursos essencialmente diferentes sobre um mesmo objeto, o que daria obviamente em contradição. O que acontece é que o discurso mais espiritual, destinado a acender o amor da alma para Deus, supõe necessariamente a retidão do discurso mais racional. Não é legítimo, portanto, sob pretexto de trabalho querigmático, ferir pontos da doutrina, pois a perfeição desta deve existir antes de um apelo afetivo. Lembremos que nas relações entre as potências da alma, o intelecto é anterior à vontade e esta age somente depois daquele. O intelecto encontra o objeto digno de amor e a vontade, só então, lhe investe o afeto. Por isto que a retidão da doutrina deve ser o suposto no discurso querigmático, pelo menos nos pontos mais essenciais.

Se este cuidado é tomado, não somente Deus será mostrado de modo coerente como, ainda, tal demonstração, sendo verdadeira, atingirá de modo muito mais profundo e direto a alma humana que é, em sua próprio natureza, essencialmente disposta para Deus.

Adentremos, agora, neste segundo ponto, e que eu penso ser quase tão sério quanto o primeiro equívoco. Se no campo da doutrina o negócio costuma ser problemático, quando consideramos o conhecimento da alma humana que essas pessoas geralmente têm, a coisa chega ao grau do risível. Não deixa de ser ridículo que estes pretensos guias pretendam conduzir outras almas sem sequer conhecer o que seja a alma humana. Se o leitor quiser ter uma pequena dimensão desta absurdidade, basta ler alguns tratados espirituais de alguns santos. Verão que o conhecimento do que seja a pessoa humana é essencial antes de alguém se arvorar o direito de guiar quem quer que seja. Se estes santos forem lidos, o leitor encontrará sutilezas da psicologia humana que os modernos sequer suspeitam. Em grande parte, o que acontece nos dias de hoje pode muito bem ser descrito por S. Paulo, quando escreve: "apartarão os ouvidos da verdade, e se darão ao prurido de novidades." Esta sede de novidade no homem moderno é tanta que ele parece pretender estabelecer uma nova ordem de coisas no mundo, inclusive uma nova estrutura da alma à força de um discurso medíocre repetido ao infinito. O que há é um idealismo exacerbado, mesmo dentro das igrejas. O que é dito não mais precisa adequar-se ao que existe anteriormente; agora, parece-se pretender que o que é dito é que molda o que existe. Nada mais falso, pois isto é pura e simplesmente uma revolução contra a verdade; a verdade que, segundo Jesus, é a causa da liberdade.

O maior ponto fraco que vejo nestes retiros e eventos é que as pessoas vendem a idéia de que, por causa de alguma experiência subjetiva, os participantes daquele final de semana amanhecerão, no outro dia, com uma vontade totalmente sadia e nunca mais inclinada ao erro. Eles até dizem que eles voltarão a um mundo que continua devasso e tal, mas parecem supor que aquelas pessoas terão forças de simplesmente se oporem e se tornarem heróis da santidade. Por que não dizem que, precisamente nas tentações, é a vontade humana que quererá cair? Os inocentes ficam a pensar que, na próxima tentação com que se depararem, eles vão lutar e vencer, mas ao fazê-lo, eles estão supondo uma vontade sadia, que não queira o que aquela má inclinação lhes sugere. Mas a inclinação ruim fará que justamente a vontade se volte em direção do erro! Isto porque a vontade humana é enferma! Para que readquira saúde perfeita, torna-se necessário entrar uma guerra que, muito além de um final de semana, deve ser estendida por toda a vida, sem tréguas! Além disto, este tipo de retiro não prepara a vontade sequer para uma semana, pois o que se vive lá, ao lado de pequenas privações, é um apelo às satisfações da sensibilidade, as mesmas que satisfazemos quando pecamos! Se as pessoas buscam grandes emoções fora da Igreja, nas drogas, no sexo desregrado, estes outros procuram convertê-los a partir de que? De grandes emoções! Objetarão que são emoções diferentes! De fato, muito diferentes, mas ambas estão a satisfazer a sensibilidade que, mais tarde menos tarde, quererá outras doses. Não podendo adquiri-las em contínuo no campo da espiritualidade, as forjará em outros campos, e não raro nos que pretendia ter deixado anteriormente. É que este tipo de coisa somente robustece o próprio egoísmo. A questão é que, por ser um pouco sutil - não muito -, estas pessoas dirão que isto que eu afirmo é falso. E de novo queremos apontar para a falta de tato destes pregadores e destes organizadores de eventos - pelo menos da maioria deles -, que só vêem o que lhes é absolutamente escancarado. Como querem conduzir almas se são míopes?

No início da vida espiritual autêntica, o sujeito deve animar-se a uma rigorosa ascese, que é um exercício da alma, também a partir do corpo, visando cortar os laços pecaminosos que foram cultivados ao longo de tanto tempo. E isto, antes de causar sensaçõezinhas agradáveis, é um negócio difícil, é árido, pois fere o egoísmo humano, desfaz apegos, retira falsas seguranças e falsas felicidades e provoca vazio. É por isto que Sto Antão dizia que o caminho da santidade não se abre senão a partir de um começo difícil. Por que raios este povo de hoje pensa que as coisas mudaram? Por que motivos no universo imaginam que Deus mudou ou que a alma humana tenha mudado? Por que raios pensam que, num mundo ainda mais depravado, as vias da santidade se tornaram milagrosamente mais fáceis? Se o caminho de Cristo fosse simplesmente o de experiências catárticas e de uma melosidade constante no trato com as coisas, teria ele chamado este percurso de "via estreita" e dito que são poucas as pessoas que a encontram? A partir destas constatações, entendemos que é no mínimo bastante equivocada a ideologia que subjaz a muitas destas propostas modernas de evangelização - muito bem intencionadas, não duvido, mas ingênuas.

Para educar a vontade, para que ela abandone seus apegos e volte-se a Deus para amá-Lo sobre todas as coisas e, n'Ele, amar todas as criaturas, é preciso um longo processo de mortificação e de combate da pessoa contra si mesma. Fazer pessoas acreditarem que a partir do outro dia tudo se resolverá magicamente é fadá-las à frustração. O máximo que conseguirão é fazê-las mais dóceis a estes encontros ou à idéia de Deus, o que permitirá que rezem um pouco e que abandonem hábitos muito graves que possam ter cultivado. Porém, os pequenos filhos da soberba distribuídos nas inclinações da alma, nos seus interesses, intenções, nos seus apegos; tudo isto se verá meio que imune a esta pretensa "santidade", pois nem o nível de profundidade nem o de sinceridade do sujeito alcança estas sutilezas. Quando digo "nível de sinceridade" não estou a afirmar que este povo é cafajeste ou totalmente dissimulado. A questão é que, para certos níveis de sinceridade, requer-se um correspondente nível de conhecimento de si mesmo. E isto falta a muita gente; daí a falta de profundidade, a inconstância e a mudança de resoluções tão comum quanto a mudança das fases da lua. As pessoas mais inconstantes são aquelas que estão como que no nível das sensações. Naturalmente, as sensações sendo muito mutáveis, estas pessoas também o serão, pois este será o critério para as suas decisões. Para o homem que se diz espiritual, porém, isto não é admissível. Requer-se profundidade. Se assim é, o que é que se deve esperar de pessoas que, num final de semana, aprenderam a identificar a ação de Deus justamente com as próprias sensações? Se nem a alma humana deve sofrer este grosseiro reducionismo, o que dizer de Deus?

Para que alguém se insira na vida espiritual de fato é preciso adotar um modo sistemático de mortificação. Deve, além disto, rezar bastante, o que é recomendado também nestes retiros. Mas, acima de tudo, deve aprender a cultivar a Graça na alma, e esta se perde com qualquer pecado mortal. Sem a Graça, os esforços que fazemos para a santidade se tornam incapazes de alcançar o seu termo. Negligenciar a Graça e, ainda assim, considerar a possibilidade da santidade é somente mais uma das mentiras da soberba que, de modo disfarçado, faz a alma pensar que, no fundo, tudo depende só dela e de sua maestria. Que modo há mais eficaz de enganar alguém? E esta é a grande razão pela qual tantas pessoas superficialmente bem intencionadas não conseguem avanços significativos e terminam desistindo, convencendo-se de que, no fundo, aquilo é impossível. Este tipo de desânimo é particularmente nocivo porque, além de arrefecer as boas intenções na alma, ainda lhe protegem contra futuras investidas do discurso religioso. Diante de uma pregação querigmática, o sujeito que já passou por isto tenderá a recusar aquela proposta, pois suporá que já conhece todo aquele processo e que isso, no fim, não funciona ou até nem existe. Resultado: o que, no início, começou como promessa ingênua de santidade termina, no fim, por ser garantia de ateísmo prático, proteção contra "ingenuidades espirituais". 

E o que me dirão? Que isto não existe? Que isto não acontece? 

E o que concluirão? Que este longo processo é tão somente casual? Não será, antes, fruto de uma orquestração? Não digo dos elaboradores do encontro ou do que quer que seja, mas de algo mais obscuro e que como que se mantém por trás das cortinas... Eu não descarto a possibilidade, sinceramente. Antes, a considero bastante provável.

Enfim, meus caros. Os evangelizadores não podem esquivar-se destas questões. São importantíssimas. Na verdade, são essenciais! Isso se queremos que a nossa intervenção não acabe por complicar ainda mais as coisas. Jesus já tinha dito: "sem mim nada podeis fazer." Tomemos cuidado com estas coisas e não queiramos inventar caminhos ou verdades alternativos. A Verdade é uma só e ela é, por sua própria natureza, bela, forte, atraente e capaz de enamorar qualquer alma humana que com ela tenha contato. Como S. João Batista, o nosso trabalho deve ser tão somente facilitar, aplainar o caminho para este encontro entre as almas e o sumamente amável Jesus.

Ad Iesum Per Mariam

Fábio

Conseguindo Indulgência Plenária para as almas do Purgatório



“Aos que visitarem o cemitério e rezarem, mesmo só mentalmente, pelos defuntos, concede-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos: diariamente, do dia 1º ao dia 8 de novembro, nas condições costumeiras, isto é, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice; nos restantes dias do ano, Indulgência Parcial (Enchr. Indulgentiarum, n.13).”

“Ainda neste dia, em todas as igrejas, oratórios públicos ou semi-públicos, igualmente lucra-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos; a obra que se prescreve é a piedosa visitação à igreja, durante a qual se deve rezar... o Pai-nosso e Creio..., confissão sacramental, comunhão eucarística e oração na intenção do Sumo Pontífice (que pode ser um Pai-nosso e Ave-Maria, ou qualquer outra oração conforme inspirar a piedade e devoção).” (pg. 462 do Diretório Litúrgico da CNBB).

NOTA IMPORTANTE: Entre as condições costumeiras para se lucrar a Indulgência Plenária, está o total desapego ao pecado, mesmo venial. Sem esse desapego, repete 4 (quatro) vezes o Manual das Indulgências, a Indulgência será parcial (maior ou menor, na medida do desapego, mas nunca, plenária). 

Ainda, conforme o Manual das Indulgências, a Indulgência Plenária da piedosa visitação à Igreja pode ser lucrada do meio-dia da véspera (1° de Novembro) até a Meia-noite do dia 2. (conforme Norma n° 17). 

Baseado em texto do Sr. Hugo Ferreira Pinto 


***
Nota Minha: Pessoal, isso é importantíssimo! Com pouco esforço, podemos fazer entrar uma alma na visão beatífica de Deus. Por mais que tentemos, não nos é possível ter a dimensão exata do que isto significa. É muito grandioso! Portanto, tenhamos esta caridade para com as almas. Elas, por certo, ficarão gratas.

Memento Mori - Lembra-te da Morte


Thomas de Kempis

Bem depressa chegará o teu fim, neste mundo; por isso, vê como te preparas. Hoje o homem está vivo e amanhã já não existe! E, desaparecendo dos olhos, desaparecerá da lembrança.

Oh cegueira e dureza do coração humano, que só pensa nas coisas presentes sem olhar para as futuras! Em cada ação, em cada pensamento deverias proceder como se hoje mesmo tivesses de morrer.

Se tivesses a tua consciência pura não temerias muito a morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se hoje não estás preparado, como estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto; sabes tu se lá chegarás?

Que nos importa viver muito se tão pouco nos emendamos? Infelizmente, uma vida longa nem sempre nos torna melhores; antes, muitas vezes, acumula as nossas culpas. Oxalá tivéssemos vivido bem um só dia neste mundo!

Muitos contam os anos da sua conversão; mas, frequentemente, pouco é o fruto da sua emenda. Se morrer mete medo, pensemos que talvez seja mais perigoso viver muito.

Feliz aquele que traz sempre diante dos olhos a hora da morte e cada dia se dispõe para morrer. Se já viste morrer algum homem, considera que também tens de passar pelo mesmo caminho.

Quando te levantares pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e quando te deitares à noite, não contes chegar ao outro dia. Por isso, está sempre preparado e vive de tal modo que a morte nunca te encontre desprevenido.

Quantos não morrem de repente! Pois, "na hora que menos se espera o Filho do Homem virá" (Lc 12,40)

Quando chegar aquela hora extrema, então começarás a pensar muito diversamente sobre a vida passada e arrepender-te-ás de teres sido tão indolente e preguiçoso.

Como é feliz e prudente aquele que, enquanto vive, se esforça por ser tal como deseja que o encontre a morte!

O perfeito desprezo do mundo, o fervoroso desejo de progredir na virtude, o amor da disciplina, o exercício da penitência, a renúncia de si mesmo e a paciência em todas as adversidades, por amor de Jesus Cristo, dar-lhe-ão grande confiança de morrer santamente.

Enquanto tens boa saúde, podes fazer muito bem; mas, quando estiveres doente, não sei o que poderás fazer. Poucos se tornam melhores com as doenças; assim também, dos que andam em constantes peregrinações, raros são os que se santificam.

Não confies em amigos e parentes, nem deixes para mais tarde o negócio da tua salvação; porque os homens esquecer-se-ão de ti mais depressa do que tu pensas. É preferível fazeres agora, oportunamente, provisão de boas obras e enviá-las adiante de ti, que esperar pelo socorro dos outros.

Se não te preocupas com a tua sorte, agora, como queres que os outros o façam no futuro? Agora é o tempo precioso; "agora são os dias da salvação, agora é o tempo favorável" (IICor 6,2).

Que pena que não empregues mais utilmente este tempo em que podes alcançar o prêmio da vida eterna! Lá virá o tempo em que desejarás um dia ou uma hora para te emendares e não sei se a alcançarás.

Ah! Irmão caríssimo, de quantos perigos te livrarias, de quantos temores poderias fugir, se estivesses sempre receoso e desconfiado da morte! Procura agora viver de modo tal que na hora da morte tenhas motivos antes para te alegrar do que para temer.

Aprende a morrer agora, para o mundo, para que então comeces a viver com Cristo. Aprende agora a desprezar tudo para poder, naquela hora, ir livremente ao encontro de Cristo. Castiga agora o teu corpo, com penitência, para que então possas ter uma confiança certa.

Oh! Louco! Para que pensas que hás-de viver muito tempo, não tendo um dia sequer seguro? Quantos se deixaram enganar e, inesperadamente, foram separados dos seus corpos! Quantas vezes ouviste dizer: tal homem foi morto com uma estocada, este afogou-se, aquele caiu e partiu o crânio; um expirou enquanto comia, outro enquanto estava a jogar; este outro morreu pelo fogo, aquele outro pelo ferro; um pela peste, outro assassinado pelos ladrões?

E assim o fim de todos é a morte, e "a vida passa tão depressa como a sombra" (Jo 14,10; Sl 143,4).

Quem se lembrará de ti depois da tua morte? Quem orará por ti? Faz agora, caríssimo, o que puderes, pois não sabes quando morrerás nem o que te acontecerá depois da morte. Enquanto tens tempo, entesoura riquezas imortais. Não tenhas em mente senão a tua salvação; ocupa-te apenas das coisas de Deus.

"Granjeia agora amigos (venerando os Santos de Deus e imitando as suas virtudes, para que, quando saíres desta vida, te recebam nas moradas eternas" (Lc 16,9).

Considera-te, neste mundo, como hóspede e peregrino, a quem nada interessam os negócios desta Terra. Conserva sempre o coração livre e voltado para Deus porque "não tens aqui morada permanente" (Hb 13,14).

Dirige para o Céu as tuas orações e gemidos de cada dia, com lágrimas, para que a tua alma depois da morte mereça passar ditosamente ao Senhor. Ámen.

Thomas de Kempis, Imitação de Cristo

"E agora, para onde vamos?" - Aula ao vivo com o Pe. Paulo Ricardo, hoje (01/11/2011), às 21h.


A saudade do Céu nos santos

Na imagem, morte de S. Jerônimo

Se você acha que já amou algo ou alguém violentamente, leia a poesia abaixo, e veja o que é amor e o que é violência...

"Por sobre aquelas correntes
que em Babilônia encontrava,
ali me sentei chorando,
ali a terra regava,
recordando-me de ti,
ó Sião, a quem amava.

Tua lembrança era doce,
e com ela mais chorava.
Deixei os trajos de festa,
os de trabalho tomava,
pendurei nos salgueirais
a música que levava,
colocando-a na esperança
daquilo que em ti esperava.

Ali me feriu o amor,
e o coração me arrancava.
Disse-lhe que me matasse,
pois de tal sorte chagava.
Metia-me em seu fogo,
sabendo que me abrasava,
desculpando a mariposa
que no fogo se acabava.

Estava-me consumindo,
e só em ti respirava.
Em mim, por ti, eu morria,
e por ti ressuscitava;
porque a lembrança de ti
dava vida e a tirava.

Finava-me por finar-me
e a vida me matava,
porque ela perseverando,
de ver-te, a mim, me privava.
Mofavam os estrangeiros
entre os quais cativo estava.
Pensava como não viam
que o gozo os enganava.

Pediam-me eles cantares
dos que em Sião eu cantava:
- Canta de Sião um hino;
p'ra vermos como soava.
- Dizei, como em terra alheia
onde por Sião chorava
cantarei eu a alegria
que em Sião desfrutava?

No olvido a deixaria
se em terra alheia gozava.
Com meu palato se junte
a língua com que falava,
se de ti eu me olvidar
na terra onde morava.

Sião, pelos verdes ramos
que Babilônia me dava
Olvide-me a minha destra,
coisa que em ti mais amava,
se de ti não me lembrar
no que mais gosto me dava,
e se eu tivesse festa
e sem ti a festejava.

Ó filha de Babilônia,
Mísera e desventurada!
Bem-aventurado era
Aquele em quem confiava,
que te há de dar o castigo
que da tua mão levava;
e juntará os seus filhos
e a mim, que em ti chorava,
à pedra, que era Cristo,
pelo qual eu te deixava."

S. João da Cruz, Toledo, Cárcere, 1578.

Dia de todos os santos! Deo Gratias!


Neste dia, a Igreja celebra o festa de todos os santos, estes irmãos nossos que, como dizia Sto Agostinho, amaram tanto a Deus até o desprezo de si mesmos, e que hoje gozam da festa sem fim, da visão face a face de Deus todo poderoso e todo amável.

Nós, aqui da terra, cativos ainda da escuridão deste exílio, neste dia lançamos ao alto um suspiro e um olhar expectante; o olhar de quem deseja rever os seus, estando já há tanto tempo distante. O olhar de quem sabe ser lá a Pátria da felicidade que todos desejamos.

Os santos, desde a minha adolescência, sempre me pareceram figuras radiosas. Nunca os estranhei, como fazem alguns dizendo que aquilo que se nota neles é determinado por um contexto diferente; não, de modo algum. Se formos em suas épocas, e observarmos os pecadores, perceberemos os mesmos dramas pelos quais passamos nós que nos dizemos "modernos", como se ser "moderno" fosse qualquer coisa para se orgulhar. A santidade destes focos de mistério se devia, antes, à compreensão profunda que eles iam adquirindo das verdades eternas. A vida de orações e mortificações constantes lhes retirava os impedimentos da visão, e, de repente, a realidade passava a ser vista sem os coloridos dos próprios caprichos e das próprias vaidades. Era, de fato, um libertar-se de si mesmos. O mundo passava a ser entendido como é. A um sujeito que alcança este nível de maturidade, não é possível ignorar que o mistério é o que sustenta o mundo. Estas filosofias rasteiras - materialismo, ceticismo, agnosticismo, niilismo, ateísmo, etc - são próprias de quem não enxerga muita coisa à frente do nariz. O santo, ao contrário, se vê como que impactado por este Ser dO qual percebe que não há como escapar.

"Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. (Sl 139,7-8)

"Deus é, e basta!"

É preciso, portanto, purificar os nossos conceitos, a nossa visão das coisas, e adquirir um senso de profundidade. S. Boaventura dizia que o mero desfilar de criaturas e a simples visão da existência dos entes lhes falava continuamente de Deus, do qual, portanto, não havia mais qualquer necessidade de provas. Para os olhos puros, Deus está em todo lugar e tudo fala d'Ele. Também Sto Agostinho, perguntando às coisas que via ao seu redor sobre Aquele que as tinha feito, delas escutava: "procura-O acima de nós". Para o santo, tudo aponta para Deus.

Os homens míopes e mundanos olharão com desconfiança para estes homens e tenderão a chamá-los de alienados, denunciando que a sua fuga para outros mundos lhes isenta de interferir suficientemente nesta realidade imediata. Mas os santos, ouvindo estes lamentos, apenas podem repetir as palavras de Cristo na Cruz: "Perdoai-os, eles não sabem o que dizem..." Quando compreendemos que a realidade ultrapassa infinitamente o estreito campo de nossa experiência imediata, entendemos que o alienado é precisamente este pretenso "realista", este indivíduo que está preso ao que vê com seus olhos físicos. Na verdade, ele não compreende sequer o que vê, pois esta parte que lhe é acessível somente assume real significado se tomada no seu contexto, como parte de um todo maior. Se, ao contrário, esta parte é isolada e tida como totalidade do real, é natural que, ao olhá-la, o sujeito nada entenda, sem mesmo aquilo que vê. O santo não é um alienado; é o único fiel à realidade, porque sabe que ela é bem mais ampla e não se restringe ao mundo sensível. Sabe que este mundo somente adquire sentido se visto sob a luz da eternidade, e entende que a felicidade definitiva a que os homens são chamados está para além daquele vértice natural, a que todos chamamos de morte.

O empirista ou o racionalista têm-se a si mesmos como medida de verdade e de realidade. O santo, ao contrário, sabe-se pequeno e, na sua pequenez, se alegra e se abandona ao abismo amoroso que é seu Deus. Contemplar a verdade só é possível na santidade. E, se é verdade que o homem, pela sua própria natureza, tem sede da verdade, isto significa que a sua realização, a sua perfeita felicidade, somente podem identificar-se com a santidade.

Ser santo, portanto, não deve ser compreendido como vocação de alguns poucos, ou um poder dado a criaturas extra-terrestres que estiveram no mundo apenas para fazerem-se estranhar. A santidade é a vocação de todos nós, é o nosso anseio mais profundo, é a perfeição da nossa natureza, e nós somente poderemos ser felizes e realizados se, assumindo todo o duríssimo combate necessário para a aquisição deste fim, a ele nos devotarmos totalmente.

Com muito acerto, dizia o jovem S. Domingos Sávio: "Se eu não for santo, serei um fracasso". Que belíssima disposição de alma! Que bom seria que tal ideal fosse, de fato, o primeiro na nossa vida, diante do qual todos os demais se tornassem absolutamente secundários. S. Domingos acerta em cheio quando entende que, se não formos santos, a nossa vida terá sido um rotundo fracasso.

A nossa santidade é, ainda, o grande desejo de Deus que, totalmente interessado na nossa plena felicidade, nos pede veementemente seguir os Seus passos. "Sede santos", diz Jesus, o que aos nossos ouvidos deve soar como "sede felizes", pois é a mesma coisa. A santidade é a felicidade, e a felicidade é a santidade.

A nossa triste sociedade moderna, porém, rebaixou-se a tal ponto que passou a identificar a felicidade com o gozo frenético dos mais baixos prazeres. Não espanta que seja uma sociedade desesperada e, ao mesmo tempo, tão embotada e incapaz de compreender as realidades celestes. Não apenas não as compreende, mas as detesta, porque, não sendo capaz de anular os anseios mais profundos da alma humana, também não se sente capaz de suportar indiferentemente a presença de um santo, enquanto este lhe acusa e lhe faz lembrar dolorosamente a alienação em que vive, a frustração daquilo para o que foi feita, a mentira com que continuamente se engana. Vida complicada, essa... E, triste vaidade, esta complicação é alardeada como se fosse sinônimo de maturidade. Por fim, eis o mundo a perseguir e a matar os santos.

A santidade, ao contrário, embora seja alcançada a partir de contínuos e rigorosos combates, é um caminho de simplicidade. Ao santo não é permitido mentir e toda a sua vida será uma luta contra a mentira. Ele sabe que, em seus membros, em sua alma, há uma tendência a mascarar a verdade das coisas. Mesmo sabendo de sua vocação espiritual, haverá momentos em que, impelido pelas suas próprias fraquezas e maus hábitos, se verá inclinado a corresponder, de novo, ao mundo da ilusão e do egoísmo. A mentira do mundo consistirá em, obedecendo tais grilhões, mentir novamente a si mesmo na busca de convencer-se de que, na verdade, isto é a natureza e a normalidade. O sujeito que caminha seriamente rumo à santidade, porém, não pode enganar-se a este nível. Se, por acaso, cede à mentira pelo seu pecado, não lhe é permitido mascarar o mal feito, devendo, ao contrário, encará-lo, arrepender-se, mortificar-se e continuar a luta, pedindo a graça de Deus para que não reincida no mesmo erro.

Os ateus e congêneres irão afirmar que a santidade é um caminho covarde. Mas quando nos detemos a olhá-la direito, percebemos que ela é o caminho da maior coragem, pois exige o investimento de toda uma vida e a disposição para uma guerra sem tréguas por amor a Deus e aos irmãos. Os que se lambuzam no pecado e na satisfação de si mesmos aparecem, neste contexto, como os verdadeiros covardes que não querem encarar a verdade, que não têm disposição de se privar de seus baixos prazeres numa constante guerra contra si mesmos, que não aceitam "desperdiçar" a própria vida, e que vivem, em última instância, somente para o próprio umbigo. É isso o que eles chamam de coragem!

Hoje em dia, tornou-se comum ver jovens e adultos a defenderem as mais estranhas teorias e a admirarem os mais cafajestes pensadores. Que bom seria se, ao contrário, passássemos a estudar e a conhecer estes homens e mulheres, guerreiros do espírito, que, com a sua seriedade e com a sua leveza, tornaram-se, não apenas senhores de si mesmos, mas senhores do mundo e, hoje, herdeiros da vida eterna, plenamente felizes e vencedores sobre a mentira. Deixaram o exílio, voltaram à pátria e, aos que aqui ainda lutam e sofrem, são como luzeiros a relembrar as realidades mais altas. Que bom seria se os imitássemos a sério!

Neste dia de todos os santos, renovemos os nossos propósitos de fidelidade a Deus. Reconheçamos que, por diversas vezes, há muita soberba misturada com estes nossos ideais e, de modo mais ou menos sutil, muitos de nós desanimamos porque pensamos que o mundo não aprecia suficientemente os nossos esforços. Alguns até parecem identificar a santidade com a fama. Enquanto assim pensarmos, sequer teremos compreendido o que é a verdadeira santidade. Jesus já o tinha dito: "O mundo vos odeia, porque não sois do mundo." Ser santo implica uma extrema fidelidade pela Pátria de onde descendemos - e, consequentemente, um grande desprezo pelas honrarias e satisfações daqui de baixo - e é natural que atraiamos sobre nós os olhares atravessados de todos estes que se habituaram às "cebolas do egito", aos torpes prazeres da escravidão. Quanto a nós, não nos deixemos inebriar por estas falsas luzes. Sigamos fiéis e "percamos a vida" por Nosso Senhor. Se assim fizermos, um dia poderemos estar reunidos com Ele e com todos estes nossos irmãos, os santos, onde viveremos felizes pela eternidade.

Que o Senhor nos dê a Sua graça. Que a Virgem Santíssima nos conduza. Amém.

Fábio.

O que é necessário para voltar à Igreja Católica? - Pe. Paulo Ricardo

Neo-relativismo, neoceticismo e suas consequências


Olavo de Carvalho

À humanidade, como se sabe, nunca faltam amigos e benfeitores. Eles brotam como cogumelos, cada um trazendo um remédio, um alívio, um consolo. É tanta bondade que até faz mal. A sagra mais recente é a dos neo-relativistas e neocéticos, que professam libertar a espécie humana do seu mais temível inimigo: a verdade, ou mais propriamente a ambição de conhecê-la. A esta ambição eles denominam "dogmatismo". No dogmatismo, asseguram, está a raiz de toda violência, de toda tirania, de toda infelicidade. Erradique-se do ser humano essa pretensão insensata, e todos viverão em paz num mundo de dúvidas alegremente indecidíveis.

As fontes que os inspiram são variadas. Alguns beberam em E. M. Cioran. Todo o mal do mundo, diz o autor de Précis de décomposition (Paris, 1949), vem do desejo de provar que uma idéia é melhor que outra. Uma vez admitido que todas as idéias se equivalem, ninguém mais fará ao seu próximo a violência de tentar persuadi-lo. "Que é a Queda, - pergunta ele - senão a busca de uma verdade e a certeza de tê-la encontrado?" Nessa "mistura indecente de banalidade e apocalipse" que é a História, "abundam as certezas: suprimi-as, suprimi sobretudo suas consequências e tereis reconstituído o paraíso."

Outros inscrevem-se na linhagem de Charles S. Peirce, fundador do pragmatismo. É o caso de Richard Rorty, segundo o qual, inexistindo para além das várias correntes filosóficas um tribunal capaz de arbitrar racionalmente suas divergências, todas as questões são indecidíveis. Logo, deve-se transferir o debate do campo da teoria para o da ação política, onde cada partido, desistindo de provar que tem razão, tentará honestamente induzir o outro, por meios irracionais e pela manipulação subliminar, a colaborar na sua própria sem-razão.

A conclusão similar chegamos ao ler Veneno Pirrônico. Ensaios sobre o Ceticismo, de Renato Lessa (Rio, Livraria Francisco Alvez, 1997). Expondo de maneira criteriosa e fidedigna o conjunto de esquemas argumentativos que os céticos, de Pirro a Bayle, criaram para provar a impossibilidade de provar o que quer que seja, o autor conclui que o velho ceticismo ainda tem um papel a cumprir no esforço mental mais característico dos tempos que correm: a desconstrução filosófica. A desconstrução, ao contrário da dialética aristotélica ou da crítica kantiana, não é mera operação preliminar de limpeza para a busca de uma verdade mais sólida: é finalidade em si, não tem outro ideal senão solapar toda pretensão à verdade, até o dia em que, cansados de interrogar, os homens se contentem em repousar na indiferença.

Não é o caso de refutar aqui os argumentos céticos. São tão fracos que raiam a comicidade. O mais característico é aquele que nega o conhecimento pelos sentidos, alegando que um mesmo objeto aparece diferente a várias espécies animais (como se para afirmar isto não fosse preciso fundar-nos no conhecimento sensorial que temos dos animais). Há também aquele que nega a indução, alegando que na maioria das vezes ela falha (o que é precisamente uma indução).

O interessante é observar que relativistas e neocéticos crêem prestar um grande serviço à paz e à democracia mediante a supressão de toda arbitragem racional.

Pois a impossibilidade do julgamento racional não suprime a existência de opiniões, apenas faz com que cada partido se torne, a seus próprios olhos, o único juiz. Juiz de si mesmo e, a fortiori, juiz do adversário. para cada um, o outro não é objetivamente errado nem certo, falso nem veraz: é apenas o inimigo, que não trata de refutar em teoria, mas de vencer na prática.

É precisamente essa situação que define, segundo Carl Schmitt, teorizador do Estado nazista, a essência da política. Uma atividade é política, diz Schmitt, quando o que está em jogo nela não é o certo ou o errado, o verdadeiro ou o falso, o bom ou o mau, o belo ou o feio, o útil ou o nocivo: é simplesmente, "o nosso lado" e "o outro lado": amigo versus inimigo. Quando esta oposição não tem um conteúdo que permita resolvê-la segundo algum desses outros pares, isto é, quando ela está acima de qualquer possibilidade de arbitragem racional, é aí que ela é mais puramente política. O político não precisa de certezas teóricas: precisa apenas de aliados.

A politização de todos os conflitos foi prevista e desejada pela primeira vez, que eu saiba, por Napoleão Bonaparte. Ela vem junto com a intromissão do Estado em todos os assuntos. No século XIX, a politização foi obstada pelo sucesso do liberal-capitalismo - que fazia da economia um recinto à parte, submetido apenas ao cálculo racional do lucro e do prejuízo. No século XX, o advento dos Estados totalitários impôs novamente a hegemonia do critério amigo-inimigo, deixando por saldo mais de cem milhões de mortos e a politização geral da vida. Neste fim de século, a queda do comunismo recoloca o problema: tendo politizado a cultura e a religião, os costumes e a educação, deixaremos que pelo menos a economia permaneça à margem da política, como uma ilha de racionalidade no meio da violência geral de amigos contra inimigos?

Até os adeptos mais radicais do totalitarismo hesitam, hoje, em dar esse último passo. Os neocéticos e relativistas, solapando a fé na possibilidade de toda arbitragem racional, ajudam essas criaturas a livrar-se de seu último resíduo de escrúpulos. Professando servir à democracia, são apóstolos inconscientes do totalitarismo.

Olavo de Carvalho, Jornal da Tarde, São Paulo, 16 de outubro de 1997. Transcrito do livro "O Imbecil Coletivo", do mesmo autor do artigo, datado do ano de 1998.

My Last Day - The Jesus Anime

Conforme vi no Voz da Igreja"É um projeto de Barry Cook, antigo animador da Disney, e do Studio 4C, responsável por episódios dos famosos Animatrix e Gothan Knight (quem aprecia animação sabe do que se trata). A história desse curta é o dia da Crucificação de Cristo vista pelos olhos do criminoso que partilhou da mesma sentença, chamado pela Tradição de São Dimas, o "Bom Ladrão". Vale a pena assistir."

Caso em que S. João da Cruz desmascara falsos sinais de santidade e revelações divinas


No artigo anterior, fiz referência ao episódio em que S. João da Cruz desmascara uma religiosa que apresentava sinais de santidade e a todos fazia crer da veracidade das suas virtudes. Pensei, então, ser conveniente transcrever o episódio inteiro, para que os amigos notem o quanto podem ser sutis estas enganações. Uma mentira facilmente descoberta seria obra de um sujeito inexperiente na arte do engano. Não é o caso do demônio. Isto significa que, quem quer que olhe para essas coisas com olhos benevolentes demais, privando-se de considerar tudo com objetividade e sólidos critérios, terminará por ser enganado. Escrevo pensando nos que facilmente crêem em revelações particulares e não exigem delas nada além de "sentirem-se" bem e de "confirmações pessoais". Estranha inteligência a do demônio se, pretendendo enganar e conseguir adeptos de suas mentiras, ele provocasse, ao invés, um claro mal estar. 

Notem, ainda, que, comparados ao engodo que vai abaixo, certos movimentos fantasiosos de hoje se mostram muito mal orquestrados. Quaisquer semelhanças, além disto, com as "revelações" do Salvai Almas não é mera coincidência. Boa leitura

***

Censura e parecer sobre o Espírito e o modo de proceder na oração de uma carmelita descalça - Provavelmente em Segóvia entre os anos 1588-1589. Chegou até nós, através do seguinte testemunho:

"... A uma religiosa dada à oração, sem base de humildade e animada de desejos curiosos de penetrar grandes segredos do espírito, saiu-lhe o demônio ao encalço simulando efeitos de bom espírito, tanto de suaves sentimentos como de revelações, e isso pelo caminho da fraude, com que costuma ter êxito entre os pouco humildes e nada discretos. E tão cauteloso andava ele em encobrir o deletério embuste, que, falando essa religiosa acerca de seu espírito e oração com vários letrados de diferentes ordens, todos o tiveram por bom. Contudo, o venerável Pe. Fr. Nicolau de Jesus Maria... então prelado superior de todos os descalços..., não acabava de assegurar-se do caminho dessa religiosa...; para examiná-lo com mais cuidado, ordenou-lhe que escrevesse sobre a sua oração e os efeitos que produzia. Entregou depois esse papel ao Pai Fr. João da Cruz, que na ocasião era primeiro definidor da Ordem, pela grande segurança que seu espírito lhe inspirava e por sabê-lo muito esclarecido por Deus em coisas deste gênero; pediu-lhe, então, que lesse atentamente aquela relação e colocasse no rodapé da folha o seu parecer. Lendo nosso venerável Pai o escrito, percebeu logo de que foco procedia aquela luz e deu sua opinião com palavras tão proveitosas e substanciais que bem revelam quão esclarecido estava por Deus para discernir entre a verdadeira e a falsa luz.

E pela luz que tais palavras podem comunicar aos espirituais, pareceu-me bem referi-las aqui em sua pureza, e são as seguintes:
--

No comportamento afetivo desta alma parece-me haver defeitos que impedem um parecer favorável acerca do espírito que a anima.

O primeiro é que se nota nela muita avidez de propriedade, ao passo que o espírito verdadeiro se caracteriza sempre por grande desnudez no apetite.

O segundo, que tem excessiva segurança e pouco receio de errar, interiormente, sendo que o espírito de Deus nunca anda sem ele, para proteger a alma contra o mal, segundo diz o sábio (cf. Pr 15,27).

O terceiro, que parece ter a preocupação de procurar persuadir a todos a que creiam ser muito bom tudo quanto se passa nela, enquanto o verdadeiro espírito procura, ao invés, que todos o tenham em pouco e o depreciem, fazendo ele próprio o mesmo.

O quarto e principal, é que, nesta maneira de agir, não se notam efeitos de humildade; ora, quando as mercês são verdadeiras - consoante ela aqui o afirma - ordinariamente nunca se comunicam à alma sem primeiro desfazê-la e aniquilá-la em abatimento interior de humildade. E, caso houvesse experimentado este efeito, ela não teria deixado de anotá-lo aqui, escrevendo algo e até estendendo-se bastante sobre isso; porque a primeira coisa que ocorre à alma expressar e ter em grande apreço são os efeitos de humildade certamente tão notórios que não é possível dissimulá-los. E ainda que não costumem aparecer tão claramente em todas as apreensões de Deus, nestas, que ela aqui denomina união, estão sempre presentes: A humilhação precede a glória (Pr 18,12), e Foi bom para mim ser humilhado (Sl 118,71).

O quinto, que o estilo e a linguagem empregados não são próprios do espírito que ela pretende aqui significar,  porquanto o mesmo espírito sugere estilo mais simples, desprovido de afetação e de exageros, segundo notamos neste. E tudo quanto declara ter dito a Deus e Deus a ela, parece disparate.

O que eu aconselharia é que não mandem nem permitam escrever coisa alguma a esse respeito, nem o confessor mostre complacência em ouvi-la; ao contrário, procure dar pouco apreço e atalhar tais confidências; além disso, submetam-na à prova no exercício das virtudes, com todo rigor, principalmente no desprezo, humildade e obediência; e no som produzido pelo toque manifestar-se-á a brandura da alma causada por tantas mercês. E as provas hão de ser boas, porque demônio algum deixará de sofrer algo a troco de manter a sua honra." (QUIROGA, p. 281-284).

S. João da Cruz, Pequenos Tratados Espirituais, Obras Completas, Rio de Janeiro: Vozes, 2002. pp. 128-130.

Sobre o "dom de línguas" e os exorcismos - uma tentativa de elucidação

Na foto, o Pe. Fortea

Estes dias, conversando com uma amiga, nos ocorreu uma idéia em comum - algo que eu vinha já pensando nessa semana - e que diz respeito ao modo como compreendemos a dita "Oração em Línguas", típica da RCC e das demais denominações pentecostais.

Todos os amigos já sabem que nos opomos frontalmente a esta prática e, por diversas vezes, já dissemos das razões de assumirmos esta posição. Para que melhor sejam acompanhadas estas nossas reflexões, sugerimos a anterior leitura destes artigos - um, dois, três - onde vão expostos grande parte dos argumentos que sustentamos contra a chamada "Oração em Línguas" tal como entendida e praticada hoje nos movimentos de cunho pentecostal. Além dos referidos artigos, queremos propôr ainda estes outros - um, dois, três - a título de aprofundamento. Sugiro o download, também, deste livro. Havia, ainda, um trabalho de um Monge Eremita que, porém, não consegui encontrar agora. Enfim...

Quando estudamos direito estas coisas, notamos que, definitivamente, esta prática não tem fundamento nem na Escritura nem na Tradição da Igreja. Os santos doutores, sempre que faziam referências aos dons autênticos experienciados no início da Igreja, defendiam o caráter inteligível do dom de línguas. Inúmeros santos que, por sua vez, receberam este dom, atestam que a sua finalidade era, sempre, facilitar a comunicação, isto é, fazer-se entender.

Quando, porém, olhamos para a glossolalia - termo técnico da oração em línguas estranhas - , notamos uma absoluta discrepância entre ela e o que sempre foi ensinado e vivido pela Santa Igreja. A coisa fica ainda mais gritante quando descobrimos que as primeiras manifestações desta prática surgem em ambiente protestante e trazem por base um equívoco de compreensão resultante de um equívoco de tradução bíblica. O termo "estrangeiro" - relativo a outros países - confundido com "estranho" - desconhecido - contribuiu em muito para que a suposta forma de oração viesse a existir.

Se, no início, o dom de línguas cumpria a função de facilitar a pregação dos apóstolos que, enviados a todas as nações, precisavam dar conta de evangelizar sem terem, antes, de aprender os idiomas estrangeiros, nos tempos atuais os receptores do suposto dom sequer se entendem a si mesmos. Sempre foi notado, além disto, a oposição entre o fenômeno de Pentecostes e o ocorrido na Torre de Babel. Enquanto, neste último evento, os homens soberbos foram confundidos em seus idiomas e, daí, não mais se entendiam, no Pentecostes nós contemplamos o oposto: animados pelo Espírito Santo, os Apóstolos são revestidos de humildade, o que desfaz a confusão de Babel e permite que todos os homens passem a se entender, não obstante procedam de diferentes nações. É assim que, hoje, a Igreja, embora esteja estendida em todo o mundo, fala sempre a mesma língua.

O fato de repetir sons ininteligíveis (= não compreensível) e crer que, com isto, está-se a rezar e a abrir-se aos dons de Deus - para os carismáticos, a oração em línguas é a porta para os demais dons - se assemelha muito mais às práticas de cunho gnóstico que, avessas à racionalidade, pregam um tipo de acesso alternativo à verdade, à qual se acredita alcançar não mais por argumentos, mas por meios irracionais - como a dita oração -, pela busca de emoções e sensações exageradas e pela valoração de experiências semelhantes ao devaneio, como as visualizações, os sonhos, etc. Tudo isto, obviamente, somente se encontra num contexto de subjetivismo bem acentuado, muito próprio do protestantismo. A oração em línguas, além disto, se assemelha muito aos ritos iniciáticos, próprios da Gnose, pois, entre os carismáticos, ela é como que um dom inicial a partir do qual o sujeito se inseriu efetivamente na dinâmica pentecostal.

Tudo bem. Tudo isto pode ser entendido por qualquer pessoa que esteja animada de boa vontade. Porém, não faz muito tempo que algo no mínimo curioso surgiu e chamou nossa atenção: alguns exorcistas afirmaram surpreendentemente que a oração em línguas, tal como entendida modernamente, tem eficácia nas sessões de exorcismos. Segundo eles, os demônios manifestariam clara aversão a esta prática.

Entre os exorcistas que o afirmam, está o Pe. José Fortea, o Pe. Elias Vela e o Pe. Gabrielle Amorth, sendo este último o exorcista oficial do Vaticano. Pois bem. O que dizer disto?

Este é um problema que não pode ser ignorado por quem quer que, munido de sinceridade, se interesse pelo assunto. Para nós seria muito fácil e confortável simplesmente ignorar o fato e passar-lhe ao largo. Porém, como é tema recorrente nosso, e como temos sempre contato com carismáticos, considero importante que tentemos pelo menos oferecer algum esboço de resolução da questão. Não sei se há trabalhos semelhantes em fontes confiáveis. Seja como for, submetemos, sempre, tudo quanto escrevermos ao juízo infalível da Mãe e Mestra Igreja.

Duas atitudes, aqui, se revelam problemáticas: a primeira, muito comum entre os carismáticos, seria aquela que, ao ter contato com as afirmações destes sacerdotes, se aferraria a elas num solene desprezo de tudo quanto a teologia e a história afirmam com tanta clareza. Esta recusa voluntária às verdades teológicas em função  de certas experiências individuais é a marca da heresia, que significa justamente isto: escolher um caminho pessoal, diferente do da Igreja.

Outra atitude, também não sincera, seria a de fazer vista grossa aos testemunhos consensuais destes exorcistas, como se não existissem. É possível contestá-los, desde que se o faça a partir de razões, e não por mera abstenção de juízo. Do Pe. Elias eu não sei, mas os outros dois são exorcistas experimentadíssimos e tudo leva a crer que não falariam irresponsavelmente de um assunto como este.

A contradição entre o ensino da Igreja e a afirmação dos padres é evidente (o Pe. Fortea, aliás, embora se diga bastante tradicional, parece proferir certas coisas meio suspeitas no seu video). E, se há esta contradição, forçoso é que um dos lados esteja correto e o outro esteja errado. Se existe uma terceira alternativa que não signifique a relativização de uma das partes, eu não a vejo. Se alguém a percebe, por favor, contribua conosco para a elucidação deste assunto.

Embora o problema tenha sua dificuldade, ele não é insolúvel e, se a contradição que afirmamos é verdadeira, já estará claro ao católico não de todo alheio à Teologia a qual parte deveríamos dar a nossa adesão.

Deixemos tudo claro, portanto. O grande critério da Igreja - de todos os santos, em toda a história - para saber se algo está correto ou não, é o fato de este algo concordar ou destoar da Doutrina Católica. E por que isso? É dogma da Igreja que ela é infalível em termos de Fé e Moral. Obviamente, o assunto dos carismas inclui-se no âmbito da Fé, sendo objeto da Doutrina. Se a Igreja, portanto, é infalível nesta área, isto é, se não é possível que ela erre quanto a isto, segue-se que tudo quanto a contradiga incorre necessariamente em equívoco.

Deveríamos, portanto, aceitar o testemunho dos santos e doutores, particularmente o de Sto Tomás de Aquino, que afirmam o caráter inteligível (=compreensível) - e, portanto, totalmente oposto ao "dom" moderno - do autêntico carisma das línguas. E este não seria o único ponto da glossolalia a ferir o ensino católico; em várias outras partes, há total discrepância. O simples fato de este fenômeno ter tido início em terreno protestante e até hoje ser exercido lá de modo essencialmente semelhante ao que se dá em reuniões carismáticas é um problema grave que contraria frontalmente a Teologia Católica. Sempre foi - até pouco tempo atrás - consenso na Igreja o fato de que Deus não age extraordinariamente fora do Seu Corpo Místico. E, como todos sabemos, este corpo restringe-se à Igreja. Embora esta assertiva exija uma certa explicação, qualquer afirmação diferente dela exclui-se, na mesma medida em que difere, do âmbito católico.

Como ficam, então, os referidos padres? Dir-se-á que não são católicos? De modo nenhum! Nem tampouco se afirmará que mentiram. O que revelaram provém, sem dúvida, de uma constatação empírica: diante desta prática pentecostal, deste suposto carisma, estes padres viram manifestações visíveis de desagrado provindas de pessoas possessas. E o que dizer disso?

Se assumimos que a Igreja não erra em termos de doutrina e se entendemos que a aceitação da glossolalia pentecostal implica vários problemas teológicos, já podemos afirmar que o erro está, claramente, na afirmação dos padres. Desconsiderando a possibilidade - realmente ínfima ou mesmo nula - de terem mentido, é forçoso dizer que se enganaram. Isto é possível?  Dir-se-á que sim, desde que seja com relação a uma pessoa qualquer. Mas, em se tratando de exorcistas, será mesmo crível que tenham caído num tal engodo?

O assunto é muito extenso, e quanto mais avanço a argumentação, mais percebo que muito é o que há por falar a fim de retirar, tanto quanto possível, os equívocos. Além desta dificuldade, inerente ao próprio assunto - pois é tema profundo - resta ainda que seja terreno que naturalmente extrapola o nosso entendimento. Não sabemos muito a respeito e também não é objeto particular de nosso estudo, embora, como já dissemos, seja tema que nos interesse.

Mas, continuemos.

Antes de tudo, é preciso reafirmar o caráter enganador do demônio. Desde o início, ele mostrou ser aquele que ludibria. Não à toa, foi chamado de o "pai da mentira" e S. Paulo escreveu que ele pode se mostrar como "anjo de luz". Todos os mestres da vida espiritual, particularmente aqueles que o enfrentaram mais diretamente, recomendam que ninguém alimente conversas com estes anjos caídos, nem com eles debata. Por que motivo?

Os demônios têm natureza angélica. Portanto, eles têm uma inteligência muito mais profunda que a de qualquer humano. Isto faz com que eles conheçam todos os pontos fracos da nossa natureza. Sabem bastante de cada um de nós e poderiam facilmente apelar para as nossas fraquezas. Eles vivem a fazê-lo quando nos tentam. Lembremos ainda que, não tendo corpos, os demônios são seres intelectuais; portanto, são especialistas em argumentar; são perfeitos sofistas. Que dificuldade teria, então, um demônio em ludibriar um homem? Eles estão continuamente fazendo que a humanidade acredite nas suas armações. Basta olharmos para o mundo e veremos que o ser humano aparece como um sujeito ridículo que sorri e faz festa enquanto é enganado.

Porém, os que se estreitam a Deus adquirem uma maior sutileza de perceber as maquinações demoníacas. E espera-se que este tipo de sabedoria esteja de modo particular num exorcista. Certa vez, o Pe. Gabrielle afirmou que os padres exorcistas devem ser escolhidos entre a fina flor do clero, isto é, entre os mais santos e mais sábios. Como já dito, se assim é, parece-nos cada vez mais improvável que estes sacerdotes de elite tenham se deixado enganar. Além disto, será que os demônios, sob uma sessão de exorcismo, simulariam um desgosto inexistente? É possível.

A história dos santos está cheia de situações que o demonstram. Basta dar uma olhada geral nos combates entre S. Pio de Pietrelcina e os demônios. Estes inimigos das almas são experientíssimos em estratégias de engano. Mas, para ilustrar o assunto, cito apenas um caso que aconteceu no tempo de S. João da Cruz. 

Nos seus Pequenos Tratados Espirituais, lê-se a história de uma religiosa que passou a apresentar sinais de suposta santidade. Avaliada por diversos sacerdotes e letrados, todos eram de parecer favorável à autenticidade de suas virtudes. O Pe. Fr. Nicolau de Jesus, porém, meio desconfiado, ordenou a esta irmã que escrevesse sobre sua oração e suas experiências e enviou o relato a S. João da Cruz, para que avaliasse. Rapidamente, o santo reconheceu a falsidade da sua virtude e acusou a influência demoníaca. Dentre outras coisas, respondeu o seguinte:

"O que eu aconselharia é que não mandem nem permitam escrever coisa alguma a esse respeito, nem o confessor mostre complacência em ouvi-la; ao contrário, procure dar pouco apreço e atalhar tais confidências; além disso, submetam-na à prova no exercício das virtudes, com todo rigor, principalmente no desprezo, humildade e obediência; e no som produzido pelo toque manifestar-se-á a brandura da alma causada por tantas mercês. E as provas hão de ser boas, porque demônio algum deixará de sofrer algo a troco de manter a sua honra."

S. João da Cruz está aqui a dizer que os demônios estão dispostos a sofrer e a serem humilhados, desde que, desse modo, consigam levar a cabo os seus intentos. Para um demônio, portanto, não lhe seria tão custoso simular uma aversão ao dom de línguas, desde que, deste modo, ele mantivesse, nas pessoas, a crença errônea de se tratava de um meio autêntico - e superior - de oração. Do que lhe valeria, ao contrário, rir-se desta prática, se desse modo viria a contribuir para que inúmeras almas, informadas posteriormente pelo padre, desacreditassem de todo deste costume totalmente heterodoxo?

Restam-nos, porém, alguns problemas a resolver. Primeiro, se fosse o caso de ter havido uma dissimulação, como estes padres experientes se deixariam enganar? Segundo, sabe-se que os demônios, durantes os exorcismos, estão sob a autoridade de Cristo e que são obrigados a dizer a verdade.

Sobre o primeiro ponto, vimos que, por mais que um ser humano seja inteligente, ele não iguala a natureza angélica. Esta última lhe é muito superior. Portanto, no que extrapola o âmbito estrito do exorcismo, não me parece tão difícil que, num possível diálogo, os demônios logrem enganar, mesmo padres experientes, a partir de encenações.

A grande dificuldade, porém, se concentra no segundo ponto: como os demônios poderiam mentir e dissimular estando sob a autoridade do exorcista, que é a autoridade de Cristo? É uma pergunta difícil, mas parece que, em se tratando de certos aspectos, isto é possível. Tomemos os próprios relatos dos exorcistas.

Há algum tempo atrás, o Pe. Gabrielle denunciou a existência de clérigos satanistas no Vaticano. Esta revelação surpreendente não tardou, porém, a ser rebatida pelo Pe. Fortea, que afirmou ser isto algo muito grave para se dizer. É interessante notar que o Pe. Gabrielle afirmava que, entre suas fontes, estavam as confissões de alguns demônios durante os exorcismos. Ora, como é possível, então, que o Pe. Fortea, sendo exorcista e conhecendo a autoridade de um padre exorcista sobre os demônios, conteste a afirmação do Pe. Gabrielle? O mesmo Pe. Fortea deixa claro em que se fundamenta a sua desconfiança. Escreve ele:

"Não é preciso dizer que saber quando um demônio diz ou não a verdade é, em muitos casos, impossível e completa "podemos saber com muita segurança quando um demônio diz a verdade na matéria diretamente relacionada com o exorcismo. Quer dizer, número de demônios, nome deles e coisas similares. Mas não podemos ter segurança no campo relativo a notícias concretas relativas a pessoas"

Ora, então é possível que o demônio invente coisas com relação a terceiros sem que o sacerdote possa verificar, de imediato, se o que foi dito procede ou não. O demônio estaria obrigado a dizer a estrita verdade somente com relação a informações imediatamente ligadas ao exorcismo, como sua identidade e número.

Se assim é, se o Pe. Fortea contesta o Pe. Gabrielle utilizando este argumento que, sem dúvida, é verdadeiro, dada a especialidade do padre no assunto, então poderíamos contestar a afirmação do Pe. Fortea a respeito da oração em línguas. 

Além disto, pelo que vimos, o padre não afirmou que o demônio tenha falado algo a respeito. Ele apenas teria reagido com aversão. Ora, quem quer que tenha visto algo de um exorcismo, perceberá que, dentre outras coisas, o demônio faz caretas, dá sorrisos desaforados, diz sarcasmos, etc. Não vejo, portanto, a dificuldade de que possa ter simulado qualquer tipo de "incômodo".

Se formos, porém, ao relato do Pe. Gabrielle, veremos que, enquanto ele realizava um de seus inúmeros exorcismos, alguns carismáticos de uma igreja a uma certa distância de onde estava, rezavam "em línguas". Diz o Pe. Gabrielle que o demônio teria perguntado quem seriam aqueles que rezavam daquele modo, pois que o açoitavam. Aqui o demônio teria sido bem mais expressivo; porém, esta informação refere-se claramente a terceiros e recai, de novo, no caso em que, segundo o Pe. Fortea, é muito difícil, senão impossível, saber se o que foi dito é verdade ou não.

Portanto, meus caros, vemos que é possível - e típico - que o demônio engane quanto a isto. De outro lado, deveria nos ser suficiente o que a Igreja sempre ensinou a respeito dos autênticos carismas e que, como vimos de diversos modos, destoam muito daquilo que presenciamos nas mais diversas reuniões de caráter pentecostal.

Para terminar, lembremos o seguinte: A Igreja é infalível em fé e moral. Os sacerdotes, individualmente, por mais experientes e santos que sejam, não são infalíveis.

Se nestas considerações, eu cometi qualquer equívoco, isto se deveu à minha ignorância, não à má intenção. Finalizo reafirmando que é um assunto dificílimo e para o qual, embora eu possa tecer certos comentários, me vejo despreparado para uma palavra última.

Ad Iesum Per Mariam.

Fábio.

Ainda o "Salvai Almas" - Artigos do Prof. Eder e do Pe. Tenório

Cláudio Heckert "trabalhando"

Ainda sobre o movimento pseudo-profético "Salvai Almas", já refutado ao infinito, quero recomendar o artigo do Prof. Eder Silva, entitulado "Movimento "Salvai Almas" anuncia o fim do mundo e desafia o Filho de Deus", no excelente blog do Pe. Marcelo Tenório. Depois poderão, ainda, ver este gracejo que o padre faz a respeito das referidas profecias.

Espero que este contato contínuo com a verdadeira doutrina da Igreja sirva para retirar as traves dos olhos dos crédulos do Heckert, explorador da ignorância alheia.
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