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Materialismo, transformismo, Darwin e Haeckel


Materialismo

Os sistemas precedentes haviam no meado do século XIX predisposto os ânimos ao aparecimento do materialismo. De um lado, a incontinência do idealismo hegeliano com todas as suas extravagências lançara o descrédito sobre as especulações metafísicas. Do outro, o positivismo de Comte, de mãos dadas com o empirismo inglês, identificando-se habilmente com as ciências experimentais em plena voga, afastava as inteligências das meditações filosóficas para aplicá-las exclusivamente ao estudo da realidade sensível. Assim, quando Hegel, despiedosamente fustigado por Schopenhauer, tombou (1840) de seu pedestal de glória, não foi difícil substituir ao culto da “idéia” o culto da matéria. O movimento partiu da extrema esquerda hegeliana. (1) Feuerbach foi um dos seus iniciadores.

A explosão materialista, que então se seguiu, alastrou-se rapidamente por toda a Europa. A ela referem-se os nomes de Büchner, (1824-1898) autor da “Força e matéria”, (1855) de Carlos Vogt, (1817-1895) Moleschott, (1822-1893) Huxley, (1825-1895) Haeckel, (1834-1999) e outros. Le Dantec, na França, e Mantegazza, na Itália, fizeram-se até nossos dias ecos tardios das mesmas idéias. Nas obras de todos estes autores não se encontra uma concepção nova, um argumento inédito a favor do sistema. O materialismo está de sua natureza condenado a uma irremediável esterilidade. “O pensamento é um movimento da matéria” (Moleschott). “O cérebro segrega o pensamento como os rins segregam a urina (Vogt), etc. São sempre as mesmas afirmações dogmáticas, inteiramente destituídas de provas, mil vezes confutadas e repetidas ainda em nossos tempos com a cegueira do imitador que esquece de ponderar as palavras repetidas. Vogt e Haeckel falam como Cabanis e De La Mettrie, como Demócrito e Epicuro.

Na segunda metade, porém, do século XIX estes conceitos foram revestidos de novas roupagens científicas. Uma hipótese dos naturalistas permitiu-lhes apresentarem-se mais disfarçados. Referimo-nos ao Transformismo.

Transformismo

Pode afirmar-se que cientificamente o transformismo foi pela primeira vez proposto por Lamarck (1744-1829) na sua Philosophie zooligique (1809). A dificuldade de classificar certos animais inferiores levou-o a considerar a espécie não como um grupo natural, fixo, mas como o resultado de lentas transformações acumuladas durante largos períodos de tempo. Para Lamarck, a formação das novas espécies explica-se principalmente pela adaptação ativa do organismo ao meio. As mudanças do ambiente despertam novas necessidades, as necessidades criam novos órgãos, os órgãos desenvolvem-se pelo uso e atrofiam-se pelo desuso. As transformações individuais provenientes da ação destes fatores são depois fixadas pela herança, que as transmite aos descendentes. Os tipos primitivos ou elementares são, em número reduzido, uns seis ao menos. A origem do homem é diferente. Lamarck recorre à existência de Deus para explicar a ordem inegável existente na escala dos seres vivos. As leis naturais “são a expressão da vontade d'Aquele que as estabeleceu”. (2)

A nova hipótese não despertou logo grande entusiasmo. A própria polêmica entre Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) que patrocinava as novas idéias e Cuvier que terçava pela concepção tradicional da zoologia, terminando pela vitória deste último, foi uma remora ao seu progresso.

Quem, senão com mais profundeza, ao menos com mais popularidade estava destinado a dar voga ao transformismo era o naturalista inglês Carlos Darwin.

Carlos Darwin (1812-1882)

Depois de longas viagens e pacientes observações publicou ele em 1859 a Origem das Espécies, livro que deu imenso brado pelo mundo científico. Nele desenvolve o autor a idéia fundamental de Lamarck, recorrendo, porém, a outros fatores para explicar a transformação das espécies. Segundo Darwin, a luta pela vida, struggle for life, corolário espontâneo da lei de Malthus sobre o aumento da população (3), traz de consequência a eliminação dos mais fracos e a sobrevivência dos mais aptos.

Os caracteres e as modificações que a estes asseguram o triunfo na concorrência vital transmitem-se por hereditariedade e acentuam-se com o tempo. Assim se opera no mundo biológico uma seleção natural, que dá origem às diferentes espécies, como a seleção artificial dos criadores multiplica as raças. As imigrações e os cataclismas, isolando os novos tipos em via de formação impedem a sua fusão ou a volta ao tronco primitivo(4). Em apoio de suas idéias Darwin cita inúmeros fatos tirados da distribuição geográfica dos seres vivos, da paleontologia, da existência de orgãos rudimentares, etc.

Mais tarde, cedendo às instâncias de outros naturalistas, sobretudo de Huxley, estendeu Darwin suas idéias transformistas até a origem do homem, publicando em 1871 a Descendência do Homem que, cientificamente, é a menos importante de suas obras (5).

As idéias Darwinistas encontraram, entre os cultores das ciências naturais, adversários ilustres como De Quatrefages, Agassiz, Blanchard, De Nadaillac, Faivre, Jousset, Barrande, Fleishsmann e outros.

Uma pleiade, porém, de jovens naturalistas alistou-se pressurosamente nas novas fileiras do transformismo: Romanes, Wallace que se opôs decididamente à origem simiana do homem, Gogt, Büchner, Haeckel, etc. A alguns seduzia-os o amor de novidade, a outros arrastaram-nos idéias sectárias.

Dentre estes, que do sistema de Darwin, proposto por seu autor como simpĺes hipótese científica explicativa da origem das espécies, fizeram uma arma contra a religião e moral salienta-se o alemão Ernesto Haeckel.

Ernesto Haeckel (1834-1919)

Outrora professor de zoologia em Iena, a quem Quatrefages chamou “l'enfant terrible du darwinisme”. Materialista fanático, Haeckel acolheu com aplauso as idéias de Darwin e incorporou-as no seu sistema filosófico – ingente mas abortado esforço para excluir a Deus do universo. A eternidade do movimento e da matéria, a identidade de todos os fenômenos físicos e psíquicos, a geração espontânea, a evolução das espécies até o homem são os principais dogmas do “monismo realista” de que o seu patriarca pretendeu fazer um sistema de filosofia não só, mas ainda a religião do futuro. Haeckel, porém, é antes de tudo um sectário. O “espectro do papismo” e a Internacional negra” (a Igreja Católica) perseguem-no em todos os seus estudos de naturalista. A esta paixão que o obsedia, sacrifica tudo: evidência dos princípios racionais, interpretação imparcial dos fatos e, até, probidade científica (6). Semelhante proceder atraiu-lhe o desprezo dos sábios e os mais severos juízos de seus contemporâneos.

Paulsen, falando dos “Enigmas do Universo”: “Saíram-me, diz, as faces da vergonha ao ler este livro e corei pensando a que ponto descera o nível filosófico do nosso povo. É uma vergonha que semelhante livro se tenha escrito, impresso, vendido e chegue a ser lido por um povo que conta um Kant, Um Goethe, um Schopenhauer (7). Wundt: “Com Haeckel parece que voltamos aos tempos em que se não havia ainda inventado a lógica e a ciência positiva não tinha saído das faixas da infância” (8).

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(1) Aliás, maior do que à primeira vista parece, é a afinidade entre o hegelianismo e o materialismo. Para Hegel, a realidade única é a idéia que na sua evolução é antes matéria, depois, espírito e pensamento. Ora aí temos o postulado fundamental do materialismo: a identificação da matéria e do espírito da mesma realidade.

(2) Hist. Nat. des animaux sans vertèbres, Introduction. Cfr. Philosophie zoologique, t, I, p. 113. Longe de ver no transformismo uma dificuldade contra a existência do Criador, Lamarck tira das suas idéias novo argumento para admirar-lhe a grandeza e sabedoria.

(3) Malthus (1766-1834) no seu Essay on the principles of population, London, 1798, pretendera provar que [a população] tende a crescer em proporção geométrica, enquanto os meios de subsistência aumentam numa progressão aritmética. Esta lei sugeriu a Darwin a idéia da luta pela vida.

(4) Hoje, os próprios transformistas, (cfr. entre outros, Yves Delage, Structure Du protoplasme, p. 241), reconhecem a impotência da seleção natural para a formação de uma outra espécie. O exame frio e imparcial que sucedeu aos entusiasmos do primeiro momento revelou a fragilidade do edifício darwinista. “A Darwin, escreveu Moleschott, foram mais favoráveis os homens que os fatos”. “O darwinismo tal qual o formulou Darwin já fez seu tempo” (St. Georges Mivarti). Para sustentar-lhe a estrutura vacilante surgiram outras hipóteses, que vão tendo igual fortuna, mostrando assim quanta parte tiveram as paixões neste grande debate que encheu a segunda metade do século XIX. Ainda hoje, o transformismo radical não passa de uma hipótese querida com ardor e afagada com carinho por certos sábios, mas sem bases sólidas nas ciências naturais. Confessa-o abertamente o insuspeito YVES DELAGE, num trecho que merece ser arquivado: “Estou absolutamente convencido que um é ou não transformista, não por motivos tirados da história natural, mas em razão de seus princípios filosóficos”. (Obr. cit., p. 184).

(5) Apesar de haver transigido com as insistências do materialismo na questão da origem do homem, Darwin nunca se declarou ateu. Recusou sempre admitir a geração espontânea e apelou para a existência de Deus como para a única explicação da ordem universal. “Nunca fui ateu, nunca neguei a existência de Deus... Creio que a teoria da evolução é inteiramente compatível com a crença em Deus. A impossibilidade de conceber que este grande e admirável universo, com o nosso eu consciente tenha podido originar-se do acaso, parece-me o maior argumento em favor da existência de Deus”. DE VARIGNY, Vie de Ch. Darwin.

(6) São bem conhecidas as suas falsificações. Para prover a semelhança dos embriões do homem, do macaco e do cão, reproduziu o mesmo clichê, atribuindo-o sucessivamente ao homem, ao macaco e ao cão! Cortar vértebras, acrescentar caudas, esquematizar figuras foram processos de que foi useiro e vezeiro o obcecado naturalista para provar suas teorias e verificar suas leis. Rütimeyer (1868), O. Namann (1872), W. His (1874), desde muitos anos, o haviam acusado de falsificador. Como, porém, o réu impenitente continuasse recidivo, em 1908, A. Brass voltou à carga, denunciando-lhe novas falsificações. O velho professor de Iena tentou defender-se, mas houve por fim de confessar-se culpado. Os próprios monistas em número de 40, no interesse do sistema seriamente comprometido com tal gênero de argumentação, lavraram um protesto público contra os processos de esquematização de seu ilustre patriarca. Na história da ciência ficará o nome de Haeckel como triste personificação do sábio que à obstinação de um preconceito e ao sectarismo dum ódio anti-religioso não hesita imolar os mais sagrados direitos da verdade e da justiça.

(7) PAULSEN, Philosophia militans, p. 186-7, Berlim, 1901.

(8) Citado, como o precedente, por MERCIER, Psychologie, t. II, p. 285-6.
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FRANCA, Pe. Leonel S. L.; Noções de História da Filosofia; Livraria Pimenta de Mello & C; Rio de Janeiro; 5 edição; 1928; p. 205-209.
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